Com a edição da Emenda Constitucional nº 45/2003 foi criado o instituto da súmula vinculante, como visto alhures. Ocorre que para sua efetiva
143 SIFUENTES, Mônica. Súmula vinculante: um estudo sobre o poder normativo dos tribunais.
2005. p. 277.
144 CÔRTES, Osmar Mendes Paixão. Súmula vinculante e segurança jurídica. 2008. p. 199.
145 CÔRTES, Osmar Mendes Paixão. Súmula vinculante e segurança jurídica. 2008. p. 199.
aplicação, havia ainda a necessidade de norma regulamentadora, ou seja, o art.
103-A da Constituição da República Federativa do Brasil de 1.988, introduzido pela EC. 45/2003, é norma constitucional de eficácia limitada.
Desta forma, em 2006, foi promulgada a lei nº 11.417 que regulamenta a edição, revisão e cancelamento das súmulas vinculantes, e oportunizou a pratica imposta pelo texto constitucional emendado.
A súmula vinculante está conceituada no art. 2º da referida lei, que diz:
Art. 2o O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, editar enunciado de súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma prevista nesta Lei.146
É o exato texto do caput do art. 103-A, importante conotação neste texto legal, é a possibilidade das súmulas vinculantes serem editadas de ofício ou por provocação.
A provocação mencionada é feita através de uma Proposta de Súmula Vinculante (PSV), sendo que só pode propor a medida os legitimados dispostos no art. 3º, são eles:
Art. 3o São legitimados a propor a edição, a revisão ou o cancelamento de enunciado de súmula vinculante:
I - o Presidente da República;
II - a Mesa do Senado Federal;
III – a Mesa da Câmara dos Deputados;
IV – o Procurador-Geral da República;
V - o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil;
VI - o Defensor Público-Geral da União;
VII – partido político com representação no Congresso Nacional;
146 BRASIL. Lei nº 11.417, de 19 de Dezembro de 2006.
VIII – confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional;
IX – a Mesa de Assembleia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal;
X - o Governador de Estado ou do Distrito Federal;
XI - os Tribunais Superiores, os Tribunais de Justiça de Estados ou do Distrito Federal e Territórios, os Tribunais Regionais Federais, os Tribunais Regionais do Trabalho, os Tribunais Regionais Eleitorais e os Tribunais Militares.
§ 1o O Município poderá propor, incidentalmente ao curso de processo em que seja parte, a edição, a revisão ou o cancelamento de enunciado de súmula vinculante, o que não autoriza a suspensão do processo.
§ 2o No procedimento de edição, revisão ou cancelamento de enunciado da súmula vinculante, o relator poderá admitir, por decisão irrecorrível, a manifestação de terceiros na questão, nos termos do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal.
Os legitimados para propor edição, revisão ou cancelamento de súmulas vinculantes são praticamente os mesmos legitimados para propor Ação Declaratória de Inconstitucionalidade, com exceção ao Defensor Público-Geral da União e os Tribunais Superiores, os Tribunais de Justiça de Estados ou do Distrito Federal e Territórios, os Tribunais Regionais Federais, os Tribunais Regionais do Trabalho, os Tribunais Regionais Eleitorais e os Tribunais Militares, que possuem legitimidade somente versar sobre as súmulas vinculantes.
Frisa-se que para a propositura de Proposta de Súmula Vinculante e ou a sua edição de ofício, há necessidade do STF. ter consolidado sua posição sobre a temática, de forma pacifica e reiteradas vezes. Para edição, revisão ou cancelamento de súmula vinculante, há a necessidade de decisão favorável de 2/3 dos membros do STF., exegese do § 3º do art. 2º da lei 11.417/2006, igual quórum serve para restringir os efeitos das súmulas – via de regra são imediatos - podendo postergá-los quando houver eminência de lesa à segurança jurídica ou quando for de interesse público.
Quanto à revisão e ao cancelamento de súmula vinculante, o STF deverá tratar a matéria com muito cuidado, como afirma o advogado Osmar Mendes Paixão Cortes é fundamental a não edição de súmulas e em seguida sua revisão ou cancelamento, o que iria de encontro à segurança jurídica. Repita-se que
uma das intenções das súmulas é da previsibilidade às decisões judiciais. Eventual edição seguida de sucessivas revisões e/ou cancelamento mostra, ao contrário, instabilidade na jurisprudência do Tribunal que se reflete em imprevisibilidade das decisões e contraria a função da jurisprudência sumula – dar, a partir da previsibilidade, segurança jurídica.147
A edição de uma súmula deve ocorrer apenas quando o Tribunal, efetivamente, tiver firmado a jurisprudência, sem risco de mudança em curto espaço de tempo, em determinado sentido e deve conter a intenção de que a mesma tenha eficácia a longo prazo.
O histórico jurista brasileiro Victor Nunes Leal já advertia sobre as súmulas em geral:
A súmula também não é obrigatória para o próprio Supremo Tribunal:
os advogados, quando surgir a oportunidade em algum processo, poderão pedir-lhe que reveja a orientação lançada na Súmula, mas também deles se espera que estudem mais aprofundadamente o assunto para que, em face da argumentação nova ou de novos aspectos do problema, ou de apresentação mais convincente dos argumentos anteriores, possa o Tribunal render-se à necessidade ou conveniência de alterar sua orientação.
Essa exigência do mais acurado estudo para se obter modificação da Súmula contribuirá para o aperfeiçoamento do trabalho profissional dos advogados, muitos dos quais anteriormente interpunham seus recursos como quem joga na loteria, na esperança de composição eventual do Tribunal que os favorecesse por ocasião do julgamento.148
As súmulas com efeitos vinculantes devem ser editadas, revisadas e canceladas com extremo cuidado, a tempo que uma súmula vinculante é editada, milhares de processos tomam rumos que vão de encontro com seu verbete, o que pode causar um dano incapaz de ser valorado.