O acórdão no incidente de assunção de competência vincula todos os juízes e órgãos fracionários atrelados ao tribunal prolator (CPC, art. 947, § 3º), aplicando-se o disposto no artigo 985, incisos I e II, do Código de Processo Civil.
A lei atribui expressamente aos juízes e aos tribunais o dever de manter a sua jurisprudência “estável, íntegra e coerente” (CPC, art. 926) e de garantir a observância de acórdão proferido em incidente de assunção de competência ou de resolução de demandas repetitivas, sendo autorizada a reclamação (CPC, art. 927, III e 986, IV).
Como se vê, a lei prestigia fortemente o “microssistema de precedentes obrigatórios”
(CÔRTES, 2016, p. 2351), objetivando claramente a segurança jurídica e a celeridade na prestação da atividade jurisdicional137.
A eficácia vinculante do acórdão proferido em incidente de assunção de competência justifica-se pela própria essência do instituto138, destinado também a orientar a atividade
notória vinculação do decidido no julgamento por amostragem para a aplicação os casos afetados. Para o precedente criado pelo julgamento do incidente ter validade, não se tornar inócuo, necessária a sua utilização adequada diante da tese jurídica afetada e decidida. Sem a vinculação, ou o respeito à vinculação, não há validade do próprio procedimento. Por isto, a garantia de uma estabilidade na utilização do precedente criado pela decisão do incidente passa pela possibilidade da utilização da reclamação, deste sucedâneo recursal para possibilitar ao tribunal superior, enquadrar a aplicabilidade do precedente”.
136 Nesse sentido, CAMACHO, Luciana da Silva Paggiatto. Assunção de Competência (artigo 555, § 1º, do Código de Processo Civil e artigo 959 do NCPC). Revista Brasileira de Direito Processual, Belo Horizonte, v. 23, n. 89, p. 127-138, jan./mar. 2015. p. 136 e PEREIRA, Fabrício de Souza Lopes. Resolução de demandas repetitivas, ações coletivas e precedentes judiciais. Curitiba: Jaruá, 2017, p. 229.
137 Nesse ponto, Osmar Mendes Paixão Côrtes (2017, p. 547), assinala que “[...] a atribuição de efeito vinculante à decisão segue a diretriz adotada pelo novo CPC, de tentar impor cada vez mais a observância a decisões tomadas por órgãos de jurisdição superior [...]. Ressalte-se que a intenção da assunção de competência é [...] possibilitar que haja a pacificação de divergência entre órgãos do Tribunal ou a prevenção de que divergência surja, em questões de direito com elevado interesse social. [...] Vale repetir que o atual CPC tem uma linha mestra: mudar a antiga concepção subjetiva de julgamentos caso a caso e substituí-la, por racionalidade e segurança, por julgamentos de teses pelos Tribunais, evitando o acúmulo desnecessário de processos e o desrespeito às decisões pacificadas no âmbito das Cortes”.
138 Nesse sentido, NOGUEIRA, Gustavo Santana. A recepção dos precedentes pelo Novo Código de Processo Civil: uma utopia? Revista de Processo, São Paulo, v. 249, p. 1-11, nov. 2015. Disponível em:
<http//:www.revistadostribunais.com.br>. Acesso em: 22 dez. 2016. p. 3. É de se observar, nesse ponto, que esse caráter vinculativo acaba por eliminar dúvida eventualmente existente na vigência do Código de Processo Civil anterior, sobre o que verdadeiramente caracterizaria o temo “jurisprudência dominante”, expresso no artigo 557, caput e § 1º que permitia ao relator, monocraticamente, dar ou negar provimento a um recurso cuja decisão estivesse em consonância ou não com os julgados dos tribunais superiores. Isto acontecia porque o termo é indiscutivelmente vago e indeterminado, razão pela qual, como leciona Luiz Rodrigues Wambier (2000, p. 1), o
judicante, sem impedir o exame de cada caso concreto, pois, como adverte Humberto Theodoro Júnior (2016, p. 73), “[...] o juízo de adequação entre o precedente (tese de direito) e o caso superveniente não é só conveniente, é necessário e indispensável” (grifo do autor).
Ao julgador cumpre acatar a força vinculante do acórdão em assunção de competência (MARINONI; MITIDIERO, 2016, p. 63), sem prejuízo da interpretação para identificar a sua aplicabilidade no caso concreto. Na verdade, o legislador quis incorporar ao ordenamento jurídico, com adaptações, o sistema de precedentes da common law139 e a doutrina do stare decisis140.
