inferiores e, sendo o STF o guardião da Constituição, a ele só caberá apreciar as questões jurídicas, não sendo, por isso, entendido como uma terceira ou quarta instância recursal.
Analisados os pressupostos constitucionais de admissibilidade do Recurso Extraordinário, ou seja, a existência de causa decidida, o esgotamento das vias recursais e o impedimento de revisão da matéria fática, como aspectos genéricos ao cabimento deste recurso excepcional, apresentar-se-ão, na seqüência, as hipóteses de cabimento deste recurso de acordo com a Constituição, para, ao final deste trabalho, enfatizar o requisito da Repercussão Geral.
A decisão estará a contrariar dispositivo da Constituição quando, de qualquer forma, direta ou indiretamente, o viole ou o ofenda, tanto na sua letra como no seu espírito. Se a decisão se apresenta inconciliável com a norma constitucional ou com princípio que a suporta ou dela decorre, contraria a Constituição, que insta seja preservada na sua unidade e autoridade.
Analisando a abrangência da expressão “contrariar dispositivo desta Constituição”, Castilho aponta que:
Contrariar significa desatender, ir a sentido contrário, e então é preciso demonstrar que a decisão foi concreta e efetivamente contra dispositivo da Constituição, tal qual entendido dentro do sistema constitucional e concebido na interpretação e jurisprudência conforme as suas linhas fundantes344.
Em outras palavras, por ser função do STF assegurar a supremacia da Constituição, caberá Recurso Extraordinário toda vez que uma decisão recorrida for de encontro ao que dispõe o texto constitucional.
No dizer de Tavares,
A contradição ocorre quando há incompatibilidade, identificando-se uma afronta entre a decisão (recorrível) e a norma-parâmetro (Constituição), e geralmente surge de uma interpretação equivocada por parte do Tribunal sobre o conteúdo ou significado do preceituado pela legislação, colocando a decisão em rota de choque com comandos constitucionais345.
Montenegro Filho alerta que a análise desta hipótese de cabimento do Recurso Extraordinário é prerrogativa conferida exclusivamente ao STF, não cabendo ao juízo a quo assim proceder346.
Por último, destaca-se a ressalva de Souza quanto à interpretação da alínea “a”, no sentido de entender obrigatória a contrariedade à Constituição na decisão recorrida para que o
344 CASTILHO, Manoel Lauro Volkmer de. O recurso extraordinário, a repercussão geral e a súmula vinculante.
Revista de Processo, p. 105.
345 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional, p. 330.
346 MONTENEGRO FILHO, Misael. Curso de direito processual civil: teoria geral dos recursos, recursos em espécie e processo de execução, p. 196.
Recurso Extraordinário tenha cabimento. Para o autor, é necessária apenas a alegação desta contrariedade, sendo que sua confirmação ou não caberá à análise do mérito do recurso347.
Em suma, a hipótese de cabimento em apreço autoriza a interposição do Recurso Extraordinário sempre que a decisão recorrida não observe preceito constitucional, contrariando-o equivocadamente.
4.3.2 Decisão que declara a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal
O Recurso Extraordinário também encontra cabimento quando a decisão recorrida
“declarar a inconstitucionalidade de tratado ou de lei federal”, nos termos da alínea “b” do inciso III, do art. 102, da CRFB/88.
A hipótese refere-se à não aplicação, pelo tribunal, de tratado ou lei federal ao fundamento de inconstitucionalidade destes348, em decorrência do controle difuso de constitucionalidade realizado pelos tribunais conforme o art. 97 da CRFB/88: “Art. 97.
Somente pelo voto da maioria absoluta de seus membros ou dos membros do respectivo órgão especial poderão os tribunais declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público” 349.
Ainda, se o controle de constitucionalidade for exercido sem o atendimento do quorum especial determinado pelo artigo supra, a decisão prolatada declarando a inconstitucionalidade possibilita a interposição de Recurso Extraordinário350.
Sobre a questão, aduz Castilho:
O sentido da referência “declarar a inconstitucionalidade” de tratado ou lei federal é [...] o de declaração pela decisão recorrida para afastá-los e não aplicá-los, daí porque essa disposição deve ser compreendida juntamente
347 SOUZA, Bernardo Pimentel. Introdução aos recursos cíveis e à ação rescisória, p. 460.
348 SOUZA, Bernardo Pimentel. Introdução aos recursos cíveis e à ação rescisória, p. 460.
349 BRASIL. Constituição (1988). Lex: obra coletiva (vade mecum). Art. 97, p. 37.
350 CASTILHO, Manoel Lauro Volkmer de. O recurso extraordinário, a repercussão geral e a súmula vinculante.
Revista de Processo, p. 107.
com a regra do art. 97 da CF/88 que exige quorum e competência especial para essa deliberação declaratória pelos tribunais inferiores351.
Ressalta-se a discussão acerca da equiparação ou diferenciação entre tratado e lei federal. Para Santos “[...] os tratados e as leis se equiparam; [...] são conteúdo integrante de lei”352.
Neste sentido, observa Tavares:
Embora a Constituição se tenha referido expressamente a tratado e a lei federal, admite-se que todo o tratado incorpora-se ao Direito brasileiro por meio de lei (decreto legislativo), tendo o mesmo tratamento jurídico dispensado a esta353.
No entanto, percebe-se que a intenção do legislador constituinte foi a de distinguir lei (em sentido amplo) de tratado, objetivando evitar qualquer dúvida a respeito de sua aptidão para fundamentar recurso excepcional, considerada a complexidade de sua inserção no ordenamento jurídico brasileiro354.
Sobre lei federal, afirma Tavares:
Como lei federal há de se compreender aquela aprovada pela União, na matéria que lhe compete legislar nos termos do arts. 22, 23 e 24 da C.F.
