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CAPÍTULO 2 A RELAÇÃO ENTRE ESTADO E POLÍTICA PÚBLICA

2.1 Estado e Política Pública segundo a perspectiva materialista

No Brasil, o Estado, a política educacional e a escola têm se constituído como reguladores e reforçadores da educação dualista, delimitada pela divisão social de classes.

A etimologia do termo “política” tem vários significados. Na origem clássica, é derivado do adjetivo grego polis-politikós (dos cidadãos, o que é pertencente aos cidadãos) e está relacionado a tudo que se refere à cidade e, consequentemente, ao urbano, público, civil e social, tendo também derivação do latim politicus (ciência dos governos dos estados). Parte daí a definição explicitada no livro “A política”, de Aristóteles (2000), no qual encontramos, ainda, uma definição relacionada à sua natureza, bem como às funções e divisões do Estado na política. Para Bobbio (2014), existe um deslocamento no significado do termo, passando

de um conjunto de relações qualificadas pelo adjetivo “político” para a constituição de um saber mais ou menos organizado sobre esse mesmo conjunto de relações. Nesse sentido,

“política” passa a significar um campo dedicado ao estudo da esfera de atividades humanas articuladas às coisas do Estado.

Numa concepção inicial, Marx analisou que seria por meio da sociedade civil, conjunto das relações econômicas e interesses privados, que se poderia compreender o surgimento do Estado, o seu caráter de classe, a natureza de suas leis, as representações sobre as quais ele se apoiaria. O Estado, “criatura” da sociedade civil, constituir-se-ia num instrumento voltado para as bases sobre as quais ela própria se sustentaria. O Estado burguês, por exemplo, protegeria as relações capitalistas de produção, de modo a assegurar o domínio do capital sobre o trabalho, a reprodução ampliada do capital, a acumulação privada do produto social, a redistribuição do fundo público em benefício do capital, a exploração da renda fundiária, entre outros. Portanto, o Estado seria, ao mesmo tempo, parte integrante e instrumento de defesa das relações capitalistas de produção.

Em um dos seus livros, “A ideologia Alemã”, encontra-se a seguinte análise:

O Estado surge da contradição entre o interesse de um indivíduo (ou família) e o interesse comum de todos os indivíduos. A comunidade se transforma em Estado, aparentemente divorciado do indivíduo e da comunidade, mas, na realidade, baseado em relações com grupos particulares sob o capitalismo, com as classes determinadas pela divisão do trabalho (MARX & ENGELS, 2006, p. 78).

Sobre o surgimento do Estado capitalista, Engels e Marx (1985) afirmaram que este nasce como resposta à necessidade de mediar o conflito de classes e manter a “ordem” que reproduz o domínio econômico da burguesia. Em suas últimas análises, nas obras “As lutas de Classes na França de 1848 a 1850” e “O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte”, Marx ultrapassa a visão da separação entre Estado (burocracia) e sociedade civil, e a existência da dominação da burocracia sobre a sociedade civil no Estado moderno.

Dessa forma, observa-se o caráter instrumental da ação política da burocracia de Estado para assegurar os interesses das classes dominantes, como a propriedade privada burguesa e a exploração das pessoas, que permitiam que a burocracia tivesse uma grande margem de iniciativas, assumindo a consciência possível das classes dominantes, superando os interesses burgueses corporativos imediatos e defendendo a burguesia. Nesse cenário, seria possível até mesmo usar a força coercitiva da polícia ou ir ao encontro dos interesses econômicos burgueses. Tudo seria permitido se o objetivo fosse garantir a ordem social, as relações de produção e a acumulação do capital.

Nessa sociedade capitalista a que se refere, dividida em classes sociais, cuja classe burguesa (minoria) detém o poder e o exerce sobre a classe trabalhadora (maioria), nos deparamos com a sociedade política, o Estado moderno, que, de acordo com Marx, surge com o intuito de legitimar a exploração do homem pelo próprio homem, na tentativa de administrar os conflitos imanentes da desigualdade social. Como o Estado só existe em razão das classes sociais, extinguindo-se a sociedade de classes, estaria extinto o Estado. O Estado para Althusser passa a ser “o estado é uma máquina de repressão que permite as classes dominantes assegurar a sua dominação sobre a classe operária para a submeter ao processo de extorsão da mais-valia, quer dizer, à exploração capitalista” (1985, p. 31).

