INTRODUÇÃO 22 INTRODUÇÃO 22
2.2 Eleição e cargos da Mesa administrativa
Com exceção da regulação da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte unida à Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Freguesia de Catas Altas do Mato Dentro, os regimentos internos analisados pela pesquisa ora apresentada definiam a eleição da Mesa administrativa no dia 4 de outubro, data em que se celebra o santo patriarca da Família Seráfica. No caso da associação religiosa da Freguesia de Catas Altas do Mato Dentro, o escrutino dar-se-ia nas vésperas da festa da Assunção da Virgem Maria, em 14 de agosto. Ou seja, nesse caso, é perceptível a predileção dos fiéis da corporação pelo culto à mãe de Jesus.
No caso da Irmandade de Santo Antônio unida à Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Vila de São Bento do Tamanduá, porém, a eleição se manteve no dia de comemoração ao patriarca de Assis. A razão se explica por ambas as corporações se inserirem na devoção franciscana.
As regulações internas enfatizam a votação em um ou mais capítulos, que estão entre as primeiras cláusulas estatutárias. A eleição se desenvolvia de modo que não houvesse espaço para ardil ou empate. Desse modo, os instrumentos do escrutínio preservam a lisura e a honestidade da votação. O regimento interno da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Vila Nova da Rainha do Caeté, por exemplo, destaca que a eleição dar-se-ia na Casa do Despacho. Apenas os mesários do ano vencido tinham direito ao voto para eleger novos mesários. Poderiam, também, concorrer novamente ao cargo ocupado ou para outro que fossem considerados aptos. Para cada posto da Mesa gestora, indicavam-se três nomes de devotos que possuíssem as virtudes necessárias para empreender as responsabilidades da função, sem trazer prejuízo ou inconveniente à nova diretoria. Em uma tira de papel, os mesários escreviam o nome daquele devoto que ponderassem ser o mais apropriado ao cargo em votação, depois, depositavam o voto em um vaso. Ao final da cada eleição de cada um dos
postos, o secretário lia o nome do eleito. Caso houvesse empate, o comissário, o ministro e o procurador-geral entrariam em consenso acerca do nome mais afeito entre os mais votados228. Nesse sentido, a deliberação feita pelos três mesários, que ocupavam os principais cargos da Mesa gestora, por certo, considerava a observação dos preceitos cristãos, a habilidade pessoal, a capacidade intelectual, a situação financeira e a rede de sociabilidade dos candidatos empatados na votação para o posto. Ao término da eleição, costumeiramente, o secretário redigia as cartas patentes para que os mesários conhecessem a escolha e tivessem a opção de recusar tal empreitada em eventual impossibilidade, às vezes, relacionada à saúde ou ao trabalho.
A disposição e a denominação dos cargos da Mesa administrativa da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco não variavam em relação à Mesa gestora da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Por essa razão, os irmãos terceiros franciscanos não demoraram a se queixarem do fato. O terceiro item da Justificação do ano de 1761, empreendida no cartório, pelos mesários da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência da Cidade de Mariana, pretendia tal averiguação. Nos termos do processo:
Que no mesmo ato em que o dito Reverendo Vigário criou e erigiu de novo / nesta dita cidade, a dita Arquiconfraria estabeleceu também uma / Mesa correspondente, a da Venerável Ordem 3ª. com Mi-/nistro, Vice-Ministro, Secretário, Sindico, Procurador Geral, Oito / Definidores, Vigário do Culto Divino, e dois Andadores, e seis Sacristãos, / Ministra, Vice-Ministra, e outras correspondentes, nos lugares / e números, aos machos229.
As sete testemunhas inquiridas, todos irmãos terceiros franciscanos, confirmam, por “ouvir” ou “ver”, que as duas mesas dos “pardos do Cordão” se assemelham às da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. O procurador da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco, de modo objetivo, respondeu o seguinte, assim que deu vistas ao processo: “estão vossas / caridades livres / de comerem/ delas”230. Ou seja, afirmou que a queixa procedia e que os irmãos terceiros franciscanos estavam aptos a compartilharem da conformação da Mesa administrativa dos “pardos do Cordão”.
228 LISBOA. ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO. Chancelaria da Ordem de Cristo, Dona Maria.
Compromisso da Arquiconfraria do Cordão do Patriarca São Francisco de Vila Nova da Rainha do Caeté.
Livro 12, fl. 21v-30v, 1782. Microfilme. fl. 21v-22.
