3.2 EFEITOS DOS RECURSOS
3.2.2 Efeito Suspensivo
Já, Moreira critica a idéia de que o efeito suspensivo é simplesmente aquele que impede a execução pois, segundo o autor, “[...] a suspensão é de toda a eficácia da decisão, não apenas de sua possível eficácia como título executivo”265.
Silva, por sua vez, consegue estabelecer um conceito para o efeito suspensivo, englobando as observações acima expostas. Segundo o autor, “diz-se que determinado recurso possui efeito suspensivo quando sua interposição impede que os efeitos da sentença impugnada se produzam desde logo, prolongando, assim, o estado de ineficácia peculiar à sentença sujeita a recurso”266.
Desta feita, analisado o significado do efeito suspensivo como aquele que obsta a produção dos efeitos da sentença recorrida até que seja julgado o recurso interposto, cumpre analisar ainda os efeitos menos comentados pela doutrina, porém, da mesma forma importantes para este trabalho.
3.2.3 Efeito Expansivo
Considerando a idéia de que só cabe ao órgão ad quem reapreciar a matéria que lhe foi devolvida, o efeito expansivo apresenta-se como uma exceção a este entendimento, pois amplia o alcance da decisão do juízo recursal, podendo ultrapassar os limites do recurso interposto.
Também chamado de efeito extensivo, como afirma Souza, o efeito expansivo “[...]
consiste na ampliação do julgamento além da decisão recorrida e do recorrente, para beneficiar outras pessoas e atingir outros atos processuais”267.
Ou ainda, no apontar de Nery Júnior, “o julgamento do recurso pode ensejar decisão mais abrangente do que o reexame da matéria impugnada, que é o mérito do recurso”268, correspondendo então ao efeito expansivo do recurso.
265 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Comentários ao código de processo civil: arts. 476 a 565, p. 255.
266 SILVA, Ovídio Araújo Baptista da. Teoria geral do processo civil, p. 307.
267 SOUZA, Bernardo Pimentel. Introdução aos recursos cíveis e à ação rescisória, p. 18.
268 NERY JÚNIOR, Nelson. Princípios fundamentais: teoria geral dos recursos, p. 410.
Justificando tal ampliação no julgamento do órgão ad quem, embora entenda que não se trata de mais um efeito dos recursos e sim de uma “[...] circunstância decorrente da interposição destes”, Jorge explica:
[...] no que diz respeito à expansão, o alcance do recurso às decisões que não forem objeto de impugnação ou mesmo atribuição de um benefício a um litisconsorte que não recorreu, não advém do conteúdo dos recursos. [...] A existência de atos concatenados no processo é que faz com que os recursos projetem reflexos e atinjam a todos os subseqüentes que deles dependam ou que a eles estejam intimamente relacionados269.
É o que também entende Marinoni ao afirmar que por ser o ato processual interdependente de outro, é que “[...] todos os atos judiciais que dependam do ato judicial atacado no recurso (e que tenha sido modificado ou anulado em decorrência desse recurso) podem ter sua eficácia também cassada ou ao menos alterada”270.
O efeito expansivo pode ser:
a) objetivo, fazendo-se sentir no plano processual (interno quando tal efeito modificar decisões proferidas no mesmo processo, e externo quando os efeitos se darão em outro processo, mas dependente do impugnado) e b) subjetivo, quando as conseqüências do provimento do recurso dizem respeito aos sujeitos e não aos atos processuais (o recurso interposto por um só dos litisconsortes aproveita aos demais)271 (sem grifo no original).
Destarte, considera-se como efeito expansivo aquele provocado pela ampliação do alcance da decisão do recurso, ultrapassando os limites da matéria impugnada, em decorrência da interdependência dos atos processuais.
3.2.4 Efeito Translativo
Existem matérias ditas de ordem pública272, que exigem o conhecimento de ofício do julgador, como, por exemplo, a ausência de pressupostos de constituição e de
269 JORGE, Flávio Cheim. Teoria geral dos recursos cíveis, p. 225-227.
270 MARINONI, Luiz Guilherme. Manual do processo de conhecimento, p. 534-535.
271 ROSINHA, Martha Novo de Oliveira. PORTO, Sérgio Gilberto. Efeitos dos recursos: análise técnica e doutrinária das peculiaridades no sistema processual civil brasileiro. In III MOSTRA DE PESQUISAS DA PÓS- GRADUAÇÃO PUCRS, 2008, Porto Alegre. Anais... Porto Alegre: PUCRS, 2008. Disponível em:
<http://www.pucrs.br/edipucrs/online/IIImostra/Direito/62707%20%20MARTHA%20NOVO%20DE%20OLIV EIRA%20ROSINHA.pdf>. Acesso em 14 out. 2008.
272 NERY JÚNIOR, Nelson. Princípios fundamentais: teoria geral dos recursos, p. 415.
desenvolvimento válido e regular do processo273; a alegação de perempção274, litispendência275 ou de coisa julgada276; o não preenchimento das condições da ação277; a inexistência ou nulidade da citação278 e a incompetência absoluta279, entre outros280.
O efeito translativo corresponde à análise destas questões de ordem pública, sem que o recorrente as tenha suscitado na matéria de impugnação.
No dizer de Souza, o efeito translativo “[...] está consubstanciado na apreciação oficial pelo órgão julgador do recurso de questões cujo exame é obrigatório ex vi legis[281], sendo irrelevante a ausência de impugnação específica pelo recorrente”282.
273 BRASIL. Código de processo civil: obra coletiva (vade mecum), art. 267, IV, p. 418. No dizer de Theodoro Júnior “os pressupostos processuais são aquelas exigências legais sem cujo atendimento o processo, como relação jurídica, não se estabelece ou não se desenvolve validamente”. Cf. THEODORO JÚNIOR, Humberto.
