CAPÍTULO I FUNDAMENTAÇÕES TEÓRICAS A PARTIR DO ESTUDO DA
1.5 Geometria Plana e Materiais Manipulativos
historicamente desprezados, como, por exemplo, aqueles desenvolvidos pelas pessoas com deficiências visuais.
O desenvolvimento do conceito de cultura de um grupo de alunos cegos e com deficiências visuais pode, conforme Pinheiro (2017), estar fundamentado em um conceito antropológico de cultura e nas implicações teóricas da Etnomatemática, vislumbrando a possibilidade do desenvolvimento de uma ação pedagógica rumo à promoção da inclusão sociocultural.
conhecimento matemático pelos alunos. Por outro lado, o material concreto manipulável está associado às experiências de exploração e manipulação de objetos com as mãos, possibilitando que os alunos desenvolvam ações reflexivas sobre essas metas por meio do toque e do tato (BRITO; BELLEMAIN, 2008).
Por conseguinte, a concretude não é definida pelo próprio material, mas pelos sentidos e significados construídos pelos alunos a partir de ações exploratórias com a utilização desses materiais, contribuindo para a compreensão de conteúdos matemáticos e geométricos (BRITO; BELLEMAIN, 2008), possibilitando o desenvolvimento de significados no processo de ensino e aprendizagem em Matemática.
De modo similar, Healy e Fernandes (2011) também destacam a importância que os significados assumem para as aprendizagens de alunos cegos, pois o:
(...) desenvolvimento dos conceitos em estudo ocorre a partir do domínio empírico que favorece a formulação de um arsenal de recursos multimodais, e segue em direção ao concreto e à experiência pessoal; ou seja, as conexões que eles estabelecem entre os conceitos matemáticos [geométricos]
estudados e sua prática cotidiana (como dobrar o cobertor, o par de sapatos e as calças), só aconteceram quando os conceitos matemáticos [geométricos]
assumiram algum significado ou quando foram parcialmente apropriados (p.
241).
Desse modo, Healy e Fernandes (2011) reforçam a perspectiva da construção de significados, que foi proposta por Brito e Bellemain (2008), ao direcionar essa discussão para o processo de ensino e aprendizagem em Matemática para os alunos cegos.
Assim, nesse estudo, a professora-pesquisadora utilizará a concepção de material manipulável proposto por Brito e Bellemain (2008), pois objetiva a sua utilização para promover o processo de ensino e aprendizagem em Matemática para alunos cegos, com a finalidade de possibilitar a sua experiência tátil e o desenvolvimento de suas habilidades que podem ser potencializadas em salas de aula.
Contudo, Pavanello (1993) afirma que, apesar dos avanços da Educação no tocante à Educação Inclusiva, ainda se observa na prática docente da maioria dos professores de Matemática, uma certa insegurança para ensinar Matemática, especialmente, os conteúdos geométricos, para alunos cegos e com deficiências visuais, pois há necessidade de utilização de outros recursos metodológicos, como, por exemplo, materiais concretos e manipulativos que não tornam a visão a principal porta de entrada das informações para os alunos cegos ou com deficiências visuais.
Assim, o despreparo dos professores com o processo de ensino e aprendizagem em Geometria, propicia, muitas vezes, que esses profissionais posterguem o processo de ensino e aprendizagem dos conteúdos geométricos para o final o do ano letivo, podendo trazer dificuldades para o futuro escolar/acadêmico desses alunos (PAVANELLO, 1993).
Então, a utilização de recursos manipuláveis para o processo de ensino e aprendizagem em Matemática de alunos cegos e com deficiências visuais constitui uma experiência pedagógica relevante, pois permite a exploração dos conceitos geométricos por meio do toque com a utilização de materiais concretos que são acessíveis ao tato (SILVA et al., 2016). Essa necessidade de valorizar as experiências táteis dos alunos cegos é fundamental nesse processo, pois o:
(...) sistema háptico é o tato ativo, constituído por componentes cutâneos e sinestésicos, através dos quais impressões, sensações e vibrações detectadas pelo indivíduo são interpretadas pelo cérebro e constituem fontes valiosas de informação. As retas, as curvas, o volume, a rugosidade, a textura, a densidade, as oscilações térmicas e dolorosas, entre outras, são propriedades que geram sensações táteis e imagens mentais importantes para a comunicação, a estética, a formação de conceitos e de representações mentais (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007, p. 16).
Desse modo, para as pessoas cegas e com deficiências visuais, o tato constitui uma fonte de recepção de informações que permitem ao cérebro gerar representações mentais que estão associadas à pluralidade de sensações geradas pela exploração de um determinado objeto, como, por exemplo, o material manipulativo. Então, “faz-se necessário que o professor desenvolva uma prática inclusiva, elaborando materiais assistivos que considerem as especificidades de seus alunos com deficiência visual” (BRAZ; BRAZ; BORBA, 2014, p. 7).
