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Na grande maioria das reflexões sobre o messianismo, observamos os mesmos passos, a saber, a análise etimolñgica dos termos ―messias‖ e

60 KNOHL, Israel. El mesías antes de Jésus, p. 44.

61 Ibid., p. 67.

62 Ibid., p. 71.

―messianismo‖ no hebraico, aramaico e na tradução grega e a ancoragem na tradição judaica da realeza davídica. Logo se percebe a impossibilidade de ir muito longe por esse caminho.

Há sutis distinções no messianismo abordado como fenômeno histórico- sociológico de massas populares e uma perspectiva mais conceitual. O tema envolve a trama histórica encharcada de concepções filosóficas e teológicas.

História e ação de Deus estão inseparavelmente imbricadas. O estudo do messianismo carrega em si a consideração da história e seus revezes.

O messianismo não permite reducionismos, nem mesmo simplificações.

Apresenta uma dinâmica em si mesma complexa e difícil de apreender. Percebe- se a dificuldade de encerrá-lo num discurso sem lacunas, sem brechas.

Permanece uma temática aberta. Do mesmo modo que a história ele participa de um processo interpretativo, dinâmico.

Vendo por esse prisma consideramos o messianismo em diferentes perspectivas. Nessas, invariavelmente o aspecto político do messianismo se impõe, por isso, voltamo-nos para o texto base de nossa reflexão: o Evangelho de Marcos, para trazer mais à luz o aspecto teológico do messianismo. Nele buscamos entender as principais releituras do messianismo e do Messias e como em Jesus e em seu agir o ―Messias esperado‖, o messias nacional, restaurador de Israel, torna-se o ―Messias inaudito‖; o Messias que cumpre a Escritura ao plenificá-la de modo surpreendente.

O caráter inaudito do Messias Jesus se reflete na integração do sofrimento e morte. A cruz torna-se o ponto de reconhecimento, para os seus seguidores, e paradoxalmente de recusa e negação de sua messianidade, pela maior parte de seu povo. O ―Messias esperado‖ é o vencedor, o restaurador. Morrer como um agitador apenas demonstra a falsidade da pretensão messiânica.

Porém, o mais desconcertante se constata na afirmação do messianismo e da filiação divina de Jesus no momento supremo de abandono. A cruz firma-se como sinal distintivo desse messianismo. Não se configura como ponto final, mas como passagem. O caminho que vai da morte à vida será o de todo seguidor do Messias Jesus. Não se chega à ressurreição sem passar pela cruz. Ela é o ponto

alto da negação de um messianismo triunfalista e vitorioso. Definitivamente o messianismo de Jesus passa pela concretude histórica. Marcos faz uma hermenêutica do messianismo ao resignificá-lo através da cruz de Jesus Cristo.

Por isso, todo discurso cristológico terá sempre que considerar a pessoa e ação de Jesus, movidas pelo Espírito de Deus que repousa plenamente sobre ele, portanto uma vida messiânica. A ação de Deus por seu Espírito em Jesus não só o constitui Messias e Filho de Deus, mas em sua Páscoa, no momento supremo da morte, o Espírito de Deus se torna dom do Filho para a humanidade. O Espírito nos é comunicado pelo Cristo que assim nos faz partícipes da vida do Filho. Essa consideração é indispensável para termos ao menos uma aproximação fiel da experiência única que fundamenta nossa fé.

CAPÍTULO III

O LUGAR DO MESSIANISMO NA CRISTOLOGIA ATUAL

No capítulo anterior procuramos entender o caráter distintivo do messianismo de Jesus. Nele estudamos o conceito de messianismo e nos deparamos com a atenção especial que é dada ao aspecto político que lhe é inerente. Depois analisamos a questão do messianismo em alguns teólogos e na segunda parte do Evangelho de Marcos. Desse estudo apreendemos o caráter único do Messias Jesus. O messianismo de Jesus é único porque não apenas foge do messianismo nacionalista, mas para além de toda figura messiânica, se impõe de modo inaudito. O Messias morre crucificado.

Agora examinaremos como e onde a temática de nosso estudo se encontra, já que a teologia contemporânea, de modo geral, está voltada para o diálogo inter- religioso e neste âmbito, de modo particular, o diálogo com o judaísmo. Nestas circunstâncias temos que nos entender como cristãos no confronto respeitoso com o diferente. O ponto mais delicado para o diálogo costuma ser a reflexão cristológica, acusada de imperialismo. Nisso, a doutrina da Encarnação aparece comumente como a mais problemática. Na relação do cristianismo com o judaísmo o ponto nevrálgico é o messianismo.

