3.3 Prosa
3.3.2 O martyrio da phalena: conto
Note-se que apenas um verbo foge à primeira conjugação (fingir), o que torna constante o som da vogal “a”, numa assonância que simboliza um eterno começo. Sá (1997, p.
111) lembra que:
com seu toque de lirismo reflexivo, o cronista capta esse instante brevíssimo que também faz parte da condição humana e lhe confere (ou lhe devolve) a dignidade de um núcleo estruturante de outros núcleos, transformando a simples situação no diálogo sobre a complexidade das nossas dores e alegrias.
Ou seja, quando o cronista recria o mundo exterior de acordo com suas posições elegíacas, deixa-se absorver pela linguagem que o domina, alcançando por isso a extração lírica em campos de prosa.
O único som que quebra o silêncio é a respiração ofegante do próprio narrador: “eu escutava o doce murmurio de um peito que arfava, revendo na mente as lúridas visões do meu passado”.
O segundo parágrafo descreve o estado de espírito do narrador-personagem, taciturno, misterioso em relação ao que pensava (“um presentimento qualquer”).
O terceiro parágrafo invoca a ação do conto. O susto do narrador, ao ouvir o barulho, é representado pela alteração do ritmo narrativo.
Antes, o segundo parágrafo, de ritmo lento, é sucedido pela inserção inesperada do advérbio “subito”, que, como sua significação, aparece bruscamente no conto.
Subito, quasi a cerrar as palpebras trementes à luz que morria, ouvi fortemente bater-se de encontro à lampada que bruxoleava, uma pobre phalena, perdida de susto, ferindo no vidro fumarento as asas brilhantes, irisadas, talvez já exhausta de estontear, no afan da lucta constante em prol da existencia.
A mariposa, atraída pela luz, choca-se contra o vidro da lamparina. Esse movimento desperta o narrador que assiste ao martírio do inseto. O passar do tempo (“Soaram horas além...”) aumenta a luta da mariposa para sobreviver e a comoção do narrador, que compara o sofrimento da mariposa à sua agonizante vida. Nesse trecho, com a supressão da elipse da história secreta, o narrador revela, antecipadamente, que não conta só a história da falena, mas a sua própria história de vida, antes mesmo de findar o conto, quebrando, assim, o mistério.
O martyrio da falena é, portanto, uma metáfora do sofrimento humano. O homem é atraído por encantos que são verdadeiras armadilhas e perde, devido ao sofrimento, a vontade de lutar pela vida. O único ponto de luz, dentro das trevas, foi o que matou a mariposa. O narrador demonstra, além de piedade pelo inseto, algum outro sentimento indefinido. Mesmo taciturno, esboça saudades daquele ser que, mal entrou na sua vida, retira-se de forma rápida e trágica. Chevalier e Gheerbrant (1998, p.417) definem falena como “mariposa que, ao pousar sobre as folhas das árvores, as fez retorcerem-se. Símbolo constante da alma em busca do divino e consumida pelo amor místico”. Essa simbologia afeiçoa-se ao narrador que, desesperançoso, vê na mariposa o resto de vida que tem em si, ou o fim do amor prometido.
Era como a phalena do meu Canto, que expirava no carcere dos sonhos fementidos;era como a phalena do meu Desejo, que se ensanguentava nos aguilhões da dor, para purificar com o seu sangue de luz a sentimentalidade da alma; era como a phalena do Amor, que vinha mitigar a sede do meu coração, perdendo-se na volupia de um beijo estalado à face do alampadario...
Embora integrado ao gênero da prosa, o conto é permeado por momentos que revelam a intimidade lírica. Paz (1982, p.82) diz que “no fundo de toda prosa circula, mais ou menos rarefeita pelas exigências do discurso, a invisível corrente rítmica”. Esses instantes poéticos escondem-se nos parágrafos do conto de Honorato Filho. Moisés (1999, p. 100) ressalta que, atualmente, “o conto desenvolve sutilezas que, acentuando-lhe a fisionomia estética, o aproximam de uma cena do cotidiano poeticamente surpreendida” (grifo nosso). No conto honoratiano, uma cena ordinária de um inseto atraído pela luz, e sua conseqüente morte, é captada em traços poéticos pelo autor.
No segundo parágrafo, o jogo com as palavras “apparecia” e desapparecia”, e
“crescia” e “recrescia” são uma espécie de anagrama. O vocábulo “desapparecia” contém
“apparecia”, mas é sua negação. Em sentido contrário, a palavra “recrescia” contém o termo
“crescia”, e é sua repetição ampliada. O que permanece, na leitura desses vocábulos, é o eco idêntico (ia, ia, ia, ia...) emitido por eles, mesmo que signifiquem coisas diferentes.
O terceiro parágrafo apresenta-nos expressões metafóricas que dão à narrativa uma aura mais mística – “luz que morria”, simbolizando a chama que estava fraca; “lâmpada que bruxoleava”, conotando o movimento incipiente do fogo. Além disso, há um jogo de contrastes representado na oposição das expressões “fumarento”, “brilhante” e irisadas”. As cores refletidas pela falena opõem-se à escuridão da fumaça que mancha a lamparina. As cores representam conflitos de forças existenciais cósmicas e interiores, que se esvaem em pó, no debater-se do inseto. A contraposição luz versus sombra aparece, também, no quarto parágrafo: “intensidade luminosa”, “matizada”, “iris”, “sombras”, “noite”.
A repetição do vocábulo “agonizando” no sexto parágrafo, seguida de reticências, prolonga, na leitura, o efeito semântico da palavra. A própria forma verbal, no gerúndio, também proporciona esse efeito.
O oitavo parágrafo apresenta um ritmo ainda mais acelerado, exceto pela indagação final, que facilmente adquire, pela sua cadência, um caráter poético. Em versos se apresentariam três redondilhas menores e um verso endecassilábico:
Phalena de luz, phalena de dor, phalena da morte
por que te arrojaste a tão cruel martyrio?...
A falena surge para trazer impressões multicores ao narrador-personagem, mas, da mesma forma abrupta que chegou, finda-se, levando as últimas cores e o brilho do eu, que adormece em vida. Como constata o narrador, no conto, “tudo synthetisa o poema da dor”, é a representação do devir humano. O relato de O martyrio da phalena oculta e desvela momentos poéticos que só a prática literária é capaz de consagrar.