229 MARIANA. ARQUIVO HISTÓRICO DA CASA SETECENTISTA DE MARIANA. Cartório do 2º ofício:
justificação. Códice 157, Auto 3.550, 1761. Manuscrito. fl. 2.
230 MARIANA. ARQUIVO HISTÓRICO DA CASA SETECENTISTA DE MARIANA. Cartório do 2º ofício:
justificação. Códice 157, Auto 3.550, 1761. Manuscrito. fl. 2.
Nesse sentido, ressalta-se que a designação dos postos da Mesa gestora dos arquiconfrades e dos irmãos terceiros franciscanos se assemelhavam porque ambas as associações religiosas integravam a Família Franciscana. Nas irmandades e/ou confrarias e na Ordem Terceira do Monte Carmelo, a denominação dos cargos não correspondia às dos franciscanos, embora a função dos postos se assemelhasse. Por exemplo, o cargo principal entre os leigos, tanto na Arquiconfraria do Cordão de São Francisco quanto na Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, denominava-se “ministro”; nas irmandades e/ou confraria, a designação se dava como “provedor”231 ou “juiz”232; enquanto na Ordem Terceira do Monte Carmelo, o mesmo posto era chamado de “prior”233.
De acordo com o primeiro regimento interno da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana, datado do ano de 1761, a listar os cargos da Mesa administrativa, os arquiconfrades estipularam-se os seguintes postos: padre comissário, ministro, vice-ministro, secretário, síndico, procurador-geral, três prefeitos, 10 definidores, vigário do culto divino, seis sacristãos e oito zeladores.
Entre os prefeitos, dois obrigatoriamente seriam oriundos da Costa, isto é, nascidos na África, e um seria “crioulo”, ou, nas palavras do texto: “criolo filho de câ”234. O vigário do culto divino deveria ser “pardo”. Do mesmo modo, seis definidores também possuiriam a dita qualidade, sendo os outros quatro “homens pretos”235. Dos seis sacristãos, metade formava-se por “pardos” e a outra por “pretos”. Entre os zeladores, seis seriam
“pretos” e dois “pardos”. A explicação para a variação classificatória entre os mesários está contida no próprio regimento no intuito de “manter a / boa união desta Veneravel Archiconfraria”236. Esse não é o único ponto relativo à diversidade e à coesão da corporação que chama a atenção nos capítulos iniciais. Durante a eleição da Mesa gestora, o regimento interno previa que, no caso de algum mesário egresso não souber escrever, caberia ao
231 OLIVEIRA, Monalisa Pavonne. Fé e distinção: um estudo da dinâmica interna e do perfil de irmãos da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto (século XVIII). 2016. 300p. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2016.
232 DELFINO, Leonara Lacerda. O Rosário dos irmãos escravos e libertos: fronteiras, identidades e representações do viver e morrer na diáspora atlântica. Freguesia do Pilar-São João del-Rei (1782-1850). 2015.
526p. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2015.
233 REZENDE, Leandro Gonçalves de. O Monte Carmelo nas montanhas de Minas: arte, iconografia e devoção nas ordens terceiras do Carmo de Minas Gerais (séculos XVIII e XIX). 2016. 188p. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016.
234 SÃO JOÃO DEL-REI. MUSEU REGIONAL DE SÃO JOÃO DEL-REI. Biblioteca. Estatuto da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana, 1761-1823. Fotocópia. fl. 10.
235 SÃO JOÃO DEL-REI. MUSEU REGIONAL DE SÃO JOÃO DEL-REI. Biblioteca. Estatuto da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana, 1761-1823. Fotocópia. fl. 10.
236 SÃO JOÃO DEL-REI. MUSEU REGIONAL DE SÃO JOÃO DEL-REI. Biblioteca. Estatuto da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana, 1761-1823. Fotocópia. fl. 10.
secretário redigir o voto. Isso demonstra que, para certos cargos da Mesa gestora, não se empregava a exigência de saber ler e escrever.
O AEAM abriga documentação que evidencia como se desenvolvia, na prática, a determinação estipulada no regimento interno acerca dos prefeitos. Entre as ações do Cartório do Juiz Eclesiástico, o Processo no. 3.890, datado de 1766, registra que os “Irmaons‟ prefeytos da Cór preta”237 requereram aos demais mesários da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana que os reconhecessem como integrantes da Mesa administrativa.
