2.1 ACIDENTE DO TRABALHO
2.1.1 D EFINIÇÃO DE ACIDENTE DO TRABALHO
Buscando primeiramente o conceito geral sobre a terminologia “acidente do trabalho” em seu sentido estrito, também chamado de acidente típico, encontra-se na norma vigente, mais precisamente no art. 19 da Lei nº 8.213 de 24 de julho de 1991a seguinte consideração:
Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.
Portanto, tendo sido feita a pertinente análise sobre o texto legal acima destacado, entende-se perfeitamente que o acidente do trabalho é a caracterização de qualquer acometimento que venha causar danos ao trabalhador, seja estes por lesão à sua saúde e/ou integridade física, de forma grave ou não, parcial ou total, permanente ou temporária.
Cabe aqui fazer uma breve observação em referência ao art.
20 da mesma lei que, expressamente considera as doenças ocupacionais como sendo também um acidente do trabalho. Este tema, porém será melhor abordado em tópico subseqüente.
63 apud OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacional. 2 ed. São Paulo: LTr, 2006. p. 28.
Aprofundando a análise sobre o tópico em questão, destaca- se ainda a existência de dois conceitos distintos para o acidente do trabalho, sendo eles o legal e o prevencionista.
O conceito legal de acidente do trabalho, como o próprio termo nos permite claramente interpretar, define o sentido estrito do mesmo, que está expresso no art. 19 da Lei 8.213/91 já citado anteriormente, não havendo, portanto, qualquer entendimento difuso ao texto legal.
Pode-se ainda mencionar o conceito que Hertz Costa64 dispõe ao termo acidente típico:
“É acontecimento brusco, repentino, inesperado, externo e traumático, ocorrido durante o trabalho ou em razão dele, que agride a integridade física ou psíquica do trabalhador”.
O conceito prevencionista de acidente do trabalho, no entanto, considera um outro enfoque em referência ao termo, como Edwar Abreu Gonçalves65 nos permite entender ao definir:
Acidente do trabalho, sob a ótica prevencionista, pode ser definido como a ocorrência não programada, inesperada ou não, que interrompe ou interfere no processo normal de uma atividade, ocasionando perda de tempo útil e/ou lesões nos trabalhadores, e/ou danos materiais.
Pode-se perceber que as duas classificações aqui destacadas têm função meramente didática ou doutrinária, para uma melhor possibilidade de estudar o tópico.
Cabe, entretanto, ressaltar ainda a diferenciação que Edwar Abreu Gonçalves66 também faz entre o conceito prevencionista e o conceito legal de acidente do trabalho:
64 apud OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacional. 2 ed. São Paulo: LTr, 2006. p. 42.
65 GONÇALVES, Edwar Abreu. Segurança e Medicina do Trabalho em 1.200 Perguntas e Respostas. 3 ed. São Paulo: LTr, 2001. p. 28.
66 GONÇALVES, Edwar Abreu. Segurança e Medicina do Trabalho em 1.200 Perguntas e Respostas. p. 29.
O conceito prevencionista de acidente do trabalho é mais abrangente do que o conceito legal, posto que este se restringe às hipóteses de ocorrência de lesões e/ou perturbações de ordem funcional ou mental nos trabalhadores acidentados, ao passo que aquele contempla não só a hipótese legal como também as situações em que ocorreram, de forma isolada ou simultânea, perda de tempo útil e/ou danos materiais.
Outro ponto a ser estudado é o que dispõe sobre as situações diversas das que já foram aqui citadas, mas que também são legalmente consideradas como acidentes de trabalho. Tais situações estão legalmente elencadas, conforme o texto expresso no art. 21 da Lei 8.213/91.
Dentre as hipóteses mencionadas no dispositivo, destacam- se as concausas que, embora não tenham uma ligação direta com o resultado, contribuem para o mesmo.
Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos desta Lei:
I - o acidente ligado ao trabalho que, embora não tenha sido a causa única, haja contribuído diretamente para a morte do segurado, para redução ou perda da sua capacidade para o trabalho, ou produzido lesão que exija atenção médica para a sua recuperação;
Cabe aqui salientar o posicionamento de Cavalieri Filho67 que desta forma conceitua:
A concausa é outra causa que, juntando-se à principal, concorre para o resultado. Ela não inicia e nem interrompe o processo causal, apenas o reforça, tal qual um rio menor que deságua em outro maior, aumentando-lhe o caudal.