Enquadram-se na expressão os atos normativos federais, como leis, decretos, regulamentos e outros textos jurídicos editados no interesse da União (art.
21)355.
Deste modo, com relação à hipótese da alínea “b”, do inciso III, do art. 102, da CRFB/88, observada a vontade constitucional em diferenciar tratado e lei federal, “[...] basta a afirmação no acórdão de que a lei ou tratado federal seja incompatível com a Carta Política para autorizar a admissão do RE”356.
351 CASTILHO, Manoel Lauro Volkmer de. O recurso extraordinário, a repercussão geral e a súmula vinculante.
Revista de Processo, p. 107.
352 SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil, p. 165.
353 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional, p. 331.
354 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional, p. 331.
355 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional, p. 332.
356 GOMES JÚNIOR, Luiz Manoel. A repercussão geral da questão constitucional no recurso extraordinário.
Revista IOB de Direito Civil e Processo Civil, Porto Alegre: Síntese, v. 6, n. 34, p. 140-169, mar./abr. 2005, p.
142.
4.3.3 Decisão que julga válido ato normativo local contestado em face da Constituição
A alínea “c”, do inciso III, do art. 102, da CRFB/88, prevê a interposição de Recurso Extraordinário quando a decisão recorrida “julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face desta Constituição”.
Por atos de governo local entendem-se “[...] todos os atos normativos, como leis, decretos, portarias, regulamentos, ordens, expedidos por força de competência estadual e municipal”357. Quanto à expressão “governo local”, esta abrange os poderes locais: Executivo, Judiciário e Legislativo358.
Na hipótese em tela, conforme afirma Santos,
O acórdão recorrido julga válida lei ou ato do governo local, que haja sido impugnado de inconstitucional ou ofensivo à Constituição. Caberá recurso extraordinário daquele acórdão, sob o pressuposto de que teria violado o princípio da hierarquia das leis, visando-se com o recurso à tutela da autoridade da Constituição359.
Assim, a hipótese da alínea “c” preocupa-se com a ofensa à Constituição, suscitada no decorrer da causa que, mesmo assim, obteve decisão que julgou válida lei ou ato do qual foi alegada a inconstitucionalidade.
Neste sentido, esclarece Tavares:
A aplicação de lei ou de ato de governo local não deveria, teoricamente, ensejar o cabimento de um recurso excepcional para um tribunal da federação, já que o tema esgotar-se-ia no âmbito local. Na verdade, é a alegação de afronta à Constituição que desloca o tema para o âmbito nacional, permitindo a utilização do recurso360.
Desta forma, mais uma vez demonstrada a função do STF em tutelar a autoridade e unidade da Constituição, caberá Recurso Extraordinário toda vez que uma decisão julgue válida lei ou ato de governo local, em causa que alegou ofensa à Constituição, cuja alegação não foi acatada na decisão a ser recorrida.
357 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional, p. 335.
358 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional, p. 335.
359 SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil, p. 166.
360 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional, p. 334.
4.3.4 Decisão que julga válida lei local contestada em face de lei federal
Trata-se de hipótese inserida pela Emenda Constitucional n. 45/2004, que enseja o cabimento de Recurso Extraordinário quando a decisão recorrida “julgar válida lei local contestada em face de lei federal”.
Por “lei local”,361 deve-se entender, segundo Souza, aquela que abrange as leis estaduais, distritais e municipais.
Castilho observa que, em dissonância às demais hipóteses, a apresentada na alínea “d”
não se refere diretamente à questão constitucional, e sim à lei federal362, o que implicaria interposição de Recurso Especial e não Extraordinário. Tavares, no entanto, justifica a inserção desta situação entre as hipóteses de cabimento do Recurso Extraordinário, uma vez que “[...] envolve problema de divisão de competências, logo, questão constitucional”363. E acrescenta:
Não havia [...] como negar, mesmo sob o regime anterior, a questão constitucional, pois quando a decisão judicial delibera sobre a prevalência de lei local, quando divergente de lei federal, implicitamente estará deliberando acerca de qual entidade federativa será a competência legislativa sobre a referida matéria objeto de disciplina diversa entre as leis364.
Outra observação a ser feita envolve o questionamento da possibilidade de interposição de Recurso Extraordinário se a decisão recorrida julgar “inválida” lei local contestada em face de lei federal365. Sobre o não cabimento de RE frente a esta situação, justifica Souza: “O julgamento contrário à validade da legislação local não enseja o recurso, como bem revela o enunciado n. 280 da Súmula do Supremo Tribunal Federal: ‘Por ofensa a direito local não cabe recurso extraordinário’”366.
361 SOUZA, Bernardo Pimentel. Introdução aos recursos cíveis e à ação rescisória, p. 462.
362 CASTILHO, Manoel Lauro Volkmer de. O recurso extraordinário, a repercussão geral e a súmula vinculante.
Revista de Processo, p. 109.
363 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional, p. 336.
364 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional, p. 336.
365 Apresentam este questionamento: CASTILHO, Manoel Lauro Volkmer de. O recurso extraordinário, a repercussão geral e a súmula vinculante. Revista de Processo, p. 110, e SOUZA, Bernardo Pimentel.
Introdução aos recursos cíveis e à ação rescisória, p. 462.
366 SOUZA, Bernardo Pimentel. Introdução aos recursos cíveis e à ação rescisória, p. 462.
Deste modo, entende-se cabível o Recurso Extraordinário na hipótese de decisão que julgar válida lei local contestada em face de lei federal, pois atinge a questão da divisão de competências, razão pela qual também constitui questão constitucional a ser apreciada pelo STF.
4.4 A CONDIÇÃO DE “REPERCUSSÃO GERAL” COMO REQUISITO DE