Curso de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p. 68.
274 Perempção é a perda do direito de renovar a propositura da mesma ação quando o autor der causa, por três vezes, à extinção do processo pelo fundamento do art. 267, III, do CPC (não promover os atos e diligências que lhe competir, abandonando a causa por mais de trinta dias). Cf. THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p. 344.
275 Ocorre litispendência quando uma mesma lide é objeto de mais de um processo simultaneamente, ou seja, quando verificada a identidade de partes, de objeto e de causa de pedir entre dois processos em andamento. Cf.
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p. 344.
276 BRASIL. Código de processo civil: obra coletiva (vade mecum), art. 267, V, p. 418. Conforme Theodoro Júnior, a coisa julgada material, definida pelo CPC, é “[...] a eficácia que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário (art. 467)”, sendo vedado o seu reexame em outro processo. Também existe a coisa julgada formal, que “[...] decorre simplesmente da imutabilidade da sentença dentro do processo em que foi proferida, [...] sem impedir que o objeto do julgamento volte a ser discutido em outro processo”. Cf. THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p. 574 e 577.
277 BRASIL. Código de processo civil: obra coletiva (vade mecum), art. 267, VI, p. 419. As condições da ação são requisitos de ordem processual (possibilidade jurídica do pedido, interesse de agir e legitimidade de parte) que existem para se verificar se a ação deverá ser admitida ou não. Cf. THEODORO JÚNIOR, Humberto.
Curso de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p. 63 e 65.
278 BRASIL. Código de processo civil: obra coletiva (vade mecum), art. 301, I, p. 422. A nulidade da citação ocorre quando o “[...] ato de comunicação processual é feito sem observância dos preceitos legais”. Cf.
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p. 319.
279 A incompetência absoluta ocorre “quando a causa é proposta perante juiz absolutamente incompetente”, podendo ser alegada em qualquer tempo e grau de jurisdição, independentemente de exceção. Cf. THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p. 214. A incompetência é “[...] a falta de poder da autoridade ou do juiz ou tribunal para tomar conhecimento de uma causa ou de questão submetida à sua decisão”. Cf. SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico, p. 725.
280 BRASIL. Código de processo civil: obra coletiva (vade mecum), art. 301, II, p. 422.
281 Significa “por determinação de lei”. Cf. SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico, p. 569.
282 SOUZA, Bernardo Pimentel. Introdução aos recursos cíveis e à ação rescisória, p. 17.
Neste sentido, Marinoni afirma que “o efeito translativo é ligado à matéria que compete ao Judiciário conhecer em qualquer tempo ou grau de jurisdição, ainda que sem expressa manifestação das partes [...]”283.
Pode-se afirmar, deste modo, que o efeito translativo é aquele que opera quando o juízo recursal aprecia questões de ordem pública, por ser obrigação imposta por lei, sem, no entanto, que as partes as impugnem na matéria levada a recurso.
A seguir, analisar-se-á o último efeito estudado.
3.2.5 Efeito Substitutivo
Sabe-se, até o momento, que o recurso pode surtir alguns efeitos como o obstativo, o devolutivo, o suspensivo, o expansivo, o translativo e, ainda, o substitutivo. Este, por sua vez,
“[...] faz com que a decisão do juízo ad quem, qualquer que seja ela, substitua a decisão recorrida”284.
Conforme assevera Souza, “o efeito substitutivo está previsto no artigo 512285 do Código de Processo Civil: a decisão recorrida geralmente é substituída pela proferida no julgamento do recurso – salvo quando não há o ingresso no mérito do inconformismo ou é constatada a ocorrência de error in procedendo [...]”.
Para Theodoro Júnior, o efeito substitutivo “consiste [...] na força do julgamento de qualquer recurso de substituir, para todos os efeitos, a decisão recorrida, nos limites da impugnação”286.
Observa-se que a substituição da decisão recorrida pela decisão do juízo recursal só ocorrerá se for analisado o mérito do recurso, ou seja, se esse, por falta de preenchimento de algum requisito de admissibilidade, não for conhecido pelo tribunal ad quem, não haverá efeito substitutivo em razão de não ter sido apreciado o mérito.
Neste sentido, aponta Nery Júnior:
283 MARINONI, Luiz Guilherme. Manual do processo de conhecimento, p. 533.
284 MARINONI, Luiz Guilherme. Manual do processo de conhecimento, p. 534.
285 Art. 512. O julgamento proferido pelo tribunal substituirá a sentença ou a decisão recorrida no que tiver sido objeto de recurso. Cf. BRASIL. Código de processo civil: obra coletiva (vade mecum), art. 512, p. 438.
286 THEODORO JÚNIOR, Humberto.Curso de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p. 624.
Segundo o art. 512 do CPC, a decisão a respeito do mérito do recurso substitui integralmente a decisão recorrida. Assim, somente se poderá cogitar de efeito substitutivo do recurso quando este for conhecido e julgado pelo mérito, pois do contrário não terá havido pronunciamento da instância recursal sobre o acerto ou desacerto da decisão recorrida. Conhecido o recurso, pelo juízo de admissibilidade positivo, passando-se ao exame do mérito recursal, haverá efeito substitutivo do recurso quando: a) em qualquer hipótese (error in judicando ou error in procedendo) for negado provimento ao recurso; b) em caso de error in judicando, for dado provimento ao recurso287.
Desta feita, entende-se como efeito substitutivo aquele que provoca a substituição da decisão recorrida pela decisão do órgão ad quem, desde que se tenha analisado o mérito do recurso. Com tais considerações, encerra-se a análise sobre os efeitos dos recursos, passando- se à classificação destes no ordenamento jurídico brasileiro.