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Evolução Recente e Perspectivas do Mercado de Commuters

No documento da indústria brasileira (páginas 40-45)

1. TENDÊNCIAS INTERNACIONAIS DA PRODUÇÃO E DO MERCADO

1.5. Evolução Recente e Perspectivas do Mercado de Commuters

Os gráficos 1 e 2 indicam a evolução da produção de commuters em quantidade e valor a partir de 1982, ano em que se inicia um período de intenso crescimento. Suas fontes são as mesmas indicadas na tabela anterior. O gráfico 1, que apresenta o número de aeronaves produzidas, permite apreciar que o segmento de maior capacidade (mais de 45 passageiros) é o menos numeroso, embora em função do crescimento verificado a partir de 1987 apresente uma tendência a igualar-se ao de menor capacidade (10-20 passageiros). O segmento de 20-45 é, desde 1986 o mais numeroso. Em relação ao conjunto da categoria, pode-se observar que após um período de crescimento acelerado em 1984-88 ela tende a estacionar e posteriormente a diminuir ainda que levemente.

Porém, mais importante do que apreciar a evolução do número de unidades produzidas de cada modelo de aeronave é avaliar o volume de recursos envolvidos na sua produção. Para tanto foi traçado o gráfico 2 a partir do preço de venda médio estimado. Através dele é possível observar uma situação significativamente distinta da anteriormente comentada.

A participação relativa do segmento de 10-20 passageiros tem-se mostrado constante enquanto que o de capacidade intermediária, e depois o de maior número de passageiros, têm apresentado uma maior taxa de crescimento; sendo este último, desde 1988 o mais importante em termos de valor. Em relação ao conjunto da categoria dos commuters, pode-se observar que após um período de crescimento acelerado o valor da produção tende a diminuir a partir de 1989 numa proporção maior do que a observada no número de unidades produzidas. Os dados acerca do comportamento dos diversos segmentos, ainda não disponíveis com um nível de detalhe compatível necessário, indicam a manutenção da tendência de queda observada a partir de 1990.

A estagnação da demanda por aeronaves do segmento de 10-20 lugares e a diminuição, no caso dos dois segmentos de maior capacidade, a partir de 1989, é especialmente grave para as empresas aeronáuticas dado que ocorre num momento em que elas haviam preparado sua atividade futura supondo um período de manutenção da tendência de crescimento observado nos anos anteriores.

GRÁFICO 1

AERONAVES PRODUZIDAS (QUANTIDADES)

ano

nº aeronaves

0 50 100 150 200 250 300 350 400 450

82 83 84 85 86 87 88 89 90

10-20 pass. 20-45 pass. 45+ pass.

GRÁFICO 2

AERONAVES PRODUZIDAS (VALOR)

ano

milhões de dólares

0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 5000

82 83 84 85 86 87 88 89 90

10-20 pass. 20-45 pass. 45+ pass.

1.5.1. Previsões de mercado realizadas e o comportamento das empresas

A tabela 2 permite entender as origens da situação atual, marcada por uma crescente dificuldade das empresas que atuam no mercado de commuters. Ela apresenta na coluna (5) algumas das mais importantes estimativas realizadas para o mercado de diferentes segmentos de aeronaves commuter durante a década de 80. As quatro mais antigas foram realizadas por órgãos independentes (Office of Technology Assessment do governo norte-americano e a Federal Aviation Association) e as três mais recentes, por empresas aeronáuticas.

Na coluna (6) está indicada a média anual de produção decorrente de estimativa. Na coluna (7) está indicada a produção para os segmentos respectivos obtida a partir dos dados referentes ao ano de 1990, que pode ser considerado como o ano médio dos intervalos de previsão considerados.

Estimativas como as apresentadas têm normalmente significativa divulgação e refletem de maneira bastante razoável o senso comum presente no setor em relação às expectativas de crescimento do mercado. Elas costumam ser levadas em conta nas atividades de planejamento de médio e longo prazo das empresas. Por essa razão, sua consideração permite avaliar a maneira como as empresas estimaram sua capacidade competitiva frente aos concorrentes.

TABELA 2

ESTIMATIVA DO MERCADO MUNDIAL DE COMMUTERS

(em número de aeronaves) ESTIMADO POR ANO PERIODO SEGMENTO ESTIMATIVA MÉDIA ANUAL PROD.90 (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) OTA 1980 1980-2000 20-40 1996 95 155 FAA 1979 1980-2000 20-40 1600 76 155 OTA 1980 1980-2000 40-60 1215 58 193 FAA 1979 1980-2000 40-60 1500 71 193 CASA 1986 1984-1994 30-50 1800 164 166 De Havilland 1986 1984-1995 30-50 1500-2000 146 166 Aeroespatiale 1986 1984-1985 30-50 2800-3000 242 166

Fonte: Hockendrick (1989) p.78 e estimativas.

Supondo uma previsão realizada a partir de uma extrapolação linear, os dados de produção para o ano de 90 podem ser comparados de forma razoável com a média anual do período. O resultado desta comparação indica que as estimativas realizadas em 1979 e 1980 - quando a categoria dos commuters não havia entrado ainda no seu período de intenso crescimento - mostraram-se conservadoras quando cotejadas com a evolução observada do mercado. Das estimativas realizadas em meados da década dos 80 (1986), quando o mercado se encontrava em franca expansão, duas foram coerentes com a evolução observada e uma a superestimou.

