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História em quadrinhos: linguagem visual

No documento T o tal d e A lu n o s :36 (páginas 58-62)

As histórias em quadrinhos apresentam um leque de elementos de uma riqueza muito grande. Como dito anteriormente, o objetivo desta pesquisa é selecionar e apresentar um pouco do que está nas entrelinhas da revista eleita, isto é, alguns elementos presentes na narrativa gráfica da Turma do Xaxado ano II. Muitos estudos foram feitos e certamente, as discussões a respeito das HQ’s ainda poderão avançar bastante, principalmente no que diz a respeito a sua potencialidade e ao seu processo de evolução.

Atualmente, as histórias em quadrinhos cada vez mais se mostram uma mídia extremamente funcional para a comunicação, trazendo uma nova perspectiva para sua funcionalidade. Através de questões sobre diversas abordagens e conceitos, evidencia-se a vitalidade dessa mídia na construção dos relatos do cotidiano. Desde seu surgimento nos periódicos, as HQ’s vêm evoluindo em todos os aspectos e, graças a sua potencialidade, fazem-se presentes nos mais diversos campos dos saberes, oferecendo, aos leitores e estudiosos, muitas possibilidades na busca do conhecimento.

necessárias adotadas pelo corpo social para permitir o exercício desta faculdade juntos (1982, p.1937).

Chauí (1997, p. 141) conceitua a linguagem a como sendo:

... é um sistema, isto é, uma totalidade estruturada, com princípios e leis próprios, sistema esse que pode ser conhecido; a linguagem é um sistema de sinais ou de signos, isto é, os elementos que formam a totalidade lingüística são um tipo especial de objetos, os signos, ou objetos que indicam outros ou representam outros (...) a linguagem indica coisas, Isto é, signos lingüísticos (as palavras) possuem uma função indicativa e denotativa, pois como que apontam para as coisas que significam;a linguagem exprime pensamentos, sentimentos e valores, isto é, possui uma função de conhecimento e de expressão, sendo neste caso conotativa, ou seja, uma mesma palavra pode exprimir sentidos e significados diferente, dependendo do sujeito que a ouve e lê, das condições ou circunstâncias em que foi empregada, ou do contexto em que é usada (...)

É perceptível que a linguagem tem uma amplitude de funções comunicativas, provocando no homem inúmeras possibilidades de expressar as suas idéias, seus valores e, acima de tudo, os seus sentimentos.

No mundo contemporâneo, a técnica da narrativa que une a imagem ao texto vem tomando grandes proporções. Com isso, a imagem não apenas reflete, ou apresenta uma realidade; mas, principalmente, ressignifica-a. Logo, é possível interpretar a imagem por sua expressividade enquanto linguagem capaz de sugestionar ou emocionar a cada leitor.

Há nos quadrinhos uma interdependência entre os elementos visuais e do texto. Existe um importante papel para os textos, diálogos e balões que desempenham efeitos de composição e de sons, operando para intensificar o impacto das imagens. O fato da prosa ser experimentada de uma forma linear enquanto os quadrinhos o são de uma única forma não obscurece a versatilidade dos quadrinhos, o verbal e o visual podem ambos trabalhar seqüencialmente e simultaneamente ( SILVA, 2001, p. 06)

A imagem desenhada é o elemento básico das histórias em quadrinhos. Ela se apresenta como uma sequência de quadros que trazem uma mensagem ao leitor, normalmente uma narrativa, seja ela ficcional (um conto de fadas, uma história infantil, a aventura de um super-herói, etc.) ou real (o relato /reportagem infantil sobre fatos ou acontecimentos, a biografia de uma personagem ilustre, etc.) segundo (VERGUEIRO & RAMA, 2004), as HQ’s, de fato, possuem um potencial informativo carregado de significados, que atendem às

diversas formas de comunicação. No entanto, para que essa linguagem visual atinja seus objetivos, faz-se necessário que o artista sequencial estabeleça uma interação com o leitor.

A história em quadrinhos comunica, através de uma linguagem que se vale da experiência visual comum ao criador e ao público. Pode-se esperar dos leitores modernos uma compreensão fácil da mistura imagem-palavra, e da tradicional decodificação do texto (EISNER, 1989). A história em quadrinhos pode então ser chamada “leitura”, num sentido mais amplo que o comumente aplicado ao termo.

Segundo Santaella & Nöth, o mundo das imagens se divide em dois domínios:

O primeiro é o domínio das imagens como representação visuais:

desenhos, pinturas, gravuras, fotografias e as imagens cinematográficas, televisivas, holo e infográficas pertencem a esse domínio. O segundo é o domínio imaterial das imagens na nossa mente. Neste domínio, imagens aparecem como visões, fantasias, imaginações, esquemas, modelos ou, em geral, como representações mentais. Ambos os domínios da imagem não existem separados, pois estão inextricavelmente ligados já na sua gênese .Não há imagens como representações visuais que não tenham surgido de imagens na mente daqueles que as produziram, do mesmo modo que não há imagens mentais que não tenham alguma origem no mundo concreto dos objetos visuais. (2005, p. 15)

As HQ’s tradicionais foram, ao longo do século XX, agregando a sua gramática visual uma série de imagens simbólicas que, aos poucos, iam adquirindo um sentido global para o público leitor, constituindo formas reconhecíveis e características das HQ’s. Sobre esses elementos, (EISNER, 1989) afirma que em sua forma mais simples, os quadrinhos empregam uma série de imagens repetitivas e símbolos reconhecíveis. Quando são usados vezes e vezes para expressarem idéias similares, tornam-se linguagem e forma literária, se quiserem. E é essa aplicação disciplinada que cria a gramática da arte sequencial.

