• Nenhum resultado encontrado

1.3 Cafres Cativos

1.3.2 Os escravizados

As informações sobre os escravizados são bastante focadas nos diretamente rela- cionados aos Muzungos, bem como às comunidades que se inseriam no contexto de suas cidades, como Baneanese muçulmanos. Com relação às outras unidades políti- cas, o contexto de escravidão apresenta-se mais nebuloso nas fontes consultadas para a realização desta dissertação, com informações esparsas e bastante lacunares.

É difícil estimar a origem geográfica da maior parte dos escravizados nos séculos

116 RODRIGUES,2013, p. 870.

117 MELO ALVIM, Inácio de. Carta do governador e tenente geral dos Rios de Sena ao governador e capitão-general [09-02-1769].Moçambique Documentário Trimestral, n. 80, p. 128–131, 1954b. p. 129.

118 RODRIGUES,op. cit., p. 879.

119 LACERDA E ALMEIDA,op. cit., p. 29.

XVII e XVIII. Todavia, alguns indícios ajudam a se ter um panorama geral. Os escra- vizados em conflitos, ou deles decorrentes, muitas vezes ficavam a cargo direto dos vitoriosos, sendo levados às suas terras que grande parte das vezes não se localizavam muito distantes. Além disto, quando, ao menos no contextoMuzungo, eram realizados leilões para a venda destes indivíduos oriundos do butim de guerra, estes ocorriam nas povoações portuguesas, muitas vezes a relativamente pouca distância do local das ba- talhas. Já aos oriundos da prática de “corpo vendido”, é de se supor que também não ficassem muito distantes de suas localidades de origem, se associando a figuras pro- eminentes nas sociedades próximas. O mesmo pode-se inferir de ao menos parte dos que eram escravizados judicialmente. Ao não se ter um comércio a longa distância de escravizados tão desenvolvido, ao menos até meados dos Setecentos, e por ficarem a cargo dos acusadores, é provável que grande parte destes também continuassem em terras não muito distantes de sua habitação original. Embora para algumas categorias, sobretudo as utilizadas militarmente, aventou-se a possibilidade – talvez mais focada em arcabouços teóricos e na realidade do comércio de longa distância de fins do século XVIII e ao longo do XIX – de uma preferência por indivíduos de localizações distan- tes,120esta não parecia ser a regra da maior parte da população escravizada que temos notícia no período de recorte desta dissertação.

Tendo relações bastante próximas com as sociedades do seu entorno – das quais, muitas vezes, se originavam –, a situação dos escravizados apresentava algumas parti- cularidades. Os elos entre as comunidades de escravizados com as sociedades vizinhas seria tão forte ao ponto de, em 1768, ser comentado que na feira do Zumbo não pode- riam osMuzungoster

confiança nos cativos dos mercadores, porque como todos têm suas ca- sas e cultivam nas terras dos Botongas, e régulos, irreversivelmente hão de acudir em qualquer ocasião antes a eles que a nós,porque lhes devem maior obrigação.121

Frequentes eram os casos em que as comunidades de escravizados se associavam às demais comunidades livres – tanto intra-sociedade, no caso dos prazos, como de uni- dades políticas do entorno. Em 1785, após a prisão de ummanamamboda terra Tam- bara – situada próxima à vila de Sena –, os “cativos convocaram bitongas [butongas], e foram em muitas almadias tirá-lo daquela em que ele se conduzia à força de armas”, libertando-o, e realizando em seguida ataque aoluane, expropriando “de quanto acha- ram, matando criações, quebrando as portas” e causando danos às edificações.122Já na feira do Zumbo, em 1788, uma mulher que fora escravizada anos antes durante um ata-

120 ISAACMAN; PETERSON,2003, p. 261.

121 CAMPOS, Gil Bernardo Coelho de. Carta ao capitão-general [15-01-1768].Moçambique Documentário Trimestral, n. 88, p. 124–126, 1956b. p. 125 (grifo nosso).

122 VAS, Antonio Caetano,Autos da inquirição (. . . )1785, AHU(064), cx. 50, doc. 48, fl. 37v.

que dos exércitos dos mercadores à comitiva de um indivíduo – Ganda – relacionado ao pondoroBeza, consegue escapar e causa todo um cerco à vila pelas forças do Bereco e de Beza.123Trataremos com maiores detalhes os casos de resistência na próxima seção.

