Lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar com imagens e ideias de hoje,
as experiências do passado.
Ecléa Bosi
O desejo de me tornar professora começou a virar realidade quando ingressei no Curso Normal, em 1994, ano em que iniciei oficialmente minha formação pedagógica.
Foram três anos vividos intensamente no Colégio Trasilbo Filgueiras, situado no município de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Ali experienciei momentos formativos potentes. O Curso Normal trouxe brilho aos meus olhos e alegria ao coração: viver aquele processo formativo me preenchia. Penso nas contribuições de Nóvoa (1992), quando ressalta a indivisibilidade da pessoa que é professor, pois não há
como separar o eu pessoal do profissional, ambos compõem minha vida de professora, unindo minhas crenças, esperanças, práticas, alma e transcendência.
Rememorar fragmentos de minha vida de normalista significa “considerar o ser humano como um sujeito-ator singular-plural de sua vida, capaz de ser um interlocutor ativo, inclusive no processo de pesquisa” (JOSSO, 2010, p. 60). Conectar-me a minha história de vida significa ampliar conhecimentos sobre uma professora em formação, o que explica meus modos de ser, de fazer, de resistir e de pertencer, conforme defendia Josso. Pesquiso com jovens normalistas porque há uma relação de encontro, de pertencimento e de ativismo no Curso Normal. Assim, rememoro a vida, ciente de que ela “é apenas tecido de uma meditação que desfaz dia após dia suas dobras para descobrir o traçado de seus fios” (BOBIN, 2007, p. 25, apud JOSSO, 2010, p. 61).
Entre fios e desafios que compõem minha história, volta à lembrança uma normalista inquieta, atuante e participativa. Eu jogava futebol e tocava a bola com meus pares, lembro que as aulas práticas e metodologias de ensino eram as áreas do conhecimento que permitiam uma salada de pensamentos e criações. Também recordo de não gostar muito de montar enfeites para as aulas, sempre achei que decoração demais desviava a atenção dos alunos da mensagem que queria emitir como professora.
A primeira aula prática a que assisti parecia uma festa de aniversário, cheia de bolas, ursinhos, confetes e balas embaladas em papel crepom colorido. Percebi que o Curso Normal também exigia das normalistas as práticas de desenhar, recortar, dobrar, colar e decorar, para as quais eu não tinha tanta desenvoltura. Confesso que minha preferência sempre foi pensar a aula, os conteúdos, os planejamentos e sua apresentação. Nas minhas astúcias, as colegas ficavam com a “estética” e eu com a criação verbal. Na maioria das vezes, elas montavam os materiais, cartazes, recursos visuais e pedagógicos e eu, os textos em contextos. Compartilhávamos nossas aprendizagens, técnicas, saberes e não saberes, afinal, a escola serve para quê?
O mimeógrafo conhecido da infância permaneceu em minha juventude normalista, ele era amarelo e ainda fascinante. Ali experimentava esse artefato na posição de futura professora, “rodando” as atividades criadas, imprimindo minhas letras que juntas formavam palavras e enunciados, ainda distanciados da perspectiva bakhtiniana, mas próximos do que o autor denomina de dialogia, pois minha constituição é entrelaçada pelas relações estabelecidas com os outros e com o mundo que me cerca, pois dialogismo é a “condição de sentido do discurso, a ligação entre a linguagem e a vida social” (GOULART, 2007, p. 95).
Até hoje tenho algumas inquietações em relação à prática docente no Curso Normal, especialmente quando há uma preocupação com a realização de trabalhos voltados para uma perspectiva estética desencarnada e ideológica, com uma entonação acentuada para a “beleza” da sala, das imagens, das letras, dos enfeites que comporão o cenário da “festa”. Viver o século XXI e revisitar as efemérides como tema de aula ainda me causa angústias, trabalhar datas comemorativas desprendidas da realidade, vestir alunos de “índígenas”, “coelhos” e “soldados” nunca se estabeleceu como regra ou parte de minha docência. A esse respeito, ressalto os estudos de Maia (2017) que discute o currículo baseado em “tradições”, muitas vezes sobrepostas às demandas cotidianas dos estudantes. Ou seja, a prática naturalizada de datas comemorativas nas escolas estaria atrelada a uma tradição inventada, na qual determinados valores e normas de comportamento seriam inculcados nos sujeitos por meio da repetição. Nessa perspectiva, a autora entende que eleger algumas ideias, informações, sentimentos e histórias a não serem esquecidas dialoga com a produção de um currículo voltado para a
“afirmação de uma perspectiva cultural sobre outras, de uma forma de estar no mundo que se sobrepõe a outras, para a formação das identidades dos sujeitos com ele implicados” (MAIA, 2017, p. 2). Viver o Curso Normal também é repensar criticamente a prática da tradição e possivelmente inventar outros currículos, especialmente a partir do que emerge nosdoscom os cotidianos dos estudantes, das professoras e da própria sala de aula.
