• Nenhum resultado encontrado

Duque de Caxias no contexto migratório

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 59-62)

3 ALGUMAS PEDRAS AO LONGO DO CAMINHO: ANÁLISE, INTERPRETAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

“Eu vejo um lindo futuro… Com muitas dificuldades pelo caminho – mas todas elas podem ser superadas” (AMINA, 17 anos, refugiada da Síria)

Este capítulo tratará da empiria da pesquisa. Vai apresentar dados sobre o município de Duque de Caxias no contexto migratório e alguns dos motivos de ser uma região escolhida como moradia pelas pessoas em situação de refúgio. Também serão apresentados os dados das matrículas das crianças em situação de imigração nas escolas de Duque de Caxias e especificamente da escola Gramacho (nosso campo de pesquisa). Para analisar, interpretar e discutir os resultados encontrados nas seis oficinas realizadas com as crianças em situação de refúgio e com crianças brasileiras, o material foi separado em categorias segundo a temática, objetivos e roteiros de cada oficina.

Esta seção é aberta com a fala de uma jovem em situação de refúgio da Síria. Sua fala foi registrada em um bilhete que junto com outros bilhetes foram espalhados pelas ruas de Londres em cafés, livrarias, museus, postes e praças, em diversos gêneros textuais, desde bilhetes presos a corrimões até em quadros de avisos no metrô com intuito de reafirmar a importância da empatia humana.10 Em outras palavras, ela diz que o futuro pode ser positivo mesmo com as dificuldades (pedras) encontradas pelo caminho, na medida em que podem ser superadas. Para tanto, faz-se necessário políticas públicas que assegurem os direitos das pessoas em situação de refúgio.

Ao final do século XX, o Brasil entra no mapa das migrações internacionais e, como consequência, vários estados brasileiros passam a receber um grande numero de pessoas em situação de imigração.

Inicialmente, o desejo de rota são os países europeus, dadas as melhores condições de vida oferecidas à população (...) Contudo, por se tratar de um país com significativa abertura política, o Brasil vem se revelando como uma alternativa a algumas das famílias migrantes/refugiadas. Salientamos, contudo, que os deslocamentos já observados em terra brasileira revelam não ser aqui o seu destino final (...) Inicialmente eles instalam-se no centro do Rio de Janeiro, nas favelas da região. Em seguida, dirigem-se para os municípios da Baixada Fluminense em razão do baixo custo de vida, com aluguéis mais acessíveis (SANTOS, 2019, p. 102).

O município de Duque de Caxias se constitui como um lugar de migrações: regionais e internacionais. A cidade possui uma população estimada em 919.596 habitantes nos seus 467 km2, segundo dados do IBGE (AMARO, 2019, p. 07). A cidade conta com seis estações de trem nos bairros de Saracuruna, Jardim Primavera, Campos Elíseos, Gramacho, Corte Oito e Duque de Caxias. Tal fator se caracteriza como um facilitador para que os migrantes tenham acesso mais rápido e econômico à cidade do Rio de Janeiro para fins de documentação e locomoção, como busca por trabalho (SANTOS, 2019, p.102). Como afirma a citação acima, o baixo custo de vida também é um fator preponderante pela escolha de moradia na região por parte dos migrantes e as pessoas em situação de refúgio.

Esse município foi definido certa vez como “a periferia da periferia da cidade do Rio de Janeiro” (SOUZA, 2002), por apresentar índices de qualidade de vida muito piores do que muitas favelas das zonas sul e norte da cidade em termos de emprego, moradia e condições de vida, saneamento, índices de saúde e taxas de homicídio (ALVES, 2003). É nesse contexto de extrema precariedade que famílias congolesas têm procurado se instalar em Duque de Caxias. (RUSSO, MENDES, BORRI- ANADON, 2020, p.1).

Segundo o censo demográfico (IBGE, 2010), mais de sete mil pessoas em situação de imigração estavam morando na Baixada Fluminense. Só em Duque de Caxias eram, aproximadamente, 2.068. De acordo com a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC), em dezembro de 2017, havia cerca de 80 famílias congolesas no município de Duque de Caixas (RUSSO, MENDES, BORRI-ANADON, 2020) Em 2019, o registro era de 31 alunos em situação de imigração/refúgio matriculados na rede municipal dessa cidade. (SME, 2019)

Conforme explicado no primeiro capítulo, realizamos nosso trabalho de campo na escola Gramacho, a instituição que mais matriculou crianças em situação de

imigração/refúgio em anos consecutivos, segundo informações da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias (SME, 2019). O quadro abaixo descreve os anos, a quantidade de alunos matriculados na rede municipal de Duque de Caxias bem como sua nacionalidade e especificamente os números de matriculados na escola Gramacho:

Quadro 1. Alunos matriculados na rede municipal de Duque de Caxias.

2015 2016 2017 2018 2019

Nacionalidade 9 Congo 17 Congo 3 Angola

8 Congo 4 Angola 2 Espanha

9 Congo 14 Congo 4 Angola 2 Venezuela 1 México 1 Portugal 9 Brasil (nascidos aqui) Escola

Gramacho

5 12 5 9 8

Fonte: Dados coletados junto à Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias, 2019

Segundo o censo fornecido pela SME de Duque de Caxias, desde 2015, a escola Gramacho vem apresentando, em seu quadro de matrículas, alunos em situação de imigração, principalmente dos países da República Democrática do Congo e de Angola. Embora, outras escolas de Duque de Caxias também matricularam alunos nessa situação, a escola selecionada para o campo de pesquisa apresenta maior quantidade de alunos em situação de refúgio na maior parte dos anos mencionados acima e uma regularidade de matrícula desses alunos.

A escola Gramacho apresenta um histórico de acolhimento aos filhos de pessoas em situação de refúgio. No entanto, isso não é algo rotineiro nas escolas públicas. O capítulo dois desta dissertação apresentou leis referentes ao direito de educação dessas crianças que vem de outros países, porém “enquanto nossa legislação acolhe e ampara o estrangeiro, garantindo- lhes os mesmos direitos dos cidadãos brasileiros, na prática, o dia a dia das pessoas em situação de imigração/refúgio no Brasil não é nada hospitaleiro” (MENDES, RUSSO, BARROS, 2020, p. 205).

Os autores Petrus, Santos e Aragão (2016) realizaram uma pesquisa sobre filhos de refugiados congoleses em duas escolas no Rio de Janeiro e apresentaram algumas das questões e dificuldades que as escolas públicas encontram no momento de matricular crianças em situação de imigração e/ou refúgio, pois se uma criança aparece sem documentação para comprovar sua data de nascimento, a alocação na série adequada para sua idade fica

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 59-62)

Documentos relacionados