2.1 – Panorama Geral: entre cores de pele, nações e o Código Criminal de 1830
No período analisado nesta tese, averiguou-se a existência de certa hierarquia social com base na cor, naturalidade e condição, que delegava aos escravos, forros e indivíduos com cor de pele mais escura, certo caráter de inferioridade. Muitas vezes, indivíduos se apropriavam destes preconceitos de cor, em proveito próprio. Isto é perceptível nos depoimentos dos processos, quando testemunhas, vítimas ou réus nomeavam indivíduos pela cor. Como afirmou Cardoso, “as referências à cor podiam traduzir várias identidades, dependendo do lugar social de quem falava” (CARDOSO, 2004: 65).
Estas conclusões de Maria Tereza Cardoso instigam o questionamento sobre estas alcunhas, principalmente aquelas que se referem ao que Mary Karasch denominou de “nações brasileiras”, ou seja, crioulos, pardos e cabras — dentre outras —, qualificações mais comumente utilizadas para descendentes de escravos, no sudeste do Brasil no século XIX (KARASCH, 2000: 37).
Assim, as nações brasileiras que estavam divididas pela cor, incluíam os ha- bitantes originais da terra (botocudos e outros), as populações racialmente mistas de todo o Brasil (os cabras), os orgulhosos descendentes de africanos e europeus (os pardos) e os negros nacionalistas nascidos no Brasil (os criou- los) (KARASCH, 2000: 40).
Ao denominarem indivíduos de pretos, negros ou crioulos, estavam delegando aos mesmos o status mais inferior da sociedade, aproximando-os da escravidão e da origem africana, tida como mais inclinada à violência, ao desvio de conduta, e ao comportamento criminalizado. E em detrimento disso, mais limitada em seus direitos e liberdades, mesmo que não fossem mais escravos, e tivessem já alcançado a alforria. O escravismo delegou aos africanos e seus descendentes um status político-social inferior ao das outras pessoas. Por consequência, colocações jurídicas específicas também lhes foram atribuídas. Aos afrodescendentes, foram conferidos rótulos raciais diversos, ao mesmo tempo em que sua própria identidade se reconstruía edificando espaços sociais e políticos. Termos como preto, pardo, crioulo ou cabra assim como designações relacionadas a grupos culturais e regiões africanas como benguela, angola, congo, mayombe, cabinda, monjolo, mina e outros,
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representavam identidades complexas de grande importância e diferentes usos nos universos culturais e judiciários.
Este contexto se verifica tanto no cotidiano dos processos criminais, quanto nos dizeres dos parlamentares que votaram o Código Criminal de 1830, e que delegaram enfaticamente a pena de morte aos escravos nos casos de homicídios e insurreições: “[...] A pena de morte deve ser com efeito abolida nos casos políticos, porém não nos casos de homicídio, e para conter a escravatura, pois que esta é a única pena que pode a conter”, registrou o deputado Rego Barros nos debates parlamentares que precederam a publicação do referido Código (NEDER, 2009: 313).
Se os comportamentos violentos destes indivíduos eram algo a se criminalizar, também foi algo que ajudou a moldar a cultura jurídica daquele período, desde o processo legislativo, até a sua aplicação penal em primeira instância. Ao mesmo tempo, somaram preceitos que constituíram variadas faces da cultura jurídica consuetudinária, muitas vezes criminalizada, noutras legitimada em muitos aspectos pelos funcionários da justiça.
A situação dos cativos esteve nos debates parlamentares sobre pena de morte, crimes de homicídio e de insurreição. Foram criadas leis específicas contra escravos que matassem senhores e feitores, como a Lei de 10 de Junho de 1835, que os impedia de recurso quando condenados.48 Ao mesmo tempo, participaram dos processos criminais de variadas formas, como réus, testemunhas, vítimas e denunciantes, contribuindo com suas concepções culturais, para o desenvolvimento dos processos, e para a construção das culturas jurídicas brasileiras daquela época. Daí a importância de se saber de onde vieram, de se entender quais os trajetos históricos e culturais pelos quais passaram, e quais os traços das culturas jurídico-penais que carregavam quando foram registrados nos processos.
