6. RESULTADOS E DISCUSSÃO
6.1. Perfil da Amostra
6.1.1. Escolaridade, Trabalho e Renda
No que se refere à escolaridade formal completa, 28% (n=4) possui ensino fundamental incompleto (menos de 7 anos de estudo), quatro (n=4; 28%) concluíram o ensino superior, 21% (n=3) cursou até o ensino médio, 14% (n=2) o cursou o ensino fundamental integralmente e uma idosa (n=1; 7%) não informou dados sobre sua escolaridade. Portanto, verificou-se semelhante proporção entre os sujeitos com nível fundamental incompleto e superior completo, na amostra, bem como indica a diversidade e heterogeneidade da escolarização da população idosa que participa de atividades em universidades para a terceira idade (CACHIONI, 2002; CACHIONI;
NERI, 2004).
Na esfera da escolarização, Rosemberg (2005) aproxima educação e gênero ao considerar que o perfil da escolaridade feminina se mostra diferente em função da idade. Segundo a autora, a maior escolaridade feminina em relação à masculina no século XX, se restringiu à faixa etária jovem, marcadamente, entre 15 e 19 anos.
O acesso da população idosa feminina à alfabetização e escolarização se opõe de modo radical ao encontrado em populações de mulheres jovens. A autora sinaliza que a herança patriarcal da restrição do acesso das mulheres à escola e a atual insuficiência dos programas de alfabetização para idosos contribuem para a permanência da desigualdade no âmbito da Educação na terceira idade.
De acordo com Azevedo e Ferreira (2006), a intervenção do Estado sobre as famílias no começo do século XX, especialmente a partir da década de 1940, constituiu uma esfera pública de participação para as mulheres do meio urbano.
Neste sentido, a transição do perfil educacional feminino iniciada no referido período histórico decorre da crescente industrialização, imigrações e crescimento populacional, estruturantes da ordem familiar. Tais fatores influenciaram a conquista de participação social das mulheres.
Camarano, Kanso, Mello (1999) destacam que a heterogeneidade no percurso das mulheres em relação à escolaridade estão expressos pelos índices de analfabetismo entre os idosos. Destacam que nos últimos 60 anos,a população idosa feminina não alfabetizada, representava o elevado número de 74,2%. Sendo que, atualmente, após mais de meio século, o número caiu para quase 1/3 deste montante. Apesar da conquista social do maior acesso das mulheres à
72 escolarização, as pessoas com mais idade permaneceram no grupo de indivíduos menos escolarizados (CAMARANO et al., 1999).
No que se refere ao âmbito do trabalho e as profissões desempenhadas ao longo da vida, 35% (n=5) das idosas tiveram atividades profissionais voltadas à área da Educação. A mesma proporção, 35% (n=5) da amostra, foram costureiras e 28%
(n=4) se encontram na categoria elencada como “outros” (outras profissões e ocupações, como: dona de casa, vendedora e manicure, entrevistadora painel e comerciante).
Em relação ao tempo de exercício em cada profissão/ocupação, as idosas apresentaram: Dona de Casa (toda a vida); Entrevistadora Painel (9 anos);
Vendedora e Manicure (5 anos); Costureira (3 anos; 15 anos; 40 anos; 45 anos e 58 anos); Professora (8 anos; 33 anos; 34 anos e 52 anos); Inspetora/Apoio Escolar (20 anos). Deste modo, as profissões mais duradouras exercidas pelas mulheres foram no âmbito escolar e como costureiras.
Segundo Neves e Pedrosa (2007) o espaço de trabalho das mulheres costureiras, seja como autônoma ou terceirizada por indústrias, em geral, é desempenhado por elas em meio doméstico. Neste ambiente elas permanecem envoltas pelos papeis de mãe, esposa e dona de casa, tendo em vista que realizam suas tarefas ao longo do dia, tornando sua jornada de trabalho longa e exaustiva.
Ademais, são elas quem promove a força de trabalho dos demais familiares, por possibilitar as condições necessárias para o seu retorno ao trabalho externo. As autoras afirmam que a identidade profissional dessas mulheres se torna enfraquecida, pois não há uma divisão clara entre os papéis intra domésticos e do trabalho profissional, tornando este, um trabalho domesticado, que desconsidera seus custos e benefícios, o desenvolvimento de carreira com garantia de direitos trabalhistas e sociais.
A amostra da pesquisa demonstrou, no que se refere aos recursos econômicos/financeiros mensais, que (n=8) 57% do grupo conta com o rendimento de 1 a 3 salários mínimos mensais, 28% (n=4) delas declarou possuir recurso de 6 a 9 salários mínimos e 14% (n=2) afirma ter rendimentos de 3 a 6 salários mínimos.
