2.2 Relacionadas à política ou governo
2.2.2 Fumos, encosses, mambos, manamambos e mucazambos
Quiteve. Mas como Rodrigo Lobo era grande amigo seu e sabia falar ao modo dos cafres, por metáforas, buscou esta invenção para contentar ao Quiteve, como de feito contentou, e declarou que a lei que tinha posta não se entendesse em Rodrigo Lobo, sua mulher muito amada.112
Como podemos ler nas entrelinhas do relato do dominicano João dos Santos, Ro- drigo Lobo seria mais do que “um grande amigo” doSachiteve, seria “sua mulher muito amada”.
nesta dissertação ao discutirmos sobre os “cafres-livres” (ver seção1.2.2), a incorpora- ção e/ou conquista por uma unidade política maior trazia consigo suas prerrogativas, tanto de cooperação militar e política, como, na outra ponta, de pagamento de tributos e submissão.
Allen Isaacman, utilizando-se largamente de fontes orais, afirma que “as grandes chefaturas eram governadas por um mambo, que, por sua vez, era auxiliado por um chefe local, conhecido comomfumuouinhacau, e por figuras proeminentes da comu- nidade”.118 Os amambo tinham jurisdição por várias comunidades. Todavia, suas de- cisões muitas vezes eram feitas em conselho, além dos afumocomo mencionado por Isaacman, com outrosamambo, algo mencionado, por exemplo, em 1785.119Osafumo governavam apenas a uma localidade, “que consta muitas vezes de 200 pessoas e as ve- zes menos”.120 Umfumoseria, portanto, correspondente a um “chefe da povoação”, e estaria subordinado aomambo.121
Com a incorporação a outras unidades políticas, duas categorias assumem um novo papel,manamambosemucazambos, acima dosamambo, e, em alguns casos, com a ex- tinção destes últimos. Estes usualmente não eram escolhidos pelas comunidades, mas designados pelo soberano – ou pela classe dominante – da sociedade englobadora.122
Comecemos pelosmanamambos. João dos Santos relata que oMonomotapa con- temporâneo a ele se chamaria Mambo, e a seus filhos manamambos.123 Não há em outras fontes, além do relato deste dominicano, nenhuma menção a umMonomotapa com este nome, e seguramente Santos está a confundir a designação genérica para so- berano – mambo –,124com o nome próprio deste.125
O elo familiar com o dirigente da unidade política exterior seria simbólico, e não sanguíneo. António Pinto de Miranda (c. 1766) afirma que, no contexto dos prazos dos Muzungos,
Manamambos, só verdadeiramente houve um com este nome, que pro- priamente lhe assentasse porque manamambo vem a dizer filho de Rei, e este só o teve D. Ignez Gracia Cardozo que refugiado nas suas terras pormilandosque tinha feito a seu pai o Rei do Barbeçad.ªD. Ignez pa- cificou com dádivas o Rei de sorte que perdoados osmilandosassentou
118 “The larger chiefdoms were governed by a mambo who was assisted by a local chief, known as mfumu or inhacuau, and by village headmen.”(tradução nossa) ISAACMAN,1972, p. 25.
119 VAS, Antonio Caetano,Autos da inquirição (. . . )1785, AHU(064), cx. 50, doc. 48, fl. 22v.
120 MIRANDA,op. cit., p. 268.
121 RODRIGUES,2013, p. 790.
122 Notar que na terminologia soberano aqui utilizada, para o contexto das sociedades do sudeste afri- cano, os senhores e donas de prazos se incluiriam.
123 SANTOS, Fr. João dos, Ethiopia Oriental,1894 [1608], p. 223.
124 Curtois (1900) dá o seguinte significado paramambo:“rei, soberano, monarca, régulo”.CURTOIS,op.
cit., p. 34.