Os historiadores Douglas Cole Libby e Zephyr Frank seguem o raciocínio de que a miscigenação e a maioria masculina da população mineira, desde o século XVIII
48 Art. 1º - Serão punidos com a pena de morte os escravos ou escravas, que matarem por qualquer maneira que seja, propinarem veneno, ferirem gravemente, ou fizerem qualquer outra grave ofensa física a seu senhor, sua mulher, a descendentes ou ascendentes, que em sua companhia morarem, ao administrador, feitor e ás mulheres que com eles viverem. Se o ferimento, ou ofensa física forem leves, a pena será de açoutes, à proporção das circunstâncias mais ou menos agravantes. Art. 2º - - Acontecendo algum dos delitos mencionados no art. 1, o de insurreição, e qualquer outro cometido por pessoas escravas, em que caiba a pena de morte, haverá reunião extraordinária do júri do termo (caso não seja em exercício) convocada pelo Juiz de Direito, a quem tais acontecimentos serão imediatamente comunicados. Art. 3º - Os juizes de paz terão jurisdição cumulativa em todo o município para processarem tais delitos até a pronúncia, com as diligências legais posteriores, e prisão dos delinqüentes, e concluído que seja o processo, o enviarão ao Juiz de Direito, para este apresentá-lo ao júri, logo que esteja reunido, e seguir-se os mais termos. Art. 4º - Em tais delitos, a imposição da pena de morte será vencida por dois terços do número de votos; e para outras, pela maioria; e a sentença, se for condenatória, se executará sem recurso algum.Art. 5º - Ficam revogadas todas as leis, decretos e mais disposições em contrário.
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condicionaram graus complexos e diversificados de mestiçagens entre brancos, indígenas e africanos. Por este ângulo, a população mineira se caracterizaria por uma população diversificada e por um universo cultural também complexo (LIBBY e FRANK, 2009: 385- 386).
As fontes históricas, ao mesmo tempo em que exibem os registros das “etnicidades”, iluminando os caminhos historiográficos que buscam as origens destes indivíduos e suas formações culturais, também omitem dados importantes. A falta de informações sobre as condições sociais, naturalidades e tonalidades de pele nas fontes documentais, refletiria certa displicência justificada dos clérigos e escrivães daquela época. Num meio social onde as condições sociais e étnicas dos indivíduos eram reconhecidas publicamente, não era necessário que os autores dos registros os detalhassem. Não significaria, assim, que aqueles sem classificação registrada nos documentos, fossem brancos ou livres, conforme afirma parte da historiografia brasileira sobre o tema (LIBBY e FRANK, 2009: 386-387).
A historiadora Maria Tereza Pereira Cardoso também pesquisou sobre estas designações étnicas na mesma região de Minas Gerais em foco neste trabalho e afirmou que a carência deste tipo de registro indicaria confusão ou “fluidez das categorias utilizadas para nomear a população mestiça”, reflexo de uma “indefinição social desses grupos itinerantes entre o cativeiro e a liberdade”. Além disso, um mesmo indivíduo poderia ser registrado diferentemente, dependendo do tipo de documento e da situação descrita (CARDOSO, 2004:
70).
Estas diferentes informações, ao mesmo tempo em que causam confusão, também exibem peculiaridades da cultura social daquela época, e das tentativas de se registrar as origens étnicas, culturais e geográficas dos escravizados e seus descendentes naquele período.
A cor da pele indicava sua proximidade com a escravidão, e, por consequência, delineava seus status políticos e jurídicos, posicionamentos sociais, direitos e deveres. Também se criava um imaginário sobre o comportamento esperado para cada tipo de indivíduo, e o que lhe devia caber como justo ou injusto, em todas as conformações sociais: trabalho, casamento, família, propriedade, expectativas de futuro, etc.
Existiam concepções de justiça e de direitos, consuetudinários (ou informais), relacionadas a estas designações e ao espaço social que estes indivíduos ocupavam. Quando um indivíduo se afirmava pardo, crioulo ou cabra, por exemplo, ele estava assumindo uma identidade social, que, por outro lado, teria um sentido diferenciado quando estes rótulos eram-lhes impostos por outros. Deste modo, também estariam admitindo para si — e para o
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outro — algum tipo de posição social, caracterizada por hábitos, moralidades, concepções de direitos e de justiças, talvez específicos daqueles grupos. Estes rótulos tiveram algum caráter de agrupamento sociocultural no sentido de apropriarem-se de costumes, concepções, comportamentos, noções de justiça e de violência associados a estes grupos. Estes valores estavam vinculados a concepções culturais de origem americana, africana e europeia, que se instalaram no Brasil, se misturaram e se reinventaram.
