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Fontes do Direito Comunitário

No documento universidade do vale do itajaí - Univali (páginas 32-37)

1. O SURGIMENTO DO DIREITO COMUNITÁRIO E A SUPRANACIONALIDADE

1.3 DIREITO COMUNITÁRIO

1.3.3 Fontes do Direito Comunitário

83CAMPOS, João Mota de, CAMPOS, João Luiz Mota de. Manual de Direito Comunitário. 4. ed. Lisboa:

Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. P. 288.

84SILVA, Karine de Souza. Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed.

Unijuí, 2005. P. 166. Apud KOVAR, R. Relaciones entre el Derecho Comunitario y los Derechos Nacionales. In:

Treinta Años del Derecho Comunitario. Luxemburgo: Oficina de Publicaciones Oficiales de las Comunidades Europeas. Colección Perspectivas europeas, 1981. P. 116.

85SILVA, Karine de Souza. Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed.

Unijuí, 2005. P. 166.

O estudo das fontes que regem o Direito Comunitário é extremamente importante para a identificação dos dispositivos legais que são aplicáveis aos sujeitos de direito desse ordenamento jurídico inédito, bem como sua hierarquia, seus efeitos, sua interpretação, etc.

O fato de o DC ser jovem e estar passando por um processo evolutivo desde que criado, faz com que ele tenha características singulares, caso comparado a modelos já conhecidos.86

Essa singularidade, bem como outras peculiaridades do DC, é resultante, entre outros fatores, das fontes que compuseram, e compõem esse ordenamento jurídico tão distinto.87

O DC possui um grande leque de fontes, apenas diferenciadas por suas naturezas.

Assim, as fontes são dividas em dois grupos: as fontes primárias88 (também conhecidas como convencional89 ou originária90) e as secundárias (da mesma forma conhecida como unilateral ou derivadas).

Em poucas palavras, as fontes primárias são os Tratados constitutivos da UE.

Tais Tratados estabelecem as disposições que regem toda a UE. Disposições estas que estão no topo da hierarquia desse ordenamento jurídico.

Todos os instrumentos que modificaram os Tratados também são considerados fontes primarias. Citam-se, como exemplo, os Tratados ratificados pelos Estados-membros com terceiros países anteriormente à elaboração dos Tratados Comunitários.

Nessa esfera, pode-se dizer que esses Tratados criam regras acima de todas, como se disposições constitucionais fossem, impondo obrigações tanto as instituições comunitárias como aos Estados-membros e cidadãos.91

86SILVA, Karine de Souza. Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed.

Unijuí, 2005. P. 114.

87Na esfera comunitária, como leciona Joana Stelzer, “o termo fonte de direito tem um duplo significado. Um primeiro sentido remete à idéia de explicar a razão de seu surgimento, cuja criação está na busca pela paz [...].

Na terminologia puramente jurídica, por sua vez, o termo fonte indica as origens e fundamentos da ordem normativa”. STELZER, Joana. União Européia e Supranacionalidade: Desafio ou Realidade? Curitiba:

Juruá, 2000. P. 95.

88 Primárias e secundárias são as denominações dadas as fontes por Joana Stelzer. STELZER, Joana. União Européia e Supranacionalidade: Desafio ou Realidade? Curitiba: Juruá, 2000. P. 95.

89 Convencionais e unilaterais são denominações utilizadas por João Mota de Campos e João Luiz Mota de Campos. CAMPOS, João Mota de, CAMPOS, João Luiz Mota de. Manual de Direito Comunitário. 4. ed.

Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. P. 291.

90 Originários e derivados são terminologias utilizada por Karine de Souza Silva. SILVA, Karine de Souza.

Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005. P. 114.

91 Assim lecionava Pierre Pescatore: Os Tratados que fizeram nascer a Comunidade Européia são mais que simples acordos intergovernamentais que consagram vínculos recíprocos entre os Estados participantes. Eles são, efetivamente, a constituição de uma nova forma de organização econômica dos países da Europa ocidental; bem mais, essa constituição econômica lhe confere a vocação de evoluir para uma constituição política daquilo que

Dito isto, passa-se a análise da aplicação dos Tratados Comunitários no tempo, no espaço e com relação à matéria por ele regulada.

Em relação à aplicação dos Tratados no tempo, com exceção do TCECA que foi extinto em 200292, todos os demais Tratados Comunitários possuem tempo ilimitado, ou seja, não há que se falar em extinção por tempo93.