De acordo com a síntese de indicadores sociais do IBGE (2013), 43,5% dos idosos brasileiros obtinham rendimento per capita de até 1 (um) salário mínimo mensal no ano de 2012.
73 As mulheres idosas que possuem rendimentos provenientes apenas de aposentadoria predominam a amostra, (n=5) 36%. Em relação às pensionistas, apenas uma idosa (7%) encontra-se nessa condição, já 28% (n=4) delas, acumulam aposentadoria e pensões, e a mesma proporção, 28% (n=4) não se encontra nem aposentada ou pensionista. No ano de 2013, os índices da previdência social confirmam o número de 59,1% dos idosos brasileiros aposentados (IBGE, 2013).
Consoante ao pesquisado por Camarano (2003), as mulheres idosas, representam parte significativa do suporte familiar, considerando que, ao todo, 77%
das idosas brasileiras, no ano 2000, recebiam benefícios da seguridade social, incluindo entre elas o massivo contingente de 94% de viúvas dependentes da proteção social. A proporção de idosas que acumulavam aposentadoria e pensão foi de 11,7%, em 2013, número que se destaca frente ao quantitativo de homens idosos na mesma condição, sendo representado em 2,8% (IBGE, 2013).
No que se refere ao cotidiano das idosas, 71% (n=10), declara que as atividades domésticas de limpeza e conservação são realizadas somente por ela.
21% (n=3) recebem ajuda dos demais moradores e familiares (marido, filhos e netos) e 7% (n=1) conta com serviços de auxilio doméstico.
É presente na literatura científica a relação da mulher com os trabalhos domésticos, em especial das mulheres idosas. Para Motta (1999), existem mecanismos entretecidos de desnaturalização da velhice e diluição das fronteiras etárias, que consistem em, simultaneamente, resistir e sobreviver ao modelo construído pelo preconceito social em relação ao idoso. Neste sentido, a antropóloga afirma que as tarefas cotidianas representam significativo aspecto na (re)afirmação da autonomia, independência e resistência das idosas.
Continuando a realizá-las, podem sentir-se saudáveis e vigorosas, e em relação aos homens, neste âmbito, ficam mais dependentes na velhice. As idosas se empenham mais no território das tarefas domésticas, como “donas” deste trabalho, e desses meios de produção e reprodução social. Segundo Motta (1999), “desenha- se, aí, uma interessante questão teórica”. A autora explana:
Tendo o trabalho doméstico, como resultado do intenso debate levado pelo feminismo da década de 70, alcançando estatuto acadêmico como tema, e ao mesmo tempo se fixado politicamente como motivo e símbolo da subordinação feminina, analisado não mais apenas sob o estrito enfoque das relações de gênero, mas abrangendo o da idade/geração, adquire um outro significado,
74 alternativo - exatamente o de meio de auto-afirmação e até de liberação (MOTTA, 1999, p.19).
As diferentes condições de classe, como dispor de recursos financeiros, contribuem para a experiência singular da velhice em relação ao trabalho doméstico.
Na velhice, de acordo com a autora, o trabalho doméstico “(...) parece ser um recurso afirmador, principalmente das mulheres de classe média” (MOTTA, 2007, p.230).
Esta condição se diferencia no âmbito das classes sociais, para as mulheres idosas que tiveram a obrigação de realizá-lo na totalidade das tarefas cotidianas durante a vida. Assim, Motta (1999) conclui que a função tardia do trabalho doméstico indica tanto a independência e resistências das idosas, quanto a possibilidade de, neste momento da vida, tomar conta da própria casa, dada a viuvez ou desconstrução da relação hierárquica no meio familiar.
De acordo com Silva (2006), a constituição dos grupos de pessoas em atividades para a terceira idade identifica-se com as camadas médias urbanas, em que o grupo etário de idosos jovens representa uma parcela da população que conquistou esse espaço de participação - durante o processo de estima pública pela gestão do envelhecimento.
A garantia de seus direitos, sobretudo, a aposentaria, difere da parcela majoritária de idosos em condições econômicas não favoráveis e diante às diversas vulnerabilidades sociais. Conforme Motta (1999), o não provimento de um “lugar social” para a velhice, redirecionou com notável rapidez, seus empreendimentos de gestão para os grupos e programas destinados à velhice ativa. Para a antropóloga, essa transformação é responsável pela visibilidade social dos idosos.
Neste sentido, a terceira idade surge com objetivo de designar a etapa entre a recente aposentadoria e a velhice propriamente dita, historicamente marcada dependência e necessidade de apoio. Esse período é, então, compreendido como de realização, gratificante, com mais liberdade e autonomia (LENOIR, 1979;
DEBERT, 1999).
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