Em função destas resistências e da proximidade, conquistaram as comunidades de escravizados alguns direitos. Dificilmente, até o recrudescimento do tráfico, era possí- vel vender algum indivíduo a locais distantes de sua terra de origem. Desta maneira, justifica Joaquim de Morais Rego Lisboa, em 1785, não ser possível entregar “setecentos e tantos escravos” pertencentes ao espólio de Maria Carvalho Freira – “que faleceu de- vedora à Fazenda Real” –, pois “além de estarem pela mesma terra espalhadosera quase impossível retirá-los de uma terra onde eram nacionais”.124

No caso em que realizassem a retirada, era praticamente certa a ocorrência de re- voltas. Em 1797, Francisco José de Lacerda e Almeida relata o assassinato de uma mu- lher por “cafres do Barue” que estavam a “vingar seus parentes, pois os brancos os ti- nham mandado para fora quando na ocasião da fome lhes tinham vendido o corpo”.125 O mesmo Lacerda e Almeida afirma no ano seguinte ser “um dos iníquos dos que a ca- freria liberta mais sente é além de cativarem os seus parentes, serem estes vendidos a outrem e exportados para fora do lugar sem que lhes seja possível vê-los”.126Tanto seria assim, que na prática de “venderem o corpo” colocariam previamente “a condição de não serem mandados para fora”.127

Para os casos que se necessitasse de um indivíduo para ser revendido a regiões dis- tantes, a aquisição muitas vezes se daria explicitamente para este fim, estando a cargo, no contexto dos Muzungos, aomucazambodos senhores e donas dos prazos, que ao entregá-los declaram que não seriam “para o aumento dabutaca, [mas] sim para man- dar para fora”.128

Os escravizados possuíam diversas atribuições. Além do uso para aquisição de no- vos indivíduos, poderiam ser empregados tanto como mussambazesno comércio do sertão, como para a simples compra de alimentos e outros itens de uso quotidiano. No primeiro caso, conforme já vimos, também indivíduos livres eram empregados nesta categoria, à qual analisaremos na seção2.1.3. Para o segundo, o uso era corriqueiro na Ilha de Moçambique, de onde iam com frequência às Terras Firmes para a aquisição de bens alimentícios.129

123 MORAES E ALMEIDA, Sebastião de. Carta ao governador dos Rios e traslado de adjuntos (15-08-1788).

Lisboa: Arquivo Histórico Ultramarino, 15 set. 1788. AHU(064), cx. 56, doc. 62.

124 VAS,op. cit., fl. 37 (grifo nosso).

125 LACERDA E ALMEIDA,op. cit., p. 22.

126 Id.,Carta do governador ao rei (. . . )1798, fl. 4v.

127 Id.,Diário (. . . )1889 [1797], p. 22.

128 JESUS MARIA, Fr. Fernando de.Carta ao secretário de estado (13-04-1752). Lisboa: Arquivo Histórico Ultramarino, abr. 1752. AHU(064), cx. 6, doc. 41. fl. 1.

129 Pela ordem do Governador e Capitão-General de Moçambique em 1759, por exemplo, é possível ver os preços de compra de “arroz-bate e milho”, estando esta a cargo dos escravizados dos moradores

Nos prazos dosMuzungos, escravizados também eram utilizados na cobrança de tributos, tanto das comunidades de habitantes livres, como também nas comunida- des de escravizados estabelecidas nestas terras.130 Os gêneros recebidos como tributo ficavam na guarda destes escravizados, até serem repassados ao senhor ou serem ven- didos. É o que ocorre em 1781, no Zumbo, quandomunhaisdoMonomotapaChangara capturaram marfim “das mãos de uns escravos” de Frei Vasco de Nossa Senhora do Pillar.131

Eram também empregados como marinheiros nas embarcações que subiam aos rios – especialmente o Zambeze –, função na qual muitas vezes eram remunerados. No século XVII, António Bocarro menciona a

povoação de Sena, onde vivem trinta portugueses casados e outros sol- teiros, pouco mais ou menos, com seus escravos homens de guerra que servem de marinheiros das almadias e de darem guarda aos seus se- nhores, e as mercadorias com que vão pela terra dentro.132

Em cada embarcação, segundo António Gomes (1648), iam no mínimo 25 marinhei- ros, “ao menos um na proa, outro no leme, 24 a remo ou 20 afora os dos atabales, e um cafrete que vai no teto da casa, para avisar ao do leme”.133 Nos trechos e épocas do ano em que não era possível a navegação, bem como nos caminhos que eram percorri- dos sempre por terra, eram os escravizados também empregados como carregadores.