No dizer de Teresa Arruda Alvim Wambier (2010, p. 1-3), “[...] O que efetivamente vincula num precedente é a ratio decidendi. Diz-se que a ratio, então, é uma proposição de direito necessária para a decisão”141. No atual Código de Processo Civil, o respeito ao precedente não é uma simples faculdade do julgador, mas sim uma obrigação legal142.
A propósito, Vinícius Silva Lemos (2015, p. 114) comenta que
[...] A própria existência do instituto de assunção de competência ressalta a importância da segurança jurídica e a estabilidade das decisões. Com isso, o julgamento realizado, o conteúdo específico sobre o incidente no acórdão serve de
problema estava em quantificar essa jurisprudência, “[...] a ponto de saber, com desejável grau de probabilidade de acerto, se se trata ou não de “dominante””. Note-se que, agora, no substituto artigo (CPC/2015, art. 932, IV e V), o legislador suprimiu a expressão “dominante”, estabelecendo, por exemplo, que o relator deve negar provimento ao recurso que for “contrário” às sumulas de quaisquer tribunais, aos acórdãos dos recursos repetitivos e aos acórdãos proferidos em sede dos incidentes de demandas repetitivas e assunção de competência, institutos, como já dito, destinados a trazer unicidade ao direito.
139 Nesse sentido é o comentário de Humberto Theodoro Júnior (2016, p. 75-76), para quem “[...] O método de precedentes é algo que se construiu lentamente na cultura anglo-americana, em função do sistema de equidade, cuja observância prescinde de autorização legislativa. Seus fundamentos mais significativos encontram-se nas garantias fundamentais de igualdade e segurança jurídica. [...] é claro que a cultura dos precedentes é mais antiga e mais elaborada no common law, o que permite importar do seu sistema alguns institutos básico, como, v.g., a ratio decidendi, o obter dictum e a distinção, para introduzir em nosso ordenamento jurídico, com roupagem adequada, a função normativa da jurisprudência”. (grifo do autor)
140 Conforme explica Gustavo Nogueira (2008, p. 2-5) a expressão “stare decisis” é abreviação da “satate decisis et non quieta movere” que quer dizer “mantenha-se a decisão e não altere o que está quieto”. Significa que a interpretação dada pela Suprema Corte em um dado caso é respeitada, de plano, pelos tribunais inferiores, isto é, dotado de eficácia erga omnes e efeito vinculante, pouco importando a quantidade de pronunciamentos que existem no mesmo sentido. Evidentemente, como visto, quando o julgador entender que não é o caso de aplicar o precedente, a despeito da sua força vinculante, fará o overrruling ou o distinguishing”. (grifo do autor)
141 A eficácia vinculante dos precedentes no sistema da common law segue a lógica da não surpresa, isto é, o jurisdicionado não pode ser surpreendido com uma decisão, pois ela é que irá determinar a conduta dos cidadãos em sociedade. Teresa Arruda Alvim Wambier (2009, p. 4-5) fala, então, em previsibilidade que decorre da “[...] Estabilidade, uniformidade e solidez [...]. Neste panorama a igualdade acaba naturalmente sendo respeitada. E a igualdade é um dos principais fundamentos do sistema de precedentes vinculantes. [...] A vinculatividade dos precedentes é justificada pela necessidade de igualdade e a igualdade é atingida através da seleção de aspectos do caso que deve ser julgado, que devem ser considerados relevantes, para que esse caso seja semelhante a outro, e decidido da mesma forma”. (grifo do autor)
142 Vinícius Silva Lemos (2015, p. 115) afirma que há uma “[...] imposição da utilização do precedente”.
base de aplicabilidade nos outros processos nesta matéria delimitada, conforme disposto no artigo 947, parágrafo 3º.
O primeiro efeito será, ao julgar os processos sobrestados na jurisdição do tribunal, aplicar o mesmo conteúdo da decisão. Após, quando houver mais processos futuro sobre a matéria, a decisão do incidente deve da mesma forma ser aplicada [...].