Desta forma, o Estado constitui na verdade aquilo a que os clássicos do marxismo chamam o Aparelho de Estado, que compreende ainda instituições como a polícia, os tribunais, as prisões e o exército que intervém como força repressiva quando necessário, estando acima deste conjunto o chefe de Estado, o governo e a administração (IDEM, p. 31- 32). Para Althusser, entender o Estado como Estado de classe esclarece a necessidade de estruturas repressivas e ideológicas, como a Indústria Cultural, entendida pelo autor como Aparelho Comunicacional, que submetem o populacho às classes dominantes. O Estado só existiria então enquanto aparelho em função do seu poder do estado. Sendo por isso mesmo local político da luta de classes.

Ou seja, o Estado é um agente ideológico e repressivo dos interesses oriundos da sociedade, na medida em que nega as necessidades do coletivo e assume as demandas particulares como gerais. Sendo assim, o Estado nada é mais do que a forma de organização que os burgueses encontram para garantia de sua propriedade e de seus interesses. Para Marx, a autonomia do Estado ocorre apenas em países em que não há divisão de classes, ou seja, países em que uma parcela da população não consegue domínio sobre as demais.

No entanto, ao se pensar um Estado que considere importante a participação coletiva desde o levantamento das demandas até a avaliação das ações públicas nos diversos setores, destacam-se outros pontos: participação, cooperação, movimentação, mobilização comunitária, por exemplo. Todas no sentido de levar em consideração as reivindicações que emanam do povo, na tentativa de diminuir os problemas de ordem pública, social e econômica das diferentes classes, visando outra forma de organização da sociedade que não privilegie uns, que detém o poder econômico, em detrimento de outros, desprovidos de capital.

Não se pode deixar de notar, nesse contexto, que o Estado surge com a função de legitimar e sustentar a luta de classes a partir do viés econômico e, em consequência disto, para administrar a divisão do trabalho, considerando-se as classes sociais. Assim, a

exploração do homem pelo próprio homem vem à tona, fortalecendo a desigualdade social, evidenciando-se a apropriação privada dos bens produzidos pelo homem, na perspectiva de acúmulo de riqueza apenas por uma parte da sociedade, sustentando, assim, as relações sociais intrínsecas ao modo de produção vigente.

Corroborando esse pensamento, Marx pressupõe que “a formação do estado moderno é uma exigência para assegurar e proteger permanentemente a produtividade do sistema”

(MÉSZAROS, 2002, p. 106), ou seja, o Estado se configura como peça chave para a manutenção do capitalismo e da ordem vigente, sem a preocupação de modificar o sistema para atender a todos. Portanto, o Estado Moderno, ainda que mude sua função nas diferentes épocas, continua exercendo igual papel nas relações de produção e reprodução baseadas na exploração do homem pelo homem.

Diante do exposto, para Marx, o Estado capitalista sempre foi um instrumento especial de repressão a serviço das classes dominantes. O que torna o Estado burguês diferente do escravista ou mesmo do feudal, é que ele mantém e reproduz a desigualdade social afirmando a igualdade política entre os indivíduos. Em outras palavras, o Estado capitalista afirma a igualdade formal, política e jurídica com o objetivo de continuar fomentando a dominação da burguesia sobre os trabalhadores. Noutras palavras, a igualdade burguesa nada mais é do que a máxima liberdade do capital para explorar os trabalhadores, revelando-se verdadeiro instrumento de repressão contra estes.

Para que se garanta a liberdade desejada pela classe trabalhadora, é necessária a superação do capital e da sociedade burguesa, pois só a partir daí será viável pensar em primeira instância o que de fato é primordial: as necessidades humanas.O reino da liberdade, segundo Marx, se consubstancia no atendimento das verdades e dos interesses humanos apresentados pelo desenvolvimento histórico-social. É por meio do Estado que as políticas públicas são implementadas. E sobre a política pública educacional, a qual é nosso objeto de estudo, Janete Lins de Azevedo diz:

A política educacional representa a materialidade de intervenção do Estado e é necessário levar em consideração que a política pública educacional está relacionada a recursos de poder quando ela é implantada, bem como na sua operação.

Acrescenta ainda a autora que na elaboração de política pública existe uma estreita relação entre a memória da sociedade ou do Estado, perante as representações sociais que cada sociedade desenvolve em sua época (1997, p. 05).

Portanto, ao reconhecer a existência e defender a importância das políticas educacionais, equacionar lacunas existentes na oferta pública para a educação, é preciso

também ter a fiel compreensão dos interesses que as antecedem. As políticas educacionais são implementadas no chão da escola por meio do trabalho docente, o qual, para acontecer de maneira emancipatória deve ter como fundamento o trabalho como princípio educativo, que especificamos a seguir.