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Entre opositores e defensores, o debate continua

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 131-136)

3.1 O contexto histórico da abolição no Brasil

3.1.3 Entre opositores e defensores, o debate continua

interessava aos fazendeiros de São Paulo uma abolição radical da escravidão. Já para as províncias do Norte e do Nordeste, menos dependentes do trabalho escravo, assim como para os profissionais urbanos, a libertação dos escravos foi aceita com mais facilidade.

Bonifácio. Adotando uma posição paternalista, afirmavam que a abolição não deveria dar-se de forma abrupta, e sim gradual e espontânea, conforme o desenvolvimento da sociedade.

Somente assim, os negros poderiam ser “preparados” para a liberdade e “integrados” no seio da sociedade. Em vista disso, Alencar combateu na Câmara a Lei do Ventre Livre apresentada em 1871, pois considerava que o decreto apressaria a abolição, pondo em perigo o desenvolvimento da indústria no país. Antes de lhes conceder a liberdade, seria necessário que a inteligência dos negros viesse a ser “esclarecida”:

Não basta para vós, dizer a criatura, tolhida em sua inteligência, abatida em sua consciência – Tu és livre; vai, percorre os campos como uma besta fera! Não senhores, é preciso esclarecer a inteligência embotada, elevar a consciência humilhada, para que um dia, no momento de conceder-lhe a liberdade, possamos dizer – vós sois homens, sois cidadãos. Nós vos redimimos, não só do cativeiro como da ignorância, da miséria, da animalidade em que jazeis (ALENCAR (1871), APUD VENTURA, 1987, p. 55).

A posição, poderíamos considerar, evolutiva de Alencar, colidia com as intenções de Joaquim Nabuco de abolir a escravidão de forma imediata e radical. As diferentes opiniões levaram a uma polêmica entre os intelectuais, a qual Ventura (1987, p. 56) considerou indicativa para a mudança de padrão cultural ocorrida na década de 1870. Foi naquele período, que observamos uma tentativa por parte da elite branca de incorporar o elemento negro como objeto e tema no discurso cultural e nacional. Era de suma importância para um determinado grupo da classe dominante que a transição do negro da escravidão para a liberdade fosse feita de forma cautelosa, de modo que os “prejuízos” pudessem ser minimizados. Nesse sentido, observamos na declaração de Bonifácio a ânsia de primeiro fazer dos escravos entes “dignos” de liberdade, antes de finalmente libertá-los39:

Torno a dizer, porém, que eu não desejo ver abolida de repente a escravidão; tal acontecimento traria consigo grandes males. Para emancipar escravos sem prejuízo da sociedade, cumpre fazê-los primeiramente dignos da liberdade: cumpre que sejamos forçados pela razão e pela lei a convertê-los gradualmente de vis escravos em homens livres e ativos (ANDRADA E SILVA, 1998, p. 62).

É evidente que a intenção de Bonifácio não foi propriamente melhorar a situação dos escravos, mas sim garantir a estabilidade econômica da elite brasileira que havia enriquecido

39 Representação à assembleia geral constituinte e legislativa do Império do Brasil sobre a escravatura (1823).

à custa do trabalho escravo. Era, portanto, de central importância que os cativos passassem a ser homens livres, mas também que fossem “ativos”, ou seja, que uma vez libertos, contribuíssem para o crescimento da economia brasileira. Apelou Bonifácio, assim, para a razão dos ouvintes. O objetivo era que estes não se precipitassem abolindo a escravidão de forma repentina e sem suficiente preparação, pois isso poderia trazer consigo “grandes males”. Dolhnihoff observou que, procurando garantir um maior desenvolvimento econômico para o Brasil por meio da abolição gradual, Bonifácio buscou conferir ao país competitividade no plano internacional. Com esse intuito, ele elevou o Brasil ao mesmo patamar de países mais “avançados” ao mesmo tempo que preservou a ordem social interna (DOLHNIKOFF, 1998, p. 30).