A vinculação do acórdão alcança tanto os órgãos fracionários quanto os juízes de primeiro grau subordinados ao tribunal143. Daí falar-se, como visto, em efeito vinculante vertical e horizontal. Nas palavras de Michele Taruffo (2007, p.178),
[...] Si parla, tuttavia, ache di precedente orizontale, per indicare la forza persuasiva che um precedente può avere rispetto agli organi giudiziari che appartengono allo stesso livello di quello che há pronunciato la prima decisione. Il precedente orizontale può certo avere qualche forza persuasiva, Che pero tende ad essere inferiore di quello del precedente verticale, sai perché non può trattarsi della corte suprema Che è única, sai perché tra organi dello stesso livello non vi è – almeno a priori – alcuna diffrenza di autorità.
O acórdão vincula tanto o próprio tribunal que julgou o incidente (eficácia horizontal) quanto os órgão judiciais hierarquicamente inferiores, inclusive outros tribunais (eficácia vertical)144. Assim, acórdão do Supremo Tribunal Federal vincula a própria Corte Suprema, o Superior Tribunal de Justiça, os tribunais inferiores e os juízes do país inteiro.
Quando oriundo do Superior Tribunal de Justiça, vincula os tribunais de segundo grau, estaduais e federais. Acórdão dos tribunais ordinários tem efeito vinculante para os demais órgãos do próprio tribunal e para os juízes de primeiro grau a ele subordinados145.
Como visto no primeiro capítulo, um precedente vinculante produz essa eficácia tanto pela sua fundamentação quanto pela parte dispositiva. Assim, os limites objetivos da eficácia vinculante do acórdão em incidente de assunção de competência não se restringem à parte dispositiva do acórdão, compreendendo também a sua fundamentação. Daí por que se exige no julgamento do incidente uma fundamentação robusta, exaustiva e coerente. Só por
143 Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery (2015, P. 1876), no ponto, assinalam que “[...] A decisão proferida com vistas a prevenir ou compor divergência entre órgãos fracionários de um mesmo Tribunal vincula apenas esses órgãos, que deverão seguir o entendimento firmado pelo órgão competente para tanto.
Porém, caso o julgamento dê causa à modificação de jurisprudência pacificada (CPC, 927, §§ 2º e 4º), a vinculação se estenderá conforme o disposto no CPC 927”.
144 Nesse sentido, LEMOS, Vinicius Silva. O Incidente de Assunção de Competência: o Aumento da Importância e sua Modernização no Novo Código de Processo Civil. Revista Dialética de Direito Processual, São Paulo, n. 152, p. 106-116, nov./2015.
145 Sendo mais específico: se o acórdão vier dos tribunais regionais federais os órgãos fracionários e juízes abrangidos naquela respectiva região serão atingidos pela eficácia vinculante, isto é, se, por exemplo, originário do Tribunal Federal Regional da 4ª Região, o próprio TRF4 e os juízes do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, deverão obediência ao acórdão. Se oriundo dos tribunais de estado, então, somente os órgãos fracionários e juízes do respectivo Estado estarão vinculados.
meio da fundamentação, ou seja, da ratio, será possível identificar a semelhança dos casos que comportam a mesma solução jurídica. Relembre-se, todavia, que apenas os motivos determinantes da fundamentação serão vinculativos. Eventuais obter dicta (parte das razões de decidir que não se mostram significativas nem relevantes para o deslinde da causa)146 não produzem qualquer efeito.
A eficácia vinculante e o efeito erga omnes do acórdão proferido em assunção da competência têm base no artigo 947, § 3º, do Código de Processo Civil. Porém, por aplicação subsidiária do artigo 985, incisos I e II, a tese fixada no incidente será aplicável a todos os casos individuas ou coletivos, presentes e futuros. Isso significa que juízes e órgãos fracionários estão impedidos de decidir contrariamente ao que restou fixado no incidente; e todos quantos se encontrarem submetidas à jurisdição do tribunal, com seus processos suspensos ou em futuras demandas discutindo a mesma relevante questão de direito, serão igualmente afetados pelo acórdão da assunção de competência.
Tem-se indagado se o efeito erga omnes equivale à coisa julgada erga omnes e se essa cobriria o acórdão no incidente de assunção de competência, tendo em vista que, no incidente de resolução de demandas repetitivas, a doutrina majoritária sustenta haver coisa julgada erga omnes.