125 Para genealogia dos Monomotapas, conferir OLIVEIRA MUSCALU, Ivana Pansera de.“Donde o ouro vem”. Uma história política do reino do Monomotapa a partir das fontes portuguesas (século XVI). São Paulo:
Intermeios, 2015. p. 192.
que seu filho governasse as terras da referida D. Igneza elas sujeitas com o nome de Manamambo.126
Embora neste caso a ligação sanguínea se desse com uma unidade política que não a englobadora, Miranda deixa claro que não conheceu nenhum outro manamambo que seguisse esse padrão. Mais do que isto, dá a este caso como a origem do termo na unidade política dosMuzungos, dizendo que “à imitação deste”, os jesuítas teriam feito de “alguns cativos seus apotentados em butacas de escravaturas de suas terras manamambos, e todos os mais moradores pelo conseguinte”.127 Todavia, parece-nos que a utilização do termo como um dirigente designado pela sociedade englobadora antecede aos casos dos prazos portugueses, tendo seu correspondente nas demais uni- dades políticas do sudeste africano. Além da definição que faz demanamambos, João dos Santos nos dá um indício de que estes seriam também designados ao governo de partes da Mocaranga. Afirma o dominicano que, em anos anteriores à sua passagem pelo sudeste africano, o Quiteve, Dande e Manica faziam parte dos domínios doMo- nomotapa, sendo governados por três de seus filhos.128Segundo o dominicano, após a morte desteMonomotapa, seus filhos se rebelaram com as respectivas unidades polí- ticas que controlavam, por não reconhecerem ao novo soberano. Embora exista aqui talvez um carácter mitológico na revolta e independência destas sociedades, nos pa- rece que a menção à designação de “filhos” para o governo de unidades englobadas indica ser esta uma prática existente na Mocaranga. Novamente, não necessariamente os laços entre estes e oMonomotapasseriam sanguíneos, mas sim essencialmente sim- bólicos: ao nomear de seus “filhos” os que estariam no governo de determinados ter- ritórios, estaria o soberano a reforçar os elos que estes teriam com a Mocaranga, e, de certa forma, a explicitar algum grau de diminuição na soberania destes.
Serem definidos externamente àsmuzindasnão significaria, entretanto, quemana- mambosseriam sempre aceitos. Ao contrário, casos em que comunidades se recusam a aceitar um indivíduo designado ocorriam, não raro envolvendo conflitos militares.
Na viragem para os Oitocentos, no prazo Chemba, os habitantes livres se recusaram a receber um cativo do recém empossado foreiro comomanamambo, sendo amuzinda principal da terra em seguida castigada a mando doMuzungo“com um corpo de qui- nhentos cafres, e 41 armas de fogo”.129 Em 1785, também há o caso da tentativa de se trocar ummambode umamuzindano prazo Tambara, acarretando em um conflito en- tre as duas partes, conforme afirmou o primeiro, chamado Chombe, “não contra o dito foreiro, mas contra o seu competidor”.130 Este último caso é também interessante por
126 MIRANDA, António Pinto de,Memória (. . . )1955 [1766], pp. 266–267.
127 Ibid., p. 267.
128 SANTOS,op. cit., pp. 198–199.
129 CARVALHO, João Filipe de,Carta (. . . )1957 [9/10/1800], pp. 172–173.
130 VAS,op. cit., fl. 23.
ilustrar a manutenção deamambonas estruturas dos prazos, o que ocorria sobretudo nas terras de grandes dimensões.131
Os mucazambos seriam, segundo António Pinto de Miranda, “quase semelhantes aos manamambos nos domínios das terras de seus senhorios”, entretanto, não descen- deriam “de sangue régio”.132 A semelhança seria tanta que, dois anos depois, Miguel José Pereira Gaio, justificando que seusmucazambosnão teriam nenhum parentesco com o Macombe – algo de que fora acusado durante uma disputa dos Muzungosde Sena com o Barue –, dá sua afirmação em torno da história de seu “manamambo ou mucazambo grande”.133 Dada esta afirmação, é possível supor que existia, ao menos em alguns prazos, uma hierarquia entre manamamboemucazambos, estando o pri- meiro de alguma forma acima dos demais.
