E4, possibilitou uma nova dinâmica de relacionamento, uma vez que o afeto passava a ser entendido como uma via de mão dupla:
O contato sempre foi feito através de updates na plataforma e emails. A experiência de ser fã envolve amar uma coisa com muita intensidade, mas amar uma série de TV, um filme ou uma história em quadrinhos normalmente é uma via de mão única. Você pode amar uma série, mas é muito difícil que a série te ame de volta. A gente sentiu que tinha essa oportunidade única de dar a todos que financiaram esse produto a chance de sentir que a série estava de certa forma investindo de volta neles, e os amava da mesma forma como eles amavam a série. Tinha tanto amor envolvido. Recebíamos emails de pessoas durante a produção perguntando se poderiam enviar bolos e pães caseiros, porque eles sabiam que estávamos trabalhando muito sem estar recebendo nosso cachê de sempre. (E4)
A proximidade trazida pelas tecnologias é algo claro para E4:
E sinto uma conexão pessoal com isso, me sinto investido nisso porque pra mim esse é o resultado lógico das tecnologias que temos disponíveis hoje. E isso significa pessoas sentindo uma maior conexão direta emocionalmente, não só financeiramente, com os produtores dos conteúdos dos quais eles são fãs.
(E4)
Essa conexão com o financiador é tão pessoal que E4 relata em um dia uma surpresa que fizeram depois de um email recebido:
Teve uma noite no set, quando estávamos prestes a encerrar as gravações do dia, era cerca de 3 da manhã, e a gente recebeu um email de, acho, uma adolescente. Ela dizia: “eu sei que ninguém vai ler isso aqui, mas queria dizer para vocês quanto que xxxx significa pra mim”. Foi muito querido. E no final tinha um “p.s: por favor falem para xxxx que eu o amo”. Quando eu li aquilo, estava perto do xxxx, que estava terminando sua última cena da noite. Quando ele terminou, pedi uns minutos a ele. Fomos para o trailer dele e gravamos um vídeo espontâneo, de celular, dizendo “recebemos seu email, e eu queria que você soubesse o tanto que ele significou para todos nós – e eu também te amo”.
Então uns 40 minutos depois que essa menina mandou um email falando que ninguém leria, ela recebeu de volta uma resposta direta do xxxx só pra ela. E eu amo isso. Eu amo que em 5 ou 10 minutos a gente pode fazer uma coisa que provavelmente vai marcar o mês ou o ano de uma pessoa. É uma coisa incrível poder espalhar tanta alegria. O único lado ruim é que não dá pra fazer pra todo mundo, e a gente não quer que ninguém se sinta excluído. Nosso elenco é incrível e muito grato. Se a gente tivesse tempo, com certeza faria isso para cada um que contribuiu. (E4)
No entanto, mesmo com essa proximidade, ainda é necessário entender os papéis de cada um. O fã é um financiador, mas isso traz a ele voz no processo? Ele pode ser capaz de mudar a história?
Uma vez, tivemos um paparazzi tirando fotos do set que davam a entender que um casal que os fãs não queriam estava se formando. E não foi do jeito que os fãs queriam. Porque a gente não conta a história exata do jeito que os fãs querem, senão a gente não tem uma história para contar. Mas recebemos
centenas de emails depois disso de pessoas dizendo “não foi pra isso que eu dei o meu dinheiro, eu quero meu dinheiro de volta, não foi pra isso que eu financiei esse projeto”. Então tem sido uma curva de aprendizagem bem importante para nós. De quem é a história? Eles estavam dando dinheiro só pro xxxx contar a história que ele queria contar? Ou eles têm participação no processo criativo e não só no processo de produção? Então tem sido uma coisa fascinante pra mim. (E4)
Este é um modelo que permite que o fã se aproprie oficialmente daquele conteúdo, entendendo-se como dono:
Quando eu olho para xxxx, o sucesso desse projeto não foi quanto dinheiro a gente arrecadou, ou quantas pessoas entraram na campanha de financiamento.