Outra hipótese mencionada no texto legal é o chamado acidente de trajeto ou in itinere, também preceituado pela Lei 8.213/91.
67 apud OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacional. 2 ed. São Paulo: LTr, 2006. p. 50.
Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos desta Lei: (...)
IV - o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horário de trabalho: (...)
d) no percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o meio de locomoção, inclusive veículo de propriedade do segurado.
Dando continuidade ao entendimento expresso no dispositivo acima citado, Edwar Abreu Gonçalves68 define o termo acidente de trajeto como sendo:
Infortúito possível de ocorrer com o trabalhador no percurso de sua residência para o local de trabalho ou deste para aquela, antes ou após o término de sua jornada de trabalho, qualquer que seja o meio de locomoção por ele utilizado, inclusive veículo próprio.
O acidente de trajeto que fora acima conceituado, também enquadra os casos ocorridos no mesmo percurso, quando o trabalhador faz as suas refeições em sua residência. Apenas deixa de caracterizar-se o acidente de trabalho, quando o trabalhador, por vontade própria, interrompa ou muda o percurso habitual.
Para fins didáticos, torna-se importante ainda mencionar o artigo 21 em seu § 1º da Lei 8.213/91 que dispõe claramente:
Art. 21 (...)
§ 1º Nos períodos destinados a refeição ou descanso, ou por ocasião da satisfação de outras necessidades fisiológicas, no local do trabalho ou durante este, o empregado é considerado no exercício do trabalho.
Restam ainda citar as outras hipóteses que a Lei 8.213/91 equipara ao acidente do trabalho:
68 GONÇALVES, Edwar Abreu. Segurança e Medicina do Trabalho em 1.200 Perguntas e Respostas . 3 ed. São Paulo: LTr, 2001. p. 32.
Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos desta Lei: (...)
II - o acidente sofrido pelo segurado no local e no horário do trabalho, em conseqüência de:
a) ato de agressão, sabotagem ou terrorismo praticado por terceiro ou companheiro de trabalho;
b) ofensa física intencional, inclusive de terceiro, por motivo de disputa relacionada ao trabalho;
c) ato de imprudência, de negligência ou de imperícia de terceiro ou de companheiro de trabalho;
d) ato de pessoa privada do uso da razão;
e) desabamento, inundação, incêndio e outros casos fortuitos ou decorrentes de força maior;
III - a doença proveniente de contaminação acidental do empregado no exercício de sua atividade;
IV - o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horário de trabalho:
a) na execução de ordem ou na realização de serviço sob a autoridade da empresa;
b) na prestação espontânea de qualquer serviço à empresa para lhe evitar prejuízo ou proporcionar proveito;
c) em viagem a serviço da empresa, inclusive para estudo quando financiada por esta dentro de seus planos para melhor capacitação da mão-de-obra, independentemente do meio de locomoção utilizado, inclusive veículo de propriedade do segurado; (...).
Vê-se então que o artigo mencionado traduz em seu conteúdo os casos divergentes e variado que são equiparados ao acidente de trabalho e as suas peculiaridades.
Importante ainda se faz aludir a ampliação do entendimento sobre o acidente do trabalho, o que permite melhor caracterizá-lo frente à ocorrência do infortúnio. Diante disto, destaca-se o posicionamento de Bernadette Cunha Waldvogel69 que discorre de tal modo:
Hoje, os acidentes do trabalho não estão mais associados apenas às atividades realizadas dentro do ambiente de trabalho restrito às empresas, assim como os tipos de acidentes predominantes não correspondem mais àqueles relacionados diretamente com os processos intrínsecos ao trabalho.
Outro ponto a ser mencionado, refere-se as causas dos acidentes do trabalho. Nesta questão, preceitua-se que, os acidentes do trabalho, já definidos e legalmente considerados, devem-se a duas causas básicas, sendo elas as condições inseguras e os atos inseguros, sendo estes também denominados como fator pessoal de insegurança.
Prosseguindo a esta acepção, Edwar Abreu Gonçalves70 se faz presente ao conceituar as condições inseguras como:
“Deficiências, defeitos ou irregularidades técnicas nas instalações físicas. Máquinas ou equipamentos, os quais, presentes nos ambientes de trabalho, podem ocasionar acidentes de trabalho”.