Por se tratar de documentação produzida originalmente em livros e, posteriormente, destacada para integrar pasta no atual arranjo do arquivo, nota-se a incompletude do conteúdo da ação, o que dificulta o entendimento sobre a motivação do processo. No entanto, determinou-se que:
os taes Irmaons‟ / prefeytos sejaõ reconhecidos com as re/galias e votos de Meza asignaturas An/tes mais como foraõ creados disistindo /de todo e qualquer pleyto duvida que / emche aqui tem havido e de naõ have/rem da Meza actual despeza nem ac/çaõ alguá mais sim de quem direyto (grifos da autora)238.
Tendo em vista o ganho de causa por parte dos prefeitos de “cor preta”, não é improvável que a Mesa gestora, de fato, negou-lhes algumas das funções, incluindo o direito a voto na reunião. Por certo, manter a coesão entre os devotos não era simples na prática, mesmo entre os mesários.
Ainda de acordo com o regimento interno presente na fotocópia, havia uma Mesa feminina, constituída por: ministra, vice-ministra, prefeitas, vigária e zeladoras. Em decorrência do esmaecimento da fotocópia em boa parte do capítulo três, não é possível definir o número de mulheres e, consequentemente, a qualidade e/ou condição necessária para ocuparem os cargos de prefeitas e zeladoras. Está claro, porém, que os cargos de ministra e vice-ministra seriam ocupados por uma mulher cada, cuja qualidade não se menciona no regimento. No caso da vigária do culto divino, sabe-se que deveria ser “parda”. Entre as prefeitas e zeladoras, estariam “crioulas”, “pretas” e “pardas”. Decerto, adotou-se tal medida
237 MARIANA. ARQUIVO ECLESIÁSTICO DA ARQUIDIOCESE DE MARIANA. [Apêndice ao catálogo / Irmandade – Processo]. Processo nº. 3.890, 1766. Manuscrito. fl. 2.
238 MARIANA. ARQUIVO ECLESIÁSTICO DA ARQUIDIOCESE DE MARIANA. [Apêndice ao catálogo / Irmandade – Processo]. Processo nº. 3.890, 1766. Manuscrito. fl. 2.
no mesmo intuído de se obter representação de qualidade e/ou condição também entre as mulheres da Mesa gestora.
Na tentativa de elucidar a quantidade correta de mulheres destinadas a ocupar o cargo de prefeita e de zeladora, cotejou-se informação contida no final da fotocópia acerca da Mesa administrativa, entre os anos de 1760 e de 1762. Ali não há menção ao cargo prefeita.
Contudo, observa-se serem seis sacristãs e seis zeladoras. Atribui-se a disparidade de nomenclatura dos cargos ao fato do documento ter sido copiado no ano de 1771. Pensa-se, porém, que a função exercida pelas prefeitas se assimile à das sacristãs. Por essa razão, é crível dizer que o dito regimento interno estabelece um total de seis mulheres tanto para o cargo de prefeita quanto para o de zeladora. No caso da Mesa masculina, averiguou-se não conter descrição do cargo prefeito, listado no regimento interno no total de três vagas. No entanto, são 13 os definidores presentes na Mesa do ano de 1761, ao invés de 10, como estabelecido na regulação interna. Por essa razão, pondera-se que os três prefeitos foram listados com os 10 definidores, totalizando os 13 mesários.
