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A FACHADA TRANSPASSADA

No documento TAPETE DE SERRAGEM DA SEMANA SANTA (páginas 152-156)

E SEU D IÁLOGO COM OS T APETES DE S ERRAGEM

5.5 A FACHADA TRANSPASSADA

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tapete e nos territórios identificados pelo desenho viário que descrevem. Seus fiéis procuram se superar  na  realização  de  tapetes  mais  bonitos  a  cada  ano,  mas  dependem  de  uma  estrutura  logística  de  provisão da matéria prima que caracteriza a escala da cidade e bairro como extremamente dependente  da  iniciativa  organizacional  do  município  através  da  Secretaria  da  Cultura  e  Turismo  e  do  apoio  da  Fundação  de  Artes  de  Ouro  Preto  (FAOP)  (fig.  52).  Estratégias  de  compensação  dessas  dificuldades  estruturais  são  ensaiadas  em  nível  das  relações  de  vizinhança,  onde  se  verificam  parcerias  e  concorrências  que  têm  implicação  direta  no  resultado  visual  do  tapete  de  serragem  que  cada  grupo  elabora.  Em  uma  escala  de  aproximação  ainda  mais  ampliada,  é  no  plano  das  ações  familiares  que  se  desenrolam  as  decisões  que  determinam  o  tema  do  tapete  e  o  tratamento  que  lhe  será  dado  como  desenho.  

É  minha  tese  que  o  sistema  ritual  brasileiro  é  um  modo  complexo  de  estabelecer  e  até  mesmo  de  propor uma relação permanente e forte entre a casa e a rua, entre “este mundo” e o “outro mundo”. Ou  seja:  a  festa,  o  cerimonial,  o  ritual  e  o  momento  solene  são  modalidades  de  relacionar  conjuntos  separados  e  complementares  de  um  mesmo  sistema  social.  Sua  importância,  conforme  tenho  sistematicamente  sublinhado,  não  é  uma  função  do  espírito  festeiro,  cínico  ou  irresponsável  do  brasileiro. É muito mais um mecanismo social básico por meio do qual uma sociedade feita com três  espaços19 pode tentar refazer sua unidade. (Op. cit., 1991, p.67) 

As janelas, filtros da relação vida doméstica/púbica, são o local do qual o morador pode contemplar a  rua, emoldurando a cena brejeira consagrada pela boneca namoradeira20. Para o Domkingo de Páscoa,  são decoradas com a peça de tecido mais colorida da casa ‒ou do branco mais puro‒ a colcha de maior  chamego,  eleita  para  este  uso  na  ocasião  especial,  talvez  bordada  para  a  ocasião.  Por  tratar  de  casa,  é  impossível  não  entrar  ao  mínimo  na  estrutura  funcional  nessa  unidade  de  relacionamento  que  é  a  família, para tratar do papel (já estudado por outros) da mãe quanto a questão específica dos tapetes de  serragem.  Pivô  de  papéis  como  a  educação  familiar  e  a  ordem  interna  da  casa,  sua  capacidade  de  ordenamento espacial se destaca, em muitos casos, na liderança que assume na construção do tapete,  ou, quando lhe faltam habilidades específicas como o desenhar, fica a coordenar os trabalhos, em que  muitas  vezes  toda  a  família  se  envolverá  (normalmente  um  membro  mais  hábil  fará  o  trabalho  de  desenhar;  outros  o  auxiliarão).  Nisso  a  mãe  também  exerce  função  educativa,  pois  a  organização  da  família em torno da festa é uma das maneiras de transferir a tradição para a geração mais nova. E como         

19 Referência de Roberto DaMata às três situações espaciais –a casa, a rua e os espaços além delas– ao refletir sobre como constituem elementos inseparáveis, de modo que as redes sociais e seus valores não poderiam ser perfeitamente entendidos no Brasil se tomados separadamente dessa concepção de espaço. A festa, portanto, pode instalar uma dimensão espacial duplamente reconhecível como estando além, pois se realiza num tempo qualitativo sacado da rotina, e ritualiza os espaços do cotidiano, imergindo-os em aspectos de uma experiência espiritual que transcende a “este mundo”.

20 A boneca namoradeira é uma obra típica do artesanato mineiro. É composta apenas do busto para cima, e se destina a decorar janelas abertas para serem vistas da rua. Sua postura lembra a de uma mulher displicente, a olhar o movimento, e oferecendo ao olhar do passante o decote de seu vestido. Essas bonecas são tradicionalmente morenas e negras, e valeria a pena um estudo sociológico sobre a possível representação da escrava ou da trabalhadora doméstica e sua postura à janela como lugar seletivamente permissivo à exposição pública. Sabe-se que muitas casas mineiras, paulistas e algumas pernambucanas eram dotadas dos muxarabis, uma guarnição à maneira de um caixote contornando a sacada, constituído de painéis treliçados de ripas entrecruzadas de madeira (gelosias), que era solução típica da arquitetura mourisca, e estava diretamente relacionada à privação/proteção das mulheres da família à exposição pública, comportamento característico da cultura islâmica.