Entende-se, portanto, que as condições inseguras referem- se à qualidade do ambiente de trabalho, ou seja, que este não oferece boas condições para a atuação profissional, estando o trabalhador em constante risco de acidentes.
Com o significado de condições inseguras já estabelecido, Edwar Abreu Gonçalves71 utiliza situações hipotéticas de ocorrência no meio
69 WALDVOGEL, Bernadette Cunha. Acidente do Trabalho: Vida Ativa Interrompida. In.:
CARVALHO NETO, Antônio; SALIM, Celso Amorim. Novos Desafios em Saúde e Segurança do Trabalho. Belo horizonte: PPUC Minas, 2001. p. 37.
70 GONÇALVES, Edwar Abreu. Segurança e Medicina do Trabalho em 1.200 Perguntas e Respostas. 3 ed. São Paulo: LTr, 2001. p. 33.
71 GONÇALVES, Edwar Abreu. Segurança e Medicina do Trabalho em 1.200 Perguntas e Respostas. p. 33.
ambiente de trabalho para exemplificar o conceito dado e assim beneficiar o entendimento:
Iluminação inadequada, desconforto térmico, piso escorregadio, ruído e trepidações excessivas, falta de ordem e limpeza, falta de proteção em partes móveis das máquinas, não submeter as máquinas, equipamentos e ferramentas, a manutenções periódicas de acordo com as recomendações técnicas dos fabricantes e o não fornecimento de equipamentos de proteção individual aos trabalhadores.
Como se faz necessário, a outra causa básica dos acidentes do trabalho, mais precisamente, o ato inseguro ou fator pessoal de insegurança, é também denominado por Edwar Abreu Gonçalves72 que abaixo discorre como sendo:
Atitudes, atos, ações ou comportamentos do trabalhador, contrários às normas de segurança e que colocam em risco a sua saúde e/ou integridade física, ou de outros colegas de trabalho.
Os atos inseguros são geralmente definidos como causas de acidentes que residem, predominantemente, no fator humano.
Então, pode-se perfeitamente entender que, os atos inseguros, são causas de acidente do trabalho com uma característica em especial. São elas provindas do fator humano, ou seja, da atuação do homem que, em geral, está consciente de que esta fazendo alguma coisa fora dos padrões de segurança a ele estabelecido.
Edwar Abreu Gonçalves73 se faz novamente presente para exemplificar os atos inseguros, cogitando algumas condutas impróprias que levam o trabalhador a sofrer o acidente:
Improvisar caixotes em formas de escadas de mão; indiferença às normas de segurança e medicina do trabalho; atos de exibicionismo; ingestão de bebidas alcoólicas antes ou durante o horário de trabalho; não realização de prévia inspeção de rotina
72 GONÇALVES, Edwar Abreu. Segurança e Medicina do Trabalho em 1.200 Perguntas e Respostas. p. 33-34.
73 GONÇALVES, Edwar Abreu. Segurança e Medicina do Trabalho em 1.200 Perguntas e Respostas. 3 ed. São Paulo: LTr, 2001. p. 34.
nas máquinas, equipamentos ou ferramentas em que vai trabalhar e a não utilização dos equipamentos de proteção individual fornecidos pela empresa.
Evidentes são as infelizes conseqüências do acidente do trabalho para o empregado, podendo ser destacado o sofrimento físico por lesões, incapacidades diversas, ou até mesmo a morte, sem mencionar os reflexos psicológicos negativos provindos de eventuais seqüelas acidentárias.
Deste modo, conclui-se que a eliminação destas causas e conseqüentemente da incidência de acidentes do trabalho favorecerão ao trabalhador que assegura a sua qualidade de vida, evita perda de rendimentos e mantém sua auto-estima trabalhando com prazer, alegria e motivação para vida.
Serão ainda favoráveis para o empregador que obterá maiores ganhos de produtividade, preservará a imagem da empresa perante a comunidade, haverá a diminuição de litígios trabalhistas, a menor rotatividade da mão-de-obra, etc.
Interessante comentar que este é o objetivo da segurança do trabalho, que nada mais é do que o conjunto de medidas técnicas, médicas e educacionais, empregadas para prevenir acidentes, eliminando condições inseguras do ambiente de trabalho, instruindo e/ou convencionando pessoas na implantação de práticas preventivas.
