Na aula inaugural de 2 de dezembro de 1970 no College de France, reunida na publicação A ordem do discurso (2014), Foucault parte da linguagem como ato de discurso e, assim, como causa do sujeito. Discurso esse não subjetivo e, portanto, não dito por alguém especificamente, mas que forja aquele que o diz pelo ato mesmo de dizê-lo. A linguagem não vêm assim de uma mente existente em potência para depois se atualizar no mundo; a linguagem em ato, para Foucault, criaria aquilo que chegamos a chamar subjetividade. Como já visto anteriormente,
Foucault sentiria uma certa “inquietação” sobre esse discurso de um sujeito já dado. Para ele, esta é uma:
[...] inquietação diante do que é o discurso em sua realidade material de coisa pronunciada ou escrita; inquietação diante de uma existência que é transitória e destinada a desaparecer sem dúvida, mas segundo uma duração que não nos pertence, inquietação de sentir sob essa atividade, todavia cotidiana e cinzenta, poderes e perigos que mal imagina; inquietação de supor lutas, vitórias, ferimentos, dominações, servidões, através de tantas palavras cujo uso há tanto tempo reduziu as asperidades (FOUCAULT, 2014, p. 08).
Tratar a linguagem como discurso é uma escolha em tratá-la como evento vivo, material, contextual e, também, como ação de resistência e ação política no mundo. A linguagem, desta forma, é entendida principalmente como ação discursiva dentro de um jogo de forças. Para Foucault, existem saberes marginais e saberes dominantes, e não se pode entender o jogo de forças sem entender esta assimetria inicial. Os discursos na sociedade são controlados, selecionados e organizados. Segundo ele, uma das formas de manter esse controle é através das instituições, as quais instauram e reproduzem os discursos:
Parece-me que a verdadeira tarefa política, em uma sociedade como a nossa, é criticar o funcionamento das instituições, que dão a impressão de ser neutras e independentes;
criticá-las e atacá-las de tal maneira que a violência política, que sempre foi exercida de maneira obscura, por meio delas seja desmascarada, para que se possa combatê-las (FOUCAULT, 2014, p. 51).
Esta abordagem do discurso é também uma continuação da sua crítica à suposta neutralidade científica, a qual pretende desmascarar como arma discursiva e exercício de poder.
Não se trata de dizer que alguns discursos são ideológicos e distorcem a realidade, enquanto outros podem representar a realidade adequadamente. Trata-se sim de ressaltar que todo discurso é, de ponta a ponta, exercício de poder e que apelar para uma suposta neutralidade no acesso ao real nele mesmo nada mais é do que uma arma muito eficaz, tanto mais eficaz quanto mais consegue esconder seu caráter de arma. Foucault estabelece “a vontade de verdade” como um dos jogos de exclusão – juntamente com a interdição e a separação – que pretende esquivar a materialidade discursiva justamente pela oposição entre verdadeiro e falso, ou seja, exatamente o discurso que representa e por isso pode representar falsa ou verdadeiramente.
Trata-se de demonstrar em que sentido o discurso da verdade, ainda que polido e contido, ainda que belamente racional, é extremamente violento. Sobre essa violência, nos diz:
Certamente, se nos situamos no nível de uma proposição, no interior de um discurso, a separação entre o verdadeiro e o falso não é nem arbitrária, nem modificável, nem institucional, nem violenta. Mas se nos situarmos em outra escala, se levantamos a questão de saber qual foi, qual é constantemente através de nossos discursos, essa vontade de verdade que atravessou tantos séculos de nossa história, ou qual é, em sua forma muito geral, o tipo de separação que rege nossa vontade de saber, então é talvez
algo como um sistema de exclusão (sistema histórico, institucionalmente constrangedor) que vemos desenhar-se (FOUCAULT, 2014, p. 13-14).
Nesse sentido ainda, a “vontade de verdade” científica fundada no sistema de representação exerce coerção. Foucault não nega que no interior de um discurso há um critério de verdade bem delimitado. No entanto, para ele, o que estabeleceu este critério foi um jogo de forças e exercício direto de poder que a representação não é capaz de colocar em questão. Isso também significa dizer que este critério não é neutro, universal e estabelecido de uma vez por todas.9
[…] nos poetas gregos do século VI, o discurso verdadeiro – no sentido forte e valorizado do termo – o discurso verdadeiro pelo qual se tinha respeito e terror, aquele a qual era preciso submeter-se, porque ele reinava, era o discurso pronunciado por quem de direito e conforme o ritual requerido; era o discurso que pronunciava a justiça e atribuía a cada qual a sua parte; era o discurso que profetizando o futuro, não somente anunciava o que ia se passar, mas contribuía para a sua realização, provocava a adesão dos homens e se tramava assim como o destino. Ora, eis que um século mais tarde a verdade já não residia mais no que era o discurso ou no que ele fazia, mas no que ele dizia: chegou um dia em que a verdade se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, de enunciação, para o próprio enunciado: para seu sentido, sua forma, seu objeto, sua relação com sua referência (FOUCAULT, 2014, p. 14-15).