Das janelas com muxarabis se poderia ver a rua, mas a visão de fora para dentro era dificultada. Os muxarabis foram desaparecendo, e sabe-se que ao menos no Rio de Janeiro foram retirados por decreto, ao se considerar, após a Missão Francesa, que representavam a permanência de um estilo antigo e de mau gosto, e não associáveis à tradição clássica européia. Recomendava-se a adoção do gradil metálico e do vidro plano, importado da Inglaterra, e das janelas não mais com folhas verticais (características do período colonial), mas as que abriam “à francesa”, ou seja, janelas de guilhotina, que passaram a distinguir a paisagem urbana imperial brasileira, inclusive em Ouro Preto. São raros os exemplos preservados de muxarabis no Brasil, merecendo citação especial por Lúcio Costa e por Corona&Lemos um caso preservado na cidade de Diamantina-MG como o último realmente autêntico. É possível que, junto à mudança da característica arquitetônica, a mudança dos costumes em relação à janela tenha sido impressa no traço cultural urbano: a janela paulatinamente vai deixando de ser o lugar de onde a casa é

“devassada” pelo olhar externo. Mas quanto à namoradeira, é difícil imaginar que o artesanato da cultura mineira ousasse representar na forma de boneca “oferecida” uma mulher de tez branca debruçada para a rua, comportamento talvez ainda hoje visto como libertino e impróprio às

“moças de família” das cidades pequenas e mais distantes dos grandes centros. (ALBERNAZ, Maria Paula, LIMA, Cecília Modesto.

Dicionário ilustrado de arquitetura. São Paulo: ProEditores, 2003; CORONA, Eduardo, LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Dicionário da arquitetura brasileira. São Paulo: Artshow Books, 1989; COSTA, Lúcio. Arquitetura. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003 (pg.49-50);

WEIMER, Günter. Arquitetura popular brasileira. São Paulo: Martins Fontes, 2005-[Raízes] (pg.100-102)).

Figuras 54 – Janelas, lugares simbólicos.

Janelas ricamente ornamentadas “derramam” elementos da estética da casa para a rua, indicando que o tapete é mais uma extensão projetada da casa para a rua, e não uma obra cujo sentido se encerra em si, como propriedade do meio urbano externo.

(2008). 

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responsável pela nutrição da família, também seus quitutes vazarão a fronteira da  fachada para serem  oferecidos  aos  que  se  empenham  na  grande  realização  comunitária  do  tapete,  inclusive  vizinhos  e  terceiros.21 

As  mulheres  são,  nesta  ocasião,  mais  que  promotoras  da  festa  na  escala  de  sua  casa  ou  vizinhança  imediata;  são  articuladoras  do  sentimento  de  unidade  comunitária.  No  trecho  final  do  percurso  do  tapete  em  2008,  verifiquei  a  participação  de  uma  comunidade  muito  integrada  na  realização  do  trabalho  coletivo.  No  bairro  das  Cabeças,  é  a  Sra.  Delcia  Maria  do  Carmo  Soares  ‒a  Dona  Dó‒  que  assume  a  organização  do  evento  (fig.  55).  Por  ter  uma  grande  capacidade  de  articulação  e  gozar  de  respeito  e  prestígio  em  seu  bairro22,  Dona  Dó,  juntamente  com  o  Engenheiro  de  Minas  e  Professor  Osmar  Alves  (o  professor  Kelé),  conseguem  mobilizar  sua  comunidade  para  obterem  os  mais  lindos  matizes de serragem, num processo muito mais demorado, seletivo e trabalhoso que o do tingimento  massa  dos  grandes  volumes.  Mas  aqui  a  questão  principal  não  é  a  produtividade.  Para  tanto,  não  esperam  contar  com  a  provisão  da  prefeitura,  mas  mantêm,  como  no  passado,  a  tarefa  de  realizarem  eles  mesmos  a  seleção  e  tingimentodos  materiais,  separados  por  textura  (algumas  mais  finas,  outras  mais granulosas), por cor da madeira (algumas não chegam a ser tingidas, para aumentar as opções da  paleta com a cor natural), o que ajuda a obter diferentes efeitos nas figuras executadas no tapete. Essa  comunidade se reúne meses antes, e discute qual desenho deverá ocupar a calçada interna da área do  Colégio  Arquidiocesano,  que  compõe  conjunto  arquitetônico  com  a  Igreja  de  Bom  Jesus  dos  Matosinhos.  Esse trecho, ortogonal à rua, pode ser isolado dias antes, segundo a atividade do colégio, e  aí começa a confecção do tapete. Dona Dó coordena todo o processo a mais de dez anos23.  