A argumentação em torno das vantagens ou desvantagens financeiras do sistema escravista foi um tema central no debate abolicionista. Ela, entretanto, era ambivalente.

Enquanto para os proprietários de terras, conservadores e defensores do status quo, o fim da escravidão representava a morte financeira do país, para os liberais e abolicionistas, era justamente o sistema escravista que impedia que o Brasil crescesse economicamente e alcançasse o mesmo desenvolvimento dos países “modernos”. A escravidão nas últimas décadas do século XIX começava a ser vista por grande parte da elite como um atraso financeiro.

A proibição do tráfico gerou grande insegurança entre os proprietários de terras que não sabiam como manter a produção, caso o número de escravos viesse a diminuir. Os comerciantes de escravos souberam aproveitar dessa situação e elevaram ao extremo o preço dos cativos. Esse aumento do valor monetário do escravo, contudo, levou, alguns integrantes da elite brasileira a investir mais no trabalho assalariado. Para muitos, a escravidão tornava-se sinônimo de desacumulação de capital, de mau investimento. Essa posição foi defendida, entre outros, pelo abolicionista Joaquim Nabuco (2000, p. 49), para quem a escravidão:

[...] é um peso enorme que atrasa o Brasil no seu crescimento em comparação com os outros Estados sul-americanos que a não conhecem; porque, a continuar, esse regime há de forçosamente dar em resultado o desmembramento e a ruína do país;

porque a conta dos seus prejuízos e lucros cessantes reduz a nada o seu apregoado ativo, e importa em uma perda nacional enorme e contínua.

Também para José do Patrocínio, a escravidão representava uma grande ameaça ao desenvolvimento econômico do país, e isso não somente porque o escravo havia se

transformado em um acessório quase de luxo. Segundo o estadista, a relação entre senhores e escravos havia mudado de forma irremediável. Entre eles existiria uma “suspeição” que haveria de crescer a cada dia, conduzindo ao detrimento mútuo que colocaria em risco os envolvidos, assim como toda a sociedade:

Aí se verificaria como a escravatura, longe de ser uma garantia da produção, é hoje uma grande ameaça ao seu desenvolvimento.

Hoje ninguém mais pode impedir que haja entre o senhor e o escravo uma suspeição, que se há de aumentar dia a dia. O senhor pelo temor da abolição, o escravo pela convicção de que a sua posição não tem base nem na lei, nem na natureza; tratarão ambos de se prejudicar o mais possível. O senhor buscará extrair da mina negra todo o ouro possível, sem pensar no prejuízo, que resultará de exauri- la. O escravo buscará por todos os meios produzir o menos que lhe for possível.

O prejuízo de tal luta não será, porém sofrido unicamente pelos dois lutadores, mas pela sociedade inteira. O resultado será em definitivo o fenômeno que querem conjurar pela inércia – a diminuição da produção. A este fenômeno deve-se acrescentar que a diminuição não traz nenhum proveito para o país, porque não é a iniciação de uma época nova, mas o gasto imprevidente do sistema de trabalho.

(PATROCÍNIO, 1996, p. 26; Gazeta de Noticias, 6. Set. 1880)

A declaração de José do Patrocínio pôs em evidência outro aspecto que fez parte da argumentação abolicionista nas últimas décadas do século XIX. O sistema escravista não tinha se transformado somente em um atraso financeiro, mas também em um anacronismo per se. Visto que Cuba ainda não tinha conquistado sua independência da Espanha, o Brasil é efetivamente, nas últimas décadas do século XIX, a única nação livre a manter a instituição da escravidão no hemisfério ocidental (VENTURA, 1987, p. 31-32). Independente havia poucas décadas, o Brasil buscava se firmar no contexto econômico internacional e construir uma imagem, para dentro e para fora, de uma nação evoluída e moderna. A escravidão transformava-se, portanto, em um paradoxo para a jovem nação: “o país se candidatava à modernidade, mas convivia com um regime de trabalho completamente retrógrado e antieconômico” (NOGUEIRA, 2000, p. 13). A instituição da escravidão manchava a imagem do Brasil que, buscando atrair o imigrante, “vendia-se” como desenvolvido e agradável de se viver. O Brasil mantinha-se, por meio do sistema escravista, fora da “comunhão civilizada” e a culpa era, segundo Nabuco (2000, p. 48), do Estado:

