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IMPLANTAÇÃO DA SALA DE LEITURA

A coleta de dados sobre a implantação da Sala de Leitura Salim Miguel do HU/UFSC foi obtida diretamente com a coordenadora da sala de leitura. Para a coleta dos dados, foi realizada uma entrevista, a qual ocorreu na própria instituição hospitalar e teve duração de aproximadamente sessenta minutos. A seguir, destacamos o histórico da Sala de Leitura através do relato da servidora desde como surgiu a ideia da implantação, bem como os desafios que esta encontrou na sua trajetória.

A Sala de Leitura Salim Miguel do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina foi inaugurada no dia 08 de novembro de 2005, com o objetivo de contribuir com o processo de humanização e incentivar o gosto, o hábito de leitura dos pacientes internos, acompanhantes e servidores, além de agregar valor aos serviços oferecidos pela instituição.

Conforme relato da coordenadora da sala de leitura, até onde tem conhecimento, o Hospital Universitário

é o único hospital no Brasil onde tem este serviço estruturado, este espaço pronto para os pacientes. Existem várias iniciativas em outras instituições que seria de o voluntário vai lá leva um livrinho ou vai e leva uma revistinha, mas nada formalizado, estruturado da mesma forma que nós temos aqui. (Entrevistado E8).

A implantação da sala de leitura é resultado de um sonho de mais de quinze anos de uma servidora do hospital universitário. A vontade de implantar a sala de leitura aconteceu quando esta servidora, ao realizar busca de material para a realização de trabalho acadêmico referente ao curso de Biblioteconomia deparou-se com um artigo cujo título era denominado

“Biblioterapia”. Para Katz (1992), a biblioterapia “é a utilização dirigida da leitura, com o objetivo de um resultado terapêutico”.

A bliblioterapia ela nada mais é do que o uso do livro no tratamento, mas só que não é um tratamento que vai retirar dali a medicação do paciente, é um tratamento que cuida do ser e o medicamento é através da medicina que ela cuida do corpo.

(Entrevistado E8).

Após a leitura do artigo, a servidora não teve dúvidas de que ali estava à solução para um problema que lhe acompanhava há algum tempo. Ela queria proporcionar um ambiente hospitalar um pouco melhor para as pessoas que ali estavam. Para Ratton (1975), a integração em grupos de leitura com a finalidade de promover o contato entre pacientes, proporcionando-lhes oportunidades de comunicação, auxilia na adaptação à vida hospitalar.

Entretanto, da leitura do artigo até a possibilidade de colocar em prática uma sala de leitura para os pacientes, mais dez anos se passou. Sendo que, várias vezes, a servidora foi falar com a diretoria do hospital para apresentar a proposta de aplicação da biblioterapia, porém, em todas às vezes, recebeu um “não” como resposta, sempre acrescido do tom de total descaso. As justificativas que lhe davam estavam relacionadas a não possuir recursos, a falta de pessoal, sem contar que isso não traria retornos palpáveis para a instituição (Entrevistado E8).

Entretanto, mesmo recebendo vários “não” esta servidora não parou de sonhar em implementar uma sala de leitura para os pacientes e acompanhantes, porque em estudos realizados no ano de 2003, ela constatou que a prática biblioterapêutica ajuda no processo de hospitalização, tornando esta ”passagem” pelo hospital um pouco menos agressiva e dolorosa.

Pois, a hospitalização independente da gravidade da doença, acaba sendo um processo em que gera medo, angustia e insegurança nas pessoas.

Segundo Farias (1981, p. 2):

apesar de ser, a hospitalização, uma experiência vivenciada individualmente, supõe- se que a maioria das pessoas que se hospitalizam, independente da idade ou quadro clínico, sejam afetadas pelo estresse. Além do estresse fisiológico produzido pela própria doença, a hospitalização provoca mudanças de ambiente físico e social e, nas atividades diárias do paciente, de modo a afetar todo o seu sistema de vida.

Percebe-se que esta servidora pode ser considerada como uma intraempreendedora, que está tentando empreender dentro de uma instituição hospitalar. Segundo Pinchot (1989), os intraempreendedores são, normalmente, conduzidos pela ação, iniciando quase que imediatamente a realizar algo para atingir seu intento, ao invés de ficarem planejando indefinidamente. Eles são responsáveis pela criação de inovações de qualquer espécie dentro de uma organização.

No ano de 2004, uma nova equipe assumiu a diretoria do hospital, e, por volta de junho de 2005, a White Martins contatou o diretor administrativo da instituição e lhe ofereceu a doação de mil obras. Desta vez, as doações foram aceitas, sendo que outras, foram oferecidas e recusadas. No mês seguinte, o diretor solicitou ajuda da servidora - hoje coordenadora da sala de leitura - para que em suas horas vagas, esta, realizasse a aquisição de equipamento mobiliário para a Sala de Leitura. Esta aceitou fazer este serviço fora do horário de expediente, pois na época trabalhava no departamento de enfermagem.

aí ajudei escolher tudo, as estantes, escrivaninhas, mesas, tudo. Sentei junto com a diretoria para definir o layout da sala, como iriamos organizar, quantas estantes precisavam [...]. (Entrevistado E8).