Foi o que aconteceu ao longo do ano, quando ficamos tentando fazer um bom produto, autêntico, sobre tudo aquilo que tínhamos falado durante a arrecadação. E uma coisa que eu acho muito incrível aconteceu: a maioria dos nossos apoiadores se referia ao produto como deles. Eles não diziam para as pessoas “espero que você assista xxxx”, mas sim “esse é o meu projeto que eu esperei muitos anos e ajudei a fazer. Estive presente em todas as etapas por trás das cenas, e eu sei o que eles estavam pensando e pelo que passaram para concluir esse projeto. E é meu projeto, estou indo assistir ao meu projeto este fim de semana quando você vier assistir comigo”. E isso soa como o tipo de coisa que um profissional de marketing salivaria, porque uma questão tradicional no marketing é de como manipular as pessoas para uma falsa sensação de que eles são donos desse filme ou série, mas os financiadores têm isso literalmente. Aqueles que contribuíram literalmente são donos do produto final. (E4)
Esta sensação de pertencimento também foi relatada por E2 no tópico anterior, quando comentou que o contribuidor do crowdfunding passa a ter uma conexão ainda mais especial com a série, abraçando um sentimento de pertencimento. Com isso, E4 entende que a tendência do mercado é incluir o fã no centro do negócio:
Mas eu realmente acho que tanto no nível macro quando no micro, cada vez mais os modelos de negócio vão passar a colocar o fandom e a comunidade no centro. Não é “nós precisamos de uma comunidade porque todas essas pessoas nos seguem no Twitter e, portanto, vão divulgar nossa mensagem quando pedirmos a eles, o que vai nos ajudar a ter um bom fim de semana de abertura”
para mim. Mas eu entendo o fandom e a comunidade sendo integrados aos modelos de negócio de uma maneira mais genuína. (E4)
Para ele, este modelo de negócios é uma novidade interessante:
E, para mim, o crowdfunding é interessante, nem tanto pelo que pode ser feito financeiramente, mas sim pela forma como mostra que pode sim existir um modelo de negócios que una os criadores com as pessoas que amam o que está sendo criado. (E4)
No entanto, E4 afirma que não é um modelo único a ser seguido, uma vez que diversos modelos diferentes podem coexistir em um cenário de negócios hoje, mas que enxerga uma tendência de valorização do fã nos modelos de negócio:
Eu acho que uma das tendências suicidas mais estranhas, não só nesse negócio como em todos os tipos de negócio, é achar que uma vez que um modelo foi descoberto, é aquele que tem que ser seguido. Eu acho que o que é muito empolgante hoje é que temos uma multiplicidade de modelos, que funcionam em casos diferentes. É engraçado que a gente fala sobre fã como uma oposição a só audiência, mas eu acho que a ideia do fã se tornar uma parte central dos modelos de negócios hoje em dia, seja em mega franquias ou um nicho minúsculo de fãs hardcore que apoiem xxxx, é o que eu entendo como sendo a razão de séries de TV e um storytelling episódico e serializado serem tão mais populares com a audiência. (E4)
Como evidência dessa tendência de valorização do fã, E4 indica empresas que já fazem essa mediação: “olhe todas as empresas que crescem conectando fãs com as pessoas que produzem aquilo que elas querem, Facebook, Twitter, todas essas empresas, ainda intermediam uma relação que diz que ser fã é expressar seu amor por uma série, um criador ou uma celebridade” (E4).
De qualquer maneira, E4 sinaliza que este modelo trouxe um recado à indústria do audiovisual, inclusive por parte de alguns dos financiadores dos projetos:
Para xxxx, acho que as pessoas não estavam pagando só para reencontrar xxxx.
Na verdade, em alguns casos, eu sei que eles especificamente não estavam porque recebemos vários emails no dia em que finalizamos a campanha de arrecadação de pessoas dizendo “oi, só pra vocês saberem, dei 100 dólares pro seu projeto. Nunca vi a série, a premissa dela me parece bem idiota, tanto faz, é seu projeto e você que se entenda. Mas eu acho muito importante participar dessa mensagem que você está mandando para a indústria, que eles estão ignorando os fãs por sua própria conta e risco, e depois decidindo o que eles acham que nós queremos, se arriscando achando que vamos comprar o que eles querem no final do processo e isso é um insulto”. (E4)
E4 entende que contanto que a proposta e o resultado estejam claros, não há razão para não recorrer a este modelo:
E uma coisa irônica sobre xxxx é que todo mundo na mídia estava determinado a chamar quem contribuiu de otários que não percebiam que estavam sendo explorados e não teriam retorno financeiro. O que não se deram conta é que a arrecadação mitigou os riscos para o estúdio. E as únicas pessoas que não se incomodaram com essas afirmações foram aquelas que doaram dinheiro, justamente por saber exatamente com o que estavam lidando e o que receberiam no final. Nós vemos esse tipo de argumento o tempo todo, nossos fãs discutem com a imprensa porque são os únicos que não entendem que estão sendo passados para trás. Os fãs receberam exatamente aquilo que vinham pedindo há muito tempo, do jeito que queriam. (E4)
Com base nas afirmações de E4, é possível identificar não só um novo modelo de negócios, mas um novo tipo de relacionamento dentro da indústria. Como citado no item 2.4 desta dissertação, Valverde (2011, p. 3), aponta que “o mundo online proporcionou uma mudança nos processos comunicacionais existentes”.
Esta facilidade de interação propiciada pelo digital para comunicação dos fãs, citada por tantos autores pode ser observada na prática por meio dos relatos de E4. A revolução digital trouxe o empoderamento dos fãs (PEARSON, 2010; GALUSZKA, 2015) e novas opções de socialização em torno das séries (VIRINO, 2015).
Como indica Hills (2002), isso interfere nas práticas de fãs em si próprias, e é por isso que já é possível identificar novos formatos de relacionamento dentro da indústria, exemplificados por E4.
5 RESULTADOS E ANÁLISE DA PESQUISA QUANTITATIVA
O questionário foi aplicado de forma online em grupos de WhatsApp, Telegram, Discord, Facebook e páginas de Twitter voltadas para fãs brasileiros e público em geral.
Sua aplicação foi feita ao longo de 11 dias consecutivos, e obteve 418 respondentes.