Para melhor compreender o contexto destes indivíduos em Oliveira, por meio dos inventários, foi possível quantificar os rótulos entre as diferentes cores de pele, identificados pelos avaliadores e inventariantes dos escravizados deixados de herança nestes documentos.
Entre os 9.429 escravizados registrados nos inventários, 1.275 (13,5%) não tiveram anotados a cor da pele, nem a nação, nem outra informação que pudesse identificá-los desta forma.
Ademais, foram minutados 5.950 escravizados considerados afrodescendentes.49 Entre estes, se incluíram as designações: crioulo, pardo, mulato, cabra, caboclo e alguns de cor fula, assim como os termos brasileiro, caboclo e cigano.
Os “mulatos” ocorreram 25 vezes, e, provavelmente também têm relação com tonalidades de pele “menos escuras”, algo entre pardo e cabra (LIBBY e FRANK, 2009: 387- 389). De acordo com Karasch, alguns viajantes no século XIX, consideravam que no sudeste brasileiro, os mulatos e os pardos tinham o mesmo significado quanto à cor da pele (KARASCH, 200: 39). Conforme será explicado, os mulatos foram, junto a caboclo e fula, alguns dos termos menos utilizados nas fontes.
Quanto aos “caboclos”, foram encontrados apenas dois indivíduos, José, inventariado em 1866, na propriedade do falecido Clariano Ribeiro da Silva, com 52 escravizados;50 e Raimundo, de 32 anos, encontrado junto a mais 91 cativos que pertenciam ao comendador Francisco das Chagas Andrade.51 O termo também estava ligado ao “homem da terra”, indicando também algum tipo de mestiçagem com indígenas nativos do Brasil (CARDOSO, 2004: 70).
Apenas um escravizado foi anotado como “cigano”: Francisco, de 34 anos, avaliado em 500$000, que junto a mais 20 cativos, pertencia à falecida Josefa Maria de Jesus, com inventário registrado em 1845.52 Não se sabe ao certo porque recebeu esta designação. Pouco
49 Conforme será discutido em outras partes do texto, alguns termos como os fulas podem ter representado tanto afrodescendentes quanto africanos ocidentais, e, portanto, este número (5.938) pode variar um pouco. Estas estas situações serão expostas e relativizadas.
50 Fórum de Oliveira/Labdoc/UFSJ -: Inventários: Caixa 48 – 1866.
51 Fórum de Oliveira/Labdoc/UFSJ -: Inventários: Caixa 12 – 1845.
52 Fórum de Oliveira/Labdoc/UFSJ -: Inventários: Caixa 12 – 1845.
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se conhece sobre os ciganos nas Minas Gerais do século XIX, mas com certeza era uma tipologia atribuída a alguma categoria social “considerada nociva ou potencialmente perigosa ao funcionamento da sociedade” (THIESEN e PATRASSO, 2012: 87). Os ciganos, pelo menos na primeira metade do século XIX mineiro, eram vistos “como indivíduo(s) suspeito(s) por barganhar escravos e animais adquiridos ilicitamente” (TEIXEIRA, 2008: 34).
Há alguns processos criminais que aludem a situações deste tipo envolvendo ciganos.
Fortunato Reis foi acusado de furto de cavalos em 1873 no distrito de Carmo da Mata. O réu afirmou que foram ciganos que lhe deram os animais por tê-los acompanhado por algum tempo. Apesar de já ter sido preso anteriormente por furto de animais, foi absolvido pelo juiz.53 Um cigano que ficou famoso na comarca do Rio das Mortes foi Joaquim Caetano Alves Saião Beiju, que chegou a ser citado pelo viajante Richard Burton como “Fra diavolo”, e também era conhecido como “Cigano Beiju”, “célebre cigano, criminoso de morte”
(VELLASCO, 2004: 102-103).
Ao ler o texto de Rodrigo Teixeira sobre os ciganos, encontrar um cigano escravo parece ser um tanto contraditório, já que era um povo nômade, que em cujas “comunidades não possuíam escravos, por isto ganhavam seus rendimentos com o próprio trabalho”
(TEIXEIRA, 2008: 36). Entretanto, o próprio autor ressalta que os ciganos se aproveitaram do mercado de escravos para comercializar peças humanas, chegando a ter papel importante neste setor econômico em Minas Gerais (TEIXEIRA, 2008: 7).
