2.5 Discussão
2.5.1 Filogenia – identidade dos grupos
matriarca da família coletada em Nogueira (Petrópolis, RJ); entre os três vindos do CPRJ dois foram capturados no sudeste mas sem local definido e um é F1; já os sagüis de Recife foram provenientes do CRAS com grupos e indivíduos recebidos em datas distintas e de locais distintos, contudo provenientes de Regiões não muito distantes de Recife (informações do veterinário responsável). A presença, neste agrupamento, de indivíduos de diversas procedências tanto da região Nordeste como, e somados a, de indivíduos do Sudeste vindos de lugares também diferentes, confere solidez a todo o ramo “jacchus”.
À semelhança da filogenia do C. aurita, o ramo da espécie de C. jacchus também foi bem definida pelos mesmo autores, e este trabalho traz a contribuição de aumentar o número amostral e de um marcador novo (COI).
A unidade deste agrupamento é ainda reforçada considerando-se que, os outros dois haplótipos do ramo divergiram em apenas uma mutação: o “Jac_2_Rec”
que é de um único indivíduo mutante de Recife, e o “Jac_3” que é formado por sagüis que vivem isolados em um pequeno bosque cercado por áreas urbanas (Bosque da Barra, RJ) e portanto, com alto índice de endogamia. Assim como grupo familiar amostrado em Juiz de Fora, o grupo do Bosque da Barra, representado pelo haplótipo
“Hapl_3_Jac3_BB”, provavelmente demarca uma linhagem materna local exclusiva, ao menos da região sudeste, se não for exclusiva da restrita área do bosque. Outros indivíduos de populações de outras áreas desta região precisariam ser avaliados para confirmar esta marca como uma distinção entre as populações de C. jacchus do nordeste (cuja representatividade, embora limitada à região de Pernambuco, apresenta relativa heterogeneidade com sagüis provenientes de diversas origens) e as invasoras do sudeste.
2.5.1.3 PENICILLATA
O agrupamento “penicillata” foi formado também com 31 indivíduos divididos em três grupos, sendo que a maioria dos grupos (21 indivíduos) foi amostrada dentro de um raio de 5 km na região serrana de Petrópolis (RJ). Dentre os demais estão seis indivíduos amostrados em um fragmento de floresta próximo à cidade mineira de Juiz de Fora (haplótipo “Pen_1”), dois indivíduos do CPRJ (o haplótipo “Lorena”
proveniente da cidade de Lorena, SP e o outro, CPRJ_16, de Saquarema, RJ), e um indivíduo (BRA_10) amostrado em Brasília (área de ocorrência natural dos C.
penicillata). Este agrupamento, de forma semelhante ao “jacchus”, demonstra uma variedade de indivíduos amostrados em áreas geográficas diferentes que confere identidade haplotípica ao conjunto (do ponto de vista matrilinear), assim como demonstra o espalhamento genético deste haplótipo dentro da área de ocorrência do C. aurita. Os estudos dos autores Schneider et al. (2012); Sena et al. (2002) e Tagliaro et al. (2000), apresentam uma árvore de distâncias genéticas não resolvida para esta espécie, mostrando um limite da técnica diante da possibilidade de haver uma especiação incompleta ou introgressão, onde poucos indivíduos não deixam claro a diversidade genética dos grupos taxonômicos. Frankham, Ballou e Briscoe (2002) pontuam que uma das primeiras perguntas que devem ser respondidas é se a população em estudo tem sua identidade taxonômica suficientemente reconhecida. Garbino (2015) em um amplo estudo de varias características morfológicas (em 516 ossadas de 21 espécies da tribo Callitrichini) não apresenta uma variação para a espécie C. penicillata maior que a de C. jacchus. Filogeneticamente, neste estudo, o agrupamento “Penicillata” se mostrou o grupo mais afastado do C. jacchus (dentro da mesma chave).
