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Importância da análise do Direito estrangeiro

4 DIREITO ESTRANGEIRO

demonstrar elementos que são desejáveis ao ordenamento jurídico pátrio e, igualmente, para sinalizar aquilo que não se deve pretender adotar no Brasil.

Já fora dito que o Direito Penal é o ramo responsável pela tipificação das condutas que são especialmente lesivas para os cidadãos, e pela determinação das espécies e quantidades de sanção penal aplicadas a cada uma delas. A disciplina consiste no mais intenso mecanismo de controle social formal, que pune os indivíduos que pratiquem os comportamentos mais nocivos em sociedade.658 Cada Estado utiliza em sua legislação penal instrumentos que guardem relação com as características da sua comunidade: por exemplo, no Brasil, quaisquer textos legislativos precisam buscar o atendimento dos ideais de um Estado Democrático de Direito, submetido às premissas estabelecidas pela Constituição Federal de 1988. E, especialmente, o fazem as normas penais, cujos modelos proibitivos são estabelecidos sob a ameaça de imposição da mais grave sanção do ordenamento jurídico, qual seja, a pena.

Assim, em respeito à soberania de cada país, fica a critério de cada Estado a opção pela melhor forma de lidar com questões relacionadas aos crimes. No entanto, uma vez que a sociedade dos dias atuais é global, entende-se que a consolidação do Estado de Direito em todos os planos – internacional, regional e local – depende do fortalecimento da justiça internacional,659 motivo que justifica a importância da análise do tratamento penal de outros ordenamentos jurídicos no presente capítulo.

Além disso, embora seja certo que cada nação possui suas específicas demandas, já fora dito que o surgimento e a posterior popularização da Internet fizeram surgir a delinquência cibernética. Ao possibilitar a interação entre localidades distintas, a rede mundial de computadores acabou por aumentar o número de potenciais vítimas de um mesmo criminoso, o que aumentou, igualmente, a extensão do dano causado por esta nova modalidade delitiva. A tecnologia da conexão em rede não trabalha com o conceito de fronteiras geográficas, motivo pelo qual o combate aos crimes cibernéticos é de interesse de todos os países na era digital.

Assim, a nova forma de interação entre as pessoas ao redor do mundo fez surgir uma identidade de preocupação entre os ordenamentos jurídicos, por mais significativas que sejam as diferenças entre suas nações.

658 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo Adriano. Curso de Direito Penal. Op. cit., p.

3.

659 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e justiça internacional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano. 9. ed. rev. e atual. – São Paulo: Saraiva Educação, 2019, p. 88.

Em breve explicação, cumpre ressaltar que o ramo jurídico responsável por permitir a harmonia entre as normas de natureza penal de distintos ordenamentos chama-se Direito Penal Internacional. Trata-se da disciplina cuja atuação é voltada à tarefa de concretização dos mecanismos de cooperação entre os ordenamentos de todo o mundo, o que ocorre por meio da definição dos crimes internacionais, de suas penas cominadas, e pelo estabelecimento de regras relativas

à aplicação extraterritorial do Direito Penal interno; à imunidade de pessoas internacionalmente protegidas, à cooperação Penal Internacional em todos os seus níveis; às transferências internacionais de processos e de pessoas presas ou condenadas; à extradição, à determinação da forma e dos limites de execução de sentenças penais estrangeiras; à existência e funcionamento de tribunais penais internacionais ou regionais; a qualquer outro problema criminal vinculado ao indivíduo, que possa surgir no plano internacional.660

O Direito Penal Internacional funciona, assim, como um sistema que orienta decisões enquanto garante os direitos humanos dos envolvidos, impedindo a formalização de ilimitadas respostas punitivas no âmbito internacional.661 Uma vez que a globalização fez com que os crimes possam alcançar um caráter internacional, o mesmo deve ocorrer com os mecanismos que os previnem e reprimem.662 Por essa razão, observou-se uma mudança de paradigma dos ordenamentos jurídicos ao final do século XX: se, até então, o Direito Penal tutelava predominantemente coisas tangíveis, a partir da configuração da sociedade da informação, houve uma mudança no tratamento penal dispensado aos bens incorpóreos e às informações – valores não tradicionais que passaram a integrar o âmbito das novas questões relacionadas à criminalidade informática.663

Sabe-se que, na era digital, a Internet é um dos principais meios utilizados para a prática de crimes contra a honra. Deste modo, em atendimento à temática da presente tese, este capítulo se propõe a analisar alguns outros ordenamentos jurídicos, especificamente no que estabelecem quanto à tutela penal da honra e quanto ao tratamento dos crimes cibernéticos, permitindo, assim, a realização de uma apreciação comparativa com as leis brasileiras. O objetivo é verificar se a honra é objeto de tutela penal em outros ordenamentos e, em caso afirmativo, em quais moldes esta proteção é feita; secundariamente, pretende-se identificar se as legislações penais

660 JAPIASSÚ, Carlos Eduardo Adriano. Direito penal internacional. São Paulo: Tirant lo branch, 2020, p. 16.

661 RAIZMAN, Daniel Andrés. O Direito penal internacional. A necessidade de uma limitação discursiva. In:

JAPIASSÚ, Carlos Eduardo Adriano (coord.). Direito penal internacional estrangeiro e comparado. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2007, p. 50.

662 JAPIASSÚ, Carlos Eduardo Adriano. Direito penal internacional... Op. cit., p. 16.

663 CRESPO, Marcelo Xavier de Freitas. Op. cit., p. 134-135.

dos outros países se ocupam da específica questão que envolve a Internet e os crimes praticados por meio dela.

Não é aleatória a escolha dos países cujas legislações serão analisadas no presente capítulo. Além da preocupação em verificar países de diferentes continentes – o que permite abranger um número maior de distinções culturais e sociais entre as sociedades cujos ordenamentos serão estudados –, buscou-se um equilíbrio entre a quantidade de países que se utilizam do sistema chamado de Common Law e aqueles que estruturam o Direito a partir do sistema a que se convencionou chamar de Civil Law.