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IDENTIDADES E AS RELAÇÕES COM O DISCURSO

trabalha na perspectiva de um sujeito descentrado” (BRITO, 2009, p. 8).

Sendo assim, arriscamo-nos a dizer que estas abordagens teóricas encaram o sujeito numa mesma perspectiva, tratando-o não na esfera do individual, como um ser empírico, mas como um ser social, um “ser do discurso”, constitutivamente disperso, fragmentado, múltiplo, assim como suas identidades.

É nessa perspectiva teórica, portanto, que estamos concebendo o estudante de Letras, professor em formação, sujeito com identidade instável, não unificada, fragmentada, construído discursivamente nas relações sociais tecidas no processo de interação, no contexto da formação inicial, ou seja, no curso de Licenciatura em Letras. Sendo assim, o sujeito-professor visto anteriormente com uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades docentes algumas vezes contraditórias ou não resolvidas (HALL, 2006).

e, portanto, de produção de sentido pelo sujeito” (CORACINI, 2007, p. 9). Desta maneira, os sentidos construídos estão permeados pelas marcas do contexto no qual o sujeito da enunciação está inserido, o que nos leva a pensar num entrecruzamento sujeito-sentido-contexto-social.

Segundo Orlandi (1998), os sentidos não se dão fora do sujeito, pois, ao significar nos significamos, ou seja, a produção de sentidos implica na produção de sujeitos. Desse modo,

Sujeito e sentidos se configuram ao mesmo tempo e é nisto que consistem os processos de identificação [...] identificamo-nos com certas idéias, com certos assuntos, porque temos a sensação de que eles ‘batem’ com algo que temos em nós. Ora este algo é o que chamamos de interdiscurso, o saber discursivo, a memória dos sentidos que foram se constituindo em nossa relação com a linguagem. Assim nos filiamos a redes de sentidos, nos identificamos com processos de significação e nos constituímos como posições de sujeitos relativas às formações, em face das quais os sentidos fazem sentidos (ORLANDI, 1998, p. 206).

A memória discursiva, ou seja, o interdiscurso, diz respeito às inúmeras vozes oriundas de textos, de experiências, do outro,

Que se entrelaçam numa rede em que os fios se mesclam e se entretecem. Essa rede é conformada por valores, crenças, ideologias, culturas que permitem aos sujeitos ver o mundo de uma determinada maneira e não de outra, que lhes permitem ser, ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes. Essa rede, tecido, tessitura, melhor dizendo, escritura se faz no corpo do sujeito, (re)velando marcas indeléveis de sua singularidade (CORACINI, 2007, p. 9).

Para Coracinni (2007), o sujeito é uma construção social e discursiva em constante elaboração e transformação. Um sujeito que se constitui socialmente e por isso, é também alteridade, carrega em si o outro que transforma e é transformado por ele. Esse jogo identitário se configura, então, a partir do que o outro que diz o que e quem sou, como e por que sou.

Tendo em vista essas questões, as identidades e subjetividades não

podem ser compreendidas fora de um processo de produção simbólica e discursiva, considerando o caráter relacional, de processualidade, de perfomatividade, bem como os componentes sociais e ideológicos que as envolvem (SILVA; WOODWARD, 2007).

De acordo com Woodward (2007, p. 55), subjetividade e identidade são processos atrelados à linguagem e ao social, são conceitos sobrepostos, mas que podem ser diferenciados da seguinte maneira

Subjetividade sugere a compreensão que temos sobre nosso eu. O termo envolve os pensamentos e emoções conscientes e inconscientes que constituem nossa concepção sobre quem nós somos. Entretanto, nós vivemos nossa subjetividade em um contexto social no qual a linguagem e a cultura dão significado à experiência que temos de nós mesmos e no qual nós adotamos uma identidade [...] As posições que assumimos e com as quais nos identificamos constituem nossas identidades.

Nas palavras de Smolka (2000), os indivíduos são afetados de diversos modos e maneiras de produção nas quais eles participam, são afetados por signos e sentidos produzidos na história e nas relações com outros. A constituição da subjetividade pressupõe um sujeito ativo, e principalmente interativo, que vai se construindo na e pelas relações sociais com o outro, com a cultura, a história e a sociedade.

Embora haja imposição, há também um processo de resistência, no qual o sujeito resiste e/ou reelabora as diversas formas de imposição do(s) outro(s).

Dessa maneira, “certos modos de apropriação, podem, no entanto, ocorrer, produzindo sentidos não esperados, não previstos, não predizíveis” (SMOLKA, 2000, p. 37).

Não se pode deixar de apontar aqui que a constituição da subjetividade, atrelada à produção discursiva, configura-se como um território marcado por muitos sentidos, por conflitos e lutas, no qual surgem e se transformam diferentes significações. Nesses espaços de apropriação de discurso, valores e conceitos, alguns são incorporados, outros modificados e até mesmo recusados (KASSAR, 2000).

Dessa maneira, a constituição da subjetividade está marcada por

tensões entre as possibilidades e impossibilidades que transitam nas diferentes vozes que se cruzam na história pessoal dos sujeitos (KASSAR, 2000). As identidades se constituem, portanto, como resultado de uma relação de força entre as representações impostas pelos que detém o poder de classificar e de nomear e a definição, de aceitação ou de resistência, que cada comunidade ou sujeito produz de si mesmo (CHARTIER, 1991).

Levando em consideração a questão da imposição, é pertinente o que diz Coracinni (2007, p. 49): “ora, sabemos que a identidade pode ser imposta, resultar de uma relação de poder, pode ser efeito de dominação; onde alguém sabe a verdade, alguém pode falar em nome do outro, responder o outro, dizer o outro”. Esses efeitos de verdade produzidos no interior das formações discursivas, que resultam de um ato político, de um ato de poder, é que possibilita que o “eu” seja dito e interpretado pelo outro, pelo olhar do outro que, de alguma forma, constitui-se como verdade.

Por outro lado, quando o sujeito fala de si, narrando-se, ele também constrói sua(s) própria(s) identidade(s), porque falar é sempre interpretar, e interpretar significa construir uma verdade, uma “verdade sobre si mesmo, em confronto direto com a narrativa autorizada” (CORACINI, 2007, p. 19).

Em síntese, as perspectivas e os autores que fundamentam este estudo postulam a “morte” do sujeito centrado, do sujeito como origem de seu dizer e produtor de verdades absolutas, ao mesmo tempo em que ressaltam a heterogeneidade constitutiva do sujeito da enunciação, isto é, do sujeito assujeitado à linguagem ou à primazia simbólica. Do mesmo modo em que apontam para o descentramento do sujeito da enunciação, visto que é essa heterogeneidade constituída pelo social, pela linguagem e pelo outro, ou seja, essa rede de significações, anterior e exterior ao sujeito, que possibilita ao sujeito instituir-se, significar-se e construir sua(s) identidade(s).

Desse modo, por compreender que o sujeito se constitui na linguagem, assumindo posições discursivas, e sendo irremediavelmente afetado por dizeres anteriores, procuramos, neste trabalho, investigar as representações sobre o ser professor de Língua Portuguesa que emergem nos discursos de estudantes de letras e concorrem para construção de suas identidades docentes. Nas palavras de Brito (2009), entender por que algumas

representações sobre o ‘ser/tornar-se’ professor se fixam enquanto outras são silenciadas, confrontadas, recusadas, é olhar o movimento dos sentidos na história e o funcionamento da linguagem como processo discursivo, como desencadeador de identidade(s) docente(s).