Não pretendemos desenvolver uma teologia cristã das religiões, apenas buscar nos entender como cristãos, sabendo que nesse processo de reconhecimento da nossa identidade o diferente está implicado de algum modo.

Nesse caminho de compreensão um retorno às origens de nossa fé se impõe. A temática específica de nosso estudo nos coloca frente a frente com a religião que nos origina.

O diálogo com o judaísmo nos parece mais exigente por causa do ―dado comum‖ que partilhamos, mas também que nos distingue. Por isso, a necessidade de uma atenção especial. A preocupação com o diálogo, sobretudo, com o judaísmo é consequência da moderna busca pelo Jesus histórico que O coloca dentro de sua

tradição religiosa.1

Não nos entenderemos como cristãos sem a referência ao judaísmo.

Entretanto, não compreenderemos nossa identidade sem considerarmos seriamente o distintivo e esse é, fundamentalmente, nossa compreensão diferenciada de história que emerge da visão de messianismo.

O messianismo é uma forma de pensar a história. É ele que marca a relação única entre judeus e cristãos a ponto de falarmos de uma tradição judeu- cristã. Nesse sentido a compreensão de Jesus, como Messias se impõe como critério de nossa identidade cristã e como iluminadora de nossa esperança de salvação, redenção, libertação. Pensar o messianismo é considerar essencialmente a relação de Jesus, confessado Messias, conosco e com nossa história.

Segundo Lauret, entre ―judaìsmo e cristianismo há a compreensão diferente da histñria e a isso chama de messianismo‖.2 Dupuy acentua que

―judaìsmo e cristianismo se distinguem da maior parte das religiões por sua concepção histórica do universo marcada pelas ideias de aliança, criação e cumprimento.‖3

Bernard Lauret lembra que o particularismo da história de Israel e de Jesus se abre à universalidade das culturas, pois, a aliança não começa com Moisés, nem com os patriarcas, mas com Adão mesmo. Israel é eleito em vista da salvação universal e não por si mesmo. Por isso, acentua o fato de que ―a cristologia, como revelação de Deus, deve se abrir ao diálogo com as outras

1 Aqui consideramos a terceira fase da busca pelo Jesus histñrico, a chamada ―Third Quest‖. Nessa fase específica do estudo se passa a considerar o contexto social de Jesus e sua pertença ao povo judeu, ou seja, vem à plena luz o fato de que a pessoa de Jesus estava profundamente enraizada na grande tradição judaica e para entendê-lo era necessário considerá-lo a partir de sua cultura e religião. Para um aprofundamento da questão remetemos à THEISSEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico: um manual. São Paulo: Loyola, 2002.

2 ―Entre le judaïsme et le christianisme, il y a l‘histoire, ou plutôt une compréhension différente de l‘histoire qui s‘appelle le messianismeLAURET, Bernard. ―Messianisme et christologie sont- ils compatibles?‖. Veja-se em DUPUY, Bernard. Juifs et chrétiens: un vis-à-vis permanent.

Bruxelles: Facultés Saint-Louis, 1988p. 123.

3 DUPUY, Bernard. ―El messianismo‖. In: LAURET, Bernard; REFOULÉ, François. Iniciación a la práctica de la teología. Tomo II. Madrid: Cristianidad, 1984, p. 89.

religiões.‖4

Mas, falar de messianismo na tradição cristã requer uma delimitação do conceito. O que significa para nós? Qual seu conteúdo? Duas coisas ao menos estão implicadas: a primeira é o fato de que o messianismo do ponto de vista cristão não é outro que o de Jesus. A segunda, a relação da vida de Jesus com nossa história.

E falar do messianismo de Jesus requer a memória constante da cruz e ressurreição, como faz o Evangelho de Marcos ao demonstrar a messianidade de Jesus a partir do artifìcio literário do ―segredo messiânico‖. Com isso desconstrñi as figuras bem moldadas de messias já existentes e esboça a nova figura do Messias com base na figura do Servo e do Filho do Homem.

O messianismo compreende a intervenção de Deus na história, em vista de uma redenção dessa mesma história. Os modos distintos de entendê-la não têm como única implicação a demarcação dos limites de identidade cristã e judaica.

Por isso, tentaremos perceber através das reflexões cristológicas de Bernard Lauret e Christian Duquoc sobre o messianismo, as implicações de uma cristologia messiânica.