A literatura da Visão Baseada em Recurso, devido à riqueza de trabalhos publicados, acaba por conviver com uma sobreposição de conceitos e elementos de análise, muitos dos quais, com o mesmo sentido e proposição. Assim, considerando essas limitações, e baseado no suporte teórico anterior, foram estruturados em dois quadros analíticos os princípios e discussões norteadores da pesquisa.
O objeto de estudo, propriedades rurais produtoras de leite, ou fazendas de leite, requerem uma contextualização sobre a estrutura de mercado onde estão inseridas, considerando que as fazendas de leite estão situadas numa estrutura de mercado pouco investigado pela VBR, qual seja, mercado de produtos homogêneos. Entender o desempenho de empreendimentos no mercado de concorrência perfeita é entrar num campo repleto de peculiaridades. Uma dessas particularidades é o fato de a gestão dos empreendimentos rurais não seguir padrões que permitam uma análise de desempenho que considere o desempenho global do empreendimento. Ou seja, a gestão das fazendas está, de maneira geral, desprovida de análises de controle e avaliação de desempenho e, quando o fazem, ocorre de maneira despadronizada, conforme foi discutido e será considerado posteriormente na metodologia.
Inicialmente na figura sete há uma síntese do contexto geral da pesquisa onde a ênfase está no objeto de estudo e suas características (heterogeneidade, mercado atomizado, panorama geral e desempenho). Em seguida uma base geral da teoria dos recursos e os principais trabalhos que nortearão a análise dos resultados.
O quadro do lado esquerdo da figura sete destaca os aspectos teóricos gerais, tais como a Teoria da Visão Baseada em Recursos – VBR, que é o arcabouço de toda a discussão, englobando logo abaixo a premissa de heterogeneidade das firmas, os tipos de recursos, sejam eles físicos, humanos, organizacionais, tecnológicos, financeiros e reputacionais, os atributos ou as qualidades necessários para manutenção da vantagem competitiva. Nestes atributos é destacado a inimitabilidade que foi o atributo mais discutido devido às condições das propriedades rurais, onde a inimitabilidade se dá de forma menos consciente e mais da condição natural de alguns recursos do que de barreiras criadas pelos gestores organizacionais.
Na sequência do quadro, à esquerda, vem o conceito de estrutura produtiva, seguido de uma representação de um funil que seriam as restrições, pois as estruturas produtivas discutidas por vezes se configuram em restrições ao desempenho superior nas análises.
Passado por toda essa base teórica se observará o desempenho ou a Performance. Esses conceitos anteriores serão as lentes de entendimento do desempenho.
No quadro à direita estão os elementos de apoio à discussão, de esclarecimento e compreensão por quais caminhos a discussão teórica trilhará para compreender o fenômeno do desempenho em propriedades produtoras de leite com diferentes estruturas produtivas, por vezes, restritivas.
Elementos de discussão
Mercado de concorrência perfeita Teoricamente: firmas homogêneas, fluidez de informação, pleno acesso insumos etc.
RBV em propriedades rurais, especialmente, produtoras de leite
- - -
Pequena X Grande Colaborativa X Individual
Assistida X “desassistida”
institucionalmente
- - -
Desempenho em geral com ênfase no aspecto econômico Heterogeneidade nas firmas
Tipos de recursos (F, H, O, T, F, R) Atributos dos recursos =
VRIO Valor Raridade Inimitabilidade e Apropriação organizacional
Figura 7 - Quadro analítico geral.
Para melhorar o entendimento da figura 7 foi elaborado um framework no formato complementar, destacando os mecanismos de obter as informações de cada elemento teórico. A observação da sequência das figuras permite um melhor entendimento e uma complementaridade de informações alinhadas.
Figura 8 - Base teórica e indicadores.
Assim, mesmo com todas as peculiaridades e dificuldades inerentes ao setor agropecuário, especialmente ao leiteiro, as fazendas alcançam desempenhos superiores.
Elementos externos como políticas públicas (por meio de assistência técnica, crédito e outros), que têm forte influência no desempenho ou na melhor alocação dos recursos, também são considerados nessa estrutura conceitual.
Enquanto nas figuras sete e oito, anteriores, foram feitas representações visuais das propostas analíticas, no quadro cinco, a seguir, estão compiladas as referências utilizadas para esta análise. Como foi descrito anteriormente, a discussão da teoria dos recursos é repleta de
VBR
ESTRUTURA PRODUTIVA Estrutututas
R E S T R I Ç Õ E S
DESEMPENHO RBV
Heterogeneidade nas firmas
Tipos de recursos (F, H, O, T, F, R)
Atributos dos recursos = VRIO Valor
Raridade Inimitabilidade
Apropriação organizacional
DESEMPENHO
Desempenho geral com ênfase para o aspecto econômico
Indicadores ou mecanismos de análise
Revisão de literatura Entrevista com especialistas
Questionário com os produtores cruzando com as entrevistas junto aos
especialistas
Descrição teórica e verificação via questionário com os produtores sob os
critérios:
Tamanho: baseado no módulo rural e legislação e na amostra coletada.
Colaborativa: participação em pelo menos um grupo de ações coletivas reais.
Assistida: recebe assistência técnica, regularmente.
Revisão de literatura e entrevista com especialistas definiram os critérios:
Renda bruta aproximada e dedução de custos (aproximados utilizando os principais custos de produção na região). E análise subjetiva de performance.