Nenhum Estado deve ter a liberdade de pôr-se assim fora da comunhão civilizada do mundo, e não tarda, com efeito, o dia em que a escravidão seja considerada legalmente como já o é moralmente, um atentado contra a humanidade toda. [...] De fato, a escravidão pertence ao número das instituções fósseis, e só existe em nosso período social numa porção retardatária do globo, que escaba por infelicidade sua à coesão geral.

Observamos, portanto, que a escravidão também era criticada desde um ponto de vista ético e moral. Essa instituição, que outrora havia sido considerada civilizadora e benevolente, passou a ser apresentada pelos defensores da abolição como cruel, inconveniente e injusta. Os efeitos morais da escravidão teriam sido vários. Em especial, acreditavam que a escravidão pervertia os costumes e os hábitos das famílias brasileiras, ameaçando também os fundamentos da civilização no Brasil. Desse modo, acreditava-se que a escravidão estaria colocando em risco o legado europeu nos trópicos e com isso o futuro do país (VENTURA, 1987, p. 54, 71). Por isso, para vários intelectuais da época, o único meio de cortar o mal pela raiz e salvar o Brasil de um destino de decadência encontrava-se na abolição. Para Nabuco (2000, p. 13), a má conduta dos afro-brasileiros seria produto do meio e da condição de cativeiro em que viviam. Uma vez abolida a escravidão, os negros seriam integrados na sociedade e não representariam um perigo para o branco. O abolicionismo estaria protegendo, assim, não somente os escravos, como também os escravocratas das maldades e imoralidades praticadas pelos cativos.

Para José Bonifácio, abolir a escravidão não era suficiente para garantir o bem-estar da nação. O país somente poderia crescer se da mistura dos diferentes povos, brancos, negros e índios, fosse constituído o povo brasileiro. A ideia de “amalgamar” a nação é propagada por Bonifácio já no início do século. Ele acredita que:

É tempo também que vamos acabando gradualmente até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações uma nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes.

É da maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade física e civil; cuidemos pois desde já tantos elementos discordes e contrários, e em amalgamar tantos metais diversos, para que saia um todo homogêneo e compacto, que se não esfarele ao pequeno toque de qualquer nova convulsão política (ANDRADA E SILVA, 1998, p.

48-49, grifo do autor).

Bonifácio considerava, portanto, necessário acabar gradualmente com a escravidão, pois somente assim poderíamos constituir uma nação “homogênea”. Ficava evidente que além de abolir a escravidão, era também necessário repensar a condição étnica do país, a fim de que

“em poucas gerações” a verdadeira “liberdade” pudesse ser alcançada, ou seja, a libertação em todos os sentidos para mais além da independência. Era preciso construir uma nação forte a partir de sua unificação étnica. A “africanização” do Brasil por meio da escravidão era vista

por Nabuco (2000, p. 59-60) como uma nódoa sobre a população e a amalgamação propalada por Bonifácio deveria ocorrer, preferencialmente, por meio da injeção de elementos tidos como “eugênicos” no cadinho tropical brasileiro (VENTURA, 1987, p. 76). Como veremos mais adiante, a amalgamação da qual tanto se falou principalmente no final do século, seria imaginada antes como uma absorção do elemento negro pelo branco. Grande influência exerceram ideologias raciais, ou melhor, racistas, importadas da Europa. Antes, porém, veremos como foram vencidas as últimas batalhas dos abolicionistas, e como os escravos no Brasil, finalmente, alcançaram sua liberdade legal, ainda que não o reconhecimento como cidadãos iguais.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 131-136)