“Apesar da miséria de muitos bandos ciganos, eles nunca eram considerados simplesmente pobres, mas, antes de tudo, um grupo etnicamente diferenciado, uma "raça" — raça de ladrões, sujos e preguiçosos” (TEIXEIRA, 2008: 37). O fato curioso de se encontrar um escravo denominado como cigano pode ter relação com a cor de sua pele, fisionomia, adereços e roupas ou com algum costume que ele possa ter adquirido, e que pudesse ser atrelado a ele, a alcunha destes povos nômades. Talvez ele possa ter pertencido a algum cigano, e comungado alguns costumes com eles. No século XVIII, uma carta do governador interino da capitania da Bahia, José Carvalho de Andrade, enfatiza que os escravos dos ciganos eram como eles (TEIXEIRA, 2008: 20-21). Os ciganos se constituem da diversidade, com múltiplas identidades, e são dificilmente descritos com exatidão. Nem eles próprios conhecem todos os detalhes de sua identidade. Conforme Teixeira adverte:
Há aspectos da identidade cigana compartilhados por todos os ciganos, ou- tros que são particulares de cada subgrupo e ainda outros selecionados pelo indivíduo num leque de opções. Cada cigano é portador de um conjunto sin-
53 Fórum de Oliveira/Labdoc/UFSJ - Processos criminais: Caixa: 18-422-1873.
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gular de elementos dessa identidade, embora, não haja uma noção de indivi- dualidade tal como no mundo ocidental (TEIXEIRA, 2008: 11).
Enquanto isto, o termo “fula” pode ser compreendido, tanto como designativo de afrodescendente, quanto como referência a uma nação com origem na África Ocidental. Este desígnio foi verificado sob quatro formas diferentes. Quando anexado a rótulos da cor da pele ou ao termo crioulo, como por exemplo, "Pompeo, cor fula", "Belarmino, Crioulo fula", provavelmente se estava descrevendo indivíduos afrodescendentes. Da mesma forma, no processo de homicídio do réu Francisco Fernandes Crioulo Forro, o acusado é descrito como
“de estatura ordinária, rosto comprido, olhos ordinários, nariz afilado e pés grandes e com todos os dentes, crioulo de cor fula (grifo meu), natural do distrito desta vila, 25 anos, jornaleiro, não sabe ler nem escrever e sem deformidade alguma no corpo".54
O “crioulo fula” Belarmino, citado acima, tinha oito anos de idade. Foi avaliado em 400$000 e estava numa propriedade com mais 85 cativos, pertencentes à falecida Thomázia Maria de Jesus, em inventário de 1845.55 Foi o único descrito desta forma neste documento.
Além deste, houve somente mais uma ocorrência de escravizado com esta designação em todo o acervo de inventários: Saturnino “Crioulo fula”, sem idade registrada, avaliado em 1:800$000, pertencia à propriedade de Maria Constança de Castro, registrada em 1882, com total de cinco escravizados.56
Quanto àqueles rotulados como de “cor fula”, foram identificados seis indivíduos entre 13 e 33 anos, três homens e três mulheres, todos pertencentes a uma mesma propriedade de 10 cativos, da falecida Jacinta Luísa de Oliveira, em 1880.57 Em 1881 também foi encontrada uma referência a um “fula ingênuo”, José, de 1 ano de idade, pertencente à falecida Francisca Ribeiro de Paula, que possuía ainda mais 7 escravizados, entre pretos, pardos e crioulos, e mais nenhum fula. Se estes rótulos relacionados aos “fulas” forem considerados separadamente como descrição de uma cor específica dos afrodescendentes, tem-se uma amostra de 9 indivíduos de “cor fula”, aparentemente não ligados aos fulas de origem africana.
Desta forma, restaram ainda 27 escravizados rotulados apenas como “fula”. Quando este termo é assim encontrado, junto ao nome do escravizado, como por exemplo "Fortunato fula", pode ser que se esteja fazendo referência à nação originária da região da Senegâmbia,
54 Fórum de Oliveira/Labdoc/UFSJ - Processos criminais: Caixa: 51-02-1841.
55 Fórum de Oliveira/Labdoc/UFSJ -: Inventários: Caixa 12 – 1845.
56 Fórum de Oliveira/Labdoc/UFSJ -: Inventários: Caixa 68 – 1882.
57 Fórum de Oliveira/Labdoc/UFSJ -: Inventários: Caixa 66 – 1880.
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entre os Rios Senegal e Gâmbia, no atlântico norte do continente africano (África Ocidental).
