Em um artigo (Zur Krise der “Wirklichkeit” - Sobre a Crise da Realidade) de 1929, Fleck introduz as categorias Coletivo de Pensamento e Estilo de Pensamento, aprofundadas em sua monografia de 1935.
O primeiro designa a unidade social da comunidade de cientistas de um campo determinado; o segundo, as pressuposições de acordo com um estilo sobre o que o coletivo constrói seu edifício teórico (SCHÄFER; SCHNELLE, 1986, p. 23).
Na categoria epistemológica de Fleck, a relação cognoscitiva não se restringe apenas a relação cognoscente e objeto a conhecer; o processo de conhecimento se constitui também, condicionado por fatores sociais, históricos e culturais, desta forma, os fatos científicos, interdependem-se historicamente. As experiências do presente estão ligadas às do passado e estas, ligar-se-ão às do futuro (FLECK, 1986). São as chamadas protoidéias ou pré-idéias, esboços históricos evolutivos das teorias atuais, que apesar das variações dos Estilos de Pensamento, mantém algumas concepções surgidas no passado (FLECK, 1986). Porém, é preciso lembrar que nem todo fato científico atual é proveniente de uma protoidéia e nem toda protoidéia será materializada em fato científico (FLECK, 1986).
O Estilo de Pensamento tem como raiz uma disposição para ver, observar ou perceber de forma dirigida. A construção do fato científico está intrinsecamente relacionada com esta forma de ver (FLECK, 1986; LÖWY, 1994a;
SCHÄFER; SCHNELLE, 1986).
Portanto, as “verdades” e os fatos científicos, pertencem a Estilos de Pensamento, que da sua instauração até o final de seu ciclo, passam por algumas fases assim descritas por Fleck: 1) fase de instauração: ver confuso, pouco
desenvolvido e articulado; 2) ver formativo: estilizado, onde se inicia a construção do fato científico; 3) fase de extensão: ela pode ser representado por dois períodos, o primeiro denominado de classismo, na qual a manutenção das idéias, os fatos observados são adaptados e explicados pelo Estilo de Pensamento e compartilhado por seu Coletivo de Pensamento, e num segundo período tornam-se conscientes as exceções e nesta fase o Coletivo luta de forma heróica para a manutenção de seu Estilo de Pensamento, chamado por Fleck de harmonia das ilusões; 4) Complicação: surgimento de novos fatos, que o Estilo de Pensamento já não consegue explicar ou encaixar em sua teoria (neste momento, o aparecimento de novas idéias, tenta explicar os fatos novos, propiciando o surgimento da mudança de Estilo de Pensamento, reiniciando um novo ciclo).
Desta forma, as “verdades” e os fatos científicos devem ser contextualizados e compreendidos como transitórios (CUTOLO, 1999). A relativização dos fatos torna as relações entre os diferentes Estilos de Pensamento incomensuráveis1, porém, quando as diferenças entre os Estilos de Pensamento não apresentam limites precisos de distanciamentos ou proximidades, eles são chamados de matizes de Estilo de Pensamento (FLECK, 1986).
Os fatos científicos construídos pelos Coletivos de Pensamento são assimilados por um outro Coletivo de Pensamento, que realizam uma tradução em seu próprio estilo, transformando-os num outro fato científico (LOWY, 1994a).
A instauração de um novo Estilo de Pensamento geralmente implica numa perda da capacidade de observar certos aspectos, muitas vezes relevantes, do estilo anterior (LÖWY, 1994b). Portanto, as complicações de determinado Estilo de Pensamento podem tornar-se ferramentas preciosas, para que se processe a mudança de Estilo de Pensamento.
Pode-se de certa forma, compreender Estilo de Pensamento como:
1 Ou incongruentes.
1. modo de ver, entender e conceber; 2. processual, dinâmico, sujeito a mecanismos de regulação; 3. determinado psico/sócio/histórico/culturalmente;
4. que leva a um corpo de conhecimentos e práticas; 5. compartilhado por um coletivo com formação específica (CUTOLO, 2001, p, 56).
Torna-se importante a explicação de alguns itens que serão utilizados, dentro do recorte deste estudo, para contextualizar o processo de formação com Estilo de Pensamento (EP).
Em relação à primeira característica (modo de ver, entender e conceber);
compreendo que seja o “ver formativo” estilizado, uma das condições sine qua non para o entendimento de EP (CUTOLO, 2001, p. 56)
A inclusão de uma característica geral de agrupamento no que se refere “...
processual, dinâmico, sujeito a mecanismos de regulação...” justifica-se, no sentido de que o Estilo de Pensamento não é estático, dinamiza-se e processa- se. Tem um movimento, instaura-se, estende-se, vivencia um período de classismo e complicação, modifica-se. Durante este processo produz mecanismos de regulação intrínseca, um eficaz sistema de idéias que regula a harmonia das ilusões e promove coerção de pensamento (CUTOLO, 2001, p.56)
Em relação a outro aspecto, o da determinação sócio-histórico-cultural, Fleck acredita que o conhecer representa a atividade mais condicionada socialmente, e que o conhecimento é uma criação social por excelência (FLECK, 1986). Chega a afirmar que as relações culturais, históricas e sociais constituem o terceiro fator, o “estado do conhecimento” do tripé da relação cognoscitiva (FLECK, 1986); (CUTOLO, 2001, p. 56)
Segundo Fleck (1986) a disposição para um sentir seletivo leva a uma ação conseqüentemente dirigida e uma elaboração correspondente do percebido.
Teorias, modelos, métodos, técnicas, instrumentos são alguns dos produtos e meios para a ação dirigida. Isto, de certa forma, poderia justificar a terceira característica da definição (...que leva a um corpo de conhecimentos e práticas);
(CUTOLO, 2001, p.56, meu grifo).
A quinta característica empregada no exercício foi a cumplicidade e compartilhamento do ideal de verdade por um coletivo. A unidade social da comunidade de cientistas de um campo determinado, a que SCHÄFER &
SCHNELLE (1986, p, 23) se referem, constituem a grande legitimação do EP.
Não existe EP se não houver um coletivo de pensamento que o sustente (CUTOLO, 2001, p. 57).
Em um trabalho mais recente Cutolo (2005) desdobra o 5º elemento constitutivo do Estilo de Pensamento, fracionando em “compartilhado por um coletivo”
e “com formação específica” (que passa a ser considerado o 6º elemento).