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2.3 Tecendo a memória dos movimentos sociais identitários no Brasil,

2.3.2 Gênero

As cobranças em relação à esta agenda podiam ser feitas de forma mais efetiva e com maior resultado pois naquele momento já havia um certo domínio da utilização da língua do Estado como também um contexto de abertura institucional para as demandas desta parcela da população.

No final do século XIX e início do XX, a presença feminina entre trabalhador@s industriais era expressiva, chegando a ser maioria em alguns setores como na indústria têxtil. Neste ambiente, as mulheres entraram em contato com ideias socialistas e anarquistas trazidas pela imigração espanhola e italiana, o que contribuiu para que se organizassem nos sindicatos e passassem a reivindicar

“melhores salários e condições de higiene e saúde no trabalho, além do combate às discriminações e abusos a que estavam submetidas por sua condição de gênero”

(COSTA, 2005, p. 11). A luta pelo sufrágio universal, demanda do feminismo de mulheres brancas nos mais diversos países do mundo naquela época, também estava presente aqui no Brasil e foi uma das principais causas defendida pelo primeiro partido feminista, o Partido Republicano Feminista, criado pela baiana Leolinda Daltro.

Com a conquista do direito ao voto estabelecido na Constituição de 1934, o movimento feminista brasileiro se desarticula. Esta desarticulação não ocorreu apenas no Brasil. Segundo Jane Jaquette (1994), em diversos países dos continentes americano e europeu os movimentos feministas também se desarticularam após conquistarem o direito ao voto. Mas isso não significou sua extinção. Além da participação nas associações de moradores, clubes de mães etc, já na década de 1940 voltam a atuar na política partidária.

No Brasil, as organizações femininas, sob a orientação do Partido Comunista Brasileiro, como a União Feminina criada para atender a política de "frente popular" estabelecida pela Terceira Internacional em 1935, e o Comitê de Mulheres pela Anistia em 1945, tiveram amplo poder de articulação e mobilização feminina (COSTA, 2005, p.11).

Costa (2005) e Maxine Molyneux (2003) apontam que em relação à divisão sexual dos papéis de gênero, os movimentos feministas do Brasil e da América Latina possuíam um cunho conservador, pois além de não questioná-la ainda reforçavam estereótipos femininos durante a reivindicação de suas demandas.

Durante a elaboração do golpe de Estado civil-militar de 1964, grupos de mulheres conservadoras foram um dos principais segmentos sociais a organizarem as ‘Marchas da Família com Deus pela Liberdade’ no Brasil que solicitavam a derrubada do presidente João Goulart para que o comunismo não fosse implementado no país. Com a Ditadura civil-militar grande parte dos movimentos sociais organizados, inclusive os feministas, foram perseguidos e dispersados.

A segunda onda do feminismo no Brasil surge durante este período ditatorial e, assim como o movimento homossexual analisado anteriormente, o movimento feminista que ressurge na década de 1970 terá a luta contra um governo autoritário como uma de suas principais ações112. A efervescência cultural do final dos anos de 1960 e dos anos de 1970 foi intensa também no Brasil, contribuindo fortemente na modificação de costumes e tradições, e no (re)surgimento de diversos movimentos identitários.

No entanto, o campo de esquerda da política brasileira durante a ditadura mantinha (e ainda mantém) fortes traços machistas e sexistas que eram obstáculos para fortalecer a integração de forças contra o regime ditatorial. Grande parte da esquerda latino-americana, tanto nas organizações de esquerda quanto na ala progressista da igreja católica, mantinha a visão preconceituosa que considerava as integrantes dos movimentos feministas como “grupos de pequeno-burguesas desorientadas, desconectadas da realidade do continente, que haviam adotado uma moda e faziam o jogo do imperialismo norte-americano” (STERNBACH et al, 1994, p. 70).

Em 1975, em um clima de distensão política do regime ditatorial brasileiro, foi criado por ex-presas políticas em Londrina, Paraná, o jornal Brasil Mulher ligado ao Movimento Feminino pela Anistia. No ano seguinte, foi criado o jornal feminista Nós Mulheres por antigas integrantes do movimento estudantil e universitárias. Estas duas publicações passam a ser então as principais porta-vozes do movimento feminista no país. Com o crescimento do movimento novas reivindicações surgem dando início ao movimento organizado lésbico em 1979113 (FERNANDES, 2018), que produziu e foi fortemente influenciado por jornais, boletins e revistas lésbicas.