O discurso ligado ao exercício do poder teria sido enxotado junto com o sofista, o discurso na Modernidade deveria representar a verdade, se aproximar cada vez mais dela, e com isso o seu caráter de exercício de poder é escondido. Este esconder-se enquanto exercício de poder seria seu ato de poder mais eficaz. Haveria então uma vontade de saber científica, uma vontade de verdade, na qual o sujeito cumpre um papel determinante na Modernidade, e esta seria própria a uma certa formação cultural ocidental e não de toda a humanidade, como pretendeu-se.
Foucault questiona justamente quando um discurso chega a ser considerado científico, enfocando as modificações históricas deste critério. O que é ou não científico muda historicamente, a ciência mesma tem uma História, que não é a do desenvolvimento contínuo e progressivo. Ser ciência, querer ser ciência, significa ser um discurso forte na guerra, ser legitimado pelas instituições mascaradamente pela suposta neutralidade. Toda esta discussão Foucault já havia feito longamente no seu período arqueológico, influenciado pela epistemologia francesa. Mas aqui é particularmente interessante o papel atribuído às metáforas, que será fundamental nesse trabalho.
O discurso científico, para cumprir a exigência da neutralidade, deveria ser o não- metafórico por excelência, desde que seria descritivo da realidade. A metáfora então seria
__________________
9 Ver também: (FOUCAULT, 2014, p. 32-33).
própria à produção cultural ideológica e não à neutralidade científica, pois sempre carregaria através da imagem instaurada determinados valores. Entretanto, Foucault aponta como, apesar de supostamente banida a partir do século XVIII do discurso científico, a metáfora continua lá como um resíduo, ainda que necessariamente escondida, de modo que permanece instaurando valores silenciosamente. Ora, quanto melhor escondida é a metáfora, mais ela passa por descrição neutra e mais forte ela é na sua instauração de valores. Por isso, haveria todo um trabalho de resistência em se descobrir metáforas escondidas passando por descrições neutras.
Ao se perguntar sobre a possibilidade de um discurso que não tivesse metáforas em nenhum nível, Foucault chega a seguinte análise:
A partir do século XVII, por exemplo, para que uma proposição fosse 'botânica' era preciso que ela concernisse à estrutura visível da planta, ao sistema de suas semelhanças próximas ou longínquas ou à mecânica de seus fluídos (e essa proposição não podia mais conservar como ainda era o caso no século XVI, seus valores simbólicos, ou o conjunto das virtudes ou propriedades que lhe eram atribuídas na antiguidade). Mas, sem pertencer a uma disciplina, uma proposição deve utilizar instrumentos conceituais ou técnicas de um tipo bem definido; a partir do século XIX, uma proposição não era mais médica, ela caía 'fora da medicina' e adquiria valor de fantasma individual ou de crendice popular se pusesse no jogo noções a uma só vez metafóricas, qualitativas e substanciais (como as de engasgo, de líquidos esquentados ou de sólidos ressecados); ela podia e devia recorrer, em contrapartida, a noções tão igualmente metafóricas, mas construída sobre outro modelo, funcional e fisiológico (a irritação, a inflamação ou degenerescência dos tecidos) (FOUCAULT, 2014, p. 30- 31).
Cabe, portanto, também ao método genealógico, descobrir metáforas escondidas sob a roupagem do discurso neutro com estatuto de ciência, deixando claro os jogos de forças que animam estas metáforas. Este é também um objetivo deste trabalho, buscar as metáforas não tratadas como metáforas que possibilitaram que a Teoria da Evolução extrapolasse o contexto biológico e se constituísse como uma arma discursiva no jogo de forças político. A Teoria da Evolução será analisada a seguir com a apresentação da Teoria do Apoio Mútuo kropotkiniana.
2 KROPOTKIN: O APOIO MÚTUO COMO PRINCIPAL FATOR DE EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES E DAS SOCIEDADES HUMANAS
Se a miséria dos pobres não é causada pelas leis da natureza, mas pelas instituições, é grande o nosso pecado.
Charles Darwin