No mês de outubro de 2005, após a sala estar montada com os devidos acervos, a servidora foi convidada pelo Diretor Geral do hospital para assumir o serviço de organização e coordenação da Sala de Leitura Salim Miguel. Ao aceitar a coordenação da Sala de Leitura, esta servidora tinha ciência que muitos desafios seriam colocados à sua frente. Durante quatro meses, esta servidora cuidou da sala de leitura e ainda fazia o seu serviço na CCIH - Comissão de Controle de Infecção Hospitalar.

eu entrava às sete horas da manhã e saia às onze horas da noite, fiquei quase um ano neste ritmo, era o dia inteiro aqui, o dia inteiro, era a minha vida isso daqui. Mas para organizar tudo sozinha não tinha um puto de um centavo, não tinha ninguém trabalhando comigo, era eu trabalhando literalmente sozinha. (Entrevistado E8).

O primeiro desafio foi o de realizar o prazo de processamento técnico de mil obras em quinze dias, pois a inauguração já estava marcada.

Conforme relato da entrevistada, a inauguração foi marcada com muita badalação, notícias nos jornais de maior circulação da cidade, entrevistas em rádios e programas de TV.

E em pouco tempo iniciaram-se os telefonemas de várias regiões do estado e do Brasil em busca de informações sobre a biblioterapia, bem como doações de materiais de leitura, como jornais, revistas, entre outros (Entrevistado E8).

No dia 21 de novembro de 2005, deu-se início aos empréstimos dos livros, o qual tem como objetivo incentivar os pacientes internos, acompanhantes e servidores o hábito da leitura, pois conforme a entrevistada,

a leitura, dentro do hospital, é útil no processo de hospitalização porque ela cria um universo independente, ou seja, um desligamento dos problemas, das angustias, do medo e das incertezas proporcionando um alívio das tensões emocionais, contribuindo assim para o bem estar mental do paciente (Entrevistado E8).

No início, quando os pacientes emprestavam os livros, era solicitado que estes após a leitura, devolvessem os livros no posto de enfermagem, mas esta estratégia mostrou-se ineficaz, sendo possível contabilizar que vários livros não eram devolvidos ao acervo. Com isso, solicitou o auxilio da enfermagem, “cujos membros foram unânimes em afirmar que a solicitação do livro ao paciente no momento da alta e sua guarda em local seguro representavam preocupações adicionais aos serviços já realizados” (Entrevistado E8).

Com isso, foi necessário implantar escaninhos devidamente identificados em todas as unidades de internação, sendo que os livros eram depositados pelos pacientes quando estes recebiam alta do hospital. Com a implantação destes escaninhos, houve uma redução significativa do número de livros “perdidos”.

Em um dos dias de empréstimos de livros, a servidora encontrou um paciente, um menino, que esteve internado na UTI por 15 dias e tinha ido para o quarto, ele estava

impaciente, pois não havia nada para fazer no hospital e não havia outros pacientes na mesma faixa etária dele para que ele pudesse, ao menos, conversar. Neste momento, a servidora perguntou ao paciente se ele gostava de mexer em computador e o mesmo afirmou que sim.

Após esta conversa, com este paciente, a servidora decidiu por solicitar ao responsável do hospital alguns computadores com acesso à internet para que os pacientes e acompanhantes pudessem utilizá-los.

Não foi fácil, mas conseguiu dois computadores com acesso a internet para que fossem instalados na sala de leitura. Para a entrevistada, estes equipamentos “servem não apenas para tranquilizar as pessoas após longas horas de conversas com os amigos, famílias, mas também para que os pacientes que queiram realizar alguma atividade escolar possam fazer”

(Entrevistado E8).

Por muito tempo, a servidora trabalhou sozinha na sala de leitura, pois não havia nenhuma equipe de apoio para auxiliá-la. Assim, sempre que precisava se ausentar da sala de leitura, esta era fechada. Várias vezes, esta servidora trabalhou ininterruptamente por 16 horas diárias, porém, o prazer em ver o seu sonho sendo realizado, compensava todo o seu esforço.

Em 2006, esta servidora recebeu o auxílio de duas bolsistas, e com a chegada destas bolsistas, a servidora passou a realizar algumas inovações nos serviços oferecidos aos pacientes. Esta passou a promover atividades artísticas e culturais, como teatros, apresentações de dança, música, recital poético, etc.