Na expedição de Francisco Barreto, no século XVI, indivíduos cedidos pelos moradores iam carregando tecidos, indispensáveis para o pagamento pela travessia nos caminhos, bem como para angariar apoio militar entre as populações locais.134Em 1616, a expedi- ção de Gaspar Bocarro também os levava, mas de sua própria escravatura, comprando em Inhampury “mil manilhas de fio de cobre” para serem utilizadas por “moeda em todos estes caminhos da cafraria, para os gastos miúdos”.135 A frustada expedição de Francisco José de Lacerda e Almeida, em 1798, também contou com vários escraviza- dos dos moradores como carregadores, grande parte destes se dispersando ou sendo capturados após o término da mesma.136

da Ilha. MORAIS E VASCONCELOS, Alexandre Botelho de. Ordem do governador e capitão-general para declaração dos preços do arroz e milho [10-12-1759].Moçambique Documentário Trimestral, n. 73, p. 147–148, 1953. p. 147.

130 VAS, Antonio Caetano,Autos da inquirição (. . . )1785, AHU(064), cx. 50, doc. 48, fl. 38; Sobre a cobrança também nas comunidades de escravizados, conferir RODRIGUES,2013, p. 806.

131 CORREA, Caetano Mello.Carta ao governador dos Rios (28-03-1781). Lisboa: Arquivo Histórico Ultra- marino, 28 mar. 1781. AHU(064), cx. 35, doc. 96. fl. 3.

132 BOCARRO, António,Década XIII,1899 [1635], p. 264.

133 GOMES, Pe. Antonio,Viagem (. . . )1959 [1648], p. 224.

134 MONCLARO, Francisco,Relação (. . . )1885 [1573], p. 500.

135 BOCARRO,op. cit., pp. 323-324.

136 MOREIRA E MENESES, Francisca Josefa de. Carta ao capitão-general [09-03-1800].Moçambique Docu- mentário Trimestral, n. 88, p. 112–116, 1956. p. 113.

Para além dos envios esporádicos, esta atribuição de carregadores era quotidiana para os caminhos do comércio. Os Ajaua utilizavam de escravizados no carga do mar- fim que era vendido em Quíloa e na Ilha de Moçambique, sendo que com o aumento da demanda do tráfico transoceânico, estes carregadores eram muitas vezes vendidos finda a carreira.137

No contexto muzungo, no trajeto até a Feira do Zumbo, no século XVIII, as fazendas eram conduzidas por terra pela “escravatura, gastando nesta condução cinco até seis dias”, até o Emboque, onde eram novamente carregadas em embarcações e seguiam rio acima até a feira ao longo de “oito até dez dias”.138 Conforme mencionamos, tanto no trabalho como marinheiros, como no de carregadores, seriam os escravizados algumas vezes remunerados. Gil Bernardo Coelho de Campos, em 1768, reclama das “insuportá- veis despesas” que tinha com os “cafres dos moradores de Tete”, mencionando ter gasto no ano anterior, seis pastas de ouro na condução de 16 bares de marfim da Chicova para Tete.139

Outra função bastante comum em que eram empregados escravizados, seria en- quantomanamucates, na comunicação tanto entre moradores dos prazos, como entre as demais sociedades da região. Trataremos mais a fundo desta categoria na seção2.1.1.

No século XVIII, nosbaresfrequentados pelosMuzungos, escravizadas eram também empregues como ungadeiras, ou mineradoras, categoria que analisaremos na seção 2.5.2.

Eram utilizados também para a realização de obras tanto nos prazos, a mando de seus proprietários, como cedidos por estes para a realização de obras públicas, como abertura de caminhos e desassoreamento de cursos d’água.140 Possuíam também in- contáveis ofícios e especialidades, sendo bastante valorizados por estes, como ourives, carpinteiros, cozinheiros e tecelões.141

Todavia, um dos principais empregos dos escravizados, tanto entre osMuzungos, como nas demais unidades políticas da região, seria nas atividades militares. Na Mo- caranga, a guarda particular doMonomotapaconsistia dos “cafres seus cativos”, sendo acrescidos a partir de meados do século XVII pelo capitão-mor e de vinte cinco soldados muzungos.142 Estes escravizados consistiam uma “companhia ou missoca” separada,

137 ALPERS,1975.

138 MELLO E CASTRO, Francisco de,Rios de Sena (. . . )1856 [1750], pp. 112-113; XAVIER, Ignácio Caetano, Notícias (. . . )1955 [1758], p. 163.