Vale observar que a concepção tradicional limitava a coisa julgada à questão principal, ao pedido propriamente dito147, excluindo a motivação das decisões e as questões prejudiciais. O atual Código de Processo Civil incluiu expressamente na coisa julgada as questões prejudiciais, isto é, questões que precisam ser resolvidas antes do próprio mérito da ação148. Tornou-se desnecessária a ação declaratória incidental. Agora, a coisa julgada cobre a
146 Em apertadíssima síntese, é o que explica MARINONI, Luiz Guilherme. Uma nova realidade diante do projeto de CPC. A ratio decidendi ou os fundamentos determinantes da decisão. Revista dos Tribunais, Porto Alegre, v. 918, p. 1-36, abr./2012. p. 21-24. Disponível em: <http//: www.revistadostribunais.com.br>. Acesso em 21 fev. 2017.
147 Antônio do Passo Cabral (2016, p. 1430) explica que “[...] existem muitas outras teorias sobre o objeto
do processo que entendem que o mérito é mais que apenas o pedido. Algumas teses querem estendê-lo à causa de pedir; outras aos contradireitos exercitados pelo réu [...]; outras ainda orientam o objeto do processo finalisticamente para o escopo da tutela. [...] Mas, no Brasil e no estrangeiro prevaleceu amplamente a tese de Karl-Heinz Schwab no sentido de que o objeto do processo é somente o pedido. E isso impacta a compreensão dos limites da coisa julgada”.
148 A doutrina explica que normalmente se entende por questão preliminar aquela relacionada ao direito processual e por questão prejudicial à referente ao direito material. No entanto, existem controvérsias sobre esses conceitos, porquanto, o termo “preliminar”, naturalmente significa que se trata de questão a ser analisada antes da questão principal, não dizendo absolutamente nada sobre o seu conteúdo. Por exemplo, quando se fala em prescrição – que pertence ao mérito do processo e, portanto, não seria uma questão prévia – identifica-se como uma questão preliminar que evidentemente não é processual, é questão preliminar de mérito (CABRAL, 2016, p.
1431).
decisão sobre a questão prejudicial (inciso I)149, desde que tenha havido prévio e efetivo contraditório, não se aplicando no caso de revelia (inciso II)150 e desde que o mesmo juízo tenha competência em razão da matéria e possa resolvê-la como questão principal (inciso III)151.
Antônio do Passo Cabral (2016, p. 1432) esclarece que a finalidade é
[...] evitar vinculações-surpresa. É que, para a questão principal, o tão só fato de ter sido formulado pedido já permite às partes prever que aquele tema poderá ser acobertado pela coisa julgada. Nas prejudiciais, como a formação da res iudicata depende das condições do debate concretamente verificadas, o litigante poderia ser surpreendido, ao final do processo, por uma vinculação que talvez não tivesse querido voluntariamente assumir. Pois bem, os pressupostos do art. 503, § 1º, do CPC/2015 servem para esta finalidade: exigir que o debate tenha sido desenvolvido em condições tais que possam tranquilamente levar à conclusão de que as partes engajaram-se voluntariamente na discussão do tema de forma ampla e exaustiva.
Resumindo, a coisa julgada, da forma como posta na nova legislação processual civil, encobre tanto o dispositivo da sentença ou acórdão quanto a decisão das questões prejudiciais, desde que satisfeitas as cautelas legais.
Apesar de tudo, no caso do incidente de assunção de competência – em que pese configurar-se como verdadeira questão prejudicial – não se pode falar em coisa julgada do
149 Explica Antônio do Passo Cabral (2016, p. 1433) que, nesse caso, “[...] deve-se considerar não uma dependência típica (o exame da questão vista abstratamente, isto é, se o interesse material correspondente à questão de mérito é composto pela fattispecie da prejudicial), mas sim a dependência lógica: a questão prejudicial deve ser um passo não só relevante, mas necessário para a construção do raciocínio do juízo para concluir a respeito do pedido. A coisa julgada poderá atingir a prejudicial mesmo que existam vários fundamentos concorrentes para se concluir sobre o pedido, desde que se possa verificar, em concreto, o seu condicionamento para o resultado sobre a questão principal”. (grifo do autor)
150 Segundo Antônio do Passo Cabral (2016, p. 1434), “[...] Trata-se de dispositivo de grande avanço científica. O contraditório, além de ser uma pedra de toque do processo contemporâneo, é também o ponto nodal de qualquer sistema de estabilidades. De fato, [...] tendo havido uma oportunidade de debater ampla e efetivamente um tema no processo judicial, não se justifica a repetição da discussão. Assim, o contraditório passa a ser compreendido como um dos principais vetores para a formação de qualquer estabilidade processual e também da coisa julgada. Portanto, se a prejudicial foi alegada em poucas linhas pelo autor, não foi abordada pelo réu em seus arrazoados, tampouco houve consideração desta questão por parte do juiz, não se pode falar que tenha havido contraditório efetivo, compreendido o contraditório como a possibilidade de influir, condicionar eficaz e colaborativamente a formação da decisão. Com esse propósito, a lei exclui expressamente a extensão da coisa julgada as prejudiciais quando tiver havido revelia [...]”. Não há espaço, aqui, para falar profundamente da coisa julgada na atual legislação processual. Porém, apenas para conhecimento, esse doutrinador discorda da exclusão da revelia na incidência da coisa julgada, ao argumento de que o contraditório é, em uma de suas facetas, faculdade das partes, de modo que se a questão prejudicial foi minuciosamente detalhada pelo autor e considerada do mesmo modo pelo julgador, não haveria porque excluí-la da coisa julgada.