Segundo Mary Karasch, eles estavam vinculados à religião muçulmana e teriam sido incluídos entre aqueles rotulados de “minas” no sudeste (KARASCH, 2000: 64). Não existem muitas pesquisas sobre os fulas no Brasil.
No Nordeste brasileiro, Walter Hawthorne também se debruçou sobre inventários e encontrou 92 escravizados descritos como fulas entre 1788 e 1831.58 De acordo com Hawthorne, até o século XVI, os Fulas não eram muçulmanos, mas pastores e agricultores vindos da savana africana para o oeste do continente para a região de Kaabu. Alguns de seus escravizados ocupavam posições de destaque e outros acabavam nos mercados atlânticos de escravos. Durante o século XVIII, a influência muçulmana alcança parte dos Fulas que acabam dominando a região, entrando em conflito também com outras nações, o que desenvolve o comércio de armas com europeus no litoral e as guerras por escravos no interior (HAWTHORNE, 2010: 67-68).
José da Silva Horta, ao analisar o relato de André Álvares de Almada (“Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo Verde”) escrito nos anos finais do século XVI, traz algumas considerações sobre os Fulas da Guiné enquanto nação ou grupo étnico caracterizado por
“marcadores identitários” próprios, como vestuário, armamento, formas de fazer guerra, e também pela pele de “cor amulatada”. Os fulas foram descritos então, como “homens robustos bem dispostos”, com “cabelos corredios, e ainda que algum tanto crespos, trazem as barbas crescidas”; “são mui guerreiros; fazem guerra algumas vezes aos Jalofos (...). Usam grandemente de gente frecheira de cavalo” (HORTA, 2013: 658). Entretanto, entre os fulas, parece que também existiam os “Fulas pretos” que viviam entre os Wolof e que tinham origem na região de Fuuta-Tooro, antigo Takrûr , acima de Waalo, no Vale do Rio Senegal”.
Ao que parece, estes eram indivíduos com a mesma cultura “fula”, ou ligados a um mesmo território ou líder, mas de cor de pele mais escura (HORTA, 2013: 659).
Contudo, se foi encontrado nos inventários, dois tipos de fulas, conforme se tem tratado, um com respeito à cor da pele dos afrodescendentes e outro relacionado à uma nação da África Ocidental, é necessário evidenciar um caso ainda mais singular. Um dos 43 escravos do inventário de José Coelho dos Santos, registrado em 1853, foi anotado como “José Fula Monjolo”, de 60 anos, avaliado em 150$000.59 Esta última descrição, “Monjolo”, diz respeito
58 A tabela com banco de dados relacionados à todos os escravos pesquisados por Hawthorn no Arquivo Judiciário do Estado do Maranhão em São Luís, está disponível para download e leitura no site:
http://slavebiographies.org/databases.php. Acessado em 02/10/2017.
59 Fórum de Oliveira/Labdoc/UFSJ -: Inventários: Caixa 26 – 1853.
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a uma nação com origem na África Central Ocidental (LIBBY e FRANK, 2009: 290) — África Central Atlântica (PAIVA, 2001: 71). Provavelmente referia-se a algum grupo étnico dentre os Bacongo da região do Congo e norte de Angola, que esteve presente no sudeste do Brasil durante os séculos XVIII e XIX. Nos inventários de Oliveira, foram encontrados 27 monjolos, entre 1828 (primeiro registro) e 1858 (último registro).
No Brasil, alguns relatos de viajantes também descreveram os monjolos, como o fez Johann Moritz Rugendas, que os colocou como “os menos estimados”, e caracterizando-os de
“pequenos e fracos, muito feios, preguiçosos e desanimados, sua cor tende para o marrom e são os que se compram mais baratos” (SOARES, GOMES e FARIAS, 2005: 30-31). Talvez esta cor que tendia para o marrom tivesse sido confundida com a “cor fula” na descrição de
“José Fula Monjolo”. Ao contrário de Rugendas, Friedrich von Weech descreveu os monjolos de forma relativamente mais positiva. Conforme explicou Karasch,
No Rio, angicos e monjolos tinham a fama de ser numerosos, de boa aparên- cia, astutos e corajosos, inclinados à revolta e à resistência se sofressem a- gressões. De fato, Weech descreveu-os como amantes da liberdade, orgulho- sos e teimosos, bons escravos se fossem bem tratados. Em caso contrário, cometiam suicídio (KARASCH, 2000: 54).
