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As atividades de lazer restringem-se a jogar cartas e a assistir TV; o esporte praticado é o futebol, em horários reservados, e a única atividade profissional existente é a do Projeto Ceja, consistente em aulas de marcenaria.
As principais queixas dos adolescentes, na área da saúde, referem-se à falta de ginecologista (no caso de sexo feminino), coceiras e sarnas, estas em função de colchões velhos, encardidos e sem roupas de cama e, para encerrar, há, ainda, a declaração da diretora do centro de internação de que porcentagem maciça dos jovens, cerca de 60% (sessenta por cento) a 70%
(setenta por cento), retornam para a própria unidade. A vultuosidade do índice de reincidência revela quão ineficiente é a internação nas circunstâncias denunciadas, que pode ser comparada com qualquer estabelecimento prisional destinados a adultos.
Diante do exposto, o que se pode concluir é que, inócua a escolha ponderada da medida sócio-educativa pelo magistrado, bem
como a fixação por este das peculiaridades da implementação, se as entidades responsáveis pela tarefa mais dificultosa (de contato direito com o adolescente) não desempenharem corretamente suas funções ou, em razão da omissão estatal, não disponibilizarem de recursos para tal efetivação – o que vivifica a idéia de crise de implementação do ECA, patrocinada por Emílio Garcia Mendez, entre outros, há mais de uma década.
Afonso Armando Konzen reforça a expectativa pela promulgação de uma lei executória afirmando que:
No vazio da norma, as respostas pertencem à lei daquele com mais poder. Ou àquele com opinião mais estruturada. Se muda a pessoa, o risco é de mudança de opinião. Se muda a opinião, muda a execução. E nem sempre o interesse principiologicamente prevalente, o interesse do adolescente, faz parte dos fundamentos da mudança. Só por isso, para minimizar o improviso e permitir um mínimo de estabilidade, um regramento específico poderia contribuir positivamente. Por isso a necessidade imperiosa, indispensável, urgente, já por demais protelada, uma falta incompatível com o estado democrático de direito, da norma na execução das medidas162.
Não são recentes as tentativas de criação de uma legislação específica163, porém, dentre os mais promissores projetos, está o que institui o Sinase (PL 1627/07), que se encontra, atualmente, tramitando em regime de prioridade, aguardando manifestação da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado. Tal Projeto regulamenta a execução das medidas sócio-educativas, com a proposição de criação de um plano individual de cumprimento destas – tanto em meio aberto quanto em situação de privação de liberdade –, fornecendo requisitos específicos para cada espécie de medida; e transfere ao Executivo os programas sócio-educativos, atualmente sob responsabilidade do Judiciário164.
162 KONZEN, Afonso Armando. Reflexões sobre a MEDIDA e sua EXECUÇÃO (ou sobre o nascimento de um modelo de convivência do jurídico e do pedagógico na socioeducação). In:
Justiça Adolescente e Ato Infracional: socioeducação e responsabilização. ILANUD; ABMO;
SEDH; UNFPA (orgs). São Paulo: ILANUD, 2006. p. 347.
163 “A maior parte dos projetos de lei apresentados no Congresso Nacional sobre crianças e adolescentes visa diminuir os direitos dessa parcela da população. Análise de 488 proposições feita por especialistas revela que apenas 82 (16,8%) são favoráveis a esse público. ‘Um número muito grande de projetos vai contra o que é garantido na lei. Mesmo aqueles que não modificam diretamente o ECA demonstram que os parlamentares sequer conhecem o que já existe na legislação da infância e adolescência. São propostas sobre questões já superadas, que ainda constavam do antigo Código de Menores’, explica a socióloga Jussara de Goiás, militante do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua que participou da classificação dos PLs.”
AMBP, Projetos a favor da infância são minoria no Congresso. Disponível em:
<http://www.abmp.org.br/noticias.php?n=4>.
164 Câmara dos Deputados. Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/proposicoes>.
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Ousa-se apontar, dentre todas as proposições do projeto de execução, o plano individual de cumprimento das medidas sócio-educativas165 como a mais relevante inserção legislativa para monitoramento da situação dos adolescentes e satisfação dos fins galgados pelo ECA, embora muitos autores, com freqüência, já o tenham mencionado na informalidade.
Retrato disso pode ser constatado através nas lições de Wilson Donizeti Liberati, que, há tempos, já asseverara que o Plano Individual de Atendimento deve ser instaurado em todas as modalidades de medida sócio- educativa, bem como deve consistir na elaboração de um plano de propostas pedagógicas e terapêuticas ao adolescente infrator, realizada por um profissional.
Para o mesmo, tal plano deve, ainda, necessariamente, conter descrição minuciosa das etapas da medida determinada; ser discutido com o infrator, seus pais ou responsáveis, freqüentemente; ser finalizado em sete dias, em caso de medida em meio aberto e, em quinze dias, quando a medida for privativa de liberdade e conter objetivos sócio-pedagógicos, diagnósticos de demandas de atendimento e proposta de inserção social166.
O Plano, estreme de dúvidas, é o instrumento de maior importância da execução da medida sócio-educativa, tendo em vista que tem por finalidade expor as experiências profissionais vivenciadas pelo adolescente, seu grau de escolaridade, as atividades esportivas e de lazer desenvolvidas, seu estado físico e psíquico, sua relação com familiares e com a sociedade (grupos de amigos, instituições) e aspectos jurídicos de sua vida (existência de processos) – todos parâmetros a serem atentados pelo juiz para a substituição da medida inicialmente imposta ou, até mesmo, para a regressão ou progressão de regime, estas duas como forma de assegurar o princípio constitucional da individualização da pena (art. 5º, XLVI, da CF/88) e a ressocialização do adolescente, por meio de
165 O Projeto de Lei 1627/07 reservou um capítulo específico para a abordagem do Plano Individual (IV), o qual, em seu art. 23, dispõe que: “O cumprimento das medidas socioeducativas, em regime de prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade ou internação, dependerá de plano individual, instrumento de previsão, registro e gestão das atividades a serem desenvolvidas com o adolescente”. Câmara dos Deputados.
Disponível em: < http://www.camara.gov.br/sileg/integras/483743.pdf>.
166 LIBERATI, Wilson Donizeti. Execução de medida socioeducativa em meio aberto: Prestação de Serviços à Comunidade e Liberdade Assistida. In Justiça Adolescente e Ato Infracional. p. 384.
passagem gradativa em ambientes que visam a educação e a prevenção em relação ao ato ilícito cometido.
Afora tais aspectos externos, importante deslocar atenção à interiorização do adolescente, enquanto sujeito de direito, no processo de execução da ação estatal, manifestada em resposta ao seu ato reprovado. Neste caso, cominatoriamente às medidas de aliança entre comunidade, família e entes públicos, deve-se diligenciar em prol da autonomia do sujeito, fulminando a normatização e conclamando como pedagogia (sincreticamente) a rejeição do padrão pedagógico em nome da democracia e do diálogo – formas de intensificar a Lei-do-Pai e, ao mesmo tempo, de preservar a constituição do sujeito, reservando uma margem de indeterminação167.
167 ROSA, Alexandre Morais da. Introdução Crítica ao Ato Infracional. p. 234-235.