No início da década de 80, quando as empresas estavam iniciando os programas de desenvolvimento das aeronaves que seriam lançadas no mercado entre 1983 e 1985, houve uma superestimação da fatia de mercado (previsto pelas estimativas então realizadas) que cada uma delas poderia ocupar. Não ocorreu, entretanto, uma frustração das expectativas das empresas, e elas puderam amortizar seu investimento com o desenvolvimento das aeronaves que foram lançadas devido ao comportamento não esperado do mercado. Em meados da década dos 80, quando as empresas estavam iniciando os programas de desenvolvimento das aeronaves que seriam lançadas no mercado nos três ou quatro anos seguintes, o mesmo viés otimista por parte de cada empresa parece ter ocorrido. Neste caso, entretanto, as conseqüências têm-se mostrado bem distintas, como pode ser inferido pelas dificuldades que as empresas vêm enfrentando para se manterem no mercado.

Em função das expectativas positivas em relação à demanda, várias empresas de distintos países planejaram, durante o final da década dos oitenta, sua entrada no mercado ou a expansão de suas atividades. Entre outros merecem ser citados:

- os planos da empresa aeronáutica da Indonésia (ITPN) em colaboração com a CASA espanhola de expandir sua família de commuters;

- os planos da Coréia do Sul de iniciar a produção de commuters;

- a compra por parte de Taiwan de ações da McDonell-Douglas visando a produção local;

- a formação de um joint venture entre uma empresa chinesa com a McDonell-Douglas e com a Boeing para produzir aviões commuters;

- a disposição de firma indiana e da British Aerospace de formar um joint venture visando a produção do Ba146;

- a disposição do Japão, que já produz uma série de componentes aeronáuticos sofisticados, para entrar no mercado de commuters;

- a disposição da Deutsch Aerospace alemã de formar um joint venture com a Alenia italiana e a Aeroespatiale francesa, e eventualmente com a Fokker holandesa, para a produção de commuters a jato para os diversos segmentos.

Como conseqüência dessas e de outras ações, algumas das quais levadas a cabo com sucesso, um grande número de novos modelos foram lançados no mercado. No segmento de aeronaves de 10-20 passageiros ocorreu o lançamento de um número de modelos durante o período de 1983-90 maior do que o verificado nos 20 anos anteriores. No segmento de 20-45 passageiros existiam, em 1985, apenas duas aeronaves que haviam começado a ser produzidas no início dos 60, e mais uma que havia entrado no mercado no ano anterior. Até 1988, existiam neste segmento sete competidores. Embora tenha sido posteriormente descontinuada a produção das

duas aeronaves mais antigas, duas novas entraram no mercado desde então. O mercado de mais de 45 lugares também se apresenta extremamente competitivo. Existem atualmente sete concorrentes, dos quais cinco entraram no mercado após 1988. Está programada para os próximos anos uma considerável atualização de alguns dos modelos atualmente em produção.

Como já apontado, e em função da evolução comentada, empresas como a Fokker, De Havilland, Fairchild, SAAB, Shorts Brothers, British Aerospace, apesar da qualidade de seus produtos, e de sua capacidade tecnológica e mercadológica, começaram a apresentar dificuldades a partir de meados dos anos 80.

A gravidade do quadro atual pode ser avaliada pelos seguintes exemplos:

- na Europa, Fokker, SAAB, DASA, Alenia e Aeroespatiale estão sendo socorridas pelos seus respectivos governos para sanear sua situação financeira e prosseguir desenvolvendo seus produtos;

- nos EUA, a Beech passa por dificuldades, tendo despedido pessoal e diminuído a produção nos últimos anos. A Fairchild abriu falência e despediu pessoal em 1989, mas posteriormente obteve um empréstimo para retomar a produção. A Piper abriu falência em 1992 e encontra-se com sua produção praticamente paralisada.

Por outro lado, e em função dessa situação, tem ocorrido uma série de privatizações e incorporações. Entre elas cabe citar:

- a aquisição, pela Bombardier, da Canadair do governo canadense, em 1988, tendo este assumido o compromisso de custear o estágio final de desenvolvimento do seu jato regional;

- a aquisição, pela Bombardier, da Shorts Brother, em 1989, após o governo ter efetivado uma significativa injeção de capital anteriormente decidida e aceito custear investimentos também já programados. Em troca, a Bombardier comprometeu-se em seguir utilizando a marca Shorters e mantê-la sob seu controle pelos quatro anos seguintes;

- a aquisição, pela Boeing, da De Havilland, em 1988 e posterior venda para a Bombardier, com a participação do governo canadense, em 1992.

Embora o comportamento da Boeing não tenha sido até agora seguido por outras grandes empresas produtoras de aviões de grande porte, ele pode render consideráveis dividendos. Em função do grande volume de insumos por ela utilizados, a compra da De Havilland permitiria uma considerável redução de preço na compra de materiais e componentes (30% nas placas metálicas e 40% nos aviônicos) para esta empresa. Por outro lado, caso bem sucedida, a incorporação permitiria à Boeing oferecer descontos às companhias de aviação na venda dos commuters fabricados pela De Havilland.

No documento da indústria brasileira (páginas 40-45)