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A prática reflexiva, no entanto, não é entendida aqui como um simples exercício de análise que identifica o erro ou o culpado. Esse movimento é entendido como um saber racional capaz de enfrentar a complexidade e a diversidade das situações do trabalho, propondo, segundo Perrenoud (2004), a reabilitação da razão prática, a aprendizagem por meio da experiência, da intuição e da reflexão na ação e sobre a ação.

conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas; III – selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema; IV – relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente; V – recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural. § 2º - São as seguintes habilidades a serem avaliadas: I – dada a descrição discursiva ou por ilustração de um experimento ou fenômeno de natureza científica, tecnológica ou social, identificar variáveis relevantes e selecionar os instrumentos necessários para realização ou interpretação do mesmo. (MEC, 1998, p.178)

O novo modelo de avaliação dos saberes relativos ao Ensino Médio passa a configurar importante e decisivo instrumento para o ingresso dos estudantes em universidades públicas e particulares. Em seu texto inicial estabelece sua postura frente ao aluno que pretende avaliar, e nesse contexto, o define como alguém que precisa ter um enorme potencial crítico, percepção das múltiplas possibilidades linguísticas, capacidade como leitor efetivo de inúmeros textos representativos de nossa cultura e, sobretudo, a formação de competências e habilidades, aqui entendidas como ―saber fazer‖, necessárias às práticas de leitura e escrita.

Durante muito tempo um discurso sobre o vestibular tomou conta das escolas, em especial do Ensino Médio, ao dizer que precisavam preparar o aluno para as temidas avaliações de múltipla escolha, que correspondiam tão somente a decorar respostas, infinitas listagens de conteúdos, o saber apenas por saber, oriundas geralmente dos métodos de transmissão e memorização. Era uníssono que tais práticas e avaliações constituíam um ensino desumano e que em alguns momentos, não correspondiam a uma verdade sobre avaliar concretamente o conhecimento de um aluno. Amplamente questionado, o temido vestibular é substituído gradativamente no país pelo ENEM.

Inovação necessária, preconizada e esperada por muitos professores, acarretou modificações necessárias nas estruturas das escolas brasileiras, em especial nas redes públicas do país. Superar a cultura estabelecida de base conteudista e tradicionalista foi o grande desafio para a educação desde então. Uma aproximação entre o que parametrizam os documentos oficiais, em especial os PCN, e os objetivos do ENEM, colabora para o entendimento do que se pretende ao avaliar habilidades e competências humanas como um procedimento adaptado às exigências de uma nova sociedade.

O ENEM, nessa perspectiva, busca avaliar competências mais complexas, tais como as descritas no segundo artigo de sua constituição, destacando-se o domínio das linguagens e

o domínio da norma culta da língua portuguesa, fazer uso da linguagem matemática, artística e científica; a compreensão de fenômenos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas; enfrentamento de situações-problema o que significa selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representadas de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema; construção de argumentações, o que exige o relacionamento de informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente; elaboração de propostas de intervenção, o que exige recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.

Essa nova maneira de conceber o conhecimento passou a exigir da escola um trabalho sistemático com o desenvolvimento de habilidades para atingir tais competências. Nesse aspecto, muitos foram os discursos acerca do ensino por competências e habilidades que na prática, figuraram bem no campo da teoria. A apreensão dessas competências deve acontecer através da mediação da escola, para que sejam empregadas pelos alunos, sobretudo com vistas à geração de novos conhecimentos científicos e proposição de ações factíveis para resolverproblemas concretos.

A adoção de exames de admissão às universidades com base em provas que exigem mais dos alunos não garante uma nova maneira de avaliar e de conceber o ensino, ao contrário, tornam-se grandes problemas. A forma de preparação desses alunos para esses exames e – em especial – para a vida, demanda a revisão de todo um modo de pensar, agir e realizar em educação que há décadas mantém a cultura do acúmulo de conteúdo.

O novo Enem cria assim demandas que não existiam, sobretudo, no que tange a formação do professor. Se antes o vestibular configurava o espaço para o conteúdo, agora através de suas questões, a nova avaliação busca o desenvolvimento do raciocínio, a capacidade de relacionar, a possibilidade de ir além da mera memorização de fórmulas e dados. Dessa forma, cabe ao professor o desenvolvimento dessas competências e exigiu-se que todos repensassem a forma e os objetivos como suas aulas estavam organizadas. Um movimento de renovação de práticas, para atender a uma renovação de avaliação.

Muitos conceitos precisam ser inseridos no cotidiano escolar, a interdisciplinaridade, a multidisciplinaridade e a transdiciplinaridade entram em cena. A necessidade de múltiplos recursos, de inúmeros contextos de aprendizagem e o confronto entre os saberes instituídos

passam a figurar com as dificuldades frequentemente apontadas pelos professores. Andriola (2011) assevera que

O modelo do ENEM induz o Ensino Médio a adotar uma proposta pedagógica centrada no desenvolvimento de competências relevantes para o cidadão dessa nova sociedade. Retira-se, desse modo, o foco principal de formação do aluno com base na aquisição de conhecimentos e no domínio de conteúdos escolares, como se faz no atual modelo de Ensino Médio.

(ANDRIOLA, 2011, p.119)

Apesar dos apelos apresentados para uma nova postura frente ao ensino e à educação das novas gerações, como se observa no fragmento acima, ou mesmo nos inúmeros textos, orientações e postulados, uma percepção é clara: a de que ainda interessa a nota da avaliação, perseguida como resultado, como meta. Despreza-se o que deveria ocupar temática central para uma nova postura educativa, a formação ampla, crítica, cidadã, ética, multidisciplinar que se pretende e que deveria ser o principal objetivo. A escola continua preparando o aluno para fazer prova, não para o exercício pleno de sua cidadania.

Ir além dessa concepção e entender que os saberes não são dissociados constituem grandes desafios para a escola contemporânea. Ao reunir em áreas de conhecimento as disciplinas e destacar a linguagem como múltiplas possibilidades dessa integração, a referida avaliação procura esclarecer a necessidade premente de um maior conhecimento acerca da heterogeneidade histórica, social, linguística, cultural, étnica, que conforma uma federação unificada pela língua.