De acordo com Carolina Maia (2018) a primeira vez que mulheres lésbicas escreveram em um jornal sobre suas sexualidades foi em 1979 em um especial sobre lésbicas para o Lampião da Esquina. Nas décadas seguintes diversas publicações foram criadas:

112 Assim, como o movimento homossexual brasileiro, o movimento feminista deste período, não só no Brasil, mas em diversos países na América Latina, passa a ter esta especificidade: a luta contra regimes ditatoriais que se espalharam por diversos países da região (LEON, 1994; JAQUETTE, 1994; MOLYNEUX, 2003). Luta que os movimentos feministas dos EUA e de muitos países europeus não enfrentavam.

113 No entanto, segundo Edmeire Exaltação (2018), foi só durante a década de 1990 que surgiu no Brasil o movimento de lésbicas negras que combatiam processos de desigualdades, preconceitos e discriminações diferentes dos enfrentados pelos movimentos de mulheres, mulheres lésbicas e mulheres trans não negras.

Anos 1980: Iamuricumá, ChanaComChana (jornal depois boletim), Amazonas, Xerereca, Um Outro Olhar. Anos 1990: Um Outro Olhar (boletim, da virada dos anos 1980-1990, e posteriormente revista, a partir de meados dos anos 1990), Ousar Viver, Femme, GEM, Deusa Terra, Lesbertárias, Ponto G, Boletim Folhetim, Visibilidade (estendendo-se a década seguinte).

Anos 2000: Informativo da LBL/Sul, O L, Sobre elas. E nos últimos cinco anos, duas revistas se somam à listagem: Alternativa L e Brejeiras (MAIA, 2018, p.37, grifos no original).

No final dos anos de 1970, início dos anos de 1980, questões envolvendo a sexualidade, os direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher (COSTA, 2005) chegam, inclusive, a serem debatidas na TV.

Com a Anistia, a volta do pluripartidarismo e a popularização destas demandas fez com que partidos políticos, tanto os de esquerda quanto os de direita, passassem a colocar em seus planos e programas de Governo algumas das reivindicações feministas. Em 1983, após a vitória do PMDB para o Governo do estado de São Paulo, foi criado o Conselho Estadual da Condição Feminina, ou seja, pela primeira vez, uma instituição governamental foi criada especificamente com o objetivo de implementar políticas para as mulheres. A institucionalização de parte do movimento feminista a partir daí, dividiu o movimento. Parte dele desejava preservar a autonomia frente ao Estado e uma outra parte via a parceria com o Estado como uma forma de aumentar o alcance e de fato efetivar as reivindicações e modificar a condição feminina. No âmbito do Governo Federal foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) junto ao Ministério da Justiça. O CNDM foi decisivo para levar a frente as demandas feministas durante o período da elaboração da Constituição de 1988 com a campanha “Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher” que exigiam uma legislação mais igualitária. O resultado positivo foi expressivo. O chamado “lobby do batom” (COSTA, 2005) durante a constituinte conseguiu aprovar 80% de suas demandas.

Assim, a participação do movimento nestes conselhos serviu para que suas integrantes se apropriassem da “língua do Estado” (AGUIÃO, 2014), assim como ocorreu também com o movimento LGBT.

Com José Sarney (PMDB) na Presidência da República, o CNDM foi sendo desmontado, mas com o domínio do funcionamento da máquina pública, os movimentos feministas puderam agir de forma mais eficaz no encaminhamento e cobrança de suas demandas. Fruto disso, de certa forma, foi a participação destes movimentos em uma série de conferências, tratados e acordos internacionais, que fizeram com que o Estado brasileiro se comprometesse diante da comunidade

internacional a atender uma série de demandas feministas nos mais diversos campos114. Segundo Nina Madsen (2008), a agenda de gênero na educação no Brasil teve início nos de 1990 em consonância com uma agenda de gênero internacional, fortemente marcada pelas conferências internacionais, onde ambas defendiam a promoção da igualdade de gênero na educação.

Em mais uma trajetória semelhante ao que ocorreu com o movimento LGBT, nos anos de 1990, várias integrantes dos movimentos feministas criaram organizações não governamentais (ONGs). São estas instituições que “passam a exercer de forma especializada e profissionalizada a pressão junto ao Estado, buscando influenciar nas políticas públicas” (COSTA, 2005, p. 16). Vale ressaltar que antes da década de 1990, não se utilizava a perspectiva de gênero na formulação e implementação de políticas públicas no Brasil, sendo utilizada o termo

‘política para mulheres’ (SILVA, 2017).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 121-125)