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Por conseguinte, Marcuse (1997) investe contra a cultura burguesa, denominando-a cultura afirmativa, ao tempo em que critica seu caráter teórico puro e universal. Por outro lado, focaliza os aspectos conflituais da sociedade hodierna para, enfim, apresentar um conceito de cultura necessariamente emancipatório, que, por suas disposições, enquadra-se na perspectiva da educação escolar quilombola.

Cultura como um processo de humanização caracterizado pelo esforço coletivo para conservar a vida humana, para pacificar a luta pela existência ou mantê-la dentro de limites controláveis, para consolidar uma organização produtiva da sociedade, para desenvolver as capacidades intelectuais dos homens e para diminuir e sublimar a agressão, a violência e a miséria.

(MARCUSE, 1998, p.154).

A cultura, enquanto característica da educação escolar quilombola, compõe o universo de ações das comunidades quilombolas que, continuamente, realizam atividades lúdicas, religiosas, artísticas e outras com significado de participação coletiva, ajuda mútua e comunhão fraterna.

A atenção dispensada à educação por organismos internacionais vem combinada ao elemento cultural, haja vista as comunidades realizarem esse tipo de atividade desde tempos imemoriais, inclusive pessoas que nunca frequentaram a escola, a exemplo das bandas de pífano, Festa de São Gonçalo, festas comemorativas da colheita e outras.

quilombolas, em conexão com um passado de luta ancestral. Nesse sentido, Charaudeau (2015, p.13) argumenta:

Em todo caso, o problema da identidade começa quando alguém fala de mim, o que me obriga a interrogar-me sobre “quem sou eu”? Aquele que acredito ser, ou aquele que o outro diz que eu sou? Eu, que me olho, ou eu mesmo através do olhar do outro? Mas, quando me olho, consigo me ver sem um olhar exterior que se interpõe entre mim e mim mesmo? Não é sempre o outro que me remete a mim mesmo?

A identidade é produto de diversos olhares, mas se consubstancia, segundo Santos (2020, p.93), como “a consciência que a pessoa tem dela própria”. Por esse viés, a identidade firma-se no olhar que o indivíduo faz de si mesmo frente ao outro, ao distinto. Assim, seguindo o pensamento de Santos (2020, p.93), a identidade corresponde “ao conjunto de características e dos traços próprios de um indivíduo ou de uma comunidade”.

O significado de identidade trazido acima conduz-nos a pensar o conceito de identidade negra, que, no contexto da sociedade brasileira, deve levar em consideração a discussão em torno da identidade política. Nesse sentido, Munanga (2020, p.15) entende que a “identidade negra mais abrangente seria a identidade política de um segmento importante da população brasileira excluída de sua participação política e econômica e do pleno exercício da cidadania”. Essa exclusão atinge os afro-brasileiros em geral e os quilombolas, em particular.

Os indivíduos assumem como “traços próprios” as práticas culturais de cunho religioso, artístico e poético, a cor da pele e penteados específicos, além de outras características. No caso dos quilombolas, tem-se desenvolvido intensa luta pelo restabelecimento de suas identidades, muitas delas rasuradas pela ação dominadora de segmentos sociais hegemônicos, que tentaram e ainda tentam sobrepor sua identidade como exclusiva e universal, uma espécie de fundamentalismo identitário.

A identidade afro-quilombola vai de encontro a esse exclusivismo, tendo como fundamento a abertura para o outro ou a outra, a valorização de elementos afros, nomeadamente cabelos, penteados, cor da pele, interesse subjetivo pelo coletivo, busca contínua pela cosmovisão e epistemologia africanas, além de outros traços identitários que particularizam determinadas formas de convivência socioafetiva.

Castells (2018, p.55-56) tem em conta três formas de identidade, e duas delas suscitam aproximações dialógicas com a população afro-quilombola:

Identidade legitimadora: introduzida pelas instituições dominantes da sociedade no intuito de expandir e racionalizar a dominação [...]. A identidade de resistência: criada por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos. A identidade de projeto:

quando os atores sociais, utilizando-se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação de toda a estrutura social.

A identidade quilombola coaduna-se aos itinerários da identidade de resistência e à de projeto. A primeira denuncia as formas existenciais estigmatizadoras dos quilombos e dos quilombolas, traduzidas por racismo, discriminação e invisibilidade social. Em contraposição, os quilombolas têm se rebelado, impondo trincheiras de resistência com vistas à construção de uma nova sociabilidade. Desse modo, encaminham-se para a identidade de projeto, por meio da que redefinem suas posições nos contextos social, político e econômico. Sob esse prisma, a identidade afro- quilombola firma-se como agência voltada à utopia marcuseana, tema investigado na seção 4 desta tese.

Portanto, a identidade quilombola, atualmente em construção, encontra guarida no passado, cuja memória atualiza sua predisposição de luta, de rebeldia, de quilombagem; encontra sua base fundante, primordialmente, na ancestralidade afrodescendente, consubstanciada em elementos afrodiaspóricos, na cosmovisão africana de mundo, na cultura afro-brasileira, religião de matriz africana e em folguedos expressivos da realidade afrodescendente. Nessa esfera, destacam-se a história da África e dos africanos, as lutas da população negra brasileira e as culturas afro-brasileiras, regulamentadas pela Lei nº 11.645/2008, que revogou a Lei nº 10.639/2003.

Nessa marcha, a educação escolar quilombola contrapõe-se ao discurso prevalecente, forjado no seio dos países centrais, reprodutores das identidades legitimadoras do status quo. Por isso, as DCNEEQ focalizam a territorialidade também como símbolo de identidade afro-quilombola e determinam, segundo as Diretrizes, artigo 34, caput, que os currículos estabeleçam os meios “sociopolíticos e culturais de construção de identidades” e sejam aceitos como seus elementos norteadores.

Destacamos outros elementos de identidade afro-quilombola, como rebeldia, vivências sociais específicas, uso coletivo do solo, solidariedade grupal e acolhimento.

De fato, a identidade quilombola perfaz-se como denúncia dos modelos sociais vigentes, ancorados em discursos e práticas excludentes e discriminatórias, direcionados à produção e à reprodução do capital.