Para que o crime seja configurado, é fundamental uma conduta humana (ação ou omissão). Essa conduta junto aos outros elementos forma o fato típico.
Assim nos ensina Mirabete, (2004, p.1001):
O crime é um fato típico e antijurídico. Para que se possa afirmar que o fato concreto tem tipicidade, é necessário que ele se contenha perfeitamente na descrição legal, ou seja, que haja perfeita adequação do fato concreto ao tipo penal. Deve-se, por isso, verificar de que se compõe o fato típico. São elementos do fato típico: conduta (ação ou omissão); Resultado; Relação de causalidade; Tipicidade.
Jesus (2007, p.225) salienta que “o fato típico é aquele que consiste no fato que se enquadra no conjunto de elementos descritivos do delito contidos na lei penal”. Para uma perfeita integração do fato típico, são necessários alguns elementos como uma ação ou omissão do comportamento humano, a qual se consiste de uma violação do preceito legal. Essa ação ou omissão ainda não satisfaz o primeiro requisito do crime, pois é necessário um resultado, que é o efeito do comportamento (nos crimes materiais). Porém, é exigida uma relação de causalidade objetiva entre a conduta e o resultado. A desfere um tiro em B, que ao ser transportado para o hospital, vem a falecer na viagem. Dessa maneira, surge outro elemento do fato típico: a relação de causalidade ou nexo causal (JESUS, 2007, p.225).
2.2.1 Teorias sobre a conduta
A conduta é o elemento constitutivo do fato típico, que pode ser bem definida sob a ótica do art.13 do Código Penal Brasileiro.
Art.13 - O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa.
Considera-se causa a ação ou omissão, sem a qual o resultado não teria ocorrido. (grifo nosso).
A primeira parte do art.13 do Código Penal brasileiro é expresso ao afirmar, que a relação de causalidade é limitada aos crimes de resultado, ou seja, aqueles chamados materiais. Já a segunda parte deste mesmo artigo, consagra expressamente a adoção da teoria da equivalência das condições, ou conditio sine qua non, que determina a relação de causalidade. (BITENCOURT, 2006, p.39).
Segundo Gonçalves (2004, p.34-35),
a estrutura do crime, bem como de seus requisitos, sofre profunda diferenciação de acordo com a teoria que se adote em relação à conduta, que é o primeiro elemento componente do fato típico. Assim, uma vez adotada a teoria clássica ou a teoria finalista da ação, haverá grandes divergências acerca do significado dos temas que envolvem conduta, dolo, culpa e culpabilidade. Não obstante haja entendimento quase que pacifico no sentido de que a parte geral do Código Penal (reformada em 1984) adotou a teoria finalista da ação, torna-se necessário o estudo de ambas. (...) a conduta é, portanto, tratada como uma simples exteriorização de movimento ou abstenção de comportamento, desprovida de qualquer finalidade. (...) em suma, conduta é toda ação que provoca um resultado, independentemente de se questionar a finalidade do agente.
2.2.2 Resultado
Agora, expõe-se o segundo elemento que compõe o fato típico, o resultado. Para que o crime exista, não basta somente a conduta, pois o resultado como já visto, também é fundamental. Um conceito naturalístico nos fala que o resultado é a modificação do mundo exterior, advindo do comportamento humano voluntário.
Para Ronaldo Silva (2002, p.95), a conduta típica é oriunda do efeito natural da ação, ou seja, tipicamente relevante, produzida no mundo exterior pelo
movimento corpóreo do agente, sendo ligado a ele por relação de causalidade. É a morte da vítima (no homicídio), a destruição, inutilização ou deterioração da coisa (no dano), etc.
Ney Moura Teles (1996, p.238-239) ensina que existem duas teorias doutrinárias para explicar o resultado:
A teoria naturalística, que o considera como um ente concreto, a modificação do mundo externo causada pela conduta, positiva ou negativa, do agente. É uma entidade natural. No homicídio o resultado é a morte da vitima. Porém essa teoria também trás crimes sem resultado, onde podemos elencar a invasão de domicilio, (art.150, CP) a qual, o simples fato de entrar em casa alheia já configura o delito. Sendo assim conclui-se através dessa teoria que, uma parte dos crimes tem resultado, como o roubo, o homicídio, etc. e outros são crimes sem resultado, de mera conduta, ou mera atividade, como a violação de domicílio, a omissão de socorro, etc.