Nesse contexto, com relação aos materiais manipulativos e concretos, a professora- pesquisadora, Machado (2004) comenta que esses recursos didáticos- pedagógicos são dinâmicos porque possibilitam que os alunos construam, movimentem e desfaçam qualquer figura geométrica realizadas com o seu auxílio, pois esses materiais podem ser utilizados para trabalhar com problemas geométricos e algébricos.
De acordo com Dias (2018), o Geoplano desenvolve habilidades de exploração espacial, perímetro e área, sendo uma etapa importante para que os alunos consigam abstrair os conceitos matemáticos e geométricos por meio de representações mentais.
Ressalta-se que esse material foi utilizado em pesquisas na área da Educação Matemática com alunos videntes e cegos. Por exemplo, no estudo conduzido por Moura e Lins (2012) com uma aluna cega, esses pesquisadores utilizaram o geoplano como uma
ferramenta para o desenvolvimento de um processo de ensino inclusivo, sendo que esse material contribuiu positivamente para a aprendizagem matemática dessa estudante.
Os resultados do estudo conduzido por Brandão (2013) mostram que foram utilizados vários materiais concretos e manipulativo, como, por exemplo, o geoplano para que pudessem ensinar conteúdos matemáticos, como, por exemplo, os conceitos de geometria plana para alunos cegos e, assim, concluíram que a utilização desse material foi eficaz em sua aprendizagem matemática.
Para Barros (2004), existem vários tipos de Geoplano que, em sua maioria, são formados por uma base de madeira onde são cravados pregos, formando uma malha, que podem ter diversas texturas. As figuras são formadas com a utilização de ligas elásticas, preferencialmente coloridas, podendo ser complementados por papel ponteado, quadriculado, isométrico e triangular.
Desse modo, conforme Barros (2004), o Geoplano 3x3 é o material que possui uma malha quadrada com três pregos de cada lado. Há também o Geoplano 5x5 e o Geoplano 10x10, que possuem de cinco e dez pregos de cada lado, respectivamente. Existem também os geoplano circulares onde a base é circular e a disposição dos pregos também formam uma malha circular.
Nesse direcionamento, Barros (2004) afirma que, a partir do Geoplano pode-se construir o Geoespaço, que é a sua tradução espacial, pois consiste em uma caixa vazia com algumas faces faltando e com pregos nas outras faces por meio das quais podem ser construídas e trabalhadas as figuras espaciais.
Conforme Barros (2004), o Multiplano que é um material que pode auxiliar no processo de ensino e aprendizagem em Matemática para os alunos videntes, cegos e com deficiências visuais. Esse material é construído, basicamente, por uma placa perfurada por linhas e colunas com furos que possuem a mesma distância.
Nos furos desse material são encaixados pinos que possuem a cabeça plana e circular, sendo que, em sua superfície há a identificação numérica em Braille e em algarismo indo arábico. Com a utilização desse material os professores podem trabalhar diversos conteúdos matemáticos, como, por exemplo, equações, proporção, regra de três, funções e gráficos (BATISTA; MIRANDA, 2015).
Dessa maneira, Machado (2004) comenta que o multiplano pode ser utilizado com os alunos cegos e com deficiências visuais na área da Educação Matemática para contribuir com a melhoria de seu processo de ensino e aprendizagem de conteúdos geométricos, pois
representa um instrumento relevante que possibilita a compreensão de conceitos matemáticos e geométricos sem que sejam memorizados, mas que tenham significado (DIAS, 2018).
Nesse direcionamento, Gaspar (2013) afirma que o multiplano é um material manipulativo que possibilita o processo de ensino e aprendizagem de conteúdos geométricos por meio da aplicação de uma sequência de atividades sobre questões de geometria plana e espacial com um estudante com deficiência visual que cursava o 3º ano do Ensino Médio. Os resultados desse estudo mostram que o multiplano proporciona uma visão geométrica melhor e mais consistente desses conteúdos, sendo que esse material está disponível para a utilização de alunos videntes, cegos e com deficiências visuais.
Conforme essa perspectiva, Drummond (2016) afirma que existe a necessidade de que os professores utilizem ações pedagógicas que objetivam a melhoria do desenvolvimento das habilidades e competências dos alunos com deficiências visuais para que eles possam desenvolver o raciocínio lógico-matemático com confiança. Consequentemente, esses alunos devem ter acesso aos materiais concretos e manipulativos que possibilitem o seu engajamento em manipulações ativas para o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem em Matemática, bem como dos conteúdos geométricos.