A memória se nos apresenta sob grande diversidade de perfis. Há a memória individual, coletiva, política, cultural, subterrânea ou marginal, negra e afro-quilombola.
Um determinado agrupamento de seres humanos pode compartilhar mais de uma memória. Neste estudo, concentramo-nos na memória afro-quilombola, complementada, ocasionalmente, pelas demais.
As comunidades remanescentes de quilombos são condicionadas por acontecimentos importantes, que interagem entre si e movimentam a vida comunitária.
Esses acontecimentos atravessaram o tempo e chegaram aos nossos dias por meio da memória, que, segundo Le Goff (1990, p.366), corresponde “a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele represente como passadas”. Para Pollak (1992, p.201), “memória é um fenômeno construído [...] e constituída de acontecimentos, pessoas, personagens”.
30 Tomamos de Clóvis Moura o conceito de quilombagem, que é diverso de quilombismo, elaborado por Abdias do Nascimento. “Quilombismo seria um movimento político dos negros brasileiros, com a intenção de implantar um Estado Nacional Quilombola, inspirado no modelo da República dos Palmares”
(NASCIMENTO, 1980, p.35).
No contexto quilombola, a memória atualiza os acontecimentos diretamente ligados à comunidade e à população afrodescendente em geral. Os quilombolas, interconectados por laços consanguíneos e aproximações afetivas, filtram os acontecimentos relevantes para a vida comunitária. Rememoram os ancestrais, seus feitos, saberes e contatos com o mundo.
Podemos dizer da existência de ancestrais consanguíneos e não consanguíneos.
Os primeiros são lembrados diretamente pelos seus descendentes. A título de exemplo:
avôs, bisavôs, tetravôs e parentes próximos. Os segundos remontam ao passado afro- quilombola, marcado por personagens relevantes, cujas ações importam à comunidade atualmente, a exemplo de Zumbi, Dandara e outras personalidades ligadas diretamente à determinada comunidade.
O fenômeno memória tem sido apropriado pelos segmentos sociais dominantes e subalternos. Néspoli (2021, p.71), em estudo de tese, argumenta:
Estes estudos sobre a memória nos apontam que diferentes grupos sociais guardam a memória com finalidades diversas. Os grupos subalternos como manutenção de suas crenças, costumes e tradições, e os grupos dominantes como estratégia de manutenção do poder. Sendo então o uso da memória também uma estratégia política, memória é um processo dinâmico de afirmação da existência e resistência dos sujeitos sociais.
De fato, o segmento quilombola encontra na memória o substrato psicológico que torna sua existência significativa. Ao retomar o passado, alcança a África, sua história e cultura. E, no âmbito da diáspora, visualiza indivíduos comprometidos com modelos existenciais caracteristicamente livres. Consequentemente, a memória afro- quilombola assume a lógica estratégica de denúncia, rebeldia e resistência e, ao mesmo tempo, focaliza a abertura para vivências sociais utópicas no sentido marcuseano.
Nesse sentido, Néspoli (2021, p.71) diz que
recuperar lembranças sobre nossos antepassados quilombolas é a busca pela afirmação de nossa identidade coletiva enquanto povo negro, é a possibilidade de reascender um sentimento de pertencimento, de reconhecer a nossa origem associada a uma história de luta.
Os acontecimentos memoráveis são tomados no seu movimento histórico. São situações revividas e de interesse, jamais um mosaico impermeável. A comunidade procede seletivamente. Ela recorta e seleciona o passado no quantum será transmitido às novas gerações. A mais-repressão pode favorecer o silêncio sobre determinadas ocorrências, atitudes e decisões, sem, porém, conduzi-las ao esquecimento, pois o ato de
esquecer é da memória individual. A memória coletiva é sempre viva, atuante e atual.
Funciona como caixa de ressonância em tempos de crise. Ela energiza coletivamente os membros da comunidade, tornando-os resistentes e altivos e afetuosamente coesos.
A memória afro-quilombola expressa-se através dos cultos religiosos, dos cantos, dos saberes dos idosos, das rezas, das danças e da recepção afetuosa aos visitantes, conhecidos e desconhecidos. Ela povoa as consciências dos membros da comunidade e sempre aflora em ocasiões de resistência, de luta pela terra, por educação de qualidade e no enfrentamento da opressão decorrente de práticas racistas e discriminatórias. Com Simson (2003, p.17), podemos dizer que a memória afro- quilombola corresponde ao modelo das memórias compartilhadas, porque ambas contêm uma bagagem cultural comum.
Essa memória compartilhada, enquanto desejo latente do homem pós- moderno, que se realiza numa relação não inserida na lógica do mercado, nos leva a construir redes de relacionamentos nas quais é possível focalizar aspectos do passado, envolvendo participantes de diferentes gerações de um mesmo grupo social. Nesse processo são utilizados o que chamamos de
“óculos do presente”, para reconstruir vivências e experiências pretéritas, o que nos propicia melhor compreender os problemas do presente e pensar em bases mais sólidas e realistas de nossas futuras ações.
A implementação da educação escolar quilombola encontra na memória afro- brasileira um manancial de saberes e informações interessantes e necessários ao trabalho escolar. Desse modo, o/a educador/educadora de estudante quilombola, ao se apropriar desse manancial, coalizará sua transmissão com os princípios elencados no artigo 7º das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola na Educação Básica (DCNEEQ), em especial os incisos XVI e XVII, listados a seguir:
Artigo 7º. A Educação Escolar Quilombola rege-se nas suas práticas e ações político-pedagógicas pelos seguintes princípios:
XVI - reconhecimento e respeito da história dos quilombos, dos espaços e dos tempos nos quais as crianças e adolescentes, jovens, adultos e idosos quilombolas aprendem e se educam.
XVII - direito dos estudantes, dos profissionais da educação e da comunidade de se apropriarem dos conhecimentos tradicionais e das formas de produção das comunidades quilombolas de modo a contribuir para o seu reconhecimento, valorização e continuidade. (BRASIL, 2012).
A memória exprime a repercussão do passado no presente. Sua dinamicidade constrói-se e reconstrói-se continuamente, pela via da oralidade. Desse modo, então, a memória quilombola ressignifica a vida da comunidade contemporaneamente e presentifica o passado dos diversos momentos históricos da sociedade brasileira:
Escravismo, Império e República, contextualizando as lutas reivindicatórias por inclusão socioeconômica.