1 PRINCÍPIO JURÍDICO DA IGUALDADE
1.4 O ALCANCE E AS FACES DO PRINCÍPIO DA IGUALDADE
1.4.2 Igualdade de oportunidades e igualdade de resultados
A face material vem, portanto, complementar a face formal do princípio, e implica num agir positivo do Estado elaborando leis que promovam medidas e/ou fomentem mecanismos eficazes a uma igualdade real e não meramente abstrata, visando com esse procedimento a diminuir ou exterminar desigualdades fáticas injustificadas e concretizar a dignidade da pessoa humana.
A obtenção da igualdade substancial pressupõe um amplo reordenamento das oportunidades: impõe políticas profundas; induz, mais, que o Estado não seja um simples garantidor da ordem assente nos direitos individuais e no título de propriedade, mas um ente de bens coletivos e fornecedor de prestações. (CANOTILHO; MOREIRA, 1993, p.306)
É de fácil constatação que inicialmente os direitos atingiam os homens apenas em sua esfera individual, implicavam numa não intervenção estatal, e se esgotavam nos direitos à liberdade, à segurança e à propriedade. Posteriormente, surgiram os direitos de cunho social sob o primado da igualdade, requerendo do Estado uma postura intervencionista, e referem-se, por exemplo, as áreas da educação, do trabalho e da saúde.
Numa fase pós-guerra, vieram a lume os direitos da fraternidade, que tendo como destinatário o gênero humano, dizem respeito à questões relacionadas ao desenvolvimento, à paz, ao meio ambiente equilibrado, à comunicação e à propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade. Apareceram também os direitos fundamentados na preocupação global, pertinentes à esfera da democracia, da informação e do pluralismo, enfim, não há como negar que com o transcurso do tempo o rol de direitos se tornou muito mais extenso.
Não se questiona também que há bens sociais e situações jurídicas, que por serem escassos, não podem ser concedidos a todos aqueles que se candidatam à sua obtenção, ou que almejam o seu alcance. Por exemplo, numa sociedade capitalista não há terras para todos que gostariam de ser proprietários, não há empregos para todos os desempregados, não há leitos para todos que esperam atendimento nas redes públicas de saúde, não há vagas para todos que se candidatam em concursos públicos aos cargos e funções públicas, não há vagas na rede pública de ensino para os que desejam cursar o ensino fundamental ou médio, não há vagas nas universidades para todos os que almejam um diploma.
Com base nesses considerandos vem à tona a noção de igualdade de oportunidades e igualdade de resultados. A primeira, como a própria denominação sugere, diz respeito ao oferecimento aos indivíduos de iguais oportunidades de alcance dos bens que limitadamente existem na esfera social. Oportunidade concedida através da implementação de medidas legais, administrativas ou particulares que eliminem quaisquer obstáculos fáticos que, possam vir a impedir que em igual “ponto de partida”, os indivíduos alcancem os bens que almejam.
Enfim, a igualdade de oportunidade visa a desobstruir o caminho a ser percorrido para a persecução dos bens.
Já a segunda refere-se à possibilidade de real alcance dos bens para aqueles que por serem vítimas de preconceitos e discriminações, ainda que concorram em igualdade de oportunidades, em igual ponto de partida, em total ausência de obstáculos fáticos, não consigam adquiri-los por si só. O entendimento é de que, sendo assim, é necessário, portanto, sejam-lhes conferidas, intencionalmente, algumas vantagens no “ponto de partida” para que de fato venham a atingir o
“ponto de chegada”, noutras palavras, os resultados objetivados.
Nesse esteio, tem sido entendido que caso as políticas de fomento à igualdade de oportunidades (igualdade de partida), não sejam suficientes para gerar a igualdade de resultados (igualdade de chegada), cabe implementar medidas legais, administrativas ou mesmo particulares, que baseadas numa diferenciação que discrimine positivamente, possam dar de forma imediata àqueles em situação de partida desvantajosa a igual possibilidade de aquisição de bens.
Deve ser dito, portanto, que medidas que implementem uma igualdade de resultados, devem ser tomadas em caráter subsidiário, para reforçar a possibilidade de alcance de bens quando impossível alcançá-los ainda que não haja nenhum empecilho fático para isso. É o que se observa da lição de Bellintani (2006, p.74) ao afirmar que
[...] em face da necessidade de obrigatoriedade de diferenciação, nos casos em que a fomentação da igualdade de oportunidades não for suficiente para promover uma igualdade de resultados, esta poderá ser fomentada através de discriminações positivas.
Com fulcro nesse raciocínio, pode-se dizer que surge a questão da implementação de cotas raciais para ingresso no ensino superior brasileiro sob o fundamento de
que, apesar da igual oportunidade oferecida a todos de ingressarem no ensino superior tendo concluído o ensino médio, em razão da histórica discriminação sofrida, os negros se encontram em posição de desvantagem e, tão só em razão de sua cor de pele, devem ser tratados de forma diferenciada para que efetivamente tenham o bem almejado e a que também têm direito, no caso, o acesso à universidade.
Tal questão a ser analisada posteriormente toma forma dentro da idéia de que ainda que não haja óbices fáticos, a discriminação a que estão sujeitos, leva os negros a se encontrarem em posição desvantajosa, e por tal razão importa que sejam obrigatoriamente diferenciados concedendo-lhes vantagens no “ponto de partida”.
Em síntese, ao longo do capítulo pôde-se constatar que o princípio da igualdade, absorvendo as mudanças, as necessidades e as aspirações da sociedade em cada época, deixou revelada a disparidade existente entre a visão que lhe era dada nos primeiros tempos do constitucionalismo, e, a visão atual de que a obrigatoriedade de diferenciação incorporada admite quando da feitura e aplicação das leis, um “lançar mão” de políticas intencionalmente discriminatórias, visando ao final promover a igualdade.