Osmucazamboseram também utilizados pelas outras unidades políticas da região, provavelmente precedendo seu uso nas terras dosMuzungos. Por exemplo, em 1762, é relatado que em um dosbaresno Bororo,
o arraial não é todos os anos no mesmo sítio, porque antes de se assen- tar, se pede licença ao Régulo, o qual recebido o presente, que se lhe manda oferecer,ordena, por um seu Mocazamboo lugar aonde se há de minerar (...).134
Podemos perceber, além do uso desta categoria pelo Bororo, uma de suas atribui- ções: a de designar aosMuzungoso local em que será permitido a mineração e, conse- quentemente, o controle em não se permitir que seja realizado em outros locais.
Nas fontes mais antigas, em especial às do século XVII, não aparecem menciona- dosmucazambosexplicitamente com este nome para unidades políticas que não a dos Muzungos. Isto se deve, em grande parte, por nestas fontes ainda haver uma tendên- cia em se realizar a transposição de categorias locais ao contexto europeu ao descrever as sociedades do sudeste africano, corriqueiramente sem menção à nomenclatura ori- ginal, sendo muitas vezes utilizado em seu lugar o termo capitão. É como, por exem- plo, Manuel Barreto (1667) caracteriza osmucazamboscomo “capitães cafres” a que os afumodas terras de Sisnando Dias Bayão obedeciam.135Todavia, o mesmo termo eu- ropeu designaria a outras categorias. Bocarro, na primeira metade do século XVII, diz que osencossesseriam uma forma de senhorio “sobre os cafres da terra, como capitão
131 RODRIGUES,2013, p. 790.
132 MIRANDA,op. cit., p. 267.
133 GAIO, Miguel José Pereira. Carta ao capitão general [08-07-1768].Moçambique Documentário Trimestral, n. 89-92, p. 227–230, 1957. p. 228.
134 ANÔNIMO. Memórias da Costa d’África Oriental e algumas reflexões úteis para estabelecer melhor, e fazer mais florente o seu commércio [1762]. In: ANDRADE, António Alberto.Relações de Moçambique Setecentista. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, Divisão de Publicações e Biblioteca, 1955b. P. 189–
224. p. 197.
135 BARRETO, Manuel,Informação (. . . )1885 [1667], p. 41.
deles”,136 o que torna o trabalho de se extrair as características de cada um bastante nebuloso quando não são explicitamente denominados por sua nomenclatura local – como é o caso destas fontes – e são chamados apenas de “capitães” ou outros termos europeus.
A primeira fonte a que tivemos acesso que menciona o termomucazamboé António Gomes em meados do século XVII. Relatou o padre que naquele tempo diziam “que os mouros têm metido na cabeça do Rei [Monomotapa] que em havendo minas, ele há de ser um mucazambo dos Portugueses, vale tanto como caseiro”.137Trata-se, obviamente, de uma menção pejorativa. É certo que ser ummucazamboseria algo pejorativo para um soberano como oMonomotapa, mas não necessariamente algo pejorativo para os própriosmucazambos. Ao contrário, é de se supor que sua proximidade com a elite das sociedades englobadoras, dava a eles privilégios não alcançáveis a outras categorias e, em especial, às sociedades englobadas.
Militarmente seriam responsáveis pelos exércitos, em praticamente todas unidades políticas a sul do Zambeze, e em especial aos senhores e donas dos prazos. António Gomes (1648), afirma que
todos [os guerreiros] [seriam] tão obedientes, que não se faz mais que o que manda o Capitão Geral [mucazambo], e este se pode ter recurso, manda perguntar aos seus fumos que há de fazer, e estes são aqueles que por velhos não podem tomar armas, e estão assentados debaixo de uma árvore, se é dentro damuzinda, e daí ordenam o que se há de fazer.
E assim se cumpre.138
É de se supor que a consulta aosafumose daria sobretudo no contexto de batalhas tramadas localmente. Quando se tratava de uma a mando da unidade política englo- badora, a consulta provavelmente se daria ou diretamente ao soberano – se presente – ou a alguma de suas categorias diretas, comobocurumes enevanges, sendo pouco provável a consulta para questões militares aosafumo.