Panofsky (1939) insistia na idéia que imagens são partes de uma cultura e não podem ser compreendidas sem um conhecimento dessa cultura, de tal forma que, se o leitor não tiver familiaridade com tais elementos, certamente não conseguirá inferir na decodificação dessas representações. É exatamente isso que se observa nas HQ’s: é necessário que o leitor tenha conhecimento dos elementos gráficos representados nas histórias em quadrinhos para que possa entender a mensagem que o autor quis passar.

Os estudos em torno das imagens devem levar em consideração a formação dos leitores, já que se vive em uma sociedade marcada pela iconização da realidade. A leitura da imagem é fundamental, representa a realidade; é uma nova forma de decodificar o que foi representado, além de desenvolver habilidades de compreensão estética. Nesse sentido, as

HQ’s representam, de fato, o seu papel ao trabalharem com expressões e gestos das personagens. O uso de diversos sinais icônicos e gráficos, os cenários e o sentido das imagens se completam quando unem as duas linguagens, ou seja, icônica e ideográfica. Segundo Neiva (1986, v.01),

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A imagem tem a propriedade de referência em comum com a língua, diferindo, no entanto, nos elementos de leitura, principalmente quanto ao número, pois na língua estes são finitos, enquanto que na imagem podem ocorrer sem limites; para o autor, as imagens, tanto quanto as palavras, precisam ser compreendidas como carregadas de um significado que vai além do visual. Essas idéias aproximam a imagem do signo linguístico, tornando-os semelhantes. A essa semelhança, que confere à imagem o status de linguagem, irão se contrapor as possibilidades da interpretação da imagem determinadas social e historicamente. Na leitura das imagens dos quadrinhos, podem ser percebidas questões ideológicas que a condicionam.

A interpretação da linguagem visual, assim como da linguagem verbal, pressupõe a relação com a cultura, com a história e com a formação social do sujeito intérprete. Nesse sentido, na história em quadrinhos são veiculadas duas mensagens: uma icônica ou visual e outra linguística, que se relacionam, constituindo uma mensagem global. A mensagem icônica e a verbal nos quadrinhos não se excluem, mas interagem, combinando de tal forma a ponto de permitir novas possibilidades de encaminhamento e de recepção da mensagem.

Mesmo se a imagem é apenas visual, é claro que, quando se quis estudar a linguagem e surgiu a semiologia da imagem em meados do século, essa semiologia apegou-se essencialmente ao estudo das mensagens visuais.”A imagem tornou-se portanto sinônimo de “representação visual”. A questão inaugural de Barthes,”como o sentido chega às imagens”? correspondia à questão “As mensagens visuais utilizam uma linguagem específica?”,“se utilizam, que linguagem é essa, de que unidades é constituída, em que ela é diferente da imagem verbal? etc. Contudo, tal redução ao visual não simplificou as coisas, e logo se percebeu que mesmo uma imagem fixa e única – que podia constituir uma mensagem mínima com relação à imagem em seqüência, fixa e sobretudo animada (toda complexidade que a semiologia do cinema vai mostrar) – constituía uma mensagem muito complexa (JOLY, 2006, p.37-38).

Inicialmente, a observação da imagem deve constatar que esse denominador comum da analogia, ou semelhança, coloca de imediato a imagem na categoria das representações. Se ela parece, é porque ela não é a própria coisa: sua função é, portanto, evocar, querer dizer outra coisa que não ela própria, utilizando o processo da semelhança. Se a imagem é percebida como representação, isso quer dizer que a imagem é percebida como signo (JOLY,

2006). Na linguagem visual da história em quadrinhos, há a imagem, o espaço, as cores, e a distribuição de planos que, trabalhados em conjunto, resultam numa mensagem. Quanto maior a potencialidade, a originalidade e a criatividade do desenhador na expressão desses inúmeros elementos da narrativa visual, mais haverá uma mensagem expressiva e satisfatória tanto para o leitor, como para o criador.

A história em quadrinho tem como objetivo atingir o seu público, tratando dos mais diversos temas, dentro de uma proposta que vai do lúdico a qualquer área do conhecimento, provocando, nos leitores, leituras adversas, pois nada impede que alguns desses leitores possam identificar valores antagônicos. Há, também, os leitores que não conseguem realizar uma leitura crítica, ficando apenas no campo do enredo da narrativa, sem perceber os valores explícitos e os implícitos expressos na leitura; e os leitores atentos, capazes de perceber o que está nas entrelinhas das HQ’s e, a partir de suas reflexões, são capazes de questionar o mundo e a si mesmos.

No documento T o tal d e A lu n o s :36 (páginas 58-62)