151 Seguindo no raciocínio de Antônio do Passo Cabral (2016, p. 1435) esse requisito “[...] é muito importante porque, caso assim não fosse estabelecido no CPC, poder-se-ia formar coisa julgada sobre uma questão prejudicial debatida amplamente e em contraditório perante um juízo incompetente para apreciar aquela mesma questão principaliter, o que poderia ser usado como forma de burlar a lei [...]”.
acórdão. A decisão do incidente produz eficácia vinculante erga omnes, mas não coisa julgada.
Quanto à fundamentação, nada mudou, embora essa questão tenha sido objeto de acesa discussão doutrinária, chegando parcela da doutrina a sustentar que a fundamentação integraria o decisum152. O legislador optou por excluir a fundamentação da coisa julgada, como se depreende do artigo 504 do Código de Processo Civil153.
Antônio do Passo Cabral (2013, p. 355-356) observa que, em muitos casos, a parte dispositiva não é clara ou não traz qualquer conteúdo explicativo. E isso é um problema que fica agravado nos casos de improcedência, quando a parte final da decisão raramente inclui os motivos que determinaram tal solução ou quando o magistrado “[...] efetivamente decide enquanto fundamenta, apondo parcelas da sua conclusão onde formalmente está a motivação, sem “retomar” ou reproduzir as conclusões externadas ao redigir o dispositivo”.
Diferentemente da coisa julgada, no acórdão em assunção de competência, o que gera a eficácia vinculante é justamente a fundamentação, a sua ratio, os motivos determinantes da decisão. Sem isso, o incidente de assunção de competência não forma um autêntico precedente vinculante. No máximo, poder-se-ia atribuir eficácia persuasiva ao acórdão.
Além dos limites objetivos, existem os limites subjetivos da coisa julgada. No Código de Processo Civil de 1973, a coisa julgada alcançava apenas as partes litigantes, “não beneficiando, nem prejudicando terceiros” (art. 472). No entanto, o artigo 506 do Código atual estabelece que a coisa julgada não prejudicará terceiros – nada dispondo sobre eventual benefício para terceiros.
Diante disso, parte da doutrina sustenta que, se for para beneficiar, a coisa julgada pode atingir terceiros, isto é, “[...] se o conteúdo estabilizado pela coisa julgada for favorável ao terceiro, este pode se valer da coisa julgada e pretender que a questão se mantenha indiscutível a seu favor” (CABRAL, 2016, p. 1447)154. Nos dizeres do processualista (2016, p. 1447), “[...] Trata-se de coisa julgada in utilibus para terceiro”.
152 Nesse sentido, CABRAL, Antônio do Passo. Coisa Julgada e Preclusões Dinâmicas: entre continuidade, mudança e transição de posições processuais estáveis. Salvador: juspodvium, 2013. p. 355- 357.
153 Antônio do Passo Cabral (2013, p. 441), ao falar sobre a coisa julgada, utiliza muitas vezes a expressão
“esquema argumentativo”, parecendo ser um dos juristas que defende a ideia de incluir a fundamentação na coisa julgada.
154 Antônio do Passo Cabral (2016, p. 1447) comenta que se trata de uma mudança ao mesmo tempo elogiável e criticável. Elogiável porque permite estender a coisa julgada a terceiros quando for para beneficiá-
Essa inovação não tem maior significado para o acórdão no incidente de assunção de competência, que produz apenas coisa julgada inter partes, diferentemente do que acontece no incidente de resolução de demandas repetitivas155.
