3.1 ESTUDOS ESTATÍSTICOS
3.1.4 R EVELAÇÕES ACERCA DO ALCANCE DOS OBJETIVOS DO ECA
As medidas sócio-educativas previstas no ECA tem finalidade pedagógico-educativa, tendo também como escopo a proteção integral da criança e do adolescente, de forma que sejam assegurados o pleno desenvolvimento a este, inclusive seu aprimoramento moral. O ECA tem compromisso em educar o menor, evitando a reincidência, além de prevenir a ocorrência de novos casos criminosos por meio do exemplo, e punir individualmente o menor infrator.
A eficácia na aplicação de tais medidas poderia ser comprovada com a progressiva redução da criminalidade juvenil. Tal objetivo não vem sendo alcançado em nosso país, tendo em vista a contínua ocorrência de atos ilícitos praticados por jovens menores de 18 anos. Alguns destes casos, inclusive, chocam a maior parte da população, que defende a redução da maior idade penal.
Tal situação também é verificável na realidade vivenciada na região objeto de estudo deste trabalho monográfico, as cidades de Balneário
Camboriú e Camboriú, que tem um índice de criminalidade juvenil, que varia exponencialmente entre tempo pesquisado.
Comparando a aplicação das medidas sócio-educativas em 2013 com 2012, nota-se que o número de ilícitos aumentou consideravelmente, posto que, em Balneário Camboriú, foram computados 139 processos de apuração de tráfico de drogas no ano de 2013, sendo que em 2012 foram computados 59 processos.
Outro fator que sempre afetou os estudos relacionados à segurança pública brasileira são as cifras negras, ou seja, os casos não contabilizados em registros oficiais, e que conjuntamente com os dados contabilizados caracterizam a real gravidade do problema.
Conforme mencionado anteriormente, observando o número de julgados relacionados às infrações juvenis, com o número de medidas socioeducativas executadas anualmente, nota-se que o número de medidas aplicadas deveria ser muito maior, o que indica a possibilidade de existência de erro na contabilização, ou comprova que realmente tais medidas não vem sendo aplicadas como deveriam ser.
Ademais, embora o ECA proponha mecanismos educativos e pedagógicos aos adolescentes infratores, nota-se que tais medidas acabam perdendo sua eficácia pois, em muitos casos, o menor não continua recebendo educação adequada no âmbito familiar, ou até mesmo da instituição em que cumpre a MSE.
Os dilemas da delinquência juvenil precisam ser pensados de forma sistemática para que sejam solucionados. Todos os ambientes que fazem parte da vida diária de um jovem contribuem com a formação de sua personalidade e caráter. Portanto, mecanismos educativos eficientes se tornarão irrelevantes se aplicados somente em um âmbito individual da vida do jovem. De nada adiantará as medidas sócio-educativas previstas pelo ECA, ou uma educação institucional adequada, se a educação familiar for inadequada.
Nota-se com os dados apresentados neste terceiro capítulo, que o poder judiciário vem aplicando os mecanismos previstos no ECA, mas isto não é o deficiente para garantir redução substancial na criminalidade regional sob exame.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A proteção integral a crianças e adolescentes foi inaugurada no ordenamento jurídico brasileiro com artigo 226 da CF, que prevê que a criança tem uma ampla gama de direito que devem ser assegurados pela família e pelo Estado.
O referido dispositivo constitucional foi regulamentado infraconstitucionalmente pela Lei 8.069/90, o Estatuto da Criança e do Adolescente.
O estatuto tem como objetivo dar regime de tratamento diferenciado ao jovem infrator daquele conferido ao criminoso maior de 18 anos.
O legislador não teve a intenção de garantir a impunidade dos menores de 18 anos com o advento do estatuto, mas sim o alcance da finalidade de proporcionar a proteção integral prevista constitucionalmente, de maneira a garantir o pleno desenvolvimento do menor.
Quando o menor pratica um fato típico previsto no Código Penal, o mesmo não pratica crime, mas ato infracional. O autor do ato infracional recebe tratamento diferenciado do autor do crime, pois não cumprirá pena, mas medidas sócio-educativas.
As medidas socioeducativas são a advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, inserção em regime de semiliberdade e internação. Poderá ainda ser concedida a remissão ao jovem infrator, que constitui um perdão pelo ato ilícito praticado.
Tais medidas socioeducativas têm semelhança com as finalidades das penas, de punir individualmente e prevenir a pratica de novos ilícitos pelo exemplo. No entanto seu apelo maior é a educação proporcionada à criança e ao adolescente. Por meio da aplicação da pena o Estado não visa simplesmente o controle da segurança pública, mas assegurar a proteção integral às crianças e adolescentes.
No entanto, após 23 anos de vigência do ECA, nota-se sua ineficácia para solucionar a criminalidade juvenil, assim como impedir a reincidência.
Fato é que grande parte dos adolescentes apreendidos pelo cometimento de quaisquer atos infracionais, são apreendidos reiteradas vezes.
Muitos críticos ao ECA apontam para a necessidade de se reformar seu conteúdo, para que seja solucionado o problema do não cumprimento das medidas socioeducativas, que muitas vezes não gera nenhum efeito sobre o sujeito infrator.
Percebe-se também que a precariedade dos Centros de Atendimento Socioeducativo é um problema que inviabiliza o fiel cumprimento do ECA, pois conta com estrutura física inadequada para receber todo o contingente de jovens infratores. As equipes de profissionais contratados para gerir os CASEPs, normalmente são Organizações Não Governamentais terceirizadas pelo Estado para prestar o atendimento. A estrutura defasada em Santa Catarina pode ser verificada com base no relatório do DEASE, que demonstra a existência de somente 485 vagas para receberem jovens infratores em todo o Estado, vez que, considerando apenas os processos da área sob estudo, já seriam insuficientes.
Verifica-se também que a criminalidade juvenil não vem sendo reduzida como decorrer do tempo. As análises dos relatórios disponibilizados pelo poder público Estadual demonstraram que anualmente a criminalidade entre menores vem aumentando consideravelmente.
Diante das informações evidenciadas neste trabalho verifica-se que a hipótese 01 foi confirmada, visto depois de 23 anos de promulgação do ECA, os índices de criminalidade juvenil ainda são alarmantes e crescentes.
A hipótese 02 foi negada, visto que os relatórios disponibilizados pela Corregedoria Geral de Justiça, e pelo Departamento de Administração Sócio-educativo evidenciam que, nos casos de tráfico de drogas (139 processos), posse de drogas (129 processos), roubo (77 processos), furto (74 processos), no ano de 2013, comparados com o ano de 2012, de tráfico de drogas (110 processos), posse de drogas (59 processos), roubo (59 processos), furto (52 processos) deixam claro e evidente que a criminalidade de autoria de menores de 18 anos na região vem aumentando.
A hipótese 03 foi confirmada, visto que o Estado não dispõe de estrutura adequada para receber os casos mais graves de atos infracionais que exigem a internação do autor, o que pode ser verificado pela baixa capacidade dos Centros de Atendimento Socioeducativo em Santa Catarina (conforme planilha em anexo) e constantes intervenções do Judiciário nas unidades, posto que são costumeiras as fugas de adolescentes internados destas unidades, geralmente administradas por organizações não governamentais.
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