O historiador francês Marc Bloch, em sua célebre obra intitulada “Apologia da História”, observa que há fundamentalmente dois tipos de fontes: as voluntárias e as não voluntárias. O primeiro caso ocorre quando há intencionalidade na produção da fonte; já no segundo, não há intencionalidade (BLOCH, 2001). As fontes centrais utilizadas nesta pesquisa – os diários e o livro de memórias de FHC – compreendem o primeiro caso.
Isso é mais facilmente identificado no livro de memórias: “A Arte da Política – A História que Vivi”. A sua publicação decorre de clara tentativa do autor de intervir no processo de construção da memória em torno do seu governo. Ao estabelecer uma narrativa com a sua interpretação sobre o período em que foi presidente, Fernando Henrique naturalmente está participando das batalhas que são travadas sobre o passado. Considerando que diferentes análises poderiam ocorrer a respeito de seu governo, FHC busca constituir a sua própria, a partir da reconstrução de momentos importantes daquele período, divulgados sob sua ótica.
O caso dos Diários da Presidência, no entanto, é menos óbvio. Um diário comum, a princípio, poderia ser entendido como uma fonte não voluntária, na medida em que carregaria tão somente anotações pessoais de um cidadão qualquer, anotações essas que não necessariamente foram produzidas para ganhar publicidade – muitas vezes, trata-se do exato oposto, uma vez que podem possuir um conteúdo íntimo, sem que o autor deseje modificar essa condição. No entanto, esse não é o caso dos diários de Fernando Henrique Cardoso. Ao documentar aspectos de seu governo em gravações posteriormente transcritas, ele sabia que estava produzindo algo de importante valor histórico, a ser publicado e lido como um material revelador sobre determinado período. Não é, portanto, meramente um diário pessoal, mas uma obra que é concebida para ter importância na disputa por memória.
Nesse sentido, os diários se distanciam daqueles produzidos por pessoas desconhecidas, como os que Phillippe Lejeune preserva na Association pour I'Autobiographie em Ambérieu-
en-Bugey 20. Lejeune (1997) relata que, em 4 anos, dos 234 textos catalogados pela associação, apenas três diários foram entregues por autores que, mesmo em vida, tiveram o desprendimento de permitirem que os seus relatos íntimos fossem lidos por desconhecidos. A publicação das impressões de um ex-presidente sobre um governo é distinta. Nem sequer versa sobre a vida pessoal do autor, a não ser secundariamente – já os de Leujenne recorrentemente abordam temas como a infância ou a família, por exemplo (LEJEUNE, 1997). São registros que tratam do cotidiano de um governo, realizados com o interesse em influenciar no olhar que se vai produzir sobre a história de um país. Desse modo, à sua maneira, valendo-se da estatura que sua condição de ex-presidente oferece, FHC busca interferir na construção de um passado em que foi protagonista, expondo a sua visão sobre as questões de sua administração e defendendo-se das críticas que sofria – o que, a propósito, não somente é legítimo como é de grande valor para que tenhamos mais instrumentos para refletirmos sobre o Brasil do final do século XX e começo do século XXI.
“O dever da memória faz cada um o historiador de si mesmo” (NORA, 1993, p.17). Ao formular essa frase, Pierre Nora fazia uma exposição sobre a importância que a memória adquiriu nos mais diversos segmentos da sociedade, ultrapassando os círculos dos historiadores profissionais. Essa ideia parece ser compatível com o interesse de Fernando Henrique Cardoso ao assinar livros de importante valor histórico. Ele busca participar ativamente da construção de uma memória sobre o seu governo e sobre sua atuação na história, da maneira que julga ser pertinente. “Não há memória espontânea”, diz Nora no mesmo artigo (NORA, 1993, p.17).
Assim, é preciso que ela seja criada, construída, defendida e ocasionalmente os protagonistas de determinado processo querem participar dessa disputa.
Luciana Quillet Heymann (2005) estuda as produções de legados históricos realizadas por figuras públicas. Analisa, assim, a criação de instituições de memória que sirvam a esse propósito. Personagens conhecidos da história, ao criarem fundações, centros de documentação ou instituições equivalentes, empenham-se na disputa pela memória, defendendo determinado legado político ou ideológico. Convertem os seus acervos pessoais em patrimônio nacional.
Por legado, a autora entende não somente o aspecto da “herança social e política deixada às gerações futuras”, mas também “o investimento social por meio do qual uma determinada memória individual é tornada exemplar ou fundadora de um projeto político, social, ideológico etc., sendo, a partir de então, abstraída de sua
20 A associação francesa nascida na década de 1990 dedica-se a reunir textos autobiográficos de pessoas comuns (em diários ou não), fazer a leitura desses textos, responder aos autores com as impressões dos pesquisadores, promover eventos em torno do material e preservá-lo.
conjuntura e assimilada à história nacional” (HEYMANN, 2005, p.2). Analisando casos concretos, dedica-se à Fundação Darcy Ribeiro e ao Instituto Fernando Henrique, duas instituições criadas para que sejam defendidos os legados de personagens da história, além de atuarem como centros de discussão e formulação de políticas públicas.
Naturalmente o caso do Instituto Fernando Henrique é especialmente caro a este estudo, pois trata-se de uma produção cujo sentido converge com o dos diários e o do livro de memórias.
A rigor, todas essas manifestações estão inseridas no esforço de Fernando Henrique de intervir na memória, o que não se dá isoladamente, mas com o apoio de grupos que acreditam na importância de se defender aquele legado, inclusive empresas.
Portanto jamais bastou a FHC assistir passivamente ao trabalho de historiadores e demais analistas sobre o seu governo e a sua trajetória individual. Era preciso intervir, disputar, produzir livros, organizar um acervo, criar um instituto para reproduzir as suas ideias, defender o seu legado e, à luz dele, influenciar no debate público em diferentes temas. É certo que isso serve à promoção de sua imagem de estadista, um de seus notórios interesses. Todavia, o empenho também representa uma tentativa de conservar um projeto político. Nesse sentido, havia ao menos dois riscos que FHC desejava superar: o primeiro, inerente ao avanço do tempo, diz respeito ao esquecimento; o segundo trata da possibilidade de abordagens críticas ao seu governo se tornarem influentes ao ponto de lhe conferirem um caráter negativo na história do país. Ainda que não se possa controlar a produção da memória – e não há qualquer sinal de que FHC tenha flertado com esse autoritarismo – é possível participar dessa grande disputa, evitando que o seu legado fique sem defesa e, assim, fragilizado. Le Goff argumenta:
“Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas.” (LE GOFF, 1990, p.426). Talvez seja excessivo indicar que FHC tentou se tornar um “senhor da memória e do esquecimento”. No entanto, como indivíduo que esteve no poder, não deixou de se preocupar com a questão.
Nesse sentido, atendo-se novamente às fontes que este trabalho se dispõe a analisar, ou seja, os diários e o livro de memórias, deve-se fazer o seguinte questionamento: afinal, que legado FHC procurou sustentar nessas obras? Que proposta para o capitalismo brasileiro é defendida na grande narrativa empreendida por FHC, fazendo-se presente explicita ou implicitamente em seus depoimentos?
A imagem de estadista erguida através do depoimento de FHC não é trivial. Deseja-se imprimir um espírito vanguardista à sua ação. O seu maior legado, portanto, seria o da modernização do país.