ESTRUTURA PRODUTIVA
Pequena X Grande
Colaborativa X Individual
Assistida X “desassistida”
institucionalmente
denominações e derivações de conceitos. Para lidar com esta diversidade o quadro cinco delimita os aspectos centrais a serem utilizados, os quais já foram discutidos no capítulo do referencial teórico.
CoConntteexxttoo ggeerraall ddaa ppeessqquuiissaa Elemento
central
Discussão breve Autores chave
Heterogeneidade das firmas
A heterogeneidade ocorre mesmo em organizações de mercado de concorrência perfeita. Essa heterogeneidade permite a existência de diferentes desempenhos e compreender essa variação é um dos objetivos dessa pesquisa.
Peteraf, 1993; Barney 1991;
Grant 1991; Lippman; Rumelt, 1982; Kupfer; Hasenclever, 2002.
Caracterização do objeto de estudo (forma geral e específica – regional)
Grande heterogeneidade nos níveis produtivos entre propriedades. País com índices de produtividade baixos.
Carência de apoio institucional (extensão rural e assistência técnica), considerados fundamentais para melhoria no desempenho organizacional. Dispersão e atomização dos estabelecimentos produtivos com tendência à concentração e especialização.
Nogueira et al., 2001; SEBRAE, 1996; SEBRAE, 2002;
ADDIPER, 2005; Carvalho, 2010; IBGE, 2006; EMBRAPA, 2010; Carvalho et al., 2009;
Cônsoli; Neves, 2006; Castro et al., 1998; Figueiro; Paulillo, 2005; Martins et al., 2004;
Aleixo et al., 2003 Desempenho de
propriedades rurais produtoras de leite
Devido às dificuldades já encontradas por pesquisadores da área o desempenho será uma medida de difícil obtenção.
A tentativa de inserir indicadores econômicos pode levar a erros comparativos devido à divergência de métodos entre os empreendimentos. Destarte indicadores de produtividade, ainda que tenham nível de informação limitado é mais padronizado e indicam um nível de profissionalismo e desempenho produtivo importante.
Krug, 2000; Krug; Padula, 2002; Castro et al., 1998;
Menegaz, 2005; Cella, 2002;
Cella; Peres, 2002.
V
Viissããoo BBaasseeaadda a eemm RReeccuurrssoo
Pressupostos básicos Discussão breve Autores chave
Os recursos são determinantes para o desempenho organizacional
Ainda que para promover maiores ganhos eles tenham que se integrar e relacionar
constituindo as capacidades.
Penrose 1959; Wernerfelt, 1984; Barney, 1991;
Grant, 1991; Peteraf, 1993; Amit; Schoemaker, 1993.
Condição de sustentabilidade dos recursos.
Ser Valioso, Raro, Insubstituível -Dependência histórica
- Ambiguidade Causal - Complexidade Social Inimitável e
Apropriado pela empresa
Barney, 1991; Grant, 1991; Peteraf, 1993;
Barney, 1997; Lippman; Rumelt, 1982; Black;
Boal, 1994, Dierickx; Cool, 1989; Fensterseifer;
Wilk, 2005.
Identificação e ranqueamento inicial considerando a
importância dos recursos e a discriminação de seus indicadores.
Revisão de literatura permitiu conhecer a priori os recursos que mais interferem no ganho das organizações, são eles:
Recursos Organizacionais;
R. Humanos;
R. Tecnológicos;
R. Reputacionais;
R. Físicos;
R. Financeiros.
Tipos de Recursos: Barney 1991; Grant, 1991.
Pesquisas em empresas de maneira geral: Fink;
Neumann, 2009; Ghemawat; Del Sol, 1998;
Branzei; Thornhill, 2006; Castanias; Helfat, 2001; Griffith et al., 2006; Maes; Sels;
Roodhooft, 2005; Benitez-Amado et al., 2010;
Aragon-Correa et al., 2007. Pesquisas em empreendimentos agropecuários: Gafsi, 2006;
Galdeano-Gómez, 2008; Stup, Hyde; Holden, 2006; Behera et al., 2008; Galdeano-Gomez; et al., 2008; Boehlje, 1999; Gray et al., 2004;
Alsos et al., 2003; Kajanus, 2000; Mugera Bitsch, 2005; Dias, Pedrozo, 2008; Hallam;
Machado 1996.
Quadro 5 - Síntese do debate e base para análise.
Toda essa compilação teórica permite uma maior clareza dos aspectos investigados e permite uma representação estrutural que foi realizada por meio do framework (figura 8). Os recursos (Organizacionais, Humanos, Físicos, Tecnológicos, Financeiros e Reputacionais) com seus fatores de sustentação estratégica potencializam e promovem o desempenho organizacional.
4 METODOLOGIA
A pesquisa exploratória é o investimento inicial num tema pouco explorado, pretendendo-se nesse momento dar um passo importante para esclarecer e delimitar um tema que permite abordagens futuras com um problema mais esclarecido. Face ao pequeno número de pesquisas anteriores usando a teoria da VBR na agropecuária, a natureza do trabalho é de um estudo exploratório e descritivo. Um estudo exploratório tem como finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para futuros estudos (GIL, 2008).
Entender melhor o desempenho das propriedades rurais, ainda que não permita generalizações, pode contribuir para um melhor entendimento de uma realidade circunstancial e prover o desenvolvimento do setor.