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Frantz Fanon e o caráter sacrificial da política

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 101-105)

3.2 A Necropolítica e os Condenados da Terra

3.2.1 Frantz Fanon e o caráter sacrificial da política

Mbembe considera a obra de Frantz Fanon auto-reflexiva em diversos aspectos, sobretudo por problematizar a necessidade do ser humano erguer-se de conjunto; pela busca por autonomia sobre o seu próprio corpo e pela necessidade de participação na história do mundo. A libertação da África foi o grande projeto perseguido por Fanon. Ao término das lutas de libertação, ele deparou- se com inúmeras contradições vendo que o colonialismo persistiu em diversos territórios e que as classes privilegiadas locais assumiram as funções predatórias no lugar deixado pelos colonizadores europeus. Mbembe considera que o vigor da teoria deixada por Fanon reside no interesse pela redenção coletiva da humanidade. Esse projeto envolveria o empenho de todas as reservas de vida, exigindo de cada ser humano um trabalho sobre si e um engajamento em uma luta mortal, a qual não se pode delegar a mais ninguém.

Segundo o autor, a obra de Fanon está comprometida com a insubmissão. A violência para Fanon possui uma dimensão política e uma dimensão clínica, pois é uma manifestação psíquica de uma enfermidade provocada por fatores de natureza social. A violência ressignifica o gesto de reciprocidade diante de um arbítrio. Assim, Mbembe considera que a violência escolhida, ao invés da violência sofrida, permite que o colonizado reencontre a si próprio. Ao realizar esse movimento, ele requalifica-se e reaprende a mensurar os objetos em função do valor da sua própria vida, bem como as formas de sua presença no seu corpo e no mundo.

A crítica à violência das democracias não é nova. Podemos lê-la diretamente nos contra- discursos e práticas de luta que acompanharam, primeiro, o seu surgimento e, depois, o seu triunfo no século XIX. Por exemplo, nas diversas variantes de socialismo, a outra nova ideia do século XIX; ou ainda no anarquismo do final do século XIX e na tradição do sindicalismo revolucionário na França anterior à Primeira Guerra Mundial e posteriormente à crise de 1929.

Uma das questões fundamentais que se colocavam na época era saber se a política podia ser outra coisa para além de uma atividade relacionada com o Estado e na qual o Estado é utilizado para garantir os privilégios de uma minoria. Outra, era saber como é que as forças radicais, que visam precipitar a chegada da sociedade do futuro, podem usufruir do direito de utilizar a violência para concretizar as suas utopias. No plano filosófico, interrogamo- nos se a humanidade será capaz de, por si mesma e sem recurso à transcendência, alcançar o desenvolvimento das suas capacidades, o crescimento do seu poder de agir, único meio para que a história humana se produza a si mesma197.

Para Fanon, refletir sobre a colonização envolve produzir meios para o tratamento das enfermidades causadas pela violência colonial, isso exige que o colonizado ressignifique a possibilidade do exercício da própria violência, enquanto o ponto de interseção entre a clínica do

197 .MBEMBE, Achille. Políticas da inimizade. tradução Marta Lança. Lisboa. Antígona editores refractários.

2017.p.39

sujeito e a política do paciente. As dimensões política e clínica, enquanto lugares psíquicos, teriam muito em comum. Assim, compreende-se que essas duas ações inaugurais oferecem a possibilidade para que o indivíduo modifique radicalmente a relação consigo próprio e com o “Outro”, tal como engendrada pela relação colonial. Fanon distingue entre a política da clínica e a clínica da política, e oscila de um ao outro no tratamento dos transtornos pós-traumáticos e do sofrimento causado pelo colonialismo. A violência revolucionária seria, para o autor, o elemento que possibilita superar as ambiguidades produzidas por este estado de coisas, permitindo ao indivíduo adoecido exercer o papel de sujeito político da própria vida198.

Tal como Mbembe analisa, a França lançou sobre a Argélia um regime de guerra total, encontrando uma resistência argelina disposta a responder à altura. Considerando a guerra colonial e o racismo como os motores fundamentais do colonialismo, Fanon atribuiu ao colonialismo a posse de uma característica, que mais tarde Mbembe veio a chamar de necropolítica, animada por uma punção genocida. Considerando que a experiência da colonização carrega consigo o potencial de uma guerra total, que para se legitimar se apoia sobre uma ontologia e uma genética199. Mbembe concebe três categorias de violência: a violência colonial; a violência emancipadora do colonizado e a violência nas relações internacionais. A violência colonial possuiria múltiplas dimensões, ao instaurar a dominação, na medida que comanda a colônia à força. A capilaridade da violência colonizadora permite que possa travestir de estado civil, relações que originariamente eram regidas pelo estado de natureza.

A violência colonial torna-se algo palpável, ao restringir a vida do colonizado a uma dimensão molecular: barreiras policiais; execuções sumárias, que possuem como alvo um perfil muito claro de indivíduo; a tortura e a detenção dos nativos em reservas200. Tais características criaram um ambiente de banalização da violência. Os agentes de segurança e militares franceses, braço do colonialismo na repressão aos argelinos, foram os responsáveis diretos pelas piores atrocidades cometidas contra os nativos. Essa violência molecular percorre todas as dimensões da vida e se manifesta no comportamento cotidiano do colonizador com relação ao colonizado.

Segundo o autor, a violência colonial é fenomênica. Nesse sentido, afeta as percepções e afetividade do colonizado, constituindo-se como uma fonte de profundos distúrbios mentais. A colonização exclui qualquer possibilidade de gesto de reconhecimento, além de cultivar a indiferença à qualquer argumento moral. Uma das principais funções desse tipo de violência é

198 .MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra; tradução Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.