139 CAMPOS, Gil Bernardo Coelho de,Carta (. . . )1956b [15/1/1768], p. 126.

140 CRUZ, Evaristo José Pereira da. Carta ao capitão-general [15-07-1768].Moçambique Documentário Tri- mestral, n. 87, p. 124–125, 1956. pp. 124-125; LACERDA E ALMEIDA, Francisco José de,Diário (. . . )1889 [1797], p. 10.

141 RODRIGUES, Eugénia. Escravatura Feminina, Economia Doméstica e Estatuto Social nos Prazos do Zambeze no Século XVIII. In: SARMENTO, Clara.Condição Feminina no Império Colonial Português.

Porto: Politema, 2008. P. 77–98. pp. 83-87.

142 CONCEIÇÃO, Fr. António da,Tratado (. . . )1867 [1696], p. 66.

que também servia para carregar aoMonomotapae à Mazarira – uma de sua mulheres – nas manchilas.143

No contexto muzungo, seriam parte importante das tropas, compostas também pe- los habitantes livres dos prazos e por aliados nas demais unidades políticas da região.

No conflito com o Maurussa, por exemplo, em fins do século XVI, foram empregues 40 “portugueses, entre soldados da fortaleza, e casados de Moçambique”, que levaram

“consigo seus escravos, e outra muita gente forra da terra, que seriam perto de 400 ho- mens”.144Esta prática era frequente tanto no século XVII, como no XVIII.145Na defesa das vilas e feiras, seriam “obrigados os senhorios de terras [prazos] a acudir com sua cafraria quando o capitão o mandar por ser serviço de chuambo”.146Seriam “os cafres dos moradores de toda aquela conquista, assim cativos como forros” a principal força militar a que tinham osMuzungos, sendo utilizados em toda ocasião de guerras.147 A importância destes é assinalada, com forte carga de dramaticidade, por memória anô- nima de 1683, que afirma que

sem terras não pode ter soldados. E estes são os negros cativos (...). É verdade tão sabida, que sem esta gente, ninguém dominará naquelas partes. Porque é muito diferente da nossa, a sua guerra. Sem aparecer um negro dão fim a um exército de brancos.148

Conforme salientamos, algumas vezes a realização de trabalhos era de alguma forma remunerada aos escravizados. Além disto em muitos contextos tinham liberdade de trabalharem a outros que não a seus proprietários. Em 1783, uma rebelião de escra- vizados dos dominicanos no Zumbo em parte seria decorrente do novo frei por eles responsável ter-lhes proibido de trabalhar a outros moradores.149Quase um século an- tes, em 1696, Fr. António da Conceição afirmava que na feira de Manica osMuzungos contratavam “às furtadelas uns com os cafres dos outros”.150

Do ponto de vista religioso, apesar de por algumas vezes serem batizados – o que pode ser assinalado por alguns terem nomes cristãos –, havia uma liberdade de prá- ticas – que muitas vezes também reverberava nas próprias práticas dos proprietários.

143 MIRANDA, António Pinto de,Memória (. . . )1955 [1766], p. 311.

144 SANTOS, Fr. João dos, Ethiopia Oriental,1894 [1608], p. 262.

145 REZENDE, Pedro Barreto de,Da India,1898 [1634], pp. 383, 386, 394; BOCARRO, António,Década XIII, 1899 [1635], pp. 259, 264, 331; CONCEIÇÃO, Fr. António da,Tratado (. . . )1867 [1696], pp. 64, 107–108;

MONTAURY, João Baptista de. Moçambique, Ilhas Querimbas, Rios de Sena, Villa de Tete, Villa de Zumbo, Manica, Villa de Luabo, Inhambane (1778). In: ANDRADE, António Alberto.Relações de Mo- çambique Setecentista. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, Divisão de Publicações e Biblioteca, 1955.

P. 339–373. pp. 364–365.

146 BARRETO, Manuel,Informação (. . . )1885 [1667], p. 37; MONTAURY, João Baptista de,Moçambique (. . . ) 1955 [1778], pp. 364–365.

147 MELLO E CASTRO, Francisco de,Rios de Sena (. . . )1856 [1750], p. 105.

148 LOBATO, Manuel,Uma Relação (. . . )1995 [1683], p. 336.

149 NOSSA SENHORA DO PILAR, Fr. Vasco de.Carta ao governador dos Rios (20-01-1783). Lisboa: Arquivo Histórico Ultramarino, jan. 1783. AHU(064), cx. 41, doc. 7. fls. 5v–6v.