Bem se poderia generalizar o êxito das mulheres líderes em Ouro Preto como conseqüência natural da  ascensão  de  papéis  da  mulher  na  sociedade  globalizada  contemporânea.  Mas,  não  obstante  reordenamento  da  participação  dos  gêneros  em  papéis  sociais  antes  exclusivos  de  um  ou  de  outro,  ainda sou levado a crer que, neste caso, a ocasião da confecção do tapete funcione como antigo meio  expressão  consentida  da  sociedade  para  a  mulher  (num  contexto  ainda  majoritariamente  machista,  principalmente  porque  o  acontecimento  se  realiza  numa  cena  católica  de  forte  inspiração  colonial,         

21 Essa não é uma tradição exclusiva da montagem dos tapetes. Em festejos juninos de cidades pequenas do Nordeste, os grupos musicais de forró saíam pela cidade a conduzir uma leva de farristas e entrar casa a casa, comendo da mesa especialmente preparada para a ocasião. Essa tradição está se perdendo, e a música não exerce mais esse poder aglutinador que conduz para a família. Nos tempos de hoje, a fruição da música pode ser individualizada pela tecnologia, e a ocorrência de grandes shows musicais parece se dar mais pela convergência de interesses tribalizados.

22 Está por ser investigado se a liderança que exerce para realizar do tapete de serragem lhe confere respeito, ou foi uma condição de status anterior que a franqueou este posto – é possível que as duas coisas

23 Dona Dó representa arquetipicamente a mulher que extrapola os limites da casa para projetar sua importância sobre a comunidade.. Noutro trecho da cidade, entre os moradores do Antônio Dias, Dona Efigênia Stela, 94 anos, por muito tempo desempenhou a mesma função.

Figura 55 – Professor Kelé e Dona Dó, animando vizinhos durante o tingimento da serragem pelos moradores do bairro das Cabeças.

(foto concedida pela Secretaria de Cultura e Turismo de Ouro Preto – autor e data não informados).

como  numa  sociedade  em  que,  insuspeitadamente  para  o  observador  externo,  as  irmandades  ainda  ocupam importante papel na expressão do status social local).  

Seria  a  rua,  por  ocasião  dos  tapetes,  uma  expressão  expandida  da  casa,  que  fará  contraponto  às  imposições de limites históricos da participação feminina na vida pública, principalmente no templo e  nas  atividades  litúrgicas?  (não  é  a  boneca  namoradeira  uma  brincadeira  sobre  o  papel  da  mulher  por  trás da janela?). Ora, saído o cortejo ‒considerado prática para-litúrgica‒ começa o rito (dentro de outro  rito) de percorrer o tapete. Desfilam figurantes com caprichosíssima indumentária, (trabalho de mulher)  representando personagens bíblicos; e não se pode deixar de considerar que a participação do público  local  nesse  acontecimento  não  seja  também  obra  feminina  por  via  da  educação  religiosa  doméstica,  que alimenta a manutenção das tradições. 

Antes  de  acompanhar  o  ato  de  desmanchamento  do  tapete  recém  construído,  convém  fazer  uma  breve pausa para a apreciação crítica dos resultados gráficos obtidos na confecção do tapete, A seção  seguinte  será  dedicada  a  essa  tentativa  de  compreensão  analítica,  ensaiando  critérios  de  abordagem  classificatória  dessas  soluções  de  natureza  desenhística  a  problemas que  identifiquei  como  da  relação  do  tapete  com  a  rua,  no  que  conveio  chamar  de  escala  intermediária,  situada  entre  a  dimensão  do  bairro e da casa; e da solução de desenho particular a cada segmento executado pelos autores locais, à  frente das fachadas, observada no nível logo antes designado de micro-escala do tapete. Em todos os  casos adiante apontados, as observações se deram sobre o tapete do ano de 2009. 

Figura 55 – Tapete e crianças. Como meio de trasnmissão de valores e saberes, o tapete proporciona uma oportunidade muito bem aproveitada pelos moradores do bairro das Cabeças. Além do trabalho com suas famílias, no pátio do Colégio Arquiciocesano uma área é sempre dedicada ao trabalho das crianças, que escolhem os temas e executam com autonomia.

Autor: Dona Dó (Délcia Maria do Carmo); s.d. 

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