2.5.1.4 GEOFFROYI
O agrupamento “geoffroyi”, em termos de garantia de representatividade, conta com três indivíduos do CPRJ identificados pelo primatólogo Alcides Pissinatti como representantes da espécie C. geoffroyi e, curiosamente, soma-se a este grupo um dos indivíduos coletados na família de Juiz de Fora (JF_5) que teve seu COI idêntico ao destes sagüis. Fuzessy et al. (2014) sugere que o fenótipo penicillata é dominante em casos de hibridação entre C. geoffroy e C. penicillata. Como não houve outra amostra com a mesma marca molecular em Juiz de Fora, o exame deste indivíduo foi repetido desde a extração até o sequenciamento e confirmou o resultado inicial (JF_5 tem ascendência materna de C. geoffroyi). A presença de híbridos de C.
geoffroyi é relatada por Passamani et al., (1997) e Fuzessy (2014) , próximo ao limite sul de sua ocorrência natural, na região norte do Espirito Santo e nordeste de Minas
Gerais. A presença deste haplótipo nesta área demarca o ponto mais ao sul registrado em relação à extensão de uma marca genética desta espécie.
2.5.1.5 KUHLII?
Este agrupamento foi particularmente surpreendente pois não se esperava encontrar nenhum haplótipo desta espécie, exceto para uma amostra vinda da Bahia, que serviu para denominar o conjunto. Todos os demais indivíduos que caracterizaram este grupo tinham sido classificados fenotipicamente como C.
penicillata ou híbrido de C. penicillata com C. jacchus ou C. aurita. Dentre os componentes deste agrupamento estão os indivíduos amostrados no CPRJ (CPRJ_4, CPRJ_6, CPRJ_7) sendo que o indivíduo CPRJ_4 foi coletado no Parque Nacional da Serra dos Órgãos (altitude aprox. de 700m) como uma descendente hibrida de um C.
aurita com uma fêmea da espécie C. penicillata (Pereira, 2006 e 2010; Pereira et al. 2008), e os outros dois (CPRJ_6 e CPRJ_7) são filhos da CPRJ_4. Esse resultado redefine o tipo de hibridação ocorrida na região serrana do Rio de Janeiro mostrando a presença de uma linhagem materna proveniente de um haplótipo diferente dos haplótipos que formam o grupo C. penicillata. É importante repetir que este haplótipo não tem garantia de definição taxonômica como C. kuhlli, sua única referência é ter vindo da Bahia, além disso, as fotografias feitas por Pereira (2006) dos sagüis encontrados no PARNASO mostram indivíduos com fenótipo característico de C. penicillata, isto pode representar uma hibridação anterior entre C. penicillata e C. kuhlli. A presença desse haplótipo (“Kuhlii?”) na região foi repetida alguns anos depois com a captura de um indivíduo em 2014, também da região de Teresópolis (RJ) que apresentou o mesmo haplótipo (Tere_Pen) e a semelhança fenotípica com a espécie C. penicillata.
Curiosamente outros indivíduos se incluem a este agrupamento somando surpresas. Dois amostrados no CPRJ como oriundos do estado de São Paulo (CPRJ_13, CPRJ_15) descritos como C. penicillata, um (OT_9) amostrado no meio de um grupo familiar de Nogueira (Petrópolis) com mais nove indivíduos híbridos de C. aurita (por linhagem paterna) e C. penicillata, e um amostrado no CETAS de Juiz de Fora (MG) oriundo do extinto Zoo de Niterói (RJ) e com fenótipo de C.
penicillata. Não fossem os indivíduos provenientes de São Paulo, esse haplótipo poderia ser visto como uma dispersão restrita da região serrana ao norte da cidade do Rio de Janeiro (seria possível que o indivíduo do Zoo de Niterói fosse oriundo da mesma região serrana), no entanto, os indivíduos CPRJ_13 e CPRJ_15 sugerem que a dispersão desta linhagem materna foi bem mais ampla. Embora não se possa falar da inédita presença de C. kuhlii no Rio de Janeiro e em São Paulo, este trabalho mostra ineditamente a presença genética deste haplótipo nestas regiões pelo marcador mitocondrial COI. O município de Salto (norte de Minas) foi registro da espécie C.
kuhlii mais ao sul publicado por (Melo, 2004) e corroborado por (Neves, 2008), ambos apontando a hibridação entre C. kuhlli e C. penicillata nesta fronteira.
