5. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.2 HISTÓRIA DA PERDA
uma relação de saudade, porque ele já não estava mais convivendo na família. Então era uma relação de saudade, de vontade de ter ele mais perto da família.” (sic).
Esses pais fugiram do espaço do pai somente provedor, procurando abranger atitudes de maior envolvimento e contato afetivo. Evitando reproduzir padrões antigos, buscando através de suas próprias vivências, pautados em questões transgeracionais, estabelecerem uma relação ajustada no desejo de realizar trocas afetivas com seus filhos, juntamente com o que a sociedade lhe exige. (BELTRAME; BOTTOLI, 2010).
Nesta categoria observou-se que os pais descreveram seus relacionamentos com seus filhos em diferentes idades e todas elas permeou a preocupação com a educação, aspectos afetivos e envolvimento na vida do filho, exceto o pai 1.
que recebeu uma ligação pedindo a confirmação da placa do carro do cunhado. O pai soube da noticia antes da mãe. Fazem 5 anos da perda e S. faleceu aos 27 anos de idade.
Quadro 2: Descrição das respostas relativas a categoria: História da perda.
História da perda
Pai 1 “Um pouco depois do almoço, a mãe dele me ligou chorando e me deu a notícia pelo telefone.” (sic)
“Alguns colegas dele, contaram para a mãe dele que o que acontecia era que ele estava fazendo pequenos furtos e estava atraindo a polícia lá para onde eles faziam o tráfico de drogas. Então, eles o mataram, segundo os próprios amigos, não foi por brigas, por confusão, nada. Simplesmente porque ele tava atraindo o policia pra lá.” (sic)
“Quem matou ele, foi um menino de 13 anos e outro de 17 anos, deram 5 tiros na cabeça dele.” (sic)
“Na hora assim, parece que é mentira, você não acredita.” (sic)
Pai 2 “Normalmente ele ia surfar e eu levava a minha tarrafa para pescar [...] ele ficava surfando, quando eu ia embora, fazia um sinal pra ele, no finalzinho da tarde pra gente vir embora. Naquele dia ele me convidou e eu disse: “M, eu não vou poder ir, porque tenho o portão para arrumar”. Ele ficou um pouco chateado, a minha intenção era poder ir...” (sic)
“Ele pegou a prancha, arrumou aquela coisa toda e eu vendo os 4 saírem.”
(sic)
“Era meio dia quando me ligaram, “seu filho, houve um acidente, lá no Rio Vermelho [...] ele está no IML.” (sic)
“Na hora meu chão sumiu, eu não perdi os sentidos, fiquei por alguns segundos estático e no telefone não falei mais nada com o rapaz.” (sic) Pai 3 “A história da perda foi algo muito forte, porque, então essa vontade que a
gente tinha que ele ficasse mais perto da gente, a gente vinha pedindo insistentemente para que ele fosse transferido pra cá.” (sic)
“O outro momento que eu soube do M, foi quando tocou o telefone no início da madrugada [...] “Houve um acidente, ali em Imbituba, o meu filho está no hospital e o teu filho eu não sei, não tenho notícias.” Aquilo já foi
um choque” (sic)
“[...] foi muito triste e a gente queria se certificar se era isso mesmo, mas todo mundo dizia que era. Eu queria me deslocar, talvez ainda tivesse alguma esperança, algo que eu pudesse fazer, mas ele já estava no IML”
(sic)
“[...] então veja só, um filho que jantou com a gente no Domingo, depois poucas horas a gente recebe a noticia que ele estava morto, o filho mais velho da casa, que a gente já tinha um relacionamento de saudade.” (sic) Sujeito 4 “Foi pelo telefonema de um amigo nosso, ele ligou lá pra casa, perguntando
o número da placa do gol que eles tinham, e quem atendeu foi o meu filho R, ai ele deu o número da placa e o cara falou que deu um acidente em Águas Mornas e pelo número da placa fecha.” (sic)
“Ai o R passou a notícia pra mim, ele não quis falar direto pra E (esposa e mãe).” (sic)
“Sabe assim, na hora a gente leva aquele choque, mas não acredita. E nos primeiros dias, a gente acredita e parece que está todo mundo viajando.”
(sic)
Ao longo deste trabalho foi apontado o quanto a perda de um filho é causadora de sofrimento, demonstrada por muitos autores como sendo a morte mais significativa e mais dolorida de todas as perdas.
Desta forma, Rodriguez (2009, apud BRANDÃO, 2009) assinalam que o tipo da causa da morte está relacionado quase que diretamente na compreensão e no processo de luto das pessoas, ao considerar a perda inesperada e prematura como uma das mais agravantes e sofridas neste processo, como por exemplo, as doenças graves, os assassinatos e os acidentes. E foram exatamente perdas por acidente e assassinato que levaram à morte dos filhos dos sujeitos entrevistados.
Isso acontece, porque, as mortes súbitas pegam o indivíduo despreparado, reagindo com desespero, por não ter havido tempo para dar o “adeus” aquela pessoa ou para resolver alguma questão importante ou conflituosa de relacionamento. (BROWN, 1995 apud BRANDÃO, 2009). Nesses casos, não há um luto antecipatório, ao contrário das doenças em que a pessoa fica internada, esperando a morte chegar.
Os pais 2, 3 e 4 tiveram a perda de um filho na idade adulta. Viorst (2005 apud SIEGA, 2008) e Bromberg (2000) vêm apontar que a morte de um filho na idade adulta
é a mais profunda e duradoura de todas as dores para os pais. Pois os filhos adultos estão cheios de planos e ambições, o momento da fase adulta é um momento de construção, assim, essa morte é considerada a situação mais difícil para a elaboração do luto pelos familiares.
Esta afirmação foi relatada na maioria das falas, quando os pais descrevem
“parecer ser mentira” (sic), “parecer que a filha está viajando” (sic), “parecer não ter mais chão” (sic). Relatos de inconformidade, saudade, devido à falta de preparo para esse tipo de perda e o fato que os autores acima já citaram, de não estarem preparados para receber tal notícia, não ter havido tempo para a preparação e o luto antecipatório.
As frases citadas à cima e no quadro 2 revelam uma questão bem interessante no que diz respeito às reações como o entorpecimento. Tal reação segundo Bromberg (2000) faz parte do processo de luto.
Essa autora aponta o entorpecimento como à reação inicial a perda por morte;
ocorre choque, entorpecimento, descrença. A permanência pode ser de poucas horas ou de muitos dias, pode ser atravessada por crises de raiva ou de profundo desespero. A pessoa recentemente enlutada se sente entontecida, atordoada, desamparada, imobilizada, perdida. “A negação inicial da perda pode ser uma forma de defesa contra um evento de tão difícil aceitação. Também presente nesta fase está à tentativa de automaticamente continuar a viver como antes, como se nada tivesse mudado na vida.”
(BROMBERG, 2000, p.37).
Outro fator importante nesta categoria foi o fato da maioria dos pais ter sabido da notícia da morte do filho antes das mães e de forma abrupta, ou seja, que o filho já estava morto e que alguma providência deveria ser tomada. Fato este, demonstra a estigmatização social que as mulheres ocupam quando se trata da perda de um filho, considerando elas com uma competência menor de absorver e tomar medidas necessárias, bem como elaborar a noticia recebida.
Essa estigmatização ficou bem evidente na categoria a seguir, no qual a maioria dos pais teve que tomar a iniciativa de cuidar das questões burocráticas relacionadas à perda.