A outra teoria normativa, diz que o resultado é a lesão ou o perigo de lesão do bem jurídico protegido pela norma penal, pouco importando se a conduta deu ou não causa a uma modificação do mundo externo a ela. Sempre num fato típico, independente da modificação do mundo externo, um bem jurídico é lesionado ou exposto a perigo. De conseqüência, todos os crimes tem resultado, pois em todos eles haverá sempre uma lesão ou um perigo de lesão de um bem jurídico.
2.2.3 Relação de causalidade
A seguir, será abordado o terceiro elemento que compõe o fato típico.
Para que haja fato típico, é importante que exista a relação de causalidade entre a conduta e o resultado.
Sob este enfoque, Ronaldo Silva (2002, p. 95-96) afirma que o conceito de causalidade não vem a ser jurídico, mas sim de natureza; é a conexão, a ligação que existe numa sucessão de acontecimentos entendidos pelo ser humano. Já causar, para os léxicos, significa motivar, originar, produzir fenômeno natural que independe de definição.
Teles (1996, p.241-242) ensina que:
Nos fatos definidos como crime em que, além de conduta, se exige a produção de um resultado, é imprescindível que entre o comportamento humano e o resultado verificado exista uma relação de causa e efeito, a fim de que se possa atribuí-lo ao agente da conduta. A conduta deve ser a causa do resultado, este a sua conseqüência. É de obviedade, pois que não se pode atribuir, ou imputar, a alguém, a responsabilidade por algo que ele não produziu. Quando alguém desfere um golpe de facão que decepa a cabeça de outro, que morre instantaneamente, dúvidas não restam de que a conduta do primeiro elemento foi a causa da morte do segundo.
Porém, nem sempre entre conduta e resultado existirá uma relação de causa e efeito, como no caso de alguém dar um tiro em outro e, ao ser socorrido por uma ambulância, esta vem a capotar levando a óbito o socorrido (TELES, 1996, p.242).
Encerra-se aqui a explanação da relação de causalidade, e passa-se a partir de agora abordar a tipicidade.
2.2.4 Tipicidade
Pode-se dizer que para que a conduta seja configurada crime, é preciso que se enquadre dentro de um tipo legal. A tipicidade ocorre quando se percebe a concretização da norma penal descrita em abstrato pelo agente, ou seja, é necessário que se tenha por parte do sujeito a realização de todos os elementos que compõem a descrição típica (GONÇALVES, 2004, p.45).
Gonçalves (2004, p.46) esclarece a questão a partir da menção de um exemplo:
com efeito, o art. 121 do Código Penal, ao tratar do crime de homicídio, descreve a conduta de matar alguém. Assim, quem efetua um disparo e provoca a morte da vítima tem uma adequação típica direta ou imediata, pois ele a matou. Suponha, entretanto, que alguém tenha apenas emprestado a arma para que o sujeito matasse a vítima. Ora, quem emprestou a arma não matou ninguém e, em princípio, não poderia ser punido. A tipicidade de sua conduta, entretanto, decorre da norma de extensão do art. 29 do Código Penal (quem de qualquer modo concorre para o crime, incide nas penas a este cominadas).
Assim, ocorre a adequação típica mediata ou indireta do partícipe, havendo a extensão do tipo do art. 121.
Na visão de Damásio de Jesus (2007, p.260), “tipicidade, num conceito preliminar, é a correspondência entre o fato praticado pelo agente e a descrição de cada espécie de infração contida na lei penal incriminadora”.
Jesus (2004, p.260) explica a tipicidade com um exemplo bastante esclarecedor: imagine-se duas casas idênticas, sendo uma com pintura e outra sem pintura, neste caso, há um fato típico e outro atípico. A tipicidade (fato típico) pode ser observada em relação ao colorido da casa pintada e o atípico, a casa sem pintura. Neste exemplo, podemos analisar que a tipicidade é a qualidade que possui o fato de encontrar a correspondência descritiva ao modelo legal.
Para que o crime se configure, Noronha (1999, p.99) menciona que é de fundamental importância ser típica a ação, ou seja, a atuação do sujeito ativo do delito deve ter a tipicidade. Agir tipicamente é agir de conformidade com o tipo.
Sendo assim, pode-se concluir que a conduta humana feita pela lei pode ser descrita como correspondente ao crime.
Cezar Roberto Bitencourt (2007, p.259) esclarece, nesse sentido, que a tipicidade é uma decorrência natural do princípio da reserva legal: nullum crimen nulla poena signe praevia lege.