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Estado da questão

No documento ESPIRITUALIDADE DO ENCONTRO (páginas 44-47)

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2 SANTIDADE DO ROSTO DE OUTREM, NÃO SEM EU

No desenvolvimento do tema da reviravolta do sentido de Deus, retomamos a metáfora do échafaudage, andaime, das construções de edifícios, inaugurada por Emmanuel Lévinas em Difícil Libertad, segundo a qual o acesso ao significado não se dá sem o significante:

Os “andaimes” que as construções científicas requerem não podem permanecer inutilizados enquanto nos preocupamos com o sentido dos edifícios. As Ideias que transcendem a consciência não se separam de sua gênese na consciência que é fundamentalmente temporal.124

Mesmo que as construções civis, uma vez concluídas, se desfaçam dos andaimes, o filósofo de Kaunas salienta que, nas construções científicas, o sentido dos edifícios não se dá sem os andaimes; de outra maneira: os andaimes conferem o sentido aos edifícios. Nessa pesquisa, o uso dessa metáfora é-nos imprescindível, porquanto pretendemos mostrar a reviravolta do sentido de Deus.

Almejamos restituir o andaime da reviravolta do sentido de Deus que se dá como uma jornada espiritual. Ou seja, o acesso a Deus não acontece sem ele mesmo, de modo que, para o ser humano, Deus existe porque ele se revela; em termos especificamente levinasianos:

Deus vem à nossa ideia, quer dizer, ele “passa” e “se passa” na santidade do rosto do outro.

É oportuno considerar que Lévinas não se apropria do termo “espírito” da tradição cristã, nem se refere à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, tampouco considera o processo inaciano de discernimento espiritual entre o bom espírito, que causa consolação, e o mau espírito, que causa desolação [5ª regra de Discernimento dos espíritos mais próprias para a Primeira Semana]: “na consolação, mais nos guia e aconselha o bom espírito, assim, na desolação, o mau, e com os conselhos deste não podemos acertar o caminho”125.

No itinerário dos escritos levinasianos, é possível observar que a noção de espírito indica, de modo irrepreensível, que ele não se dá sem o rosto do outro homem. De modo positivo, afirma que o espírito acontece, impreterivelmente, no rosto do outro; em termos kantianos, o rosto do outro homem é a condição de possibilidade da epifania do espírito.

124“Los ‘andamiajes’ que las construcciones científicas requieren no pueden quedar inutilizados mientras uno se preocupe del sentido de estos edificios. Las Ideas que trascienden la conciencia no se separan de su génesis en la conciencia que es fundamentalmente temporal” (LÉVINAS, 2004, p. 362).

125 SANTO, Inácio, 2015, n. 318,2.

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Em Totalidade e Infinito, Lévinas radicaliza a intriga entre espírito e rosto, afirmando que “a ética é a óptica espiritual”126. Essa relação já aparece nos Cuadernos del Cautiverio, em 1946:

O que é o espírito? Eis aí um ser humano que tem um rosto cercado de cabelo, com barba, lábios vermelhos, olhos brilhantes. Tudo isso pode ser visto como quando se examina um animal: cabelos, vegetação, cores, etc.

Que haja rosto - esse é o espírito. Minha filosofia - é uma filosofia do face a face. Relacionamento com o outro, sem intermediário. Isso é o judaísmo.127

Em Difícil Libertad, estão reunidos todos os ensaios sobre o judaísmo publicados por Lévinas nos Cahiers de l’actualité Israelite de L’Aliance Universel Israelite e na revista Études Juives, bem como outros que surgem no período de 1949 a 1963. Nesses escritos, observa-se que a concepção de espírito não acontece sem uma ordem ética que vem do rosto de outrem:

O espírito é a própria preocupação por uma sociedade justa. [...] A ordem ética não é uma preocupação, mas é o próprio acesso à Divindade. [...] A humanidade reconhece que sua caminhada religiosa encontra nas relações éticas sua significação espiritual, isto é, sua verdade para adultos. [...] E se a religião coincide com a vida espiritual, é necessário que a religião seja essencialmente ética. [...] “Não matarás” é o que inaugura a marcha espiritual do homem. [...] A visão de Deus é o ato moral. Esta ótica é uma ética. [...] A ética não é o corolário da visão de Deus, senão que é esta visão mesma. A ética é uma ótica. [...] A ética é uma ótica do divino. Nenhum relacionamento com Deus é mais direto nem mais imediato. O Divino não pode se manifestar mais que através do próximo.128

Lévinas não considera, indubitavelmente, a noção de espírito sem o rosto de outro homem. Isto é, contrariamente ao dualismo espiritual, não se experimenta autenticamente o espírito sem a carnalidade ética: carnalidade de outrem por quem sou eleito e, paradoxalmente,

126 LÉVINAS, 2015, p. 68.

127“¿Qué es el espíritu? He ahí un ser humano que tiene un rostro rodeado de cabello, con barba, lábios rojos, ojos brillantes. Puede verse todo esto como cuando se examina a un animal: pelos, vegetación, colores, etc. Que haya rostro eso es el espíritu. Mi filosofía es una filosofía del cara a cara. Relación con el outro, sin intermediário. Eso es el judaísmo” (Id. 2013, p. 113).

128El espíritu es la preocupación misma por una sociedad justa. [...] El orden ético no es una preocupación, sino el acceso mismo a la Divindad. [...] La humanidad reconece su marcha religiosa encuentran en las relaciones éticas su significación espiritual, es decir, su verdad para adultos. [...] Y si la religión coincide con la vida espiritual es necesario que la religión sea esencialmente ética. [...] ‘No matarás’ es el que inaugura la marcha espiritual del hombre. [...] La visión de Dios es el acto moral.

Esta óptica es una ética. [...] La ética no es el corolario de la visión de Dios, sino que es esta visión misma. La ética es una óptica. [...] La ética es una óptica de lo divino. Ninguna relación con Dios es más directa ni más inmediata. Lo Divino no puede manifestarse más que a través del prójimo” (Id.

2004, p. 132; 20; 24; 28; 343; 37; 199. Os números das páginas se referem a ordem cronológica das publicações dos textos em Difícil Libertad).

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a carnalidade do mesmo que se responsabiliza por outrem. Abordamos, neste capítulo, primeiramente o tema do rosto do outro e, posteriormente, pretendemos versar sobre a noção de santidade, como responsabilidade pelo próximo.

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