Sabe-se também que o valor da mesada paga pela Mesa feminina se regulava pelos elencados para a Mesa masculina. Na tabela abaixo, observam-se os cargos e a quantia estabelecida de mesada para cada um dos cargos no ano de 1761. Com o intuito de verificar uma possível alteração nos postos da Mesa gestora, bem como no valor estipulado de mesada, cotejou-se o regimento interno de 1761 com o regimento interno do ano de 1779 e seu beneplácito régio datado do ano de 1784 (Tabela 1):
Tabela 1: Composição da Mesa administrativa e valor da mesada cobrada pela Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana nos anos de 1760, 1779 e 1784
Cargo da Mesa administrativa
Regimento interno de 1761
- oitavas -
Regimento interno de 1761
- reis -
Regimento interno de 1779
- oitavas -
Regimento interno de 1779
- reis -
Beneplácito régio de 1784
- oitavas -
Beneplácito régio de 1784
- reis - Mesa masculina
Ministro 25 oitavas 30$000 25 oitavas 30$000 12 oitavas 14$400
Vice-ministro 12 oitavas e meia 15$000 12 oitavas e meia 15$000 6 oitavas 7$200
Secretário 8 oitavas 9$600 Não paga Não paga Não paga Não paga
Procurador-geral Não paga Não paga Não paga Não paga Não paga Não paga
Síndico 8 oitavas 9$600 8 oitavas 9$600 4 oitavas 4$800
Prefeito 8 oitavas 9$600 -x- -x- -x- -x-
Definidor 4 oitavas 4$800 4 oitavas 4$800 2 oitavas 2$400
Vigário do culto divino 4 oitavas 4$800 Não paga Não paga Não paga
Sacristão 3 oitavas 3$600 3 oitavas 3$600 1 oitava 1$200
Zelador 2 oitavas 2$400 2 oitavas 2$400 ½ oitava $600
Mesa feminina
Ministra 25 oitavas 30$000 25 oitavas 30$000 12 oitavas 14$400
Vice-ministra 12 oitavas e meia 15$000 12 oitavas 14$400 6 oitavas 7$200
Prefeitas 8 oitavas 9$600 -x- -x- -x- -x-
Vigária do culto divino 4 oitavas 4$800 Não paga Não paga Não paga Não paga
Sacristão 3 oitavas 3$600 3 oitavas 3$600 1 oitava 1$200
Zeladoras 2 oitavas 2$400 2 oitavas 2$400 ½ oitava $600
Fonte: Elaborado pela autora a partir de SÃO JOÃO DEL-REI. MUSEU REGIONAL DE SÃO JOÃO DEL-REI. Biblioteca. Estatuto da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana, 1761-1823. Fotocópia; MARIANA. ARQUIVO ECLESIÁSTICO DA ARQUIDIOCESE DE MARIANA. Compromissos de irmandades. Estatuto da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana. Armário 8, Prateleira 1, 1779-1826. Manuscrito.
Nota-se uma alteração na composição da Mesa administrativa entre os dois regimentos internos. A contenda entre os prefeitos da “cor preta” e os demais mesários da Mesa gestora do ano de 1766 impactou na decisão de suprimir o predito cargo? Ademais, observou-se a tendência do valor pago de mesada se manter em relação aos dois regimentos, embora o secretário e o vigário do culto divino deixassem de arcar com qualquer quantia. No entanto, o beneplácito régio do ano de 1784 reduziu pela metade o valor da mesada.
A documentação disponível acerca da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Vila Nova da Rainha do Caeté também permite verificar a composição da Mesa administrativa, assim como a redução do valor da mesa imposto pelo beneplácito régio. De acordo com a regulação interna, os seguintes cargos compunham a Mesa gestora: ministro, vice-ministro, secretário, procurador-geral, síndico, seis definidores, três prefeitos, vigário do culto divino, vice-vigário, quatro sacristãos e dois zeladores. A agremiação possuía, ainda, uma Mesa feminina, que continha os cargos de prefeitas, vigária do culto divino, vice-vigária, sacristãs e zeladoras. O regimento, porém, não especifica a quantidade de devotas que ocupariam os cargos listados no plural. Infere-se que a quantidade era a mesma da Mesa masculina, isto é, três prefeitas, quatro sacristãs e duas zeladoras, pois, no capítulo um – que trata da eleição da Mesa239 – e no capítulo dois – que determina o valor da mesada240 –, está claro que a Mesa feminina deveria ser eleita no mesmo molde da masculina, bem como a mesada paga pelas mulheres seria regulada conforme a mesada paga pelos homens, excetuando o cargo de zeladora, dispensada de pagar a mesada porque “a bem da Meza tem o onus de lavarem toda / a roupa que for da nossa Archi confraria”241. Pela natureza dos cargos que compunham a Mesa feminina, pode-se caracterizá-la como responsável mais pelo asseio daquilo relacionado ao culto e à capela do que pela administração, de responsabilidade da Mesa masculina.
Logo abaixo, apresenta-se uma tabela que contém o valor a ser pago de mesada para cada um dos cargos dos mesários da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Vila Nova da Rainha do Caeté, incluindo a Mesa feminina (Tabela 2):
239 LISBOA. ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO. Chancelaria da Ordem de Cristo, Dona Maria.
Compromisso da Arquiconfraria do Cordão do Patriarca São Francisco de Vila Nova da Rainha do Caeté.
Livro 12, fl. 21v-30v, 1782. Microfilme. fl. 21v-22v.
