reduzidas à fé." (HOORNAERT13, apud OLIVEIRA, 1985, p. 37). Esse adjetivo, na nossa compreensão, não é um adjetivo qualquer e a ele voltaremos mais tarde.
Vimos que a justificativa religiosa se sobrepõe à comercial quando o Rei de Portugal escreve ao primeiro governador-geral que a principal causa que o levou a povoar o Brasil foi que sua gente se convertesse à “santa fé católica”. Para Oliveira (1985), a conversão dos gentios não era mero pretexto para justificar a colonização, pois tinha implicância política.
Oliveira (1985) ressalta que a reconquista do território português aos mouros tinha sido feita sob bandeira religiosa, e os reis de Portugal tinham obtido dos Papas direitos que lhes interessava fazer valer nas novas terras conquistadas. Na bula da construção da diocese da Bahia, de 1551, por exemplo, o Papa reconhece o Rei de Portugal como principal responsável pela expansão do Cristianismo no Brasil, legitimando ao mesmo tempo a apropriação das terras conquistadas aos indígenas pela Coroa Portuguesa.
Para nós é importante compreender que tanto no período colonial como no imperial, estabelecido a partir de 1808 com a proclamação da independência, o Estado Senhorial tem a função permanente de garantir a grande lavoura. Nas palavras de Oliveira (1985, p. 79): “A organização política muda, as instituições políticas se sucedem, mas a função continua a mesma”.
Importa mais ainda compreender a seguinte questão: se já nesse período, a classe senhorial não precisava mais do catolicismo para legitimar o Estado Nacional, porque o manteve como religião oficial?
2.2.1 Escravos, senhores, Igreja
O escravo possui um dono, é propriedade de alguém. Esse alguém era o senhor.
Ambos eram definidos pelo lugar que ocupavam no processo produtivo capitalista. Essa condição que animalizava e coisificava os escravos era mantida pela coerção, usada dos modos mais violentos. Mas os escravos não eram subservientes, pois resistiam à esta condição fugindo, organizando quilombos e mesmo executando senhores e feitores.
É muito relevante para nossa pesquisa quando Oliveira (1985) aponta que a oposição fundamental entre senhor e escravo não podia ser resolvida apenas pela intensificação da coerção e da repressão aos quilombos. Obter o consentimento era fundamental e isso era conseguido através do paternalismo. Era necessário reconhecer a humanidade do escravo sem que sua condição de propriedade fosse questionada e isso só se fez através de um código
religioso. De acordo com o autor, os escravos eram então batizados, primeira condição para a salvação eterna, para serem tratados como pessoas.
Mas o fato de serem escravos batizados colocava outro problema: como aceitar que cristãos escravizem outros cristãos? Houve padres que se opuseram à escravidão e que acabaram deportados ou mortos; porém, em geral o escravismo foi considerado pelos padres e bispos como inevitável. Dizia um jesuíta que, "na América, todo escrúpulo é fora de propósito". Para dar uma solução teológica ao problema da escravidão de cristãos, foi elaborado um discurso que encara a escravidão terrena como um penhor da salvação eterna. Na base desse discurso está a premissa de que os portugueses não faziam mais do que comprar africanos já reduzidos à escravatura por pagãos. Embora tal premissa fosse falsa - pois os africanos captores de escravos em geral não eram mais do que prepostos dos colonizadores e traficantes portugueses na África - esse discurso permitia conceber a escravização de africanos como um ato de misericórdia para com os pobres escravos pagãos: sendo agora propriedade de cristãos, eles continuavam escravos, mas podem alcançar a salvação eterna. (OLIVEIRA, 1985, p. 84).
É por isso que em 1707, garante Oliveira (1985), as Constituições da Bahia (por onde chegavam o maior número de escravos), explicitam as obrigações religiosas dos senhores para com estes,entre as quais está ensinar os artigos da fé, os mandamentos, o que são pecados mortais, o Pai-Nosso, a Ave-Maria, os sete sacramentos, e outras orações.
Pedro Oliveira (1985) também descreve como J. Benci, um jesuíta que esteve no Brasil durante o século XVII, deixou bastante claro os deveres cristãos dos senhores para com seus escravos. O senhor deveria alimentar, ensinar, dar trabalho (para que não se tornassem insolentes) e sem esquecer de castigá-los "pois os negros são incomparavelmente mais hábeis que os brancos para toda sorte de malícias, e por isso os senhores devem saber castigá-los para que não pequem nem por falta e nem por excesso". (ibidem, p. 85). O discurso religioso, para Oliveira (1985), atribui um valor moral às práticas impostas pela lógica do escravismo e se articulava perfeitamente com o paternalismo senhorial. Ou seja, segundo Oliveira (1985), trabalhando para os senhores cristãos e submetendo-se inteiramente à sua autoridade, os escravos cumpriam sua obrigação moral e religiosa de retribuir aos senhores pela oportunidade de sua remissão espiritual. O ato de ter os filhos batizados pelos donos apertava mais ainda esse nó através dos laços do compadrio.
Ao refletirmos sobre a relação da religião na educação pública hoje, com artefatos, livros, disciplinas, imagens que privilegiam o catolicismo, achamos por bem pensar na relação da mesma Igreja Católica com o início de nossa escolarização pública (o que não é de modo algum novidade). O fato é que este caminho vai permitindo entender que essa relação foi fundamental não apenas para marcar nossa educação com todos os sinais catequéticos que
ainda verificamos. As reflexões que fizemos para este capítulo, ainda que com imensa necessidade de aprofundarmos, nos permite dizer que a relação Igreja-Estado foi fundamental para a submissão dos índios, o escravismo e a formação da classe senhorial brasileira. Essas reflexões parciais serão retomadas mais adiante. Por agora, pensemos um pouco mais especificamente sobre Igreja Católica e Educação no contexto histórico observado até agora.