3.1 CONTEXTO GEOLÓGICO
3.1.2 Geologia Local
No município de Sete Lagoas, afloram rochas do embasamento cristalino pertencentes ao Complexo Belo Horizonte, sequências litoestratigráficas do Grupo Bambuí e sedimentos cenozoicos incosolidados. A distribuição estratigráfica, da base para o topo, é apresentada de acordo com o mapa geológico elaborado por Galvão (2015), escala 1:25.000 (Figura 3.4), que detalhou o mapeamento realizado por Tuller et al. (2010).
Estratigrafia
O Complexo Belo Horizonte representa o embasamento cristalino arqueano, marcado por gnaisses e zonas migmatíticas, podendo ocorrer intrusões máficas. O contato de diferentes litotipos
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gnaisses, migmatitos e granitóides geralmente é transicional (Ribeiro et al. 2003). Estas unidades afloram em 18% na porção sul do território de Sete Lagoas. De acordo com Pessoa (1996), as principais fraturas presentes nestas rochas são mais frequentes junto às zonas migmatizadas, algumas preenchidas por calcita ou mesmo veios quartzo-feldspáticos e pegmatoides.
O Grupo Bambuí pode ser definido como a cobertura neoproterozoica sobre o embasamento, constituída da base para o topo pelas seguintes unidades litoestratigráficas (Figura 3.2): Formação Carrancas, Formação Sete Lagoas, Formação Serra de Santa Helena, Formação Lagoa do Jacaré, Formação Serra da Saudade e Formação Três Marias (Costa & Branco 1961, Scholl 1976, Dardenne 1978, Grossi & Quade 1985, Tuller et al. 2010, Ribeiro et al. 2015). As sequências do Grupo Bambuí constituem três megaciclos sedimentares regressivos: (1) carbonático constituído pela Formação Sete Lagoas, (2) argilo-carbonático pelas formações Serra de Santa Helena e Lagoa do Jacaré e (3) argilo- arenoso pelas formações Serra da Saudade e Três Marias. No caso da área de estudo, apenas as formações Sete Lagoas e Serra de Santa Helena e sedimentos inconsolidados cenozoicos afloram, sendo apenas esses comentados a seguir (Tuller et al. 2010, Vieira et al. 2007).
Figura 3.2 – Sequência estratigrafia do Grupo Bambuí com suas respectivas formações, da base para o topo, com os ciclos sedimentares regressivos (modificado de Vieira et al. 2007).
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A Formação Sete Lagoas foi diferenciada por Costa & Branco (1961), redefinida por Schöll (1976), Dardenne (1978) e Grossi & Quade (1985). De maneira geral, a sequência é constituída por rochas carbonáticas-siliciclásticas depositadas em ambiente de inframaré a supramaré em uma plataforma em rampa dominada por tempestades e marés (Vieira et al. 2007, Tuller et al. 2010). Essas sequências ocorrem principalmente nas porções centrais e a oeste de Sete Lagoas (Galvão 2015), constituindo-se cerca de 27% do município de Sete Lagoas (Figura 3.4). A Formação Sete Lagoas é dividida em dois membros: um inferior, denominado de Membro Pedro Leopoldo e outro superior, o Membro Lagoa Santa (Ribeiro et al. 2003, Tuller et al. 2010, Galvão 2015).
O Membro Pedro Leopoldo pode ser identificado por 3 litofácies nos arredores de Sete Lagoas: litofácies 1 consiste em calcilutito cinza claro a bege, com intercalações de pelito amarelo e marcas de onda truncadas; litofácies 2, corresponde a um calcilutito caracterizado pela presença de cristais de aragonita e acamamento tabular e laminado; e litofácies 3, corresponde a dolomitos em camadas sobrepostas com espessura métrica a submétrica (Vieira et al. 2007, Galvão 2015). Em dois pontos na área de estudo foram identificados afloramentos da Litofácies 1 do membro Pedro Leopoldo descrita por Vieira et al. (2007). Nas margens do córrego do Matadouro e do interior da lagoa do Matadouro (Figura 3.3).
O Membro Lagoa Santa, de modo geral, é composto por um calcário cinza-escuro a preto e calcário estromatolítico, apresentando-se em camadas tabulares contínuas e pouco espessas. Pode ser identificado por duas litofácies na proximidades do município de Sete Lagoas: litofácies 5, que são calcarenitos e calcisiltitos pretos, com laminação plano-paralela, truncamento de ondas e estratificação cruzada de médio porte; e litofácies 6, estromatólitos bem preservados de ambiente plano de maré (Vieira et al. 2007, Galvão 2015).