A partir destes registros, se propõe questionamentos sobre esta identidade “Fula Monjolo”. Este indivíduo tinha em sua descrição, um nome português, uma nação da África Ocidental e outra da África Central, e estava escravizado dentro de uma propriedade no interior de Minas Gerais, aos 60 anos de idade, junto a pelo menos 42 pessoas de mesma condição e variadas origens, africanas e americanas. Ao mesmo tempo em que esta descrição reflete uma das inúmeras e multifacetadas identidades atlânticas, talvez neste caso a descrição
“fula” estivesse relacionada à cor da pele e não aos fulas da Senegâmbia.
Independente da identificação que se faz das origens de José Fula Monjolo compreende-se que este é um exemplo de como estas descrições das cores de pele, e das nações que acompanharam os escravizados brasileiros e africanos são complexas e ainda necessitam de discussões e análises pormenorizadas. Tanto no que diz respeito às formas com que a sociedade produtora das fontes enxergava estas designações, como quanto aos modos com os quais os próprios escravizados construíram suas identidades, tendo em mente estas descrições. Neste caso específico, enfatiza-se que José Fula Monjolo tem origem centro- africana, senão enquanto fula, pelo menos enquanto monjolo.
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No inventário do falecido Major Teodósio da Costa Pereira, registrado em 1874, um escravizado foi registrado como “Joaquim Fula, idade de quarenta e quatro anos, brasileiro, um conto e quinhentos mil réis”. 60 Neste caso, único documento em que se registraram 33 escravizados especificamente como “brasileiros”, fula está certamente mencionando a cor de Joaquim. Da mesma forma com que outros escravizados desta propriedade foram descritos como “José pardo brasileiro”, “João preto brasileiro” ou “Rita preta brasileira”. Ressalta-se que além destas descrições também constam nesta propriedade de 50 cativos, indivíduos descritos apenas como “brasileiro”, sem referência à cor, outros apenas como “crioulo”, ou como “africano”, ou mesmo “preto Africano”, o que direcionaria a descrição “fula” para o significado relacionado à cor da pele.
Ao se distribuir por década, os registros destes 29 “fulas”, que podem ter origem africana, nos inventários de Oliveira, percebe-se que a grande maioria, 21 deles foram registrados na década de 1880, enquanto outros dois aparecem na década de 1870, quatro em 1860 e um na década de 1840, primeira década em que são registrados em Oliveira. Imagina- se, portanto, que, se eles têm origem africana, teriam que ter no mínimo 30 anos de idade na última década da escravidão, pois o tráfico fora abolido em 1850. Contudo, ao se filtrar a idade destes indivíduos obteve-se apenas 10 escravizados com mais de três décadas de vida.
Desta forma, os outros onze não devem ser de origem africana, sendo “fula”, portanto, para estes, descrições apenas da cor da pele.
Desta forma, os africanos escravizados e exportados para o Brasil foram acompanhados por “nações”. Estas qualificações, muitas vezes confundidas entre identidades étnicas e regiões de procedência, como Benguela, Loanda, Congo, Haussá, Nagô, Mayombe (entre centenas de outros) têm sido destaque entre várias pesquisas historiográficas. Muitos autores têm defendido as teses de “reapropriação identitária” destas designações pelos próprios escravizados, que teriam reconstruído grupos e instituições sociais, assim como preceitos culturais, a partir destas identidades renovadas.
A partir disso, questiona-se se seria também correto afirmar que existiram no Brasil tipos de culturas jurídico-penais que poderiam ser interligadas a estas identidades. Teriam existido concepções de justiça específicas atreladas a estes grupos de benguelas, congos, angolas, mayombes, fulas, etc? Quais seriam suas semelhanças e diferenças? Teriam estabelecido padrões de criminalidade ou de comportamentos violentos que estivessem ligados a concepções culturais de justiça? Como identificar estas formas de pensamento e
60 Fórum de Oliveira/Labdoc/UFSJ -: Inventários: Caixa 57 – 1874.