3 O FIO DA IMAGEM
permitem montagens, manipulações das mais diversas interferem na relação real/ficção tensionando-a ainda mais e parece permitir a criação de uma outra história da humanidade, sem rosto, sem passado, sem memória, sem cheiro, sem saber. Uma história de realidades virtuais.
A imagem abaixo, veiculada na revista Veja Rio, ano 32, do dia primeiro de setembro de 1999, convida-nos a construir uma casa na Reserva Especial do Frade em Angra dos Reis, RJ. A imagem mostra um lugar “paradisíaco” com acesso pela rodovia Rio-Santos. É, indiscutivelmente, uma bela reserva.
Figura 1 - Reserva Especial do Frade, Angra dos Reis
Fonte: Revista Veja Rio, ano 32, edição de 1° de setembro de 1999.
Figura 2 - Reserva Especial do Frade – 2, Angra dos Reis
Fonte: Revista Veja Rio, ano 32, edição de 1° de setembro de 1999.
O que não aparece nesta imagem e que uma visita ao local permitirá perceber é que esta reserva não é exatamente como na descrição. Sem entrar no mérito da reserva, que reserva muitas versões e contradições, a imagem apaga o bairro chamado Frade, cuja história é anterior ao descobrimento do Brasil, visto que era área onde o nosso bravo guerreiro Cacique Cunhambebe3, igualmente negligenciado pela história, vivia muito antes dos portugueses chegarem. Todo o bairro com suas ruas, edificações e seu passado foram ocultados.
A letra H da palavra hangar encobre um muro construído para dar acesso a canais navegáveis que permitem ao morador desta reserva chegar em casa de lancha. Este muro é
3 Cacique Cunhambebe foi famoso chefe indígena Tupinambá brasileiro. Era chefe máximo entre os líderes Tamoios da região que comprende hoje o município de Cabo Frio, no Estado do Rio de Janeiro e o município de Bertioga, no Estado de São Paulo. É citado na obra do alemão Hans Staden, Viagens ao Brasil, 1930. Hans Staden foi prisioneiro dos Tupinambás. Resgatado, retonou à Europa onde escreveu o relato de suas viagens.
alvo de muitas histórias e intrigas. Segundo alguns alunos do regular noturno da Escola Municipal Cacique Cunhãbebe, que são marinheiros, o muro quebra o curso natural da corrente marítima e torna a praia dos moradores locais sempre suja. Assim, a praia fica dividida: de um lado do muro encontra-se a praia dos ricos, limpa, com areia branca; do outro lado do muro, a praia dos moradores locais, suja, imprópria para o banho.
Imagens como esta permitiram reflexões e busca de conhecimentos para a compreensão e enfrentamento, o que extrapolou os muros da escola. Assim, pequenas excursões e entrevistas foram realizadas, fotografias e desenhos foram feitos. A busca por respostas nos instigou a mergulhar nas memórias, nas imagens e enveredamos por diferentes caminhos.
A seguir apresento imagens fotográficas: a primeira foi feita por aluno e desvenda uma parte do Frade ocultada na imagem anterior; a segunda é uma imagem feita por um profissional em 1995, Fernando Rizzo, e retrata a Rio-Santos com suas laterais cheias de casas; a terceira e a quarta são fotografias de dois desenhos feitos por um aluno do regular noturno da escola, o Senhor José Jerônimo Lourenço (1997) que retrata o Frade da sua infância e o Frade atual.
Figura 3 - Vista da Rodovia Rio – Santos, Frade, Angra dos Reis
Fonte: Acervo pessoal.
Figura 4 - Vista da Rodovia Rio – Santos, Frade, Angra dos Reis – 2
Fonte: Acervo pessoal.
Figura 5 - Mapa do Frade 1 - elaborado por José Geronimo Lourenço, Aluno do Curso Regular Noturno da EM Cacique Cunhãbebe
Fonte: Acervo pessoal.
Figura 6 - Mapa do Frade 2, elaborado José Geronimo Lourenço, por Aluno do Curso Regular Noturno da EM Cacique Cunhãbebe
Fonte: Acervo pessoal.
Discutir acerca destas imagens mostrou-se muito interessante, pois nos ajudou a desnaturalizar as imagens que consumimos sem nos dar conta. Esta atitude estimulou a realização de pesquisa, a percepção de outras formas de perceber, quebrou o encantamento do realismo das imagens e levou a muitos questionamentos, principalmente acerca do que representamos neste mundo globalizado, moderno, liberal, com oportunidade para “todos”.
Uma grande interrogação era o que está escondido por trás de uma imagem que exclui todo um bairro. Levantar questões é desnaturalizar o “que vem pronto para ser ingerido”, desfazendo-o, estudando-o, questionando-o. A relação que se propõe é de interrogação constante, de pesquisa, de reconhecer que há muito por se saber, que há diferentes saberes e que ninguém ou nada é detentor de tudo. A verdade é questionável.
Mas, será que estas imagens virtuais não denunciam, não testemunham um tempo com todas as suas implicações? Será que os discos óticos não representam uma versão social produzida para dar conta de aspectos determinados como já serviram muitos documentos escritos e imagens fotográficas oficiais, muitas interpretações científicas? Talvez a percepção de que não há um só caminho, uma só versão, uma verdade absoluta e sim, uma grande e complexa rede de muitos fios, de muitas possibilidades possa ser melhor testemunha da riqueza humana e também, de sua pobreza. É certamente um caminho para desvendar a
“realidade interior”4 da imagem.
4 Referência à citação de Boris Kossoy (1998, p. 42): “que não podemos ver, permanecem ocultas, invisíveis, não se explicitam, mas que podemos intuir; é o outro lado do espelho e do documento; não mais a aparência
Sebastian Darbon (1998, p. 104) enumera duas boas razões para sermos criteriosos, rigorosos se desejamos trabalhar com imagens com o objetivo de pesquisa e de estudo. A primeira é que:
Sabemos quão as escolhas operadas sobre os aspectos os mais mecânicos, ou os mais físico- químicos, como a objetiva, a película, as modalidades de revelação e de tiragem, por exemplo, têm consequências imediatamente sensíveis sobre a reprodução da “realidade” que se constrói através da foto.
As fotografias amadoras, as instantâneas, as profissionais apresentam entre si diferenças enormes mesmo quando se propõe a tratar do mesmo tema. Os enquadramentos, a luminosidade, por exemplo, produz efeitos diferentes e revelam uma possibilidade de ver que está longe de dar conta de toda a complexidade do real. A segunda razão, segundo o mesmo autor, refere-se à noção de realismo que é essencialmente cultural. E, neste sentido, os contextos: social, histórico, cultural, religioso estão por demais imbricados e tecem, juntamente com a nossa capacidade de criar, com as nossas referências, maneiras singulares de representação. Uma fotografia de um importante fato ocorrido na localidade do Frade em 1940 tem um conjunto de signos, um simbolismo que dizem respeito ao espaço/tempo daquele lugar.
Figura 7 - Frade: visita do Padre em 1940
Fonte: Acervo pessoal.
imóvel ou a existência constatada, mas, também e, sobretudo, a vida das situações e dos homens retratados, desaparecidos, a história do tema e da gênese da imagem no espaço e no tempo”.