No entanto, esta consulta, para ser feita, dependeria de confiança com a unidade englobadora, e estaria sujeita às particularidades dos que guerreavam, tanto políticas, como religiosas. É o que se pode inferir através de memorial anônimo de 1683, que faz a seguinte narrativa hipotética:
suponho que deu um Português quatro mil negros, e que ele não foi à guerra. Neste caso, manda em seu lugar o Mocazambo (chamam assim ao Governador que cada um faz dos seus negros) quando depois estes quatro mil negros foram para alguma coisa necessários há de o Gover- nador do Exército chamar o tal Mocazambo, e dizer-lhe com cortesia
136 BOCARRO, António,Década XIII,1899 [1635], p. 309.
137 GOMES, Pe. Antonio,Viagem (. . . )1959 [1648], p. 186.
138 Ibid., p. 207.
o que é justo se faça. Se lhe parece bem, manda os negros. Enquanto ele os não mandar, não darão um passo, ainda que o Governador lho ordenem.139
Não tendo uma relação de confiança com o “governador do exército” – usualmente outro morador dos rios, ou mesmo o capitão de uma vila –, por não ser ele o soberano da unidade política a que se vincula (o prazo), o mucazambo simplesmente não lhe daria ouvidos se assim o desejasse. Esta situação hipotética, feita pelo memorialista anônimo para ilustrar seus argumentos, aparece em situações reais ocorridas com os Muzungos no sudeste africano, podendo mesmo a quebra na confiança ser, como já mencionamos, por motivos religiosos. É o que relata António da Conceição (1696), que orienta a que nos exércitos se tenha o cuidado para que
nenhum Cafre faça adivinhações, nem use de mafutas, que são certas superstições em que eles creem; e em as impedir faz um grande serviço não só a Deus, mas também a S. Majestade,porque muitas guerras nossas, se tem perdido, por se não evitar isto até agora, e era tão pouco o nosso poder,que mais íamos nós nos exércitos sujeitos às vontades, e superstições dos Cafres do que os Cafres às nossas ordens, e todas as vezes, que a eles lhes parecia, se desfazia o exército,porque em dizendo os Mocazambos(que são os cabos dos Cafres)que as suas mafutas lhe mostravam mal sucesso dali por diante, criam nisto tanto os mais que uns fugiam logo do exército, e aos mais se lhes metia uma tal desconfiança e tão extraordinário medo, que se podia dizer que iam já vencidos em si mesmos antes de verem a cara ao inimigo.140
No contexto da Butua, temos ainda referência a uma categoria que estaria logo acima aos mucazambos durante as batalhas: Juhabeze. Em 1743, sabendo de inquie- tações e distúrbios que a sucessão ao entãoMonomotapalevara às imediações de Tete, oChangamira
expediu um corpo de dois mil cafres com os seus cabos competentes,e ao superior que dão o nome de Juhabeze, que vale o mesmo que General, lhe deu quando o despediu para sua mulher, que é a maior honra que ele costuma fazer aos seus vassalos, uma negrinha, dizendo-lhe que em quanto não tivesse dela uma filha daquele mesmo tamanho, andasse nos serviços dosMuzungos(...).141
Muitas vezes, recebiam osmucazambosalgum valor – usualmente em velório, como era costume no sudeste africano – para irem à guerra. Pedro Barreto Rezende, diz que os “cafres de peleia” seriam “chamados dando-se alguma roupa só aos cabeças que baste para se vestirem e aos capitães e a alguns filhos seus”.142Apesar de estar a se referir aqui a indivíduos relacionados a mercadores muçulmanos da ilha de Luabo de princípios
139 LOBATO, Manuel,Uma Relação (. . . )1995 [1683], p. 337.
140 CONCEIÇÃO,op. cit., p. 85 (grifo nosso).
141 MELLO E CASTRO, Francisco de,Rios de Sena (. . . )1856 [1750], p. 113.
142 REZENDE, Pedro Barreto de,Da India,1898 [1634], p. 384.
do século XVII, tal padrão possivelmente também se daria no chamado aos habitantes dos prazos.