Quando fazia a formação de professores, a Didática era uma área do conhecimento que já me chamava a atenção. Lembro da professora Edilza despertar um olhar crítico, desprendido das decorações, mas enfocado nos conteúdos e nas técnicas que nos ajudassem a “ensinar” e interagir com os alunos. Mesmo que naquela época a didática ainda tivesse uma abordagem instrumental, uma essência fundamental (CANDAU, 1999) já era presentificada. Fui entendendo que, como professora, não ensino apenas, mas também aprendo (FREIRE, 1996). Na verdade, estamos aprendendo o tempo inteiro.
Viver o Curso Normal em minha juventude significou aproximar-me do sonho de menina, o de ser professora. Eu aproveitei cada momento, ocupei os espaços e experienciei acontecimentos. Ensaiei docências, fiz amizades, explorei espaços, métodos, técnicas e tecnologias anteriores às digitais. Entre o quadro-negro, livros, mimeógrafo, microscópio, flanelógrafo, jornais, cartazes, folhetos, murais didáticos,
papeis de carta, envelopes, gibis, carimbos e varais de leitura, construíamos o texto de nossas vidas na sala de aula.
Lembro da emoção sentida nos seminários e nas aulas práticas, do nervoso não apenas para falar em público, mas também de ser avaliada. Os recursos didáticos e materiais concretos deveriam ser produzidos e não comprados, blocos lógicos na medida certa, material dourado apresentável, cartazes caprichados, letras legíveis e bem escritas, alfabeto móvel perfeito, ponteiros do relógio notáveis. Encenava as aulas em casa cronometrando o tempo, articulando e gesticulando na frente do espelho para dar tudo certo. Hoje certamente gravaria as aulas no celular, mas naquele tempo era improvável. Eu chamava primas, parentes e colegas para assistir, minhas coautoras mais próximas.
Naquele tempo, vida de normalista já era difícil, afinal, além de fazer o curso em tempo integral por conta dos estágios, íamos com vários materiais: cartazes, folhinhas, tintas, cartolinas e tantos apetrechos que identificavam qualquer estudante do Curso Normal que poderia ser reconhecida pelo que carregava e não pelo uniforme que, no meu caso, já era jeans e camiseta. Essas são lembranças de um tempo significativo, que me fazem olhar para o hoje, reconhecendo um pouco de mim nas/nos normalistas e muito delas e deles em mim. Nas palavras meméticas deste tempo, a identificação visual de uma normalista se dá quando lemos a imagem a seguir:
Figura 1: Identificando estudantes do Curso Normal
Fonte: https://www.Instagram.com/vida_de_normalista_/
De modo cômico, mas crítico, a ilustração refuta algumas narrativas que se espalham socialmente a respeito de estudantes do Curso Normal, especialmente as que transmitem um olhar depreciativo sobre a formação, julgando-a de superficial e de
pragmática. Normalistas habitualmente são identificadas pelo que carregam (materiais em mãos), contudo, juízos de valor direcionados ao Curso e aos que ali se encontram tornam a palavra carregada de conteúdo semântico, emergindo o enunciado pleno, ou seja, “a expressão da posição do falante individual em uma situação concreta de comunicação discursiva” (BEZERRA, 2016, p. 46). O meme é uma resposta à palavra outra e dialoga com os sentidos que enquanto estudante eu fornecia ao Curso Normal, aquela que entendia a importância de uma formação que não sobrepusesse os procedimentos práticos aos teóricos, conforme mencionado anteriormente e que hoje posso recordar e expressar de outro modo. Começo a “pensar os memes como discursos abertos e colaborativos, capazes de participar da narração da nossa história comum, sublinhando sua potência na criação do pensamento” (NOLASCO-SILVA; SOARES;
LO BIANCO, 2019, p. 111).
Fazer o Curso Normal contribuiu com minha formação humana, saí dali diferente do que entrei. Formei-me e fui transformada, ciente de meu inacabamento e incompletude, apenas olhei para trás e agradeci, assumindo o compromisso ético e responsável com a docência que sempre é discência. No retorno ao tempo, percebo que
“no mundo dos acontecimentos da vida, campo próprio do ato ético, estamos sempre inacabados, porque definimos o presente como consequência de um passado que construiu o pré-dado” (GERALDI, 2007, p. 47). Conforme o autor, é por meio da memória de futuro que se definem as escolhas no horizonte das possibilidades. E repensar o Curso Normal e as experiências do passado com as imagens e ideias de hoje, é contar uma nova história, reconstruí-la com meus pares neste tempo, tornando essa formação cada vez mais viva e potente.