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Estruturas do discurso cristológico

religiões.‖4

Mas, falar de messianismo na tradição cristã requer uma delimitação do conceito. O que significa para nós? Qual seu conteúdo? Duas coisas ao menos estão implicadas: a primeira é o fato de que o messianismo do ponto de vista cristão não é outro que o de Jesus. A segunda, a relação da vida de Jesus com nossa história.

E falar do messianismo de Jesus requer a memória constante da cruz e ressurreição, como faz o Evangelho de Marcos ao demonstrar a messianidade de Jesus a partir do artifìcio literário do ―segredo messiânico‖. Com isso desconstrñi as figuras bem moldadas de messias já existentes e esboça a nova figura do Messias com base na figura do Servo e do Filho do Homem.

O messianismo compreende a intervenção de Deus na história, em vista de uma redenção dessa mesma história. Os modos distintos de entendê-la não têm como única implicação a demarcação dos limites de identidade cristã e judaica.

Por isso, tentaremos perceber através das reflexões cristológicas de Bernard Lauret e Christian Duquoc sobre o messianismo, as implicações de uma cristologia messiânica.

3.1.1 – Estrutura espaço-temporal

Para Lauret a cristologia ―de cima‖ tem como centro a doutrina da Encarnação, fundamentada biblicamente no prólogo do Evangelho de João, e tendo como pólo secundário, na soteriologia, a reflexão sobre a ―morte redentora‖.

A salvação nesse tipo de reflexão é considerada consequência da Encarnação e, por isso, pensada em segundo plano.

Esse tipo de reflexão expressa o termo de um processo longo que teve início com a autonomia do discurso cristológico em relação à teologia, gerado pela repercussão da obra anselmiana Cur Deus homo. E a posterior distinção escolástica da cristologia em dois tratados, o De Verbo incarnato que trata da pessoa composta de Jesus Cristo e o De redemptione, o tratado de soteriologia com o objetivo de completar o tratado de cristologia propriamente dito. Assim a cristologia trata da pessoa de Jesus Cristo e a soteriologia se ocupa da nossa redenção trazida pela morte de cruz de Jesus.6

O limite pontuado pelo autor a essa abordagem cristológica versa sobre o fato de ―empobrecer ao mesmo tempo a compreensão da pessoa de Jesus em sua humanidade e nossa implicação em seu destino.‖ 7 A consequência desse tipo de aproximação da problemática aparece de modo claro: o empobrecimento também de nossa humanidade e a desvalorização da história.

Por sua vez, a cristologia ―de baixo‖ se fundamenta nas narrativas sinñticas e nos Atos dos Apñstolos e tem seu centro no ―destino histñrico de Jesus‖. Essa cristologia tem na Ressurreição o pñlo gerador de seu discurso. Para Lauret, entretanto, ela não explica porque a vida de Jesus é messiânica do princípio ao fim, ou seja, como é revelação de Deus.

O autor reconhece a importância e a validez de ambas perspectivas.

Reconhece ainda o papel inicial da segunda em qualquer reflexão cristológica.

Para ele, não é o caso de propor substituições, mas considerá-las de modo complementar.

6 LAURET, ―Cristologìa dogmática‖, 1984, p. 252.

7 Ibid., p. 253.

3.1.2 – Estrutura kairológica: princípio e fim

Lauret pensa que nenhuma das abordagens explica o papel da Ressurreição no nascimento da cristologia e na constituição do Novo Testamento.8 A primeira não considera a revelação do Logos na ―hora‖ da cruz, a segunda não explica o conjunto da vida de Jesus como revelação de Deus dependente da ressurreição.

O autor justifica afirmando: ―o que acontece com a ressurreição do Crucificado é uma reinterpretação do conjunto da realidade em relação a Deus:

não se trata sñ de ―cima‖ e de ―baixo‖, mas também do princìpio e do fim [...] e, portanto, do cumprimento‖.9 Lauret tem como horizonte as críticas judaicas ao messianismo cristão, em vista de uma não verificação da redenção na história. O cristianismo, por sua vez, crê que na ressurreição de Jesus Deus redime a história, de modo inaudito. A história não é mais representada pelo esquema espaço-temporal de acontecimentos sucessivos, mas enquanto ―tempo messiânico‖.10