Finalizando a análise do âmbito militar das categorias desta seção, osmanamambos também eram utilizados na guerra de maneira semelhante aosmucazambos. Em 1768, é dito que o comandante das tropas de um conflito com o Barue, Miguel José Pereira Gaio, “somente [se] aconselhava do seu manamambo Chirima e o cafre Inácio”, estando suas tropas formadas tanto por cativos seus, como por indivíduos a mando de Chirima, provavelmente cativos também.143
Do ponto de vista tributário, osamamborecebiam das comunidades o pagamento do mussoco e da presa mais pesada dos elefantes caçados.144 Com a incorporação a outras unidades políticas, a coleta dos tributos continuava a ser feita por eles,145entre- tanto ao menos parte destes eram repassados à estrutura superior periodicamente. Em alguns casos, mesmo a totalidade poderia ser repassada. Manuel Barreto (1667), afirma que o “marfim que se caça ou se acha” seria todo do prazeiro, sendo “pago aos cafres o trabalho de o caçar ou locotar”.146Parece-nos improvável que todo o marfim fosse dos senhores e donas dos prazos. Em 1785 é relatado no momento de uma cobrança a ta- refa de se também “recolherem o marfim que na mesma terra tinhacaído”.147O marfim mencionado neste trecho pode ser interpretado como as presas do lado no qual o ele- fante tombou ao morrer, a ponta da terra como ficou a ser conhecida, usualmente paga aos soberanos. Recolhendo-se ela durante a cobrança, dá a entender que continuava- se a respeitar a tributação de 50% do marfim – sendo o soberano no caso o foreiro da terra –, ficando a outra metade para os caçadores.
Sendo coletados pelosamambo– e na inexistência destes, pelosafumo–, os mesmos eram então levados aos prazeiros por intermédio dosmucazambosou domanamambo.
Durante a cobrança mencionada acima, esta esteve a cargo do “capitão emanamambo e [de] um sachicunda” do prazo,148 enquanto em 1768 é mencionada a cobrança feita pelomucazamboda terra Sungue.149Manuel Barreto, mais de um século antes, fala do pagamento pelosafumodos tributos aosmucazambosde Sisnando Dias Bayão.150
Estaria ainda a cargo dosmucazambosa compra forçada –inhamucangamiza– de bens produzidos na terra às comunidades da mesma. Para tanto, recebiam dos pra- zeiros tecidos, que deveriam ser comerciados por estes bens, em valores que normal-
143 MOTA, José Caetano da. Carta ao tenente-general dos Rios [12-01-1768]. Moçambique Documentário Trimestral, n. 89-92, p. 193–194, 1957b. p. 194.
144 ISAACMAN,op. cit., p. 29.
145 RODRIGUES,op. cit., p. 808.
146 BARRETO,op. cit., p. 36.
147 VAS,op. cit., fl. 38 (grifo nosso).
148 Ibid., fl. 38.
149 CAMPOS, José Coelho de,Carta (. . . )1957 [12/1/1768], p. 200.
150 BARRETO,op. cit., p. 41.
mente eram bastante benéficos aos foreiros.151 Além disto, poderiam se envolver no tráfico de escravizados, realizando a compra de indivíduos especificamente para este fim a mando dosMuzungos.152
Por sua vez, nas unidades políticas do sudeste africano, osafumopoderiam ser es- colhidos através de eleições. As narrativas em torno deste processo, nomeadamente Francisco Monclaro (1573) e António Gomes (1648) – são carregadas de interpretações negativas, tratando o processo como uma espécie de artimanha da comunidade para extrair a riqueza de alguns indivíduos.153A narrativa de Gomes carrega mais na drama- ticidade do que a de Monclaro, embora a semelhança de alguns trechos leva a crer que o tenha lido e se baseado ao menos em parte em sua descrição.