240 LISBOA. ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO. Chancelaria da Ordem de Cristo, Dona Maria.
Compromisso da Arquiconfraria do Cordão do Patriarca São Francisco de Vila Nova da Rainha do Caeté.
Livro 12, fl. 21v-30v, 1782. Microfilme. fl. 22v.
241 LISBOA. ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO. Chancelaria da Ordem de Cristo, Dona Maria.
Compromisso da Arquiconfraria do Cordão do Patriarca São Francisco de Vila Nova da Rainha do Caeté.
Livro 12, fl. 21v-30v, 1782. Microfilme. fl. 22v.
Tabela 2: Composição da Mesa administrativa e valor da mesada cobrada pela Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Vila Nova da Rainha do Caeté nos anos de 1782-1783
Cargo da Mesa administrativa
Regimento interno de 1782
- oitavas -
Regimento interno de 1782
- reis -
Beneplácito régio de 1783
- oitavas -
Beneplácito régio de 1783
- reis - Mesa masculina
Ministro 25 oitavas 30$000 12 oitavas e meia 15$000
Vice-ministro 12 oitavas e meia 15$000 6 oitavas 7$200
Secretário 8 oitavas 9$600 4 oitavas 4$800
Procurador-geral 8 oitavas 9$600 4 oitavas 4$800
Síndico 8 oitavas 9$600 4 oitavas 4$800
Prefeitos (3) 6 oitavas 7$200 3 oitavas 3$600
Definidores (6) 6 oitavas 7$200 3 oitavas 3$600
Vigário do culto divino 6 oitavas 7$200 3 oitavas 3$600
Vice-vigário do culto divino 4 oitavas 4$800 2 oitavas 2$400
Sacristãos (4) 3 oitavas 3$600 1 oitava e meia 1$800
Zeladores (2) 2 oitavas 2$400 1 oitava 1$200
Mesa feminina
Ministra 25 oitavas 30$000 12 oitavas e meia 15$000
Prefeitas (3) 6 oitavas 7$200 3 oitavas 3$600
Vigária do culto divino 6 oitavas 7$200 3 oitavas 3$600
Vice-vigária do culto divino 4 oitavas 4$800 2 oitavas 2$400
Sacristãs (4) 3 oitavas 3$600 1 oitava e meia 1$800
Zeladoras (2) Não paga Não paga Não paga Não paga
Fonte: Elaborado pela autora a partir de LISBOA. ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO. Chancelaria da Ordem de Cristo, Dona Maria. Compromisso da Arquiconfraria do Cordão do Patriarca São Francisco de Vila Nova da Rainha do Caeté. Livro 12, fl. 21v-30v, 1782. Microfilme.
Averígua-se, então, que o beneplácito régio diminuiu pela metade o valor cobrado de mesada. A redução da quantia paga pelos mesários era prática adotada pelo Tribunal da Mesa de Consciência e Ordens? O beneplácito régio concedido para as congêneres da sede do bispado e da Vila Nova da Rainha do Caeté atesta que sim. Basta saber se, em geral, as associações religiosas possuíam ciência do predito costume e se já calculavam a redução do valor da mesada ao estipularem a quantia, que variava conforme o cargo, pois cada um dos postos executava função específica.
De acordo com o regimento interno da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Vila Nova da Rainha do Caeté, o comissário deveria ser sacerdote do hábito de São Pedro e terceiro franciscano ou membro da própria associação religiosa. Era escolhido pela Mesa administrativa, que poderia destituí-lo quando não cumprisse, na íntegra e com dedicação, os encargos de seu posto. Por se tratar do líder espiritual da agremiação, era a
“principal Pessoa”242, a quem os devotos deviam tratar com o máximo respeito e zelo.
Recebia anualmente côngrua pelas atividades prestadas. Além de missa e procissão, fazia parte das atribuições do comissário realizar festejo e jubileu, assim como a assistência espiritual aos enfermos e encomendação, no caso de falecimento. Também tinha como responsabilidade benzer os cordões e lançar os hábitos em todos os novos associados.
Segundo o regimento interno da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco do Ribeirão de Santa Bárbara, o comissário obrigatoriamente deveria “exercitar aos Irmaõs Confrades no exercicio espiritual, / e lhes dará expediçaõ desta occupaçaõ taõ santa; e or-/denamos que a Meza lhes dê todo o favor, e ajuda; proceden-/do nisto como verdadeiros imitadores do Nosso Padre São Fran-/cisco”243.