Quanto ao âmbito material, os Tratados respeitam o princípio de limitação de competência, tratando, apenas, aquelas matérias resultantes da transferência de parcelas de soberania.

Por fim, os Tratados, conforme dispõe o artigo 198 do TCEA e artigo 299 do TCE, tem suas disposições aplicadas em todos os Estados-membros, incluindo os territórios ultramarinos, às Ilhas Canárias, Açores, Madeira, sob o regime de algumas limitações impostas pelos próprios Tratados. Ressalta-se que alguns países e territórios ultramarinos, previstos no Anexo II do TCE, são submetidos a um regime especial de associação.94

Por sua vez, as fontes de direito secundárias constituem “o Direito que não se encontra compreendido entre os textos legais constitutivos das Comunidades Européias”.95

As fontes secundárias albergam os atos praticados pelas instituições comunitárias.

Segundo o artigo 249 do TCE96, pode-se dividir as fontes secundárias, como sendo os seguintes atos: regulamentos; diretivas; decisões; recomendações; pareceres.

Dito isto, há de se fazer uma breve análise dos atos, começando pelos atos típicos vinculantes.

será um dia uma confederação e pode, até mesmo, vir a ser uma federação européia. SILVA, Karine de Souza.

Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005. P. 114. Apud PESCATORE, Pierre. Les Droits de l’Homme et l’Integration Européenne. Cahiers de Droit Européene, n. 6, 1968. P. 629.

92 O TCECA possuía um prazo de duração de 50, conforme dispusera seu artigo 97.

93Vide artigo 51 do TUE, artigo 208 do TCEEA e artigo 312 do TCE.

94 SILVA, Karine de Souza. Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed.

Unijuí, 2005. P. 124.

95 SILVA, Karine de Souza. Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed.

Unijuí, 2005. P. 124.

96Dispõe o artigo 249: Para o desempenho das suas atribuições e nos termos do presente Tratado, o Parlamento Europeu em conjunto com o Conselho, o Conselho e a Comissão adoptam regulamentos e directivas, tomam decisões e formulam recomendações ou pareceres. O regulamento tem carácter geral. É obrigatório em todos os seus elementos e directamente aplicável em todos os Estados-Membros. A directiva vincula o Estado-Membro destinatário quanto ao resultado a alcançar, deixando, no entanto, às instâncias nacionais a competência quanto à forma e aos meios. A decisão é obrigatória em todos os seus elementos para os destinatários que designar. As recomendações e os pareceres não são vinculativos. Disponível em: <http://eur- lex.europa.eu/pt/treaties/index.htm>. Acesso em: 31.07.2009

O regulamento tem caráter geral, sendo em todos os seus elementos diretamente aplicável em todos os Estados-Membros (artigo 249 do TCE), podendo ser criado pelo Conselho, pela Comissão, pelo Parlamento Europeu e pelo Banco Central Europeu (artigo 110 do TCE)97.

Por sua vez, a diretiva é o ato que “vincula o Estado-membro destinatário quanto ao resultado à alcançar, deixando, no entanto, às instâncias nacionais, a competência quanto à forma e aos meios” (artigo 249 do TCE). Em outras palavras,

[...] são atos pelos quais a autoridade comunitária competente, ao mesmo tempo que fixa aos respectivos destinatários um resultado que no interesse comum deve ser alcançado, permite que cada um deles escolha os meios e as formas mais adequadas – do ponto de vista do direito interno, da realidade nacional ou dos seus interesses próprios – para alcançar o objetivo visado.98 Por sua vez, estão as decisões. Segundo o artigo 249 do TCE, “A decisão é obrigatória em todos os seus elementos para os destinatários que designar”. Nesse caso, os destinatários tanto podem ser os Estados-membros, como também pessoas coletivas de direito público ou de direito privado e indivíduos

As decisões não possuem alcance geral, porém são obrigatórias e diretamente aplicáveis, sem intervenção do Estado-membro para ditar as formas e os meios, como acontece na diretiva. É Como se fosse um ato administrativo do próprio Estado-membro.99

Apresentados os atos típicos vinculantes, cabe destacar os atos típicos não- vinculantes. São eles: recomendações e pareceres.