A servidora relata que em um ano seu acervo dobrou. No ano de 2006 foram emprestados aos pacientes e acompanhantes 1.037 livros, além de 3.110 revistas e gibis. Para os servidores (terceirizados, bolsistas e contratados) foram emprestado 777 livros. Já em 2007, os empréstimos de livros foram de 1.452 e de revistas e gibis foram de 2.226 para acompanhantes e pacientes, e para servidores foram emprestados 1.139 livros.

O ano de 2008 foi marcado por muitas mudanças, pois os três bolsistas que trabalhavam há aproximadamente dois anos tiveram que ser dispensados, pois eram alunos do curso de serviço social, filosofia e letras-inglês, e as atividades que eram desenvolvidas na sala de leitura não estavam relacionadas a sua área de formação. Sendo assim, houve um retrocesso, ou seja, voltou ao mesmo cenário inicial em que a servidora realizava todas as atividades sozinhas. Este cenário perdurou por alguns meses.

Entre o período de março a novembro de 2008 passaram, aproximadamente, treze bolsistas para trabalharem na sala de leitura. Esta rotatividade aconteceu ao fato de que só poderia atuar na sala de leitura estudantes do curso de biblioteconomia e pedagogia. Segundo a entrevistada, “infelizmente são poucos os alunos que possuem o perfil de trabalhar com

pacientes hospitalizados”. A alta rotatividade de bolsistas refletiu nos resultados obtidos no primeiro semestre de 2008. Entre janeiro e junho de 2008 foram emprestados apenas 647 livros para pacientes e acompanhantes e 2.088 revistas e gibis, e para os servidores foram emprestados 667 livros.

Também houve um impacto referente às atividades artísticas e culturais, pois em 2006 foram realizadas 41 apresentações e no ano de 2007 foram realizadas 52 apresentações, porém em 2008 apenas 16 atividades foram realizadas. Estes números podem ser justificados pela ausência de uma equipe consolidada.

Em 2010, foram emprestados 332 livros, 2.250 revistas e atendidas 4.339 pessoas, mas este número tende a aumentar, pois a aceitação é muito boa segundo a entrevistada.

Devido à persistência da servidora, este cenário foi mudando, pois em 2011 foram emprestados 732 livros para acompanhantes e pacientes, 4.904 revistas e 1.809 gibis. Nesta época, a servidora também instalou em vários pontos do hospital portas revistas o qual auxiliou os pacientes a realizarem mais leituras. A manutenção destes porta-revistas é realizada uma vez por semana, porém ela gostaria de fazer mais, contudo, no momento não tem como, porque não há doação suficiente de revistas para que ela possa fazer este serviço.

Conforme Lapolli et al (2009), uma sala de leitura dentro de um hospital é de inquestionável relevância, pois estudos comprovam os benefícios que a leitura proporciona. É através da leitura que a pessoa tem sua imaginação estimulada, incorpora personagens, viaja por lugares desconhecidos e localiza “pessoas” com problemas iguais ou parecidos aos dela.

Silva (1992) afirma que por mais simples que seja a causa, a hospitalização tende a gerar uma experiência negativa. O medo da morte e os desconfortos físicos, morais, espirituais podem gerar sofrimentos.

Atualmente, a sala de leitura possui quatro computadores com acesso a internet, impressoras, caixinhas de som, web cam, escrivaninhas, estantes, etc. Estes equipamentos e espaço são destinados para pacientes e acompanhantes. Também há um espaço bem aconchegante com pufes em que os pacientes podem utilizar para realizarem as suas leituras.

A sala de leitura conta com um acervo de aproximadamente 5 mil obras, o qual possui livros de vários gêneros, como: literatura brasileira, estrangeira, infantil e autoajuda. Possui também revistas, gibis e jornais. Sendo a maioria deste acervo doações da comunidade, a qual não mede esforços para ver este projeto cada vez mais forte.

Esta servidora busca inovar constantemente este espaço – sala de leitura – o qual considera de extrema importância para os pacientes, pois segundo ela, muitos são os relatos de pacientes elogiando esse serviço, e estes pacientes ainda afirmam que esse serviço não é

oferecido nem em hospitais particulares. A entrevistada afirma que os desafios encontrados são constantes, mas considera que seus esforços são compensadores. Hoje, a sala de leitura participa da rede de biblioteca viva do Ministério da Cultura, é um ponto de leitura do Ministério da Cultura. Também estará ampliando, em breve, o seu espaço e será disponibilizado um espaço para a arte terapia onde terá crochê, tricô, trabalhos com colagem de palitos de madeiras. Este espaço estará disponível para os pacientes e acompanhantes.

Além da leitura, existem atividades de entretenimento que são realizadas pelo Grupo Reaja, autodenominados como “médicos de almas”. Nas visitas que eles realizam aos pacientes, eles cantam músicas e apresentam números teatrais.

Conforme relato da coordenadora da sala de leitura, “o resultado é excelente e muito importante para os pacientes” e são, esses, alguns dos motivos que faz com que esta servidora sinta-se motivada a seguir sua tão desafiadora caminhada.