2.1.2 - Doenças ocupacionais
Doença Ocupacional é também uma alteração na saúde do trabalhador, provocada por fatores ambientais associados ao trabalho. Ela pode ser provocada pelo contato ou exposição de curto, médio ou longo prazo, do trabalhador a agentes químicos, físicos, biológicos ou radioativos em situações acima do permitido em lei, sem a utilização de equipamentos pertinentes voltados para a proteção.
Adverte Russomano74 que:
74 apud OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacional. 2 ed. São Paulo: LTr, 2006. p. 44.
O acidente e a enfermidade têm conceitos próprios. A equiparação entre eles se faz apenas no plano jurídico, com efeitos nas reparações e nos direitos que resultam para o trabalhador nos dois casos. Enquanto o acidente é um fato que provoca lesão, a enfermidade profissional é um estado patológico ou mórbido, ou seja, perturbação da saúde do trabalhador.
Cabe aqui também citar o posicionamento de Sebastião Geraldo de Oliveira75 que sobre o tópico proposto ensina:
O acidente caracteriza-se pela ocorrência de um fato súbito e externo ao trabalhador, ao passo que a doença ocupacional normalmente vai se instalando insidiosamente e se manifesta internamente, com tendência de agravamento.
Como característica diversa, as doenças ocupacionais levam um certo tempo para que venham a se manifestar, e quando isto ocorre, elas aparecem sob a forma de tumores, lesões, dentre outras formas.
São elencadas no art. 20 da lei 8.213/91 as doenças ocupacionais, onde claramente são também consideradas um tipo de acidente do trabalho. A referente norma dispõe:
Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos termos do artigo anterior, as seguintes entidades mórbidas:
I - doença profissional, assim entendida a produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social;
II - doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente, constante da relação mencionada no inciso I.
Pode-se constatar com a análise do artigo acima citado, é que o próprio texto legal destaca uma outra classificação sobre a doença
75 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacional. 2 ed. São Paulo: LTr, 2006. p. 44
ocupacional, diferenciando a mesma entre a doença profissional e a doença do trabalho.
Mediante tais denominações, para fins de aprimoramento didático, faz-se necessário conceituar cada uma delas. Então, frisando o conteúdo da referente norma, Edwar Abreu Gonçalves76 expõe:
Na doença profissional, os empregados que desenvolvem uma mesma atividade comumente estão sujeitos a contraí-la, eis que os riscos ambientais são inerentes à atividade em si. (...) Já a doença do trabalho se caracteriza por uma condição especial de trabalho.
Sendo assim, podemos perceber o quanto é realmente tênue a diferenciação entre as duas classificações das doenças ocupacionais.
Sebastião Geraldo de Oliveira77 conceitua:
As doenças profissionais são aquelas peculiares a determinada atividade ou profissão, também chamadas de doenças profissionais típicas, tecnopatias ou ergopatias. O exercício de determinada profissão pode produzir ou desencadear certas patologias, sendo que, nessa hipótese, o nexo causal da doença com a atividade é presumido.
Intuindo um entendimento mais eficiente, cabe expor como exemplo de uma doença profissional os trabalhadores que contraem o Saturnismo (intoxicação provocada pelo chumbo) ou Silicose (intoxicação provocada pela sílica). Nos casos propostos, o trabalhador possui atividade onde é comum e freqüente a exposição e contato com o material ou a substância lesiva, sendo a doença, portanto, presumida em relação ao trabalho exercido.
Já em referência as doenças do trabalho, Sebastião Geraldo de Oliveira78 ainda conceitua:
76 GONÇALVES, Edwar Abreu. Segurança e Medicina do Trabalho em 1.200 Perguntas e Respostas. 3 ed. São Paulo: LTr, 2001. p. 29-30.
77 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacional. 2 ed. São Paulo: LTr, 2006. p. 44.
78 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacional. p. 45.
Doença do trabalho, também chamada mesopatia ou doença profissional atípica, apesar de igualmente ter origem na atividade do trabalhador, não está vinculada necessariamente a esta ou aquela profissão. Seu aparecimento decorre da forma em que o trabalho é prestado ou das condições específicas do ambiente de trabalho.
Cabe ressaltar um na doença do trabalho, diferentemente da doença profissional, não é presumido o nexo de causalidade, exigindo-se, portanto, a comprovação de que a patologia fora adquirida em razão das condições especiais do meio ambiente do trabalho.
