O título alude às palavras de Pôncio Pilatos ao apresentar Cristo aos judeus. Esse manuscrito traz sonetos alexandrinos que são releituras das histórias bíblicas. Assim, o poeta transcreve A ressurreição de Lázaro, Maria Madalena, O cego de Jericó, Pedro nega o Mestre, entre outros. Desde a Antiguidade, a Bíblia é texto primário para as composições literárias; todos os assuntos estão nela contidos. Em Nas asas do idealismo, Honorato Filho descreve o poeta que suplica a Deus a união entre os humanos, mas tudo não passa de idealismo.
Na escada de Jacoh, a alma do poeta avança:
Por conquista, no sol, os loiros da peleja, Vai a Deus suplicar, para os homens, a aliança, E na eclosão do amor, no azul, os astros beija.
O poeta, ser transcendental, sente-se glorificado e privilegiado, dentre os homens, por tal empreitada. Mas a consciência de que isso não passa de um desejo faz com que o vate apenas chore suas queixas em sua lira.
Como o cisne, dedobra as plumas, solitário...
Sobre a terra a descer, junto à Cruz do Calvário,
Vem soluçar de dôr com a vibração da lira.
A ideologia do poeta não pode ser concretizada: a vida terrena não é “o fulgor do céu,/
toda a luz da esperança”, é, antes, a “Cruz do Calvário”. Nos seus versos, solitário como o cisne, o poeta busca Deus. A poesia aproxima o homem da Divindade.
Se nos voltarmos para uma leitura biográfica do poema, escrito em março de 1949, percebemos uma tentativa de redenção por um poeta ortodoxamente católico. Lembremos que, já muito doente, Honorato Filho falece dois meses depois.
Esse manuscrito, todavia, apresenta qualidade inferior, uma vez que o poeta se perde na retórica hiperbólica, despojando da qualidade poética dos motes e glosas, por exemplo, face à ambição do discurso cristão moralizante.
6 À MARGEM DO CÂNONE: HONORATO E OS OUTROS
Assim, dois poetas, Almas prediletas Das Musas do Parnaso, Encontram-se, por acaso, Na mesma estrada do destino.
(No mundo da poesia, Honorato Filho)
Esses versos, de Honorato Filho, retratam o encontro, não só físico, de dois poetas, que escreviam em estilo não condizente com a literatura em voga no período estudado (anos 20 a 40). Provavelmente, pelos indícios do poema, o autor se refere a ele mesmo e a Gastão Guimarães. Mas, podemos admitir a possibilidade de que sejam outros escritores também.
Que destino é esse, que conduz os dois autores pelo mesmo caminho? Mesmo sendo “Almas prediletas/ Das Musas do Parnaso”, e justamente por isso, o destino desses poetas foi caminhar à margem da estrada, à margem do cânone literário.
O cânone, como afirma Bloom (1994), implica na adoção de critérios e hierarquização das obras literárias, o que se traduz em seletividade. Essa escolha fada muitos escritores, representativos de uma época, em um local específico, ao esquecimento, relegando-os a gavetas de arquivo ou estantes de museus. Reis (1992, p. 73) diz que “o significado de qualquer juízo de valor sempre depende, entre outras coisas, do contexto em que foi emitido e de sua relação com os potenciais destinatários e a sua capacidade de afetá-los ou mesmo convencê-los”, o que nos leva a compreender que há mudança nos valores adotados como critérios de canonização, embora algumas obras canônicas não sejam destituíveis das relações oficiais por uma série de motivos que as tornam “clássicas”.
Os Estudos Culturais criticam o cânone por excluir obras em nome de preceitos elitistas. Assim, discussões sobre assuntos renegados pelo cânone são postos em evidência pela corrente culturalista. Em determinado momento da historiografia literária, os autores parnasianos eram o cerne do cânone. Não se considerava bom poeta aquele que fugisse à rigidez do verso, da métrica e da rima. Após a empreitada modernista, houve a negação de muitos autores do Parnaso, em prol da eleição de novos nomes. O próprio Parnasianismo estabeleceu combate à estética anterior, o Romantismo. Essa rechaça está bem retratada na Batalha do Parnaso62, lembrada por Manuel Bandeira (1996). No ataque parnasiano temos:
62 Essa troca de insultos entre os românticos e os adeptos da poesia com ares clássicos ocorreu no Diário do Rio de Janeiro, no ano de 1878.
Não pode ainda casar Com sua pálida Elvira:
Se ele não tem o que dar!
Se vive de tocar lira!
A resposta romântica:
Em vão, ó musa suavíssima, As lufadas do realismo Tentam lançar sobre o abismo Os teus ideais em flor!
Dizem-te anêmica e histérica, Pífia, vil, sensaborona;
Que és a musa da sanfona Das reles canções de amor.
A escolha estética, de estilo, que orienta a formação do cânone, é vaga, posto que sempre haverá um embate provocado por aqueles que propõem uma estética nova. Essa
“disputa” funciona mais para florescer e justificar uma nova estética, um novo estilo, do que como sopreposição e aniquilamento de tendências. Segundo Compagnon (2001, p. 167), “o estilo remete ao mesmo tempo a uma necessidade e a uma liberdade” (grifos do autor). Um autor pode ser canônico ou marginal pela adoção de um estilo, podendo aprisionar-se ou libertar-se das amarras ortodoxas do cânone.
Mas, voltemos aos nossos poetas que se encontram... Os eleitos das “Musas do Parnaso” compunham com estruturas metódicas. Os procedimentos de subversão na escrita deles são suaves, mantendo propensões clássicas, tornando-se marginais não por negarem artifícios contemporâneos, mas por terem ficado à esquerda dos estudos literários, já que os interesses se voltavam para uma literatura de ares renovadores. “Todas as palavras cabem no verso sem mutilação, tenha o metrificador cuidado, perícia e paciencia, sem o que não fará bons versos”, escreveram Bilac e Passos (1905). Essa era a lição de casa dos nossos poetas que se encontram no mesmo destino.
Eliot (1989, p. 38) diz que se, ao lermos a obra de um poeta, não só buscando o novo para o deleite, mas encontrando nele traços da tradição, “poderemos amiúde descobrir que não apenas o melhor mas também as passagens mais individuais de sua obra podem ser aquelas em que os poetas mortos, seus ancestrais, revelam mais vigorosamente sua imortalidade”. Todo autor tem sua singularidade, o que o torna diferente dos outros, mas algum é ligado a uma tradição que não se nega. A individualidade cria outra tradição – posterior ao poeta –, apesar de o poeta já estar preso a uma tradição. Dessa forma Honorato
Filho passeia pela escola romântica, parnasiana e simbolista, num hibridismo temático e formal que caracteriza e conjectura sua obra.
Alfredo Bosi (1996, p. 45) chama a atenção para o fato de que
A porta que abre para a tradição literária, por mais pistas de intertextos que faculte ao crítico, não deverá fazê-lo esquecer que cada poema novo, forte e belo é um ato diferenciado de elocução, ato de conhecimento, e não mero re- conhecimento do que já foi sentido, imaginado e dito.
Através desse conhecimento, promovem-se leituras intertextuais que não se subjugam, mas dialogam com o passado. E esse diálogo aproxima o poeta das musas dos autores canônicos.