A doutrina sustenta que, no incidente de assunção de competência, como também haverá julgamento do mérito, a coisa julgada só pode ter eficácia inter partes. O efeito vinculante erga omnes (CPC, art. 947, § 3º) não se confunde com coisa julgada156 que diz respeito à imutabilidade da decisão. No incidente de resolução de demandas repetitivas, porém, justifica-se a coisa julgada erga omnes, pois “[...] Se a questão é a mesma, a decisão será, inapelavelmente, aplicada em todos os casos pendentes [...]” (MARINONI;
MITIDIERO, 2016a, p. 42). A coisa julgada erga omnes no incidente de resolução de demandas repetitivas é decorrência da participação no procedimento dos terceiros que serão afetados pelo acórdão (MARINONI; MITIDIERO, 2016a, p. 29).
los, “[...] mas criticável porque vai na contramão da tendência mundial ao não permitir, em nenhuma hipótese, que a coisa julgada possa terceiros [...]. A regra legal do novo CPC é boa porque, afinal, se é o contraditório o vetor para definir a limitação subjetiva da coisa julgada, seria natural imaginar que um terceiro que não participou do processo não deve ser atingido pela proibição decorrente da coisa julgada rediscutir as questões decididas no processo inter alia. [...] essa proibição existe para que ele não seja prejudicado, ou seja, a limitação subjetiva da coisa julgada funciona como uma proteção ao terceiro não participante”.
155 Em relação ao incidente de resolução de demandas repetitivas, a doutrina sustenta que quando o artigo 985, inciso I, do Código de Processo Civil de 2015, estabelece que o acórdão será aplicado a todos os processos pendentes e futuros, está na verdade, impedindo o jurisdicionado de rediscutir questão já decidida, circunstância que se mostraria indispensável para que seja possível resolver um grande número de casos a um só tempo. Sendo assim, grande parte dos juristas afirma, embora com críticas, que a decisão gera coisa julgada erga omnes sobre a questão repetida em múltiplos processos, independentemente do seu resultado final. Luiz Guilherme Marinoni e Daniel Mitidiero (2016a, p. 28-29) assim comentam: “[...] A decisão do incidente aplica-se em todos os processos pendentes que versem sobre idêntica questão de direito (art. 985, I, do CPC/2015); vale dizer, impede que os litigantes destes processos voltem a discutir a questão resolvida. De modo que a única dificuldade está em esclarecer o que significa proibir ou rediscutir questão já decidida. Como é possível chamar a decisão que, ditada no processo de um para os casos de muitos, impede-os de relitigar a questão resolvida, sibmetendo-os? Perceba- se que a decisão tomada no referido incidente constitui nítida proibição de relitigar a questão já decidida, que nos casos de decisão negativa àqueles que não puderam participar e discutir, assemelha-se a um inusitado e ilegítimo collateral estoppel. Assim, na hipótese de decisão tomada em incidente de resolução de demandas repetitivas, há, embora não dito, coisa julgada sobre a questão presente nos vários casos repetitivos. A coisa julgada está a tornar indiscutível uma questão imprescindível para se chegar ao alcance da resolução dos vários casos pendentes”. Ainda segundo eles, “[...] o incidente de resolução, se bem visto –, é uma técnica processual absolutamente atrelada à coisa julgada em benefício de terceiros. Veja-se que tanto aquele que pode ser beneficiado pela coisa julgada, quanto aquele que pode ser excessivamente exposto à necessidade de se defender para não ser prejudicado por decisão que possa produzir a coisa julgada em benefício de todos os seus adversários, pode requerer a instauração do incidente: i) para que a questão de todos seja discutida em processo conduzido por representante adequado que efetiva e, vigorosamente, defenda os direitos e ii) para que a questão de direito não venha a ser discutida e decidida, inúmeras vezes, sempre com a possibilidade de produzir coisa julgada em benefício de terceiros. De modo que o incidente tem importância para evitar que a coisa julgada, em benefício de terceiros, possa gerar abusos”.(grifos nosso)
156 Nesse sentido, MARINONI, Luiz Guilherme e MITIDIERO, Daniel. Comentários ao Código de Processo Civil. Artigos 926 ao 975. In: MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz e MITIDIERO, Daniel (coord.). Coleção Comentários ao Código de Processo Civil, v. 15, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 248-249.