Contudo, nas próprias descrições pode-se perceber que o ato provavelmente nada tinha de forçado. Gomes afirma, dentre outras coisas, que osafumoseriam sempre avi- sados da chegada de qualquer forasteiro às suas terras, sendo tratado com reverência na comunicação com eles.154Monclaro, por sua vez, afirma que o período em que du- rava a vigência de um fumo é tanto “quanto tem que gastar, e depois que lhes comem tudo os lançam fora da dignidade e preeminência”, sendo estas “amaior que entre eles se pode dar”.155É de se supor que o cargo que recebia amaior dignidade e preeminência que uma sociedade poderia empregar não seria tão mal quisto. Além disso, embora existissem em algum grau eleições para a escolha de afumo, esta não era a regra, e provavelmente onde ocorriam seriam estritamente entre os parentes dofumoanterior – que normalmente era substituído apenas após sua morte.156
Há ainda o interessante caso de uma terra da coroa concedida a umfumo, Caroeira,
“isento de foros [pagos à Fazenda Real], e só com a pensão de a limpar a própria rua e fortaleza, e juntamente darpatamarespara o serviço real”.157Todavia, trata-se aqui de uma exceção, provavelmente de um caso único, já que usualmente quando não cedidas aosMuzungos, as terras eram tidas pela administração portuguesa como vagas ou em revolta, e não concedidas aos habitantes dela.
Por fim, resta analisar as categorias aqui em questão sob a esfera jurídica, em es- pecial, na resolução demilandos. Tratando dos Macuas, João dos Santos (1608) afirma que o fumo determinaria verbalmente a solução de conflitos entre os habitantes de sua localidade, “ e quando o fumo não pode julgar, o Bano, senhor das terras, as deter- mina com conselho dos mais fumos, que se ajuntam para isso em um terreiro à porta
151 MELLO E CASTRO, Francisco de,Rios de Sena (. . . )1856 [1750], p. 109.
152 JESUS MARIA, Fr. Fernando de,Carta ao secretário de estado (. . . )1752, AHU(064), cx. 6, doc. 41, fl. 1.
153 MONCLARO, Francisco,Relação (. . . )1885 [1573], p. 542; GOMES, Pe. Antonio,Viagem (. . . )1959 [1648], p. 205.
154 Id.,Viagem (. . . )1959 [1648], p. 204.
155 MONCLARO, Francisco,Relação (. . . )1885 [1573], p. 542.
156 BEACH,1980, p. 94.
157 MIRANDA, António Pinto de,Memória (. . . )1955 [1766], p. 296.
da casa do mesmo Bano”.158Não encontramos mais referências a umbano, mas sendo este o “senhor das terras”, é possível que Santos tenha tomado o nome de ummambo enquanto uma categoria local, ou que esta seja uma nomenclatura específica aos Ma- cuas, com atuação semelhante. Falando de maneira genérica a todos povos do sudeste africano, António Gomes, em 1648, relata uma ida – talvez hipotética – de um indivíduo a julgar uma empofia tendo como juiz o seufumo.159
Já em Teve, Santos afirma ainda morar em cada povoação “um governador ou ca- pitão posto pela mão do rei [Sachiteve], o qual tem jurisdição para julgar as empofias e demandas dos cafres da sua povoação em cousas leves”, ficando as graves a cargo do próprioSachitevedar o julgamento.160É difícil afirmar a qual categoria este capitão ou governador poderia corresponder. Sendo posto pelo Sachiteve, poderia ser tanto umen- cosse, como um análogo a ummucazambo. Mas tratando-se apenas de uma localidade, também poderia corresponder a umfumo.
António Gomes ainda afirma que, quando da incorporação à unidade política dos Muzungos, os foreiros dos prazos teriam “em suas terras aquele mesmo poder e juridi- ção que tinham os fumos e cafres a que foram conquistadas”.161 João dos Santos, mais de meio século antes dá informação semelhante com relação ao capitão de Tete, di- zendo que os habitantes livres das terras nas imediações da vila “a ele vêm com suas demandas e trapassas, as quais ele julga, e sentencia, quando o seu Encosse lhas não pode julgar, ou consertar”,162o mesmo ocorrendo com o capitão da Massapa.163. Estes exemplos nos indicam com ainda maior ênfase a inserção dosMuzungosna estrutura apelativa judicial local.
Por fim, é provável que, nas terras dos prazos, osmucazambos se tornassem uma camada intermediária de apelação, após o julgamento pelofumo, mas antes de se ape- lar ao prazeiro ou, a partir de meados do século XVIII, aos juízes ordinários.164