O regimento da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Vila Nova da Rainha do Caeté apresenta, de modo sucinto, a prerrogativa necessária para se ocupar os cargos de ministro e vice-ministro na Mesa administrativa e especifica, também, as funções de cada um dos cargos. O ministro se destaca como “a prin/cipal Pessoa”244 depois do comissário. Por essa razão, é o leigo de maior importância entre os mesários e deveria ser
242 LISBOA. ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO. Chancelaria da Ordem de Cristo, Dona Maria.
Compromisso da Arquiconfraria do Cordão do Patriarca São Francisco de Vila Nova da Rainha do Caeté.
Livro 12, fl. 21v-30v, 1782. Microfilme. fl. 22v.
243 MARIANA. ARQUIVO ECLESIÁSTICO DA ARQUIDIOCESE DE MARIANA. Compromissos de irmandades. Estatuto da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco do Ribeirão de Santa Bárbara. Armário 8, Prateleira 1, 1797-1853. Manuscrito. fl. 6v.
244 LISBOA. ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO. Chancelaria da Ordem de Cristo, Dona Maria.
Compromisso da Arquiconfraria do Cordão do Patriarca São Francisco de Vila Nova da Rainha do Caeté.
Livro 12, fl. 21v-30v, 1782. Microfilme. fl. 23v.
respeitado pelos demais membros ao presidir não somente as reuniões da Mesa gestora, mas alguns dos atos paralitúrgicos. Caso se constatasse desrespeito ou possível desordem, o ministro deveria informar o comissário para que ele repreendesse, de modo efetivo, a situação e o fiel transgressor. Em outras palavras, o ministro devia satisfação de suas ações e das ações do restante dos arquiconfrades ao reverendo, único responsável pelas admoestações. O regimento interno da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana, do ano de 1761, determina o ministro como “Pay e superior nosso”245. O documento ressalta, ainda, a necessidade de se manter sigilo acerca dos assuntos debatidos pela Mesa gestora.
O prestígio do ministro se fazia visível na procissão, pois sua competência o capacitava a levar a vara que continha as insígnias da corporação pintada de preto. No dia do jubileu, ministrava o “labatorio”246 (o mesmo que lavatório) e registrava as cortes no Dia de Reis, em 6 de janeiro. Ao ver-se impossibilitado de executar as demandas descritas acima, devia ser substituído pelo seu vice, cuja determinação do cargo ainda inclui a obrigatoriedade de mandar armar o templo nos dias de procissão e convocar a Mesa, quando necessário. De acordo com o regimento interno da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana, do ano de 1779, a associação religiosa, necessariamente, deveria selecionar os candidatos ao cargo e ministro e ministra entre os devotos “que forem mais abundantes decabedaes, fer/vor, e zello, afim deque no seu anno concorraõ para todo o augmento espiri/tual, e temporal desta Archiconfraria”247. A partir dessa descrição, é plausível pensar que havia uma preocupação da corporação em assegurar que, além do fervor e do zelo espiritual, o ministro também possuísse recursos financeiros para arcar com os compromissos firmados com a agremiação. Para exemplificar, prover as esmolas e anuais referentes a seu cargo, cuja quantia era a mais alta dentre as dos membros da Mesa gestora.
De acordo com regimento da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Vila Nova da Rainha do Caeté, o secretário deveria ser “pessoa de boa deligência e letra”248 porque
245 SÃO JOÃO DEL-REI. MUSEU REGIONAL DE SÃO JOÃO DEL-REI. Biblioteca. Estatuto da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana, 1761-1823. Fotocópia. fl. 20.
246 LISBOA. ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO. Chancelaria da Ordem de Cristo, Dona Maria.
Compromisso da Arquiconfraria do Cordão do Patriarca São Francisco de Vila Nova da Rainha do Caeté.
Livro 12, fl. 21v-30v, 1782. Microfilme. fl. 24.
247 MARIANA. ARQUIVO ECLESIÁSTICO DA ARQUIDIOCESE DE MARIANA. Compromissos de irmandades. Estatuto da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco da Cidade de Mariana. Armário 8, Prateleira 1, 1779-1826. Manuscrito. fl. 9.
248 LISBOA. ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO. Chancelaria da Ordem de Cristo, Dona Maria.
Compromisso da Arquiconfraria do Cordão do Patriarca São Francisco de Vila Nova da Rainha do Caeté.
Livro 12, fl. 21v-30v, 1782. Microfilme. fl. 24.