Por isso, crê ser necessário buscar uma articulação mais satisfatória em torno a uma forma de ―relato‖ que vincule histñria e fé. O relato bìblico faz a articulação entre a história de Jesus Cristo e nossa própria história pela ação contínua do Espírito. O mesmo Espírito impulsiona o Messias Jesus em toda sua vida. Deus ressuscita Jesus pelo Espírito e depois se torna dom do Ressuscitado para nós e faz presente em nossa vida o Crucificado-Ressuscitado.11

Para Moltmann a teologia cristã dividiu a ―messianologia global‖ em

―cristologia‖ e ―escatologia‖ e aponta como consequência o obscurecimento da coesão interna entre os dois âmbitos teológicos. A responsabilidade por esse obscurecimento recai sobre a doutrina da Encarnação ao representar o Redentor numa perspectiva vertical da eternidade, tendo a filiação divina de Jesus no

8 LAURET, ―Cristología dogmática‖, p. 263.

9 Ibid., p. 264.

10 AGAMBEN, Giorgio. El tiempo que resta. Comentario a la carta a los Romanos. Madrid: Trotta, 2006, p. 13.

11 MADONIA, Nicolò. Cristo siempre vivo en el Espíritu. Fundamentos de cristología pneumatológica. Salamanca: Secretariado Trinitario, 2006, p. 199.

centro.

O autor em questão defende uma perspectiva do Espírito que para ele é horizontal e valoriza o ensino e a obra do Jesus terreno.12 Sua reflexão se aproxima da observação feita por Lauret em relação à cristologia propriamente dita, ou seja, a dissociação entre a reflexão sobre a pessoa do Cristo e a soteriologia, vista como um ponto da cristologia.

Duquoc se inscreve, claramente, na perspectiva de uma cristologia

―ascendente‖. Seu ponto de partida é sempre a vida de Jesus, mesmo quando reflete a partir dos títulos de grandeza, aplica-os ao homem Jesus. Toda sua cristologia visa pontuar essa mudança de abordagem, contudo, salvaguarda o valor indelével das afirmações conciliares. Embora não desenvolva claramente uma cristologia em perspectiva messiânica, o messianismo ocupa um lugar importante em seu pensamento.

A proposta de Lauret visa à recuperação da perspectiva messiânica da cristologia, uma vez que Jesus é reconhecido Filho de Deus precisamente porque é o Messias. Assim ancora em Niceia o que chama de ―eclipse do messianismo‖.

Para ele Niceia afirma a diferença escatológica e a divindade de Jesus e nisso residiria sua força, mas tende a trasladar todo o peso da escatologia para o fim da história, esvaziando, assim, o conteúdo messiânico, da inauguração no destino histórico de Jesus.13

O motivo do esquecimento do messianismo se encontra no debate com o arianismo. Este levou os padres conciliares a afirmarem a singularidade de Jesus prioritariamente em termos de filiação divina. Há com isso, o deslocamento da compreensão de Jesus a partir do messianismo, para a consideração da ―natureza divina‖.

Lauret assinala, ainda, outra peculiaridade do primeiro concílio ecumênico, o fato de que com o esquecimento do messianismo, o sìmbolo de Niceia ―não fala da história futura, nem da messianidade de Jesus como fundamento da

12 MOLTMANN, O Caminho de Jesus Cristo, p. 21.

13 LAURET, ―Cristología dogmática‖, 1984, p. 402.

descoberta para nñs de sua divindade.‖14

Por isso, Lauret diz que o termo Messias parece ter sido conservado no cristianismo como uma espécie de troféu frente aos judeus e que os cristãos mantêm um Messias sem messianismo, enquanto os judeus tem um messianismo sem Messias.15

Ao retomar o relato bíblico como método de leitura teológica, Lauret caminha para uma reflexão distinta, ao considerar o tempo não como cronológico linear, mas profético ou kairológico articulando passado e futuro, ou seja, memñria e atualização. Assim, ―o tempo do relato não só recorda o passado, mas também o atualiza apelando à intervenção incessante de Deus e à sua fidelidade.‖16

Em resumo, sem negar os desenvolvimentos cristológicos anteriores, Lauret, entre outros autores, propõe uma abordagem que saia do esquema espacial e temporal-cronológico que possibilite pensar a pessoa de Jesus como Messias e sua relação com nossa história. Enfim, que possa relacionar o universal e o particular, o transcendente e a concretude de nossa vida. Uma cristologia na qual o messianismo, na forma de esperança que impulsiona a ação dos seres humanos, segundo o Espírito Santo, esteja presente.