2.5.1.6 HAPLOTIPO 5_?
O haplótipo 5 “Hapl_5_?” foi formado por três indivíduos (CPRJ_10, CPRJ_11 e BRA_8) e tem duas peculiaridades, a primeira é que estes sagüis, que dividem a mesma sequência de COI, são definidos como C. jacchus (os dois primeiros) e C. penicillata (o terceiro), e a segunda é o fato de estarem igualmente a três mutações de distância tanto do maior grupo de C. jacchus quanto do grupo dos C. kuhlii. Essas duas características juntas sugerem a possibilidade de que este haplótipo possa ser encontrado em maior número.
2.5.1.7 HAPLOTIPO JF_8 e HAPLOTIPO “LORENA”
Estes haplótipos, sendo representados por um único indivíduo (“JF_8” – coletado no CETAS de Juiz de Fora como um C. jacchus proveniente do Zoo de Niterói, e “LORENA” – coletado no CPRJ como oriundo da cidade paulista de Lorena), não podem ser assumidos como haplótipos representativos de populações próprias, até que se somem a outros para que possam, numericamente, enfrentar seleção e deriva. Estes sagüis, por outro lado, se considerados como únicos, mostram a força evolutiva das mutações atuando no tempo presente.
Esses haplótipos estão bastante próximos de grupos que caracterizam tanto o
“Kuhlii?” ou o “Jac_1” (para o “Hapl_4_JF8”) quanto do “Pen_1” (para o
“Hapl_8_Lorena”) e podem ser vistos como mutações oriundas destes grupos maiores.
2.5.1.8 Análise de mutação na cadeia de proteína.
O pequeno número de transversões (quatro) demonstra que esta divisão filogenética dos Callithrix sp. ainda está distante de saturação para esse marcador.
Apesar das mutações no terceiro códon serem com frequência silenciosas (Irwin, Kocher e Wilson, 1991) ocorreram duas únicas mudanças de aminoácidos (mutação não sinônima), na cadeia proteica referente à tradução do fragmento genético (595 pb) relativa à enzima citocromo oxidase unidade 1. Elas ocorreram em grupos distintos, uma dentro do agrupamento de C. penicillata e outra dentro do agrupamento de C. jacchus. A que ocorreu dentro do grupo C. jacchus aparece isolada em um indivíduo único e não representa um agrupamento distinto dentro desta amostragem. Essa mutação provavelmente não deve seguir um caminho distinto tendendo a desaparecer da população seja por deriva seja por uma transformação deletéria na proteína que configura. Já a mudança de aminoácido ocorrida dentro do agrupamento de C. penicillata aparece em cinco indivíduos de um mesmo grupo coletado em Juiz de Fora – MG, e que poderia indicar uma mutação recente dentro de uma mesma família por linhagem materna, contudo, esta mesma mutação também aparece em um outro indivíduo coletado no CPRJ (CPRJ_16), mas oriundo de Biritiba (SP), região geográfica razoavelmente distante de Juiz de Fora. Essa mutação pode representar uma linhagem mais antiga espalhada pelo Sudeste, mas também pode ter ocorrido simultaneamente, sendo que, esta última possibilidade deve levar em consideração a pequena probabilidade de uma mutação acontecer separadamente em uma mesma base entre 595 (uma única que diferencia um grupo de outro), e ainda, sendo esta base a segunda e não a terceira do trio que origina o molde da transcrição genética.
Toda mutação pontual encontrada nos genes de herança materna ou paterna, como os da mitocôndria e do cromossoma Y é uma possibilidade de “marca de linhagem” específica para os descendentes do primeiro mutante (caso essa mutação não seja deletéria). A duração e a proporção de detecção desta marca dependerão do sucesso reprodutivo dos descendentes e de efeitos aleatórios (deriva genética). O haplótipo denominado “Hapl_9_Pen2_JF” está presente em seis indivíduos de um mesmo grupo familiar indicando o surgimento de uma nova linhagem materna se não for compartido por outros sagüis, ou pode indicar uma variação regional não tão recente caso esse haplótipo seja compartilhado por outras populações próximas desta família.
Todas as demais mutações foram mutações sinônimas.