65 e linguagem que apenas quem é da área vai entender, pode dificultar o acesso do sujeito a informação verdadeira. São as barreiras do capital cultural, como discute Porcher47, e as distâncias entre os “infopobres” e “inforricos” abordadas por Fantin e Girardello (2009).
A linguagem utilizada pela robô é outro aspecto que pode ser destacado. A inteligência artificial estabelece uma conversa com o sujeito e utiliza expressões como
“ficou claro?”, “que tal?”, “você já fez isso”, “caso queira” e pergunta para o usuário se ele quer mais dicas de checagem. Nesse sentido, o indivíduo não é um objeto e que necessita de ajuda da robô, mas assume a posição de sujeito no processo de checagem do conteúdo, o que vai de encontro com as proposições da alfabetização midiática. A inteligência artificial não considera o indivíduo como latas vazias que precisam ser preenchidas, como afirma Guimarães48 sobre a crítica freiriana da educação bancária e que pode ser transferida também para os meios de comunicação.
4.2IMAGEM:“OCHICODANDOOARDAGRAÇA…TEUCARÁTERÉVERMELHO,
66
Figura 6: Montagem envolvendo Papa Francisco e o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, publicada no Facebook
Fonte: Facebook
A montagem foi utilizada como material de referência para análise sobre as orientações de checagem da “Fátima” para imagens. Da mesma forma como faz na checagem para vídeo e se repete para os outros tipos de conteúdos - notícia e boato - a robô questiona o usuário sobre a origem daquela imagem. Neste caso, mais uma vez, explica que redes sociais não podem ser consideradas fontes de informação, pede para que a página seja analisada pela pessoa e oferece dicas de como fazer essa checagem da página. Neste sentido, como afirma Porcher50, é importante desenvolver o senso crítico para que as pessoas saibam onde buscar a informação.
A robô orienta, como demonstrado na figura 7, para que o usuário tenha uma ação. Novamente, o indivíduo é encarado como sujeito no processo de checagem.
Ela pede para que seja usado um site de busca, como o Google, e que o usuário confirme, em mais de um veículo, se a informação é a mesma. Neste caso, a inteligência artificial destaca a importância de que as pessoas possam checar as informações em mais de um veículo, garantindo a verificabilidade da informação e de forma mais ampla, em mais de um local. Além disso, destaca importância de que
50 Entrevista concedida por Louis Porcher à Sérgio Guimarães em 2002 e publicada como capítulo do
livro Educar com a mídia: novos diálogos sobre educação. Referência: FREIRE, Paulo; GUIMARÃES, Sérgio. Internet, telefone celular... E agora? In: FREIRE, Paulo; GUIMARÃES, Sérgio. Educar com a mídia: novos diálogos sobre educação. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011, p.167-195.
67 sejam veículos conhecidos. No entanto, novamente não explica o que é um veículo tradicional de informação.
Figura 7: “Fátima” orienta a checagem em mais de um veículo conhecido
Fonte: “Fátima” – Messenger
Na próxima etapa da conversa, reproduzida na figura 8, a robô chama atenção para a linguagem utilizada, assim como discute Buckingham (2015). A inteligência artificial pede que a pessoa identifique se há um texto detalhado, se as informações são atribuídas à alguma fonte e se a linguagem narra os fatos de forma agressiva ou taxativa. “Fátima” também orienta que as pessoas devem desconfiar de chamadas em caixa alta, títulos apelativos, se o texto se preocupa em passar várias interpretações sobre o fato e afirma que é sempre necessário desconfiar se os textos não atribuem a informação de maneira clara para uma fonte. No entanto, a robô não explica o que pode ser considerado como fonte para o usuário. No jornalismo, Pinto (2014) explica que há vários tipos de fontes e apresenta quatro: técnicos e especialistas, que auxiliam na pesquisa para produção da reportagem, informantes, responsáveis por passar informações de bastidor, personagens da notícia, aqueles que estão envolvidos nos
68 fatos, e analistas, que não estão envolvidos no fato, mas ajudam a contextualizar o fato. Para o leitor comum, o conceito de fonte pode não ser compreendido facilmente.
Neste caso da montagem que envolve o Papa Francisco, a imagem é acompanhada de uma pequena legenda com uso de palavras em caixa alta e palavras mais agressivas como “santa falsidade” e taxativas como “Chico dando ar da graça”
para afirmar que o papa estava fumando maconha. Além disso, não há atribuição da origem da informação.
Figura 8: “Fátima” pede que usuários prestem atenção na linguagem utilizada nos conteúdos
Fonte: “Fátima” – Messenger
Em outra orientação, reproduzida na figura 9, a robô fornece o link de duas ferramentas, o Google Reverse Images e o TinyEye, que podem ajudar a identificar se uma imagem é real. A inteligência artificial explica como as duas ferramentas podem ser utilizadas e ainda orienta que algumas fotos são reais, mas em alguns casos podem ser tiradas do contexto e aliadas a situações, características e lugares que nunca existiram. A montagem que envolve o Papa Francisco e o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, foi feita a partir de duas fotos que existem. A checagem do Aos Fatos mostrou que a foto do papa foi feita em 2013, enquanto ele mandava um beijo. O rosto de Evo Morales colocado na montagem foi tirado de uma foto em que o ex-presidente mostra uma folha de coca.
69 Figura 9: “Fátima” explica o uso de ferramentas para checar se uma imagem é real
Fonte: “Fátima” – Messenger
Apesar de algumas dicas serem direcionadas para texto, o que pode mostrar uma falha da inteligência artificial já que o desejo era orientações sobre checagem de imagem, as informações foram importantes para a checagem da legenda, que trazia algumas dessas características, apesar de não se encaixar como título51 ou se assemelhar a um texto jornalístico. Neste caso, mais uma vez, as dicas ajudam na checagem de diferentes conteúdos, apesar do objetivo inicial ser a verificação de uma imagem, e fornecem subsídios para que o usuário possa ficar atento com outros materiais que encontrar na internet.
As orientações de checagem trouxeram dicas de uso de outras ferramentas e explicaram como podem ser usadas para verificar se uma imagem é real. Neste caso, as orientações possibilitam que os sujeitos tenham conhecimento técnico, mas
51 O título é o primeiro elemento do texto jornalístico. No jornalismo hard news, ou seja, veículos que
são responsáveis pela cobertura de acontecimentos do dia, o título tem a função de resumir, de forma atrativa, a notícia. Disponível em: https://formandofocas.com/tag/texto-jornalistico/. Acesso em 8 dez.
2020.
70 também se apropriem das ferramentas para checagem de forma independente de outras imagens que possam receber, o que reafirma a proposta de alfabetização midiática de Buckingham (2015) e as discussões de Fantin e Girardello (2009) sobre a inclusão digital em uma perspectiva cultural, em que o indivíduo deixa o lugar de objeto e passa a ser sujeito na leitura das informações do mundo. Apesar disso, a inteligência artificial não explicou o que pode ser considerado como fonte de informação, o que pode ser uma dificuldade para o usuário que não tem conhecimento sobre alguns termos utilizados no jornalismo.
4.3NOTÍCIA:“MAISDAMETADEDODINHEIRODESTINADOPARACOMBATERA