Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho é analisar, sob uma perspectiva micropolítica, um conjunto de políticas educacionais públicas e governamentais que têm sido propostas para combater as desigualdades sociais no ensino fundamental público brasileiro.
Histórico legislativo
A Conferência Mundial sobre Direitos Humanos insta todos os governos a tomarem medidas imediatas e a desenvolverem políticas vigorosas a este respeito. Os direitos humanos das mulheres e das raparigas são uma parte inalienável, integral e indivisível dos direitos humanos universais. Criar e fortalecer programas educacionais de respeito aos direitos humanos nas escolas de ensino fundamental, médio e terceiro grau, por meio do sistema de 'temas transversais' nas disciplinas curriculares (..) e pela criação de uma disciplina de direitos humanos (BRASIL, 1996, p. .35) .
IV - contribuir para a construção do sistema de assistência social, com ênfase na promoção da cidadania e dos direitos humanos; Como resultado desta 1ª conferência LGBT, foi criado no ano seguinte o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e dos Direitos Humanos LGBT, que forneceu diretrizes para ações públicas e políticas voltadas para esta parcela da população. No texto base do relatório final, eixo II “Educação, cultura e comunicação no domínio dos direitos humanos”, afirma-se que as medidas visam garantir a educação como um direito humano à população LGBT.
A produção acadêmica sobre diferença
É importante ressaltar a característica “estrutural” e não apenas normativa deste modelo, uma vez que a diferenciação de gênero é então “estabelecida não apenas como um fato natural, mas também como uma base ontológica para a diferenciação política e social” (SCOTT, 2005, p. .21) ou mesmo por quê. Nesta obra, o autor destaca que o significante vazio “natureza” sempre aparece de forma vaga e nebulosa (p. 79) por meio de uma linguagem postulante em que se tenta “ocultar certos fenômenos e ao mesmo tempo legitimá-los” (p. 78). ). . O autor também afirma a noção circular de natureza em diálogo com a noção de “suplementação” de Jacques Derrida, onde “o secundário complementa o original (natureza)” porque “não há outro.
Adriana Piscitelli (2008), em diálogo com as ideias de Donna Haraway, nos mostra claramente essa perspectiva ao afirmar que A categoria universal “mulher” não dará conta, portanto, da diversidade de experiências das mulheres em todo o planeta, sujeitas a diferentes relações de poder, em diferentes contextos e tempos. Termino esta seção com Harding (1993) quando ele afirma que mesmo que as dicotomias sejam falsas, “não podemos descartá-las como irrelevantes enquanto elas continuam a estruturar nossas vidas e nossa consciência” (p.26).
Tecendo a memória dos movimentos sociais identitários no Brasil,
Sexualidades
No caso do movimento gay brasileiro fundado em 1978, além de uma articulação entre questões locais e globais na agenda política do movimento LGBT108 internacional, como a luta pela visibilidade positiva das identidades e práticas gays, houve uma especificidade em a atuação do movimento brasileiro nesse sentido: resistência à ditadura civil-militar instalada no país desde 1964 (FRY, 1982; GREEN, 1998; MACRAE, 1990). 108 Para mais informações entre as articulações, a aplicação do movimento local da agenda global em termos não apenas de agendas anti-homofobia, mas também de agendas anti-AIDS e de direitos sexuais, ver CARRARA, 2004; CORRÊA, 2006; RIOS, 2004. No entanto, as ações do movimento homossexual contra o regime militar enfrentaram oposição de outros grupos contrários à ditadura, que argumentavam que "levantar bandeiras de discriminação ou opressão que não estivessem diretamente ligadas às medidas contra a ditadura enfraqueceria a luta unida contra o estado autoritário” (GRØN, 2018, p.13).
Regina Facchini (2005) aponta a epidemia de AIDS como um marco para a mudança nas ações do movimento homossexual brasileiro, pois a partir de então as agendas baseadas nos direitos humanos passaram a coexistir com as de prevenção e assistência aos portadores do HIV. Essas ONGs, que surgiram ou foram legalizadas por demandas do setor saúde, ao longo do tempo passaram a atuar em diversas outras demandas do movimento LGBT e trouxeram consigo um acervo de conhecimentos e práticas relacionadas à administração de procedimentos burocráticos de recursos públicos. , desde solicitar, votar orçamentos, exigir órgãos, instituições e dirigentes responsáveis, aprendendo a “linguagem do Estado”. Toda essa trajetória desde a oposição ao governo durante o período ditatorial até a crescente participação do movimento LGBT na construção e implementação de políticas públicas, além da capilaridade conquistada por meio do projeto Somos, também será de crucial importância para a construção e implementação de políticas públicas. arrecadação em todo o território nacional de uma agenda anti-homofobia pelo governo federal desde o primeiro ano do governo Lula.
Gênero
Segundo Jane Jaquette (1994), os movimentos feministas em vários países dos continentes americano e europeu também se desintegraram após conquistarem o direito ao voto. Costa (2005) e Maxine Molyneux (2003) apontam que no que diz respeito à divisão sexual dos papéis de gênero, os movimentos feministas no Brasil e na América Latina têm tido um caráter conservador, pois além de não questioná-los, também os estereotipam ao mesmo tempo que reivindicam suas reivindicações. Durante a preparação do golpe civil-militar de 1964, grupos de mulheres conservadoras foram um dos segmentos sociais mais importantes a organizar as 'Marchas Familiares com Deus pela Liberdade' no Brasil, que clamavam pela derrubada do presidente João Goulart. que o comunismo não seria implementado no país.
A segunda onda do feminismo no Brasil surgiu nesse período ditatorial e, assim como o movimento homossexual analisado anteriormente, o movimento feminista que ressurgiu na década de 1970 terá como uma de suas principais ações a luta contra um governo autoritário112. Com José Sarney (PMDB) na presidência da República, o CNDM estava sendo desmantelado, mas com o controle do funcionamento da máquina pública, os movimentos feministas poderiam atuar de forma mais eficaz para encaminhar e reivindicar suas reivindicações. Em outra trajetória semelhante ao que aconteceu com o movimento LGBT, diversas integrantes dos movimentos feministas criaram organizações não governamentais (ONGs) na década de 1990.
Raça e etnia
São essas instituições que “passam a exercer pressão sobre o Estado de forma especializada e profissionalizada, buscando influenciar as políticas públicas” (COSTA, 2005, p. 16). Vale ressaltar que antes da década de 1990, a perspectiva de gênero não era utilizada na formulação e implementação de políticas públicas no Brasil e, em seu lugar, era utilizado o termo. A intervenção está presente, por exemplo, no GDE, no Programa Brasil sem Homofobia, nas Conferências Nacionais e em algumas outras ações inseridas nas políticas públicas (ou propostas de políticas públicas) aqui analisadas.
Por fim, posiciono-me ao lado de Lilian Sales (2016) quando ela articula em sua análise a possibilidade da existência de políticas públicas como o GDE, com democracia e a consequente ação livre dos movimentos sociais ao apontá-la. Sampaio e Araújo Jr (2006) afirmam que “as políticas são públicas porque têm interesses públicos e finalidades públicas, podendo ou não ser subsidiadas ou implementadas pelo poder estatal” (p.336), ou seja, grupos e organizações da sociedade civil, entre a supervisão governamental podem ser responsáveis pela implementação de políticas públicas (MELLO et al, 2012a). Henrique Nardi (2010) enfatiza que as políticas públicas também podem contribuir para a produção de categorias identitárias e isso.
GDE: uma política pública curricular capilar
O Surgimento
124 Além do curso GDE, este projeto incluiu os cursos Gênero e Diversidade Sexual (GDS) e Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça (GPP-GeR) (PENALVO, 2018). Assim, o GDE foi concebido neste contexto com uma série de marcos legais nacionais e internacionais que não apenas orientaram, mas legitimaram a criação e implementação do curso. Portanto, o CLAM coordenou-se com a academia na elaboração do projeto selecionando pesquisadores para elaborar o conteúdo dos módulos do curso.
Esse modelo de implementação de políticas também foi entendido como uma forma de disseminar o conhecimento que essas instituições criaram sobre os temas do curso (CARRARA et al, 2011, p. 87). O conteúdo do curso produzido pelo CLAM131 foi dividido em cinco módulos, presentes tanto no caderno de conteúdo quanto no ambiente virtual de aprendizagem (AVA): diversidade, gênero, sexualidade, relações étnico-raciais e avaliação. 132 A transversalidade na linha teórico-política do curso também é destacada como o principal diferencial desta política pública (CARRARA et al, 2011).
O Projeto Piloto (2006)
Mayer (2008) também afirma que o clima melhorou após o ensino presencial com alunos das 6 cidades onde o projeto piloto foi realizado. Segundo Andreia Barreto e Leila Araújo (2008), houve um prazo muito estreito para a conclusão completa do projeto: “com a assinatura do convênio em dezembro de 2005, a proposta original era encerrar o curso piloto em agosto, para que o alcance geopolítico da iniciativa já em 2006 foi ampliado" (p.28). Diferentes perfis também foram levados em conta em termos de localização e tamanho: uma grande capital como Salvador e uma cidade de médio porte distante da capital do estado como Maringá .
Sobre o público-alvo de professores que preferem lecionar entre o 6º e o 9º ano, Rohden e Carrara (2008) afirmam que isso aconteceu porque estes profissionais “lidam com adolescentes e jovens, que seriam considerados 'mais sensíveis' pelo governo. tema em questão” (p.12). Pesquisa em Saúde Pública (CEPESC), que, sob a supervisão do CLAM, foi responsável por toda a gestão financeira do projeto. Ainda segundo este representante do instituto britânico, também chamou a atenção a baixa evasão dos formandos (cerca de 19%, enquanto a média se situa entre 25% e 30%), salientando que isso mostraria que o curso está a cumprir “uma verdadeira necessidades atendidas.” para professores” (p.52).
Outras edições do GDE
Nele havia, além de rápidas introduções teóricas – já abordadas no livro conteúdo – sobre os três módulos (1-Gênero; 2-Sexualidade e Orientação Sexual; 3-Relações Étnico-Raciais), ao final de cada um deles . 18 propostas de atividades a serem desenvolvidas com turmas nas escolas, divididas em um total de 54 atividades. Nessa modalidade, além de receberem o título de especialista no assunto, os cursistas poderão em alguns casos obter um aumento na sua remuneração.
A capilaridade na ponta final do projeto
As mães dos alunos também foram alvo de um projeto de intervenção de uma professora do GDE da FURG no projeto intitulado “Mulher: representações, imagens, práticas e valores”. A edição 2012-2013 do UFSC145 GDE criou e utilizou outra estratégia para abordar os temas do curso, um jogo de tabuleiro denominado. No segundo tópico deste disco 1 – “A Importância do GDE” – entrevistados do divers@s comentam porque é importante oferecer uma versão do curso GDE.
Os temas presentes neste trabalho (diversidade sexual, identidade sexual e identidade de gênero, homofobia, lesbofobia, transfobia, direitos sexuais, colonialidade, mulheres negras e lésbicas, etc.) foram trabalhados de forma transversal, muito próximo do conteúdo da proposta do GDE livros. Portanto, acredito que pelo menos os alunos que participaram da segunda edição do GDE da UFPA, realizada entre 2012 e 2013, tiveram acesso a esta publicação. No que diz respeito às particularidades regionais, o livro sobre diversidade no contexto capixaba, também utilizado e distribuído nesta edição 2012 do GDE UFES, traz um panorama do contexto discriminatório e excludente no estado do Espírito Santo.
GDE enquanto exercício do poder disciplinar
As mentoras Marlene Tamanini, Solange Ferreira dos Santos e Giovana Elizabete Bona Sartor, que trabalharam na edição 2009 do GDE UFSC no centro Canoinhas178, apontam problema semelhante. Na edição 2010 do GDE UFLA180 podemos perceber inflexões na aprendizagem sobre o tema gênero. De modo geral, a revisão de alguns dogmas religiosos baseados no GDE tornou-se um discurso comum em diversos outros grupos de outros países (CARRARA et al, 2017, p. 64).
Este relatório menciona esta questão ao afirmar que “a revisão dos dogmas religiosos baseados no GDE tornou-se comum em vários outros grupos em outros estados” (CARRARA et al, 2017, p.64). Ainda nesta edição 2009 do GDE, oferecido pela UFSC, os professores avaliaram a contribuição do curso para o seu próprio aprofundamento de conhecimentos sobre educação para a diversidade. Segundo ela, diversas professoras que frequentavam o GDE passaram a se orgulhar de serem negras.