4. Transtornos Psicológicos
4.1 IDENTIDADE E PERSONALIDADE
Já discutimos a questão da imagem, da autoimagem e da autoestima.
Dissemos genericamente o quanto essas representações afetam a identidade e do processo em que a criança começa a se diferenciar do outro e formar o seu
“eu”. Mais detalhadamente discorreremos sobre os pensamentos de vários teóricos no que se refere à formação da identidade e o desenvolvimento psicossocial.
A palavra identidade nos remete a dois sentidos: o primeiro trata-se da diferença, da alteridade, isto é, o que me difere dos outros (demais); e o segundo termo trata justamente do oposto, que seria "tornar igual a”. Ao mesmo tempo em que necessitamos ser únicos, queremos ser iguais, nos identificar com o outro. É esta conclusão mais coerente a que muitos teóricos chegaram.
Para Erikson (1972), identidade significa definir quem a pessoa é, quais são seus valores e objetivos de vida. O autor entende que identidade é uma concepção de si mesmo, composta de valores, crenças e metas com os quais o indivíduo está solidamente comprometido. A formação da identidade recebe a influência de fatores intrapessoais (capacidades inatas do indivíduo e a relação consigo mesmo, com sua personalidade); de fatores interpessoais (relação com outras pessoas) e de fatores culturais (convívio com o meio social, tanto a nível global, político e econômico).
A Psicologia entende a identidade como “a consciência de si como individualidade, singularidade, dotada de uma certa constância e de uma certa unicidade”. (Lipiansky, 1992, apud MOREIRA & OLIVEIRA, 2000). Segundo Goffman (apud NUNES, 1986), em uma concepção mais sociológica, “a identidade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias”. Não construímos nossa identidade apenas por atributos presentes no nascimento, mas de uma forma dinâmica e dialética. Entre o “eu e os outros”
a identidade pode ser mantida, anulada, modificada ou mesmo remodelada.
Para Levisky (1998), a identidade como um aspecto da personalidade pode ser compreendida como a resultante de uma multiplicidade de identidades parciais. A personalidade é o processo resultante das relações objetivas e
subjetivas do indivíduo, que, inserido na sociedade (condição fundamental) diferencia-se de todos os outros, a ponto de ser único. A personalidade, como Seve (1979, p. 390) sugere, é o resultado da luta entre o indivíduo e a sociedade, em que o primeiro se diferencia do segundo a partir do seu modo de existir.
Para Vygotski (1996), a personalidade é um sistema psicológico integrado, indissolúvel e estável, mas de forma alguma estático. A constituição da personalidade se dá através da relação de interdependência das funções psíquicas, tais como: emoções, afetos, inconsciente e consciência. Martin Baró (apud GONZÁLES-REY, 2003, p. 201) diz que a identidade é “produto da sociedade e produto da ação do próprio indivíduo”. Ela “se forma na confluência de uma série de forças sociais que operam sobre o indivíduo e diante das quais o indivíduo atua e faz a si mesmo”.
O modo, muitas vezes, como eu me vejo (eu imaginário) não condiz com a forma como sou visto (eu real) e menos ainda com a forma como gostaria de me apresentar (eu ideal). Na pós-modernidade é visível a necessidade de não considerar a identidade como uma instância fixa, constante e estática. O modismo está em “ser o não ser”. Ter uma identidade é, ao mesmo tempo, ser alguém único, com características indissociadas e ser alguém igual aos outros, no sentido de compartilhar os mesmos valores sociais com o grupo. Como afirma Lipiansky (apud MOREIRA & OLIVEIRA, 2000):
O sentido de identidade se inscreve numa tensão e numa homologia entre o indivíduo e o grupo, entre as necessidades internas e as influências sociais, entre singularidade e pluralidade.
Para Ciampa (1999), os papéis que o indivíduo assume ao longo da vida fazem parte da construção de sua identidade, e pressupõe que o próprio indivíduo idealize e desempenhe um papel social. Assim, a identidade é posta e reposta continuamente. O sujeito vivencia ao mesmo tempo vários papéis, o que o torna um personagem da vida, que sempre se metamorfoseia de acordo com as condições históricas e sociais a que está submetido. Essa afirmação nos remete a ideia de fluidez na obra de Bauman.
Tratando desse termo dentro da psicanalise, ao procurar pela palavra
“Identidade”, em três dos principais dicionários dedicados à psicanálise
(Kaufmann, 1996; Laplance; Pontalis, s/d; Roudisnesco; Plon, 1998), não há quase nada a encontrar. A noção está ligada a identidade de percepção e de identidade de pensamento. Freud não se apossou da palavra identidade para expressar aquilo que é do sujeito, mas o termo “eu”. Em 1915, Freud diz que o eu não é uma realidade em si, mas origina-se a partir do outro, do processo de alteridade. Surge o eu ideal, ideal de eu e precipitado de identificações. "Sobre o narcisismo", Freud (1915/1996) dá uma definição mais explícita ao eu. No momento inicial da vida, há o "autoerotismo", o movimento livre da pulsão, que seria anárquico. Não há ainda uma compreensão da imagem de si, do seu corpo ao qual há um investimento. Temos então o "narcisismo primário", em que a criança investe em si, abrindo terreno para o "narcisismo secundário", quando a pulsão passa a ser direcionada também aos objetos (outro).
O Eu ideal é fruto dos investimentos libidinais que acompanham o sujeito desde a infância, mas que são confrontadas a partir de exigências mais intensas ao eu, trazendo a necessidade do recalque e a inversão do Eu ideal para o ideal de Eu. É como se o Eu ideal fosse o que quero para mim e o ideal de Eu o que os outros querem de mim, já pressupõe uma construção e identificação de um Outro, do social, que marca o sujeito. A construção do eu ocorre paulatinamente, ligado à consciência e ao inconsciente. Seria a parte do inconsciente que se modificou pela proximidade e influência do mundo externo, ou seja, desde sempre.
Diferenciando termos tão semelhantes como individualidade, subjetividade, personalidade e identidade. Segundo Silva (2009), individualidade é a herança biológica do ser humano, cada um é único; subjetividade se refere ao processo de apropriação da realidade objetiva (social), visão que cada um carrega do mundo. E personalidade refere-se à junção da individualidade e da subjetividade, sendo o desenvolvimento histórico-social, “o tecido” que possibilita a constituição da personalidade/identidade, ou seja, o que está entre o mundo e eu. Portanto, o indivíduo maduro psicologicamente busca a homeostase de sua personalidade; tem consciência que para sua formação dependem diversos fatores, inclusive os sociais. Compreender as influências externas e adequá-las à própria subjetividade parece mais sensato do que nadar em um mar onde as ondas o carregam conforme o ritmo da maré.