150 CONCEIÇÃO, Fr. António da,Tratado (. . . )1867 [1696], p. 45.

Em 1753, por exemplo, afirmava o administrador episcopal de Moçambique que nas “ca- sas dos portugueses, principalmente nos Rios de Sena” se observavam “muitos abusos, ritos, superstições, cerimônias gentílicas, e outros bárbaros costumes dos cafres”.151 Sobre os batismos, afirma que

muitos cafres, e são a maior parte deles, que vivem em casa dos portu- gueses, e ainda dos mesmos eclesiásticos regulares, (...) vivem, e mor- rem pagãos, sem seus senhores, nem os párocos lhes procurarem ba- tismo, nem fazerem disso escrúpulo: e os que têm nome, e batismo de cristãos, muitos o recebem sem saberem que recebiam, e vivem tão gen- tios, como desejavam (...).152

António Pinto de Miranda, em meados da década de 1760, também afirma de ma- neira semelhante, acrescentando que a única diferença nos costumes entre os escra- vizados cristãos e os não convertidos seria o fato dos primeiros terem sido batizados, pouco seguindo os dogmas e ritos católicos.153No século anterior, isto também é ressal- tado por Pedro Barreto Rezende, dizendo que lhes dura “a cristandade enquanto lhes dura o cativeiro”.154

Por fim, resta fazer uma breve análise descritiva dabutaca. Segundo Eugénia Ro- drigues, se constituiu no século XVIII uma hierarquia entre os escravizados na gestão tanto dos prazos como de grupos de indivíduos.155Estariam nos postos de comandomu- cazambos, que controlariam um grupo de pessoas. Acima deles, algumas vezes, existia um “mucazambogrande”, e logo abaixo osbazos, “que transmitiam as suas ordens”.156A seguir, encontravam-sesachicundas e macodas, que controlavam pequenos grupos de trabalho (nsaka), sendo auxiliados por mucatas.157

Do ponto de vista das habitações nos prazos, a área residencial de denominava lu- ane, sendo composta

pelos aposentos familiares, pelos armazéns, e pelas casas dos escra- vos ligados diretamente ao trabalho nesse espaço. Em volta deste con- junto de edifícios, estendiam-se pomares, hortas e searas, cultivados pelas escravas. Tudo indica que, no final da centúria [XVIII], os lua- nes eram habitações cada vez mais secundárias e, portanto, o maior número de escravos domésticos concentrar-se-ia nos centros urbanos, podendo deslocar-se entre estes e os prazos.158

151 NOSSA SENHORA, Fr. João de.Carta do administrador episcopal de Moçambique ao rei. Lisboa: Arquivo Histórico Ultramarino, dez. 1753. AHU(064), cx. 9, doc. 3. fl. 1v.

152 Ibid., fl. 2.

153 MIRANDA, António Pinto de,Memória (. . . )1955 [1766], pp. 249–250.

154 REZENDE, Pedro Barreto de,Da India,1898 [1634], p. 381.

155 RODRIGUES,2013, p. 794.

156 Ibid., pp. 795–796.

157 MIRANDA, António Pinto de,Memória (. . . )1955 [1766], pp. 267–268; RODRIGUES,2013, p. 796.

158 Id.,2008, p. 80.

Os demais indivíduos escravizados ou residiam em comunidades próprias para a escravatura, ou juntamente às comunidades livres, por vezes fora das terras do prazo, em localidades das unidades políticas próximas. Em 1785, é ressaltada a dificuldade em se realizar a prisão de escravizados que se envolveram em um conflito no prazo, “pelas distâncias em que residem uns de outros”.159Este padrão de dispersão era também ob- servado no século anterior, mesmo nas povoações portuguesas. Em 1667, Manuel Bar- reto assinala que em Quelimane, as “palhotas dos cafres” ficariam fora do chuambo com que “cada morador cerca sua casa e horta”.160Em meados da década de 1760, Antó- nio Pinto de Miranda afirma existirem em Sena, “mais de 3000 palhotas de habitantes nacionais, adonde se recolhem alguns dos escravos dos moradores”.161

Conforme podemos perceber ao longo desta seção, as divisões entre escravizados e livres eram bastante tênues, havendo fortes relações entre eles – várias vezes de cunho familiar e habitacional –, além de uma sobreposição nas tarefas em que eram empre- gados. A diferença poderia ser tão simples ao ponto de Matthew Schoffeleers, através de tradição recolhida no século XX, afirmar que a diferença fundamental entre um in- divíduo escravizado e outro livre entre os Manganja seria o fato do primeiro ter direito a se casar, enquanto ao segundo este seria um favor concedido.162

Na próxima seção, veremos como esta proximidade acarretará em fortalecimento dos laços em situações de resistência.