199 .MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra; tradução Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.p.284

200 .FANON, Frantz. Em Defesa da Revolução Africana.Tradução de Isabel Pascoal. Sá da Costa Editora. Lisboa.

1980.

apagar o passado e as memórias do colonizado de qualquer substância, atingindo o corpo e o psiquismo do colonizado. Foram essas feridas no corpo e na mente que Frantz Fanon buscou tratar201. A violência lançada em vários planos é vivida pelo colonizado de uma maneira tal que a existência humana somente poderia possuir algum sentido a partir do engajamento consciente em uma luta mortal, desenvolvendo-se, assim, a percepção de se estar submetido permanentemente a uma morte incompleta. Segundo Mbembe, a clínica proposta por Frantz Fanon desenvolve a consciência do colonizado, sobretudo com relação aos fatores que provocam a sua destruição. O que o autor busca é despertar no colonizado o desejo pela autoemancipação a partir do combate contra as condições que permitem a sua exploração. A obra de Fanon é uma defesa da vida, um movimento de restauração dos efeitos de uma existência fragmentada, uma busca pelos vestígios de vida que ainda persistem no corpo e o anúncio de nascimento de novas formas de vida.

Mbembe se refere às escritas negras de si, enquanto um esforço para reestabelecer uma ideia de comunidade originária. As linguagens utilizadas para se referir à identidade, à história e à subjetividade buscam ressignificar a negritude, possibilitando uma experiência inaugural construída por uma nova forma de representação202. Ao agir dessa forma, os negros elaboram os atributos de uma potência original, um duplo do corpo vivo, o que Mbembe classifica como uma réplica arquetípica de sua própria aparência, que participa de uma sombra morfogênica. Através da valorização dos diversos legados culturais, os negros desenvolvem uma reinterpretação sobre a experiência colonial, na qual a representação da luta entre colonizado e colonizador é a principal imagem, bem como a representação do negro como alguém radicalmente Outro.

Mbembe compreende que a partir dessa reconstrução de uma representação originária se desenvolve a imagem do negro enquanto um ser autêntico, obrigado a tornar-se um Outro, um ser fabricado pela economia política mercantil, portador de segredos e obscuras intenções, que comandariam a sua existência conferindo atributos sombrios à sua vida psíquica e política. Essa fratura originária seria o legado da cultura ocidental, e o processo de cura envolveria a busca pela superação do trauma psíquico. Para Mbembe, curar-se dessa condição requer a restauração de uma matriz simbólica capaz de impedir a destruição do corpo negro. O ex-colonizado, a partir de então, renasceria para si e para o mundo, e finalmente a condição esquizofrênica de sua existência estaria superada.

As caracterizações de Frantz Fanon avaliavam que a colonização decorria de uma vitória militar perpetuada através da administração policial, a matriz fundamental da colônia seria

201 .MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra; tradução Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.p.285

202 .MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra; tradução Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.p.18

fundamentalmente a guerra. A condição de enfrentamento é preservada através da administração civil e policial, que acaba por se tornar o fundamento da sociabilidade e das instituições coloniais de poder.

Fanon considera que a colonização pode ser considerada uma formação de poder dotada de uma vida sensorial própria. Para poder se manifestar, essa formação de poder exige um ideário de riscos a serem vencidos, sem os quais, qualquer gesto colonial fundador não teria se prosperado. O ato de matar e pilhar no contexto da colônia teria origem em uma espécie de razão sacrificial203. Os métodos do regime de colonização são exercidos através experiência do dispêndio absoluto da vida, processo observado nas colonizações praticadas sobre a África e sobre as Américas, nas quais, através de operações no campo socio-econômico e guerras, observamos como eixos políticos a raça e o desejo do sacrifício.

Fanon considera que a vida na colônia não consistia apenas de tensões e angústias próprias de uma vida nervosa. O potentado colonial também dispunha de estratégias que anulavam qualquer possibilidade de emergência de um indivíduo autônomo. A primeira estratégia seria recusar a legitimidade das diferenças, a segunda, negar semelhanças. Compreendendo esses processos como característicos de um regime psíquico narcisista, ao exigir que o colonizado se assemelhe a si próprio, ao mesmo tempo em que inviabiliza que isso ocorra, o potentado colonial produz a

“anticomunidade”: um espaço onde a divisão e a separação constituem as formas de estar juntos, e onde a comunicação entre súditos e senhores reitera a relação sacrificial.

Mbembe menciona como, em vez de inspirar empatia em virtude do sofrimento, os lamentos do colonizado geram ainda mais repugnância. No contexto paradoxal, entre ferir e cuidar, habita a figura do “comando colonial,” um poder brutal que rege as atribuições de racionalidade, fantasia e crueldade. Para o autor, quer se trate de atividade de destruição ou demonstrações de força, a vida puncional do comando colonial está inseparável do modo como o potentado colonial lança a guerra contra as raças consideradas inferiores. Fanon considera que a tortura é constitutiva da colonização, um conluio entre a instituição médica, a polícia e os militares.

O regime colonial elabora a figura do colonizado para logo após o aniquilar como objeto. O estado de hostilidade permanente lançado contra o subjugado fere seu corpo e sua alma. Fanon busca compreender o impacto das psicopatologias provocadas no contexto de opressão colonial. Em vários aspectos, a colônia é o lugar onde o colonizado não pode falar por si. A interdição à fala se relaciona ao confinamento a que está submetido. Na condição de um ser vazio de conteúdo, a não ser os atribuídos pelo colonizador, o seu valor se refere à capacidade de prover lucros ao

203 .MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra; tradução Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.p.190

colonizador. O comando colonial não busca apenas civilizar, as ações de “comando colonial” são acompanhadas pelo desejo de fazer sofrer, enquanto se colhe satisfação.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 101-105)