Para exemplificar a doença do trabalho, podemos citar o caso hipotético de uma secretária que trabalha em um ambiente onde o nível de pressão sonora está acima do limite de tolerância. Esta poderá contrair a surdez, porém neste caso a doença será caracterizada como doença do trabalho, visto que a exposição ao ambiente ruidoso não é comum à sua atividade realizada.
Vê-se então, nos exemplos acima mencionados, que o sutil fator diferenciador entre as duas classificações esta ligado a natureza do meio ambiente onde é exercido o respectivo trabalho.
Um considerável debate se forma quando são abordadas as eliminações expressas no texto do Art. 20 da Lei 8.213/91, que em seu § 1º destaca algumas doenças que não são consideradas doenças do trabalho. Assim dispõe:
Art.20. (...)
§ 1º Não são consideradas como doença do trabalho:
a) a doença degenerativa;
b) a inerente a grupo etário;
c) a que não produza incapacidade laborativa;
d) a doença endêmica adquirida por segurado habitante de região em que ela se desenvolva, salvo comprovação de que é resultante de exposição ou contato direto determinado pela natureza do trabalho.
Tendo em vista os casos hipotéticos sugeridos pelo artigo supra citado, pode-se entender que a doença não possui um nexo de causalidade que associa ao trabalho, ou seja, apesar de ter aparecido no trabalho, não é decorrente do mesmo.
Cabe ressaltar o posicionamento de Sebastião Geraldo de Oliveira79 que diz:
“Normalmente as doenças degenerativas ou inerentes ao grupo etário independem do fator laboral e poderiam aparecer mesmo que o trabalhador estivesse desempregado ou aposentado”.
Pertinente se faz aqui ressaltar, apenas por questão de entendimento, que não se pode considerar de modo literal o texto do dispositivo acima mencionado, tendo em vista que muitas doenças ocupacionais possuem uma natureza degenerativa. Então, torna-se de extrema importância configurar a relação direta da mesma com a atividade laboral, o que, deste modo, caracteriza a doença do trabalho.
Enfim, tratando de doença ocupacional ou acidente do trabalho, mais abrangente a saúde ocupacional, cabe ao empregador a obrigação de zelar pela saúde do trabalhador no seu ambiente de trabalho. Portanto, deverá a empresa ter uma equipe técnica responsável por implantar um sistema de engenharia, equipamentos e treinamento voltado à segurança.
2.1.3 - Nexo de causalidade
Analisados os tipos de acidente do trabalho, surge aqui a necessidade de tratar o nexo de causal, também denominado liame de
79 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacional. 2 ed. São Paulo: LTr, 2006. p. 48.
causalidade, antes de entrar no tópico da responsabilidade civil do empregador.
Isto porque o nexo de causalidade tem um caráter indispensável, sendo este um pressuposto da responsabilidade civil, que mais a frente será também salientada.
Tal elemento está subentendido entre o ato culposo do agente e o prejuízo da vítima, gerando assim, uma obrigação indenizatória.
Tendo como finalidade uma melhor construção doutrinária sobre o tema, José Jairo Gomes80 utiliza um antigo entendimento que até hoje se configura pertinente:
“É clássico o ensinamento mecanicista de Aristóteles, que divisava na causalidade uma relação lógica, de acordo com a qual o efeito poderia ser deduzido da causa, já que é a produtora daquele”.
Em referência ao mesmo embasamento teórico, o nexo de causalidade é também conceituado por Silvio de Salvo Venosa81 que discorre de tal modo:
O conceito de nexo causal, nexo etiológico ou relação de causalidade deriva das leis naturais. É o liame que une a conduta do agente do dano. É por meio do exame da relação causal que concluímos quem foi o causador do dano.
Expressivo ainda é o posicionamento de José Jairo Gomes82quando aborda o nexo de causalidade e a sua natureza relacionada não apenas com as ciências jurídicas, mas sim com ela em sua generalidade. Desta forma diz que:
“A problemática da causalidade não se restringe ao Direito, mas todos os ramos da ciência”.
80 GOMES, Jose Jairo. Direito Civil: Introdução e Parte Geral. Belo Horizonte. Del Rey, 2006. p.
520.
81 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito Civil: Responsabilidade Civil. 3 ed. São Paulo: Atlas, 2003. p 39.
82 GOMES, Jose Jairo. Direito Civil: Introdução e Parte Geral. Belo Horizonte. Del Rey, 2006. p.
520.