1.2 As três fases da pesquisa do Jesus histórico
1.2.4 Dunn, Bauckham e a nova tendência que emerge da Third Quest
É no âmbito da Third Quest que nos deparamos com as contribuições de James Dunn e de Richard Bauckham, autores, respectivamente, de Jesus Relembrado (2003)55 e de Jesus e as testemunhas oculares (2006)56.
Dunn, assim como Wright, toma o realismo crítico lonerganiano como fundamento epistemológico e justifica sua escolha pelo fato de esse modelo reconhecer que o historiador, à medida em que levanta questões no processo de investigação, acaba por questionar-se a si próprio.57 Posiciona-se contrário às investidas do realismo simplista, típico do positivismo histórico, que tem por premissa o resgate do passado tal como ele foi; tarefa atualmente tida como absurda por epistemólogos da história.
Em um texto posterior, intitulado Jesus em nova perspectiva, o próprio Dunn sintetiza o elementar de sua argumentação:
55 DUNN, James D.G. Christianity in the Making, vol. 1, Jesus remembered, Grand Rapids, Eerdmans, 2003.
56 BAUCKHAM, Richard. Jesus and the Eyewitnesses: The Gospels as Eyewitness Testimonies.
Grand Rapids: Eerdmans, 2006. As referências são da tradução para o português BAUCKHAM, Richard. Jesus e as testemunhas oculares: os Evangelhos como testemunhos de testemunhas oculares.
São Paulo: Paulus, 2011.
57 DUNN, op. cit., p.110-111.
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Primeiro Jesus causou um impacto sobre aqueles que se tornaram seus primeiros discípulos, bem antes de sua morte e ressurreição. Esse impacto recebeu expressão nas primeiras formulações da tradição de Jesus, formulações já estáveis antes que fosse sentida a influência da sua morte e ressurreição. Segundo, o modo de representação e de transmissão oral dessas formulações significa que a força desse impacto original continuou sendo expressa através delas, apesar da variação, ou talvez precisamente por causa da variação das representações para adaptá-las a diferentes audiências e situações. Como sua forma duradoura ainda atesta, a tradição de Jesus não era fixa nem estática, mas viva em sua natureza e em seus efeitos. E terceiro, os aspectos característicos que permeiam a tradição de Jesus nos dão uma ideia clara da impressão que Jesus produziu sobre os seus discípulos durante sua missão. [...] A imagem de Jesus que resulta não é uma descrição objetiva. Não há um “Jesus histórico” crível subjacente ao retrato dos Evangelhos que seja diferente do Jesus característico da tradição sinótica.
Não temos outro Jesus da Galileia à nossa disposição, a não ser aquele que deixou uma impressão tão profunda na tradição de Jesus e através dela.58
Surge daí a conclusão de que, embora não tenhamos acesso ao Jesus real, nos é possível acessar o Jesus lembrado pelas primeiras comunidades cristãs, que preservaram na memória e transmitiram por tradição oral o impacto exercido sobre elas. Esse impacto posteriormente serviria de matéria prima para a composição redacional dos Evangelhos.
Portanto, de acordo com Dunn, não há bruta facta e todo o acesso que dispomos para o Jesus da história se dá via a subjetividade do testemunho daqueles que primeiro foram por ele impactados.
Richard Bauckham, embora também identifique a oralidade como vetor para a transmissão da tradição de Jesus, proporá que esta teria sido compartilhada sob a direção atenta de testemunhas oculares, ou testemunhas de testemunhas oculares, que tinham por dever garantir a fidedignidade das informações narradas. Os evangelhos, portanto, segundo Bauckham, teriam um caráter testemunhal.
Eles [os Evangelhos] incorporam o testemunho das testemunhas oculares, não obviamente, sem alteração e interpretação, mas de um modo que é substancialmente fiel a como as próprias testemunhas oculares o narraram, visto que os evangelistas estavam em contato mais ou menos direto com as testemunhas oculares, não distanciados delas por um longo processo de transmissão anônima das tradições.59
Bauckham toma como referência o trabalho de Samuel Byrskog, que compara a prática dos historiadores greco-romanos com a dos historiadores vinculados à recente
58 DUNN, 2013a, p.92-93.
59 BAUCKHAM, 2011, p.19.
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“história oral” e observa o valor dado à testemunha ocular em ambas, estas seriam preferidas na antiguidade a documentos escritos.60 Em Jesus e as testemunhas oculares, Bauckham segue um caminho pelo qual poucos dos interessados no Jesus histórico percorreram até então: buscou reabilitação do Evangelho de João como fonte histórica.
Nos capítulos seguintes, com alguma profundidade, nos dedicaremos a discutir as especificidades de cada um desses dois autores. Por ora, nos basta entender em linhas gerais que ambos tomam as dinâmicas próprias da oralidade e da memória como referência para a leitura e análise dos Evangelhos para uma abordagem histórica sobre Jesus.
Seria no mínimo desonesto tentar apresentar toda a produção da Third Quest, se considerarmos os aspectos acima mencionados. A fragmentariedade da pesquisa torna difícil mesmo rastrear todas as produções e se inteirar por completo dos resultados dos estudos mais recentes. Desta maneira, e como já dito anteriormente, nos limitamos aqui a uma abordagem panorâmica no que entendemos ser os principais aspectos da discussão epistemológica e metodológica voltada à questão do Jesus da história. Reconhecemos com pesar que muitos trabalhos de grande qualidade não constam nesse breve resumo, entretanto, foi dado o que há de maior relevância para compor o plano de fundo do debate no qual pretendemos nos inserir.
A opção de apresentar aqui o percurso da pesquisa sobre Jesus, desde o século XVIII e até o presente, constitui um meio de situar as contribuições de James Dunn e de Richard Bauckham em um contexto mais amplo. Observamos, a partir deste breve esboço, como os muitos e diferentes aportes teórico-metodológicos, adotados pelos pesquisadores no decorrer de cada fase da pesquisa, refletem sobremaneira as questões próprias ao lugar de fala de cada autor. Ao percebermos como o campo foi se construindo e paulatinamente se abrindo para a contribuição de pesquisadores de outras áreas que não a teologia, observamos uma maior sintonia dos debates relacionados à Jesus e as discussões epistemológicas próprias de cada campo, como é o caso da história, da antropologia cultural e da sociologia. É nesse sentido que se impõe a necessidade de discutirmos os principais fundamentos dos campos do conhecimento nos quais se aventuram nossos autores e estabelecer um diálogo transdisciplinar.
60 BYRSKOG, Samuel. Story as History – History as Story: The Gospel Tradition in the Context of Ancient Oral History, WUNT 123, Tübingen: Mohr Sibeck, 2000.
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2 TESTEMUNHO, MEMÓRIA, ORALIDADE E TRADIÇÃO
2.1 RELIGIÕES DA RECORDAÇÃO: CONSCIÊNCIA HISTÓRICA E TRADIÇÃO