Nas palavras de João Mota de Campos e João Luiz Mota de Campos, as recomendações “foram concebidas como um instrumento de acção indirecta da Autoridade

97 Dispõe o artigo 110: Para o desempenho das atribuições cometidas ao SEBC, o BCE, de acordo com as disposições do presente Tratado e nas condições definidas nos Estatutos do SEBC: adopta regulamentos na medida do necessário para o exercício das funções definidas no primeiro travessão do artigo 3.o n.o 1, nos artigos 19.o n.o 1, 22.o ou 25.o n.o 2 dos Estatutos do SEBC, e nos casos previstos nos actos do Conselho a que se refere o n.o 6 do artigo 107.o; toma as decisões necessárias para o desempenho das atribuições cometidas ao SEBC ao abrigo do presente Tratado e dos Estatutos do SEBC; formula recomendações e emite pareceres.

98 CAMPOS, João Mota de, CAMPOS, João Luiz Mota de. Manual de Direito Comunitário. 4. ed. Lisboa:

Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. P. 329.

99 MARTÍN, Araceli Mangas, NOGUERAS, Diego J. Liñán. Instituciones y Derecho de la Unión Europea. 5.

ed. Madrid: Editorial Tecnos, 2006. P. 372.

comunitária, visando frequentemente à aproximação das legislações nacionais ou à adaptação de uma dada regulamentação interna ao regime comunitário”.100

Em resumo, as recomendações possuem um significado político, agindo como aconselhamento.

Já o parecer, “é uma opinião ou juízo de valor sobre determinado tema”, conforme leciona Karine de Souza Silva de forma sucinta e completa.101

Mesmo não tendo caráter vinculante, esse ato deve ser respeitado devido ao seu conteúdo. Por exemplo, a inobservância de um parecer motivado sobre o descumprimento do DC, como conclui Jean-Victor Louis102 a partir do artigo 226 do TCE103, faculta à Comissão ingressar em juízo para que o TJCE sancione o Estado desrespeitoso.

Por sua vez, os atos atípicos, não aparecem conceituados nos Tratados constitutivos.

Porém, não é de se dizer que são insignificantes, pois tais atos “contribuem para a melhor realização dos objetivos comunitários104. Um exemplo é regulamento interno das instituições105.

Além desses atos acima tratados, são considerados como atos atípicos os costumes, a jurisprudência, o DIP e os princípios.

Os costumes são, como explana Karine de Souza Silva, quase inexistente na prática, porém, é resguardada a possibilidade de haver.106

100 CAMPOS, João Mota de, CAMPOS, João Luiz Mota de. Manual de Direito Comunitário. 4. ed. Lisboa:

Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. P. 343.

101 SILVA, Karine de Souza. Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed.

Unijuí, 2005. P. 150.

102 SILVA, Karine de Souza. Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed.

Unijuí, 2005. P. 150. Apud LOUIS, Jean-Victor. El Ordenamiento Jurídico Comunitário. 5.ed. Luxemburgo:

Comisión Europea, 1995. P. 117.

103 Dispõe o artigo 226 do TCE: Se a Comissão considerar que um Estado-Membro não cumpriu qualquer das obrigações que lhe incumbem por força do presente Tratado, formulará um parecer fundamentado sobre o assunto, após ter dado a esse Estado oportunidade de apresentar as suas observações. Se o Estado em causa não proceder em conformidade com este parecer no prazo fixado pela Comissão, esta pode recorrer ao Tribunal de Justiça.

104 SILVA, Karine de Souza. Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed.

Unijuí, 2005. P. 150.

105 Exemplo: artigo 218 do TCE: Omissis. A Comissão estabelece o seu regulamento interno, de forma a garantir o seu próprio funcionamento e o dos seus serviços, nas condições previstas no presente Tratado. A Comissão assegura a publicação desse regulamento interno.

106 SILVA, Karine de Souza. Direito da comunidade européia: fontes, princípios e procedimentos. Ijuí: Ed.

Unijuí, 2005. P. 159.

A jurisprudência sempre foi um elemento importante para a evolução das Comunidades. Por tal motivo, não pode ser esquecida como fonte de direito destas.

O TJCE, influência diretamente no desenvolvimento do DC através de suas decisões.

Logo, a jurisprudência, conforme Pierre Pescatore, é a “aplicação das concepções valorosas que os arquitetos da Comunidade colocaram na base de sua construção; é o segredo do êxito107.

Por último, os princípios, que serão tratados no próximo item.

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