Figura 3.3 – Afloramentos da litofácies 1 do Membro Pedro Leopoldo descrito por Vieira et al. (2007). (A) afloramento no interior da lagoa do Matadouro, no fundo da dolina principal. (B) Afloramento nas margens do córrego do Matadouro. Fonte: Autor.
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A Formação Serra de Santa Helena ocorre tipicamente na serra homônima, e na porção centro meridional do município setelagoano (Dardenne 1978), abrangendo cerca de 40% de Sete Lagoas (Figura 3.4). De maneira geral, a sequência compreende litotipos de origem siliciclástica, com raros sedimentos carbonáticos, sendo argilitos e siltitos intercalados com lentes esparsas de margas e calcarenitos muito finos, de espessura variada. O ambiente deposicional da sequência foi interpretado como sendo marinho moderadamente profundo a raso, de baixa energia, abrangendo as zonas de inframaré, intermaré e supramaré (Tuller et al. 2010). Em superfície, esses pelitos são encontrados geralmente intemperizados, podendo, contudo, apresentarem-se maciços, como no caso das pedreiras, onde encontram-se ardósias de tonalidade verde-escura (Pessoa 1996).
Os sedimentos inconsolidados cenozoicos podem ser diferenciados entre coberturas dentríticas areno-argilosas com níveis de cascalhos, terraços aluviais e aluviões que ocorrem ao longo dos rios das Velhas e Parabopeba. Estão cobrindo a Formação Sete Lagoas, e onde está localizada grande parte da área malha urbana, além das drenagens e terraços dos rios, ocorrendo na região central e nordenste do município correspondendo aproximadamente 10% do território setelagoano (Galvão 2015, Gomes no prelo) (Figura 3.4).
Figura 3.4– Geologia e coluna estratigráfica mostrando a distribuição espacial das unidades litoestratigráficas que ocorrem na região de sete Lagoas, onde se localiza a área de estudo (modificado de Galvão 2015).
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28 Geologia Estrutural
Segundo Pessoa (1996), um dos principais fatores que influenciam no regime de fluxo subterrâneo, principalmente em ambientes de rochas calcárias é a trama estrutural impressa através dos tempos, pela dinâmica oriunda dos eventos tectônicos pretéritos que define o arcabouço tectônico remonta da estruturação brasiliana do Cráton do São Francisco e suas faixas marginais. Neste contexto, o município de Sete Lagoas, encontra-se a oeste do compartimento estrutural E (Alkmim et al. 1989), onde as unidades litoestratigráficas possuem deformação de muito baixa a baixa intensidade, com transporte tectônico de E-W, ou seja, a intensidade de deformação diminui da Faixa Araçuaí (a leste) para o cráton.
Segundo Danderfer (1994), a região apresenta diversos grupos de estruturas (falhas, dobras, foliações, lineações e fraturas) pertencentes a fases distintas de uma deformação progressiva, que afetou principalmente as rochas do Grupo Bambuí. Determinados grupos de estruturas não foram evidenciados nos litotipos do embasamento cristalino, atestando, dessa forma, sua não participação no processo de deformação. As rochas do Grupo Bambuí mostram-se pouco deformadas, apenas, localmente, encontram-se dobras ou falhas em escala mesoscópica, ocorrendo, na maioria dos casos, através de movimentação interestratal e intraestratal do tipo epidérmica (thinskinned). Além disso, o autor identificou, a partir da interpretação de imagens de radar e satélites na escala 1:100.000, alguns sistemas de fraturamento rúptil, de significado evolutivo disperso no contexto geotectônico regional, com dois conjuntos de direções principais: o primeiro, N10-20W, relacionado a fraturas distensivas e o segundo, N50-60E, relacionado a fraturas de cisalhamento.
Galvão (2015) interpretou a região de Sete Lagoas como um sistema de falhas, formando grabens e horsts, devido à mudança brusca da profundidade do embasamento em curtas distâncias. A zona urbana está inserida em um graben central, no qual a área de estudo está localizada (Figura 3.5a).
A Formação Sete Lagoas assim como a Formação Serra de Santa Helena seguem o caimento da bacia para nordeste, formada pelo embasamento na borda (SW) e pelo depocentro da bacia (NE), onde ocorrem as maiores espessuras das unidades. Ambas as sequências possuem planos de acamamento, que mergulham suavemente para NE (Figura 3.5b).
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Figura 3.5 –(A) Mapa estrutural evidenciando as estruturas principais tais como lineamentos, fraturas, falhas e dobras (B) Estereogramas mostrando a direção principal de acamamentos das unidades litoestratigráficas aflorantes na região de Sete Lagoas, com destaque para